Um retrato

retrato

“Tomara que seja eu…” Observando a foto demoradamente, depois de me emocionar com a primeira olhada sobre ela, essa foi a frase que me veio à cabeça. Senti o sorriso do rosto perdendo força. Um aperto no coração, resultado da percepção do que se tornará óbvio. A imagem é linda. Céu azul pincelado por nuvens bem branquinhas. Aquelas que ameaçavam chuva logo foram embora. Contraste com a grama verdinha do parque. Todos juntos. Inclusive os bebês que já nasceram pra aumentar a turma.

Era um encontro de amigos muito especial, com a graça de um piquenique. Conseguimos nos reunir numa tarde de calor de mais de 30 graus pós-Natal. Gente que mora em São Paulo. Gente que mora no Rio. Gente que mora nos Estados Unidos. Gente que mora na França. Estávamos lá, todos juntos. Trocando ideias, as últimas experiências, novidades bonitas. Todos juntos naquele instante congelado.

“Tomara que seja eu…” Meu pensamento era egoísta. Dizem que às vezes dá até medo de ser muito feliz. Porque quando acaba a felicidade é sinal de que apareceu a tristeza. E a idade, o tempo, vão reforçando uma verdade inevitável: um dia não estamos mais aqui. Pior: aqueles que amamos podem ir embora antes de nós. Já perdi muitas pessoas amadas da família em quase 35 anos. Algumas, bem jovens e em situações trágicas. Mas Deus, o universo, o destino (ou seja lá quem for o responsável) me preservou a alegria de nunca ter que me despedir eternamente de um amigo.

A questão é que um dia (que seja distante, por favor) isso vai acontecer. Temos prazo de validade e nossa finitude é a única certeza da vida. Vocês devem estar achando esse texto mórbido. Não é. É declaração de amor. Amor por todas as vezes que eles estiveram ali, me estenderam a mão, bateram boca comigo, riram das minhas confusões, me seguraram da queda, me empurraram pra seguir em frente. “Amigos são a família que a gente escolhe”. “Amigos são como uma segunda família”. “Há amigos que se tornam irmãos.” Como discordar de tais ditados?

Aproveitei pra passar uns bons minutos analisando outras fotos, com outros amigos queridos. Lá estava o aperto no coração, o sorriso perdendo força, o pensamento “tomara que seja eu”. Fechei álbuns, tela de computador e pedi: “Deus, sei que temos nossos embates, que te provoco com certas malcriações. Mas se você tá ouvindo (e muita gente sempre me diz que você tá), vou pedir, por favor, que preserve meus amigos queridos na minha vida por longos anos, pelo passar das décadas. E na hora que já não pudermos mais estarmos aqui, por favor, que não seja eu a contabilizar aqueles que já não mais estão nas fotos. Tomara que seja eu a primeira a partir. Porque sem eles aqui eu não aguento o tranco. Obrigada. Desculpe qualquer coisa. Obrigada mesmo”.

Tomara que seja eu. Tomara que demore muito pra todos nós. Tomara que saibamos aproveitar cada minuto que nos é presenteado. Tomara que novos e constantes encontros aconteçam. Mas principalmente, egoisticamente, tomara que seja eu.

Crédito da imagem: Photography

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