Um parabéns cheio de poréns…

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Eu amo São Paulo. Muito. Sou grata a essa cidade por conquistas importantes que alcancei, pela pessoa que sou hoje. Viver aqui influenciou minha personalidade. Me tornei quem realmente desejava. Me despertei para outras possibilidades que nem imaginava. Aprendi demais. Cresci. Profissionalmente, pessoalmente, intelectualmente. Me sinto em casa. Tenho turma. Tenho ao alcance oportunidades e situações as quais dou valor. Conheci um monte de gente boa. Desvendando essa tão grande capital, descobri que poderia ir mais longe. Na verdade, que poderia chegar a qualquer lugar do mundo. No coração, sempre foi o que eu almejava. Mas foi São Paulo quem me disse: “Vai lá, garota! Se você chegou aqui não há mais fronteira que não possa cruzar!”

Além de me ajudar a ser mais determinada, essa quatrocentona também me permitiu o privilégio de me encantar com o bairro onde vivo. É arborizado (o que a gente até esquece às vezes que existe com tanto prédio). Faço tudo a pé. O acesso ao transporte público poderia ser melhor, mas não é deficitário como em outras tantas partes do município. Está pertinho de um dos mais belos parques da capital. Adoro a vista da minha janela, que me permite admirar o Pico do Jaraguá. Há dez meses é de casa que também trabalho a maior parte do tempo, o que me tira a angústia de enfrentar o trânsito todos os dias e nos piores horários.

Não, minha vida em São Paulo não é nada ruim. Há cerca de dois anos, uma crise pessoal me fez entrar em crise também com a cidade. Seus defeitos eram maiores do que nunca. Suas dificuldades pareciam afrontas diárias. Tudo parecia insuportável além da conta. Desigualdade gritante, trânsito parado, transporte público lotado, enchentes, insegurança, violência, custo de vida alto, pessoas enlouquecidas em suas rotinas igualmente loucas, tempo escasso, uma sociedade consumista, injusta, cruel.

Nada disso mudou.

Os problemas da capital persistem. Esse lado perverso continua aí, consumindo muita gente. Por isso, meu parabéns aos 460 anos de São Paulo é genuíno, mas cheio de poréns. Voltei a me sentir bem na cidade porque minha vida voltou aos eixos e os tempos complexos serviram de aprendizado. Mas e quem continua enfrentando essa infraestrutura caótica, com problemas pessoais maiores dos que os que vivi? E quem além de sofrimentos pessoais, dos quais ninguém tá livre, também é obrigado a encarar o urbano e o social moldados, sucumbidos, por incompetência, corrupção, interesses próprios, egocentrismos, preconceitos?

São Paulo, a estressante, potencializa dores particulares. Você pode se perguntar por que eu me importo, se a vida vai bem. Olha, não consigo descolar tanto minha realidade da realidade dos que me cercam. Se parece altruísta demais, faça então o pensamento egoísta. Os problemas da cidade, de um jeito ou de outro, uma hora ou outra, afetam qualquer um de nós. E quando há uma multidão insatisfeita esses problemas, em algum momento, transbordam. Com reações violentas.

Então, o que eu desejo hoje a São Paulo, mais do que parabéns, é uma população mais ativa e combativa, justa e tolerante, generosa e solidária. Comportamentos e pensamentos lúcidos. Que nós, paulistanos adotivos ou de nascimento, façamos a nossa parte coletivamente. Que a gente se esforce sempre pra que a capital seja gigantesca também na oferta de dias emocionalmente melhores. Pra que nosso amor pela cidade não se transforme de vez em amargura.

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