Retribuir

retribuir

Agosto de 2012
Estou debruçada sobre a mesa da lanchonete do hospital. Rosto escondido entre os braços cruzados. Já nem tem mais lágrima, não. Subi e desci tantas escadas, passei rasgando por dezenas de corredores. Queria informações. Me mandaram de um lado para o outro. Conversei com médicos, enfermeiros, atendentes da parte burocrática e quem mais pudesse ajudar. Acho que tô sonhando. Certeza que dei uma cochilada aqui de alguns minutos. São essas últimas noites dormindo apenas quatro horas. Levantei a cabeça. Sinto as bochechas meio amassadas. Meu lanche que não chega. Finalmente tô com fome. Finalmente tenho tempo pra comer. Uma moça sorri pra mim. Meio loira. Uns 45 anos? Me olhando de lado e com a mão levemente sobre as minhas costas. Perceber o toque dela que me fez tirar o rosto antes entre os braços. Disse que o copo descartável agora na mesa era pra mim. Certeza que cochilei e devo até ter babado no antebraço. Escondo da moça meu antebraço. Vai que tá babado. Agradeço, mas não entendo. E fiz cara de quem não entendeu porque ela começou a me explicar:

“Vi você esses dias aqui pelo hospital, pelos corredores. Sei como tá se sentindo. O início é difícil mesmo. Muita incerteza. Cansa entender tudo. Mas mais de um ano depois e meu pai já está bem, forte. Leva até uma vida mais saudável. Ah, é seu irmão? Você vai ver. Melhora. Tem o acompanhamento, mas melhora muito. É com batalha, dias melhores, outros nem tanto. Mas o caminho segue, lidar fica mais leve. Isso aqui é pra você. Açaí com mate. Gosta? Que bom. Quando eu também estava aqui na lanchonete, bem abalada com a notícia do meu pai, uma senhora me entregou essa bebida. Disse que me daria disposição. Essa é pra você, pra te dar disposição. Vai dar tudo certo. Vou rezar pela sua família. Magina, de nada. Tchau, tudo de bom.”

Ela saiu sorrindo. Tomei o açaí com mate. Foi como se eu tivesse colocado o dedo numa tomada.

Dezembro de 2013
Vim ao bairro da Liberdade para uma entrevista. A pessoa com quem vou conversar me ajudará com estatísticas e indicações de contatos pra minha dissertação de mestrado. Meu dia tá tranquilo. Lembro que o hospital nem é tão longe. Nunca mais fui lá. Lembro que pensei em fazer trabalho voluntário lá. Não fiz. Cheguei e expliquei na recepção o que eu gostaria. Era rapidinho. Algum funcionário poderia me acompanhar, sim. Sem problema. A lanchonete tá cheia. Tá perto da hora do almoço. Muita gente interna cedo, opera cedo. É o horário que os familiares já sabem que correu tudo bem. Já têm vontade de comer. Achei. Era uma senhora mais ou menos com a idade da minha mãe, perto dos 60 anos. Cabeça baixa, olhando um folhetinho, esses de informações que ficam espalhados pelo hospital. Olheiras. Elas sempre estão lá quando a história começa. Entreguei o copo de açaí com mate. Me olhou intrigada. Sorri. Expliquei. Ela sorriu de volta. Era o filho dela. Sabia há poucas semanas. Acabara de passar pela biópsia. Estava adormecido no quarto já.

“Sei que é difícil. Mas a medicina avançou muito, sabe? Os tratamentos são cada vez mais eficazes, né? Pode perguntar. Li de tudo. Como se manifesta, os índices de cura. Ah! Como brigar com plano de saúde e ganhar eu também sei. Pode perguntar. Hoje? Ele faz o controle, mas até já voltou a trabalhar. Sim! Muito cabelo e até barba! Tudo caminhando. Vai dar certo. Imagino… Vou rezar pra sua família. Doce? Sim, é bem doce. É, é gostoso, sim. (risos) Uma moça me entregou essa bebida aqui há pouco mais de um ano. Pra senhora agora. Ajuda a dar disposição. Magina, de nada. (abraço). E Feliz Natal. Um ano bom pra senhora e seu filho. Tchau, tudo de bom.”

Tão doce quanto o açaí com mate foi o olhar de agradecimento dela. Retribuir. Talvez, não pra mesma pessoa. Às vezes, não é possível. Mas retribuir sempre. A quem for. Onde for. Como for. A vida retribui de volta. O ciclo se torna virtuoso.

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

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