Carnaval também é coisa de gente “séria”

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Era uma das minhas primeiras aulas do mestrado. Estava tímida e (ainda) falava pouco. Tinha muito a aprender em ciências sociais. Minha área de formação, como vocês sabem, é jornalismo. Achava melhor ouvir mais naquele momento, tanto a professora quanto os colegas. Até que ela logo avisou: “Já vou passar três leituras e um resumo analítico. É carnaval, vocês terão tempo. Sei que vocês são gente séria. E gente séria não fica no meio dessa bagunça”.

Engoli seco. Dei aquela olhada de canto de olho pra algumas pessoas sentadas ao redor. Queria avaliar se também ficaram constrangidas com o comentário. E descobrir se só eu vesti a carapuça. E se só eu, entre os mestrandos, não era nada “séria”. Afinal, eu adoro carnaval!!!

A observação (preconceituosa) é reflexo do que muito mais gente pensa. Já ouvi tanto que se você aproveita os dias de folia é menos “sério”, responsável, competente… Bobagem. É inegável que a festa tem seus excessos. Mas não é a regra pra todo mundo. Sempre brinquei o carnaval pra me divertir, dançar, cantar, aproveitar a companhia dos meus amigos e da minha família. Sei de um tantão de pessoas que curtem do mesmo jeito.

Adoro o colorido e o brilho das fantasias. Adoro ver as ruas cheias de gente pulando pra lá e pra cá. Adoro os desfiles. Acho bonito e alegre. E em tempos de sociedade tão brutal é bom que se tenha boniteza e felicidade por uns dias. É tapar o sol dos problemas com a peneira? Não. É apenas, em meio a tantos acontecimentos recentes de violência e intolerância, dar ao povo a chance de relaxar e até recarregar o ânimo para os desafios que não deixarão de chegar.

Sou foliã desde os 2 aninhos, quando minhas tias me levaram vestida de fadinha à minha primeira matinê no clube. Antes da data em si, gosto de ir nos ensaios das escolas de samba aqui em São Paulo. Esse ano acabou que só fui uma vez no da escola Pérola Negra – uma amostrinha aí na foto 🙂 . Mas foi o suficiente pra me lembrar como é de arrepiar o som da bateria. Naquele domingo de ensaio, devo ressaltar, só tinha gente séria me acompanhando. Gente que levanta cedo pra trabalhar, é competente, estuda pra se aperfeiçoar, é do bem e faz o bem.

Super entendo quem não gosta da data e quer fugir do barulho. Mas daí a determinar que se é um ser superior a quem cai na gandaia carnavalesca é um pouquinho de arrogância demais, né não? De repente, o que tá faltando é mesmo umas horas de brincadeira pra desanuviar essa cabecinha e entender que alegria não é sinônimo de irresponsabilidade e nem seriedade é sinal de melhor caráter.

Crédito da imagem: Ives Silva

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Oração

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“Que Deus guie seus passos rumo à tranquilidade e proteja você das mãos de todos os inimigos. Que fique a salvo de todo infortúnio neste mundo. Que Deus conceda-lhe a misericórdia em seus olhos e nos olhos de todos os que o vêem.”

Essa oração tá anotada num papelzinho que fica sobre um aparador que tenho perto da porta de entrada do meu kinder apê. Lembro que minha vó rezava versos bem parecidos com esse quando eu era menina. O que escrevi acima encontrei, há uns dois anos, num livro que uma amiga me deu de aniversário. Às vezes, orações têm diferentes versões, mas com significados semelhantes.

Resolvi colocar essa “benção” aqui hoje pra vocês porque a gente sempre tem alguém por quem desejamos rezar, pedir proteção, querer bem, demonstrar afeto, acolher. Também serve pra nós mesmos. Leio sempre pra não esquecer que devo dar tranquilidade a meus passos e pra que eu tenha misericórdia e generosidade no meu olhar voltado aos que me cercam.

Gosto dessa oração, inclusive, porque serve para qualquer religião, crença. E quanto mais gente desejar o melhor um ao outro, quem sabe, conseguimos melhorar a sociedade também. Quem sabe… Eu realmente espero que sim.

