A vida não te deve nada

ego

Comemorações de fim de ano. Lá vêm elas. Chegou a época das festas das firmas, dos encontros entre amigos que voltam para as cidades de origem, de confraternização entre os amigos de todas as horas, do Natal, do Réveillon. Independentemente da reunião, as pessoas parecem se dividir basicamente em quatro grupos: 1) os eufooooricos, que AMAM o mês de dezembro e parecem animados ajudantes de Papai Noel; 2) os melancólicos, que sentem saudade dos que já se foram e não acham exatamente justa uma data na qual muitos mal têm o que comer; 3) os otimistas, que apesar de tudo conseguem enxergar o lado bom até das dificuldades e sorrir na hora do brinde; e 4) os vitimados, aqueles que sempre, entra ano, sai ano, acreditam de verdade que a vida lhes deve alguma coisa.

É desse último grupo – irritante! – que o post de hoje trata.

Os vitimados não se manifestam apenas no último mês do calendário, claro. Eles se fazem presentes constantemente. É o sujeito que olha suas conquistas e diz com amargura que você teve sorte, ignorando o quanto cada vitória foi batalhada, o quanto os resultados vêm de escolhas e privações. Ou que acha que os problemas dele são sempre infinitamente maiores do que os dos outros. Ou que é ingrato com quem lhe estende a mão por achar que as pessoas têm obrigação de ajudá-lo o tempo todo, seja com o que for e como for. Chamar a atenção, no melhor estilo drama queen, também é com ele. E um clássico: jogar a culpa dos próprios erros em quem estiver mais perto, no primeiro bode expiatório que aparecer.

É cansativo. É desgastante. Esgota. Minha impressão é de que dezembro é um prato cheio para os vitimados de plantão exigirem o sangue de quem os cerca. Tantos amigos se queixaram de situações semelhantes nas duas últimas semanas que já desconfio ser alguma epidemia que eclode no verão, tipo dengue. Para os vitimados, comemorar as festas de fim de ano significa ter todas as suas vontades atendidas. Se não for assim, começa o discurso do quanto a vida é injusta, do quanto tudo dá certo para a humanidade, menos pra ele, do quanto seus “esforços” não são reconhecidos, e blá, blá, blá.

Muita gente é assim porque sofre distúrbios psicológicos realmente. Difícil até dizer quem nos dias de hoje não anda com as emoções na corda bamba. Alguns quadros, porém, são patologias mais significativas. E como eu sempre gosto de ressaltar quando possível, dá pra amenizar e compreender essas dores e dissabores enfrentando o divã. É importante. É saudável. Autoconhecimento é um dos maiores poderes que o ser humano pode desenvolver. Vocês já me viram bater nessa tecla aqui em diversos posts e continuarei ao longo de 2014. Mas existem aqueles que não querem nem ouvir falar de terapia. Optam pela perseverança no papel de vítima.

Até certo ponto, sim, você vai ter que aturar o vitimado. Porque ele pode ser alguém que você ama e, como qualquer pessoa, tem qualidades. Por outro lado, sim, você pode colocar um limite na convivência, nos abusos, nas exigências indevidas. Não se espante ao ser chamado de egoísta ou até de ser ofendido, machucado. É o jogo do vitimado tentar inverter o cenário e transformar os demais em vilões. Mas ele arrefece um pouco ao se dar conta que o deixaram falando sozinho e que isso só vai piorar se ele não maneirar.

A vida realmente dói em diversas fases. É bom saber que, nessas horas, existe o apoio de amigos e família. A ajuda, no entanto, deve ser espontânea e reflexo do afeto. Se ninguém te acolhe quando as coisas vão mal, talvez seja a hora de observar como são suas ações em relação aos demais. Se você exige, por exemplo, ser ouvido, mas é incapaz de ouvir. Se você espera generosidade alheia enquanto só olha para o próprio umbigo. A vida não te deve nada. Mesmo que imprevistos cruzem o caminho. Erros e acertos são construções particulares.

Crédito da imagem: Cultura Inquieta

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2 respostas em “A vida não te deve nada

  1. Suzane, o que fazer com esses textos que dizem tanto do que eu penso?! Concordo com tudo o que você escreveu e eu mesma já passei por isso. Por achar que faço parte dos grupos 2 e 3, já não tenho paciência para esse grupo de vitimados. Quando a pessoa é seu amigo mesmo, dá pra dar um toque, ter uma conversa sincera, sempre com o intuito de ajudar e isso é o que acontece entre amigos. Mas esse tipo de pessoa, para a qual você dedica uma amizade e em troca só ouve lamúrias, não rola. O tempo me ensinou isso, devemos conservar na nossa vida apenas o que nos faz bem!

    Parabéns! Texto lindo, verdadeiro.

    • Brigada, querida Aliana!! 🙂
      Eu acho que o caminho é diminuir a convivência. Mas não cortar relações, sabe… Ao mesmo tempo, ninguém tem que ser sugado pelos problemas alheios. A gente tem que ajudar até determinado ponto. E nem carregar culpas que não são nossas ou se sentir culpado porque não tá disponível 100%. Não abandonar. Mas também não aturar abusos. Bjokas e linda semana pra ti!

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