A vergonhosa ignorância do “eu posso tudo”

Elfriede Stegemeyer, 1935

Meses atrás, conversava com um amigo sobre machismo/feminismo. Andava desanimada e na dúvida se muitas das conquistas femininas das últimas décadas estavam de fato consolidadas. Ou se eram apenas toleradas por parte considerável das pessoas. Ele foi otimista. Acreditava, sim, que a cada geração, de pouquinho e pouquinho que fosse, os avanços se consolidavam.

Também costumo ser otimista. Quase sempre. Acho que muito já melhorou quando se trata de preconceitos em geral. Longe do ideal, é bom reforçar. Mas, mesmo que devagar, vamos caminhando. Taí o beijo gay da novela que não me deixa mentir. Ainda assim, há um abismo entre igualdades pregadas e ações que comprovem discursos. Basta uma brecha, às vezes bem pequena, pra que o ser humano escancare seu lado mais obscuro. Um lado sustentado pela eterna ignorância do “eu posso tudo”.

Quem acha que o mundo lhe serve e que algum tipo de posição (social, econômica, profissional) lhe dá o direito de gritar e humilhar o outro, é dessa laia aí. Gente que não sabe o que é diálogo, o que é ouvir. Que se acha tão incrível que o universo tem obrigação de aceitar seu monólogo repleto de “eu sei”, “eu mando”, “eu quero assim e pronto”.

Na sexta-feira, presenciei uma cena que, juro pra vocês, não acreditava que ainda pudesse testemunhar. Aguardava dentro de um ônibus, na rodoviária, para uma viagem. De fato, o atraso do busão já batia em 15 minutos e o ar-condicionado estava desligado enquanto o carro não saía. O termômetro, no meio daquela tarde, marcava 36 graus.

Os passageiros começaram a reclamar do calor (mais do que do atraso). O motorista explicou que o ar só refrescava com o ônibus em movimento. Bastou para algumas pessoas se levantarem e ameaçarem descer se o veículo não partisse imediatamente e com a refrigeração funcionando. Só que começa que um levanta a voz aqui, fala mais alto o outro ali… De repente, parecia um motim, metade do ônibus enlouquecida e… ameaçando o motorista da pior maneira.

Fiquei na dúvida se o ar realmente só funcionava direito com o carro em movimento. Até onde sei, é isso mesmo. A empresa estava erradíssima ao deixar os passageiros naquele forno. Não justifica, porém, que um dos sujeitos berre, ensadecidamente, chamando o motorista de palhaço e soltando uma das clássicas frases preconceituosas: “Você só serve pra fazer isso mesmo, pra ser motorista.”

Junto, claro, veio o “efeito manada”, termo usado pra descrever situações em que indivíduos se comportem de acordo com o grupo – sem pensar muito antes no que está dizendo/fazendo. Rolou do “eu tô pagando” ao “vamo quebrar tudo”. Quando tentei defender o motorista (a essa altura pálido de medo), e explicar que deveríamos, então, reclamar com um responsável da empresa (não ameaçar o funcionário da transportadora), achei que apanharia também. Não gritei com ninguém pra me fazer ouvir. Mas duas mulheres gritavam comigo, olhos arregalados, como se eu fosse cúmplice de um crime.

Fiquei horrorizada com a situação. A única coisa que consegui fazer ao descer, quando todos trocaram de ônibus (porque alguns cismaram que o ar estava quebrado), foi me dirigir ao motorista e pedir sinceras desculpas pela ignorância das outras pessoas. Ele respondeu num “obrigada, moça” tão baixinho que mal ouvi. Era um senhor constrangido e receoso com a estupidez que nos cercava.

Às vezes me pergunto se, apesar dos avanços, não vivemos também retrocessos de direitos e de conscientizações. Se falamos demais, mas, na primeira oportunidade, fazemos de menos. Se quando achamos que nosso ego em desequilíbrio foi atingido não reagimos com a vergonhosa ignorância do “eu posso tudo e ai de quem me disser não”.

Queria entender que falta de autoestima, que falta de evolução intelectual é essa dos que jamais admitem ser minimamente contrariados. Não imaginava que fosse necessário escrever, mas vamos destacar aqui. Se sua fala/atitude denigre, ofende, humilha, rebaixa, se seu ponto de vista precisa de uma defesa na base da gritaria, da compostura perdida, do calar o outro a qualquer custo, você está ERRADO. E não importará mais se no princípio estivesse certo.

Crédito da imagem: Elfriede Stegemeyer/Cultura Inquieta

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2 respostas em “A vergonhosa ignorância do “eu posso tudo”

  1. leio o texto meses depois de vc ter publicado, e o inacreditável e recente evento dos Morrinhos vem mostrar o quão importante é prestar atenção neste assunto.
    sinceramente, não vejo esperança… não agora.

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