Menos internet. Mais tédio essencial e ações calorosas

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Há cerca de um ano e meio, tive que fazer uns ajustes financeiros na vida. Disposta a passar alguns meses sem trabalhar, convivendo mais com família, amigos, viajando e cuidando da saúde, precisava também dar aquela economizada. Ver o dinheiro render, pelo menos no período que estipulei pra repensar a rotina e os planos até ali, era o objetivo. Logo, eu teria que cortar despesas.

A primeira delas foi a conta do celular. Negociei um plano sem internet com a operadora. Saiu mais barato na época. Quando contava que não usaria o smartphone pra ficar conectada 24 horas, a maioria das pessoas me olhava com cara de espanto. Ainda olham. Porque continuo sem usar (apesar de já existirem pacotes que incluem a internet quase do mesmo preço que pago atualmente).

Minha decisão inicial foi baseada em grana. Minha opção de tornar a mudança algo permanente é baseada em tempo. Mais especificamente tempo para o tédio. Tempo para observar. Consequentemente, tempo para pensar e repensar. Tempo para a espera. E para entender a necessidade da espera.

Quando deixei de lado esse, que é apenas um dos gadgets que me mantinha conectada, a sensação era de voltar a enxergar melhor os dias. Afinal, sem a cara enfiada naquela telinha no trajeto do ônibus, no metrô, na fila de algum lugar ou em qualquer momento que me sentisse entediada, olhei o que estava ao redor. Como há muito tempo, afogada num cotidiano frenético, eu não percebia.

É verdade que sempre tive comigo livro, revista, alguma coisa pra ler enquanto espero, por exemplo. E isso hoje pode ser feito no celular ou no tablet. Mas, uma vez conectado, quem resiste a dar aquela espiada no que tá rolando na rede social e nos e-mails? A concentração fica prejudicada. As atividades são “picadas” e fica tudo meio embolado.

Vai ver é um problema meu. Pode ser. Mas não estou só na minha sensação. Muita gente interessante e estudiosos em geral vêm ressaltando que desconectar parte do dia ajuda, por exemplo, a criatividade. Outra vantagem é o autoconhecimento. Saber ficar a sós com os próprios pensamentos ajuda a avaliar ações, reações, desejos, planos. Até a tomar decisões. As pessoas que conheço que não reservam um tempo pra esse exercício são as que sempre me parecem viver aos tropeços em si mesmas. Vão carregadas pela vida, sem saber direito o que estão fazendo ou que rumo seguir. Eu acho ruim…

Se não bastasse o benefício da criatividade e do autoconhecimento, ficar um pouco longe da velocidade e da constância virtual torna, ainda, as relações mais agradáveis. Quer ver coisa deselegante? Olhar toda hora o raio do celular quando na companhia de outras pessoas, num bate-papo, numa conversa a dois. Quando alguém precisa ser ouvido. É uma das pragas do mundo moderno. Por fim, uma situação que vem me incomodando: gente que tá com a cara lá na telinha do smartphone e te tromba na rua. Céus…

Às vezes, me questiono se minha opção é a ideal ao considerar o lado profissional. Mas, sinceramente, não sofri nenhum prejuízo até agora por não ter checando um e-mail de trampo às 22h de uma sexta-feira. No dia a dia, trabalho boa parte do tempo no computador e online. São horas suficientes pra resolver o que precisa. Entendo que não é assim pra parte das pessoas e que de fato elas necessitam de urgência nas tarefas. Mas vejo muito exagero. E um imediatismo que esconde um medo irracional (talvez incosciente) de não querer ficar pra trás. De ser o primeiro a curtir, compartilhar, saber, responder, marcar presença e território.

Ninguém tem que desistir da tecnologia, não. Pelo contrário. Maneirar, sem dúvida. O tédio de não fazer nada (nada mesmo) por uns bons minutos, só pensando na vida, ou a troca do virtual por ações calorosas (telefonar, conversar com foco em quem está na sua presença), desconfio, são algumas das coisas que nos têm faltado em dias de crescente insensibilidade e insegurança. Uma sociedade incapaz de olhar em volta, tão egocêntrica e desatenta (porque excesso de informação não significa desenvolvimento de perspicácia) também se torna pobre demais em reflexões e relações positivas.

