Namoro violento, casamento errado

machismo controle

Meu coração apertou esse fim de semana quando eu assistia o noticiário. A imagem da câmera de segurança de um supermercado no Paraná mostrava uma adolescente, funcionária do local, sendo arrastada com violência pelo ex-namorado. É possível vê-la correndo, tentando fugir ao ser baleada nas costas. Não satisfeito, o cara deu mais um tiro na cabeça da menina. Letícia, 17 anos, foi morta por dar fim ao namoro de oito meses. Choca muito porque acompanhamos nas cenas o desespero dela. E a valentia dele, como se tivesse direito de tirar uma vida ao levar um “não quero mais”.

O problema é que casos como esse são mais corriqueiros do que se imagina. Há alguns meses, escrevi um post aqui sobre como o machismo é presente em atitudes, masculinas e femininas, no cotidiano. Recebi um comentário de um jovem de 20 e poucos anos (consegui checar o perfil dele no Facebook), que dizia o seguinte: “Mulher tem que saber que respeito é bom, eu gosto e preserva os dentes.” Não liberei a mensagem, que carregava mais algumas barbaridades. Mas é um exemplo claro de que estamos falhando na educação das atuais gerações quando se fala da questão de gêneros, de poder, de igualdade, de preconceitos.

Em geral, a violência entre casais é exemplificada com histórias de relacionamentos longos, de casamentos, tendo a mulher como principal vítima. E é assim porque as estatísticas de violência com raiz no machismo são alarmantes. Ainda é pouco abordada, porém, a violência no namoro. Jovens enfrentam relações tóxicas com discussões que passam muito do limite, empurrões, tapas e terror psicológico. Familiares de Letícia disseram que a relação com o ex que a matou era tumultuada, com brigas constantes. Ele já teria a agredido fisicamente, inclusive.

Segundo um estudo recente da Universidade de São Paulo (USP), coordenado pela psicóloga Tânia Flake, com 362 jovens de ambos os sexos, 75% já sofreram algum tipo de violência durante o relacionamento. Outros 67% foram alvo de agressões psicológicas. São índices muito altos. Nos EUA, 30% dos adolescentes relatam abusos nos relacionamentos, de acordo com o Serviço de Referência da Justiça Criminal. Os rapazes não estão livres de serem eles as vítimas. E também devem sair o quanto antes de relações tão pesadas. Bom lembrar que a justiça reconhece como violência doméstica, passível de pena, as agressões no namoro, mesmo que os envolvidos nunca tenham morado juntos. Tem advogado que diz que não. Juízes, porém, vêm entendendo que cabe a punição, sim.

O mais triste é que muita gente (especialmente as moças) acreditam no clássico e falível “ele(a) vai mudar”. Acabam casando com seus agressores e passam uma vida entre insultos e o medo de “desagradarem” os parceiros. Conheço alguns casamentos nessa linha (e que nem têm tanto tempo). A pesquisa da USP indicou que a violência iniciada no namoro aumenta ao se tornar relação conjugal. Meninas e meninos, os sinais estão sempre lá. É um ciúmes exagerado, um tom de voz levantado, seu celular e e-mail checados (sem ou com sua autorização), um apertão no braço, um beliscão, a tentativa de fazer você se sentir inferior seja pelo que for.

Uma amiga psicóloga disse que até aquela tentativa de “trazer” você para o mundo do outro excessivamente, desconsiderando o que você gosta de fazer, é perigoso. A princípio, pode parecer o sincero desejo do apaixonado de nos colocar na vida dele. Romântico? Será? Pode ser a tentativa de sufocar a sua personalidade de tal maneira que você nem lembrará mais, depois de alguns anos, quem é de verdade. Onde há controle e intimidações não há amor.

Crédito da imagem: O Machismo Nosso de Cada Dia (a ilustração acima que acompanha o post é voltada para mulheres, mas vale também como entendimento para os rapazes que são as vítimas dos abusos)

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