Indiferença

indiferença

No último texto falei sobre o filme “Álbum de Família”, que está em cartaz no cinema e traz Meryl Streep no papel de uma mãe sórdida que humilha e agride as filhas. E sobre como o enredo me lembrou o único livro na vida que não consegui terminar de ler, chamado “Feia – a história real de uma infância sem amor”. A obra foi escrita pela juíza inglesa Constance Briscoe, que entrevistei uma vez. Ela conta como sofreu violência física e psicológica, praticadas pela própria mãe. As cenas descritas eram tão pesadas que não consegui ir adiante na leitura. Enfim, o post era sobre como muitas crianças são machucadas e maltratadas pelos próprios pais (é o anterior a este).

Pra hoje, então, eu havia decidido escrever sobre um assunto animadinho. Mas o texto alegre vai ter que esperar. Porque recebi uma mensagem muito comovente de uma leitora. Ela me permitiu publicar uma parte do desabafo. Juntas, concluímos que o depoimento pode ajudar outras pessoas. Quando a gente pensa em violência automaticamente vêm à mente gritos, palavrões, tapas, machucados. Existe, porém, a violência da indiferença. Vocês vão entender o que quero dizer lendo o que M. (vou chamá-la assim) me escreveu. Pra pensar…

“Minha mãe e meu pai nunca levantaram a voz pra mim e meu irmão mais novo. Também nunca xingaram ou bateram na gente. Na verdade, eles mal chegavam perto de nós dois. Sempre tiveram grana. Meu pai era executivo e minha mãe se formou em letras, mas nunca trabalhou. Isso não quer dizer que ela cuidava da gente. Nossa empregada e três babás diferentes cuidaram da gente. Finais de semana também eram elas, se revezando nas tarefas de dar banho, comida, vestir, levar no parquinho, na escola…

Não critico de jeito nenhum mulheres que trabalham fora (ou nem trabalham fora) e precisam de empregadas para ajudarem a criação das crianças. Mas o problema é ter o filho e não assumir as responsabilidades que isso traz junto. Muito cedo eu aprendi que se tivesse alguma tristeza, dificuldade, se eu caísse e ralasse o joelho era com a empregada que eu buscava socorro. Minha mãe passava o dia atarefada com coisas de madame, encontros sociais, na academia e no salão, preparando jantares para visitas. Eu e meu irmão só fazíamos o papel de filhos deles quando precisavam impressionar com a história da família perfeita. Aí, pegavam a gente no colo, apresentavam pra todo mundo. Mas eles não tinham paciência e davam um jeito de se livrar da nossa presença o quanto antes.

Então, eu não cresci numa casa violenta. Mas cresci atingida pela indiferença, pela negligência de duas pessoas que, como disse o seu texto, tiveram filhos apenas como mais uma conquista, como se fossemos brinquedos para serem usados na hora do entretenimento. Entretenimento deles. Não me lembro dos meus pais brincando com a gente. Nunca.

O lado bom é que eu e meu irmão somos unidos. Ele não quer ter filhos. Imagino sempre se tem algo a ver com o que vivemos. Tenho uma menina que é minha maior riqueza. Tudo o que não fizeram por mim eu faço por ela. Inclusive impor limites. Porque isso também é amor. Também um tipo de amor que não senti. Meus pais, hoje, são separados. Ele até melhorou, principalmente depois que minha menina nasceu. Visita a gente. Mas ela, minha mãe, está sempre muito ocupada com os dias egoístas dela. A violência física e verbal devem deixar marcas muito sérias. Mas a falta da educação de fato, da proximidade, do carinho deixaram cicatrizes na minha vida. A indiferença pode ser tão dolorosa quanto um tapa na cara.”

Crédito da imagem: CSV

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