Crédito da imagem: CSV

“Cidadão de bem” boa coisa não é

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Sempre que vejo o termo “cidadão de bem” em uso fico com um pé atrás – e frio na espinha. Na tentativa de dar àquele que recebe o “elogio” um caráter de pessoa de valor está também uma conotação pejorativa. Não, claro, a quem se encaixaria no tal perfil. Mas a todos os outros que parecem ser o contrário daquilo que a pessoa imagina ser cidadão e de bem. O óbvio, porém, nem sempre é tão óbvio. Uma versão é única pra quem a profere. Nunca é absoluta quando considerado tudo o que vem implícito no comportamento dos envolvidos em uma determinada situação.

Por exemplo, a princípio, é de bem quem paga impostos, é honesto nas suas relações pessoais e profissionais, não desvia dinheiro, não leva vantagem. Mas e se, essa mesma pessoa, que a primeira vista parece tão correta, espanca a mulher em casa? Cidadão de bem? Ou que é ótimo pai/mãe, marido/esposa, filho/filha. Sujeito(a) exemplar no convívio familiar, sempre estendendo a mão aos amigos. Mas sonega impostos, puxa o tapete sem dó nem piedade de colegas de trabalho, passa por cima de pedestre na rua e fura fila. Cidadão de bem?

Só coloco dois exemplos pra tentar clarear a ideia do óbvio não tão óbvio. Pesamos atitudes por aparência ou pelo histórico superficial que se tem acesso. E, em sua maioria, quem se presta a esse tipo de avaliação carrega na ideia de “cidadão de bem” preconceitos. No discurso existe uma separação, uma diferenciação, uma superioridade pretendida.

Lembram da história do “gente diferenciada”? Aquela em que uma moradora do bairro de Higienópolis, em São Paulo, ao saber da possibilidade de uma estação do metrô numa das avenidas da região nobre, disse que a expansão da linha até ali seria negativa porque levaria “gente diferenciada” ao lugar? Na concepção dela, era gente que não estava à altura de circular onde, veja só, há muito “cidadão de bem”. O termo foi usado por outra moradora que conheço ao defender o “gente diferenciada” da vizinha.

Só que o problema ganha uma dimensão arriscada quando a ideia de “cidadão de bem” legitima ações violentas. Me parece a pior das escolhas ter dentro da sociedade civil grupos de vingadores, que fazem justiça com as próprias mãos, aclamados como “cidadãos de bem” que estão cansados do Estado omisso.

Na hora que se cria um “poder paralelo”, com base em ódio, há também margem para surgirem conceitos os mais esdrúxulos do que é justiça. Na hora que esses grupos já estiverem bem fortes e apoiados por parte da população, quem garante que não passarão a usar a força, inclusive, contra aqueles que apenas o contrariarem em outras esferas? Quem garante que todos os envolvidos são “cidadãos de bem”? Quem garante que não se deslumbrarão com o poder adquirido e passarão a usá-lo em benefício próprio ou dos seus? Não dá pra saber. Não dá pra legitimar.

Eu, você, todos os brasileiros estamos, sim, preocupados e revoltados com a criminalidade. É culpa dos governos (não só dos atuais, mas de todos os anteriores), de muito dinheiro desviado ao longo de décadas, que deveria ter sido usado para educação e construção de uma sociedade mais igualitária. É culpa nossa, que votamos mal, somos bem corruptíveis no dia a dia e não sabemos nos organizar para pressionar e exigir transformações profundas. Precisamos nos interessar e acompanhar mais política e nossos políticos. Fiscalizar como aqueles que receberam nosso voto estão trabalhando. Pressionar. Exigir. Pressionar. Exigir. Não torturar. Não destilar ódio. Não piorar ainda mais o que já está péssimo.

E desconfiar sempre do discurso do “cidadão de bem”. Porque é só um sinal de que a intolerância vai chegando a limites antes inimaginavelmente perigosos.

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

A vergonhosa ignorância do “eu posso tudo”

Elfriede Stegemeyer, 1935

Meses atrás, conversava com um amigo sobre machismo/feminismo. Andava desanimada e na dúvida se muitas das conquistas femininas das últimas décadas estavam de fato consolidadas. Ou se eram apenas toleradas por parte considerável das pessoas. Ele foi otimista. Acreditava, sim, que a cada geração, de pouquinho e pouquinho que fosse, os avanços se consolidavam.

