Triste infância sem amor

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“Entreguei a fotografia tirada na escola para minha mãe. Ela olhava da fotografia para mim. De mim para a fotografia. Então disse: ‘Meu Deus, como ela pode ser tão feia. Feia. Feia.’” Esse é um dos trechos do único livro na vida que não consegui terminar de ler, apesar de me interessar. “Feia – A história real de uma infância sem amor” (Ed. Bertrand) foi lançado no Brasil em 2009. A autora é a juíza inglesa Constance Briscoe, vítima da crueldade da própria mãe quando criança.

Entrevistei Constance na época para a revista que eu trabalhava. A reportagem falava de um termo que há pouco tempo havia sido cunhado por psicólogos americanos: pais tóxicos. São pessoas que agridem física e psicologicamente os filhos, constantemente, sem arrependimentos. Uma série de maus-tratos que, claro, podem ser irreversíveis e criar um ciclo vicioso de gente que quando adulta repete as agressões em relacionamentos que deveriam ser de afeto. Como se assim “descontassem”, se vingassem, das agruras as quais se viram submetidos.

Lembrei do livro e da reportagem porque assisti esses dias o filme “Álbum de Família”. A atriz Meryl Streep interpreta uma mãe que não poupa as três filhas (uma delas é Julia Roberts) de comentários maldosos, insensíveis, amargos e de uma estupidez sem limites. Da mesma maneira age sua irmã com o filho. A “desculpa” para o comportamento hostil seria a infância difícil que enfrentaram.

Saí do cinema com aquela mesma sensação ruim experimentada ao ler “Feia”. Para a entrevista com a autora, li apenas trechos da obra. Depois, desejava terminar a leitura. Não deu. A cada página, a crueldade da mãe de Constance ía muito além da minha capacidade de compreensão, aceitação. O livro continua na minha estante, marcado na página 83. Sei que tem um final “feliz”, de superação – que a própria escritora me contou. Ela é casada, tem dois filhos (que disse amar incondicionalmente), uma carreira brilhante. Mas como dói saber que um ser humano ouviu os piores insultos, sofreu as mais terríveis humilhações e teve o corpo torturado por quem mais deveria amá-lo numa idade de ainda tanta fragilidade.

É bom que se diga que nenhum pai ou mãe está livre de perder a compostura por motivos os mais diversos. Não se acusa aqui pais que perdem a paciência vez por outra. Mas questiono aqueles (não poucos) que machucam crianças estimulados por uma raiva irascível, sem sombra de lamentação, como aparecem no livro e no filme. A violência física é gravíssima. Não é menos grave, porém, a violência verbal e psicológica, o que parece não ser tão óbvio para muitos de nós. Outro dia aguardava na fila do supermercado e presenciei uma mãe xingando o filho sem a menor cerimônia. Ela podia estar cansada, ter se aborrecido. Ela podia até ter chamado a atenção dele de maneira mais ríspida. Mas não humilhá-lo na frente de quem fosse.

Há quem se defenda com o discurso do “tive uma vida difícil”. Olha, não me parece razoável que uma criança pague por seus traumas e frustrações, que podem inclusive ser tratados. Se você acha que sim, que tem esse direito, sua “certeza” só reforça a minha ideia de que não é todo mundo que deveria ter filho nessa vida. Que muitos resolvem se tornar pais e mães apenas como mais uma “conquista” pessoal, como se criança fosse brinquedo ou só mais um item de uma lista de desejos fugazes, como o smartphone do momento.

Do mesmo modo, tenho pouca paciência com quem tem bons pais, mas joga a culpa de seus insucessos neles. Que não consegue se colocar no lugar deles, dentro das circunstâncias, educação e período histórico que viviam e que fizeram o possível dentro de suas limitações. São dois extremos da balança: pais cruéis que detonam a cabeça (e a alma) dos filhos e filhos ingratos que acusam os pais de que isso ou aquilo poderia ter sido melhor, diferente.

O triste é saber que se pessoas submetidas a maldades de familiares, seja do lado que for, não buscarem ajuda, reproduzem raivas, inseguranças, fragilidades e medos que atrapalham a construção de uma história bonita. Impedem dias de felicidade pelo caminho. Impedem também a concretização de uma sociedade mais tolerante e em paz. Se for o seu caso ou o de alguém que você conhece, sei que passado não se apaga. Ou que o inferno pode ser o que acontece no seu presente. Mas vá atrás de auxílio psicológico, se afaste do agressor, procure a Justiça. As cicatrizes ficam, é verdade. Feridas, porém, não precisam permanecer abertas.

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