Também costumo ser otimista. Quase sempre. Acho que muito já melhorou quando se trata de preconceitos em geral. Longe do ideal, é bom reforçar. Mas, mesmo que devagar, vamos caminhando. Taí o beijo gay da novela que não me deixa mentir. Ainda assim, há um abismo entre igualdades pregadas e ações que comprovem discursos. Basta uma brecha, às vezes bem pequena, pra que o ser humano escancare seu lado mais obscuro. Um lado sustentado pela eterna ignorância do “eu posso tudo”.

Quem acha que o mundo lhe serve e que algum tipo de posição (social, econômica, profissional) lhe dá o direito de gritar e humilhar o outro, é dessa laia aí. Gente que não sabe o que é diálogo, o que é ouvir. Que se acha tão incrível que o universo tem obrigação de aceitar seu monólogo repleto de “eu sei”, “eu mando”, “eu quero assim e pronto”.

Na sexta-feira, presenciei uma cena que, juro pra vocês, não acreditava que ainda pudesse testemunhar. Aguardava dentro de um ônibus, na rodoviária, para uma viagem. De fato, o atraso do busão já batia em 15 minutos e o ar-condicionado estava desligado enquanto o carro não saía. O termômetro, no meio daquela tarde, marcava 36 graus.

Os passageiros começaram a reclamar do calor (mais do que do atraso). O motorista explicou que o ar só refrescava com o ônibus em movimento. Bastou para algumas pessoas se levantarem e ameaçarem descer se o veículo não partisse imediatamente e com a refrigeração funcionando. Só que começa que um levanta a voz aqui, fala mais alto o outro ali… De repente, parecia um motim, metade do ônibus enlouquecida e… ameaçando o motorista da pior maneira.

Fiquei na dúvida se o ar realmente só funcionava direito com o carro em movimento. Até onde sei, é isso mesmo. A empresa estava erradíssima ao deixar os passageiros naquele forno. Não justifica, porém, que um dos sujeitos berre, ensadecidamente, chamando o motorista de palhaço e soltando uma das clássicas frases preconceituosas: “Você só serve pra fazer isso mesmo, pra ser motorista.”

Junto, claro, veio o “efeito manada”, termo usado pra descrever situações em que indivíduos se comportem de acordo com o grupo – sem pensar muito antes no que está dizendo/fazendo. Rolou do “eu tô pagando” ao “vamo quebrar tudo”. Quando tentei defender o motorista (a essa altura pálido de medo), e explicar que deveríamos, então, reclamar com um responsável da empresa (não ameaçar o funcionário da transportadora), achei que apanharia também. Não gritei com ninguém pra me fazer ouvir. Mas duas mulheres gritavam comigo, olhos arregalados, como se eu fosse cúmplice de um crime.

Fiquei horrorizada com a situação. A única coisa que consegui fazer ao descer, quando todos trocaram de ônibus (porque alguns cismaram que o ar estava quebrado), foi me dirigir ao motorista e pedir sinceras desculpas pela ignorância das outras pessoas. Ele respondeu num “obrigada, moça” tão baixinho que mal ouvi. Era um senhor constrangido e receoso com a estupidez que nos cercava.

Às vezes me pergunto se, apesar dos avanços, não vivemos também retrocessos de direitos e de conscientizações. Se falamos demais, mas, na primeira oportunidade, fazemos de menos. Se quando achamos que nosso ego em desequilíbrio foi atingido não reagimos com a vergonhosa ignorância do “eu posso tudo e ai de quem me disser não”.

Queria entender que falta de autoestima, que falta de evolução intelectual é essa dos que jamais admitem ser minimamente contrariados. Não imaginava que fosse necessário escrever, mas vamos destacar aqui. Se sua fala/atitude denigre, ofende, humilha, rebaixa, se seu ponto de vista precisa de uma defesa na base da gritaria, da compostura perdida, do calar o outro a qualquer custo, você está ERRADO. E não importará mais se no princípio estivesse certo.

Crédito da imagem: Elfriede Stegemeyer/Cultura Inquieta