“Cidadão de bem” boa coisa não é

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Sempre que vejo o termo “cidadão de bem” em uso fico com um pé atrás – e frio na espinha. Na tentativa de dar àquele que recebe o “elogio” um caráter de pessoa de valor está também uma conotação pejorativa. Não, claro, a quem se encaixaria no tal perfil. Mas a todos os outros que parecem ser o contrário daquilo que a pessoa imagina ser cidadão e de bem. O óbvio, porém, nem sempre é tão óbvio. Uma versão é única pra quem a profere. Nunca é absoluta quando considerado tudo o que vem implícito no comportamento dos envolvidos em uma determinada situação.

Por exemplo, a princípio, é de bem quem paga impostos, é honesto nas suas relações pessoais e profissionais, não desvia dinheiro, não leva vantagem. Mas e se, essa mesma pessoa, que a primeira vista parece tão correta, espanca a mulher em casa? Cidadão de bem? Ou que é ótimo pai/mãe, marido/esposa, filho/filha. Sujeito(a) exemplar no convívio familiar, sempre estendendo a mão aos amigos. Mas sonega impostos, puxa o tapete sem dó nem piedade de colegas de trabalho, passa por cima de pedestre na rua e fura fila. Cidadão de bem?

Só coloco dois exemplos pra tentar clarear a ideia do óbvio não tão óbvio. Pesamos atitudes por aparência ou pelo histórico superficial que se tem acesso. E, em sua maioria, quem se presta a esse tipo de avaliação carrega na ideia de “cidadão de bem” preconceitos. No discurso existe uma separação, uma diferenciação, uma superioridade pretendida.

Lembram da história do “gente diferenciada”? Aquela em que uma moradora do bairro de Higienópolis, em São Paulo, ao saber da possibilidade de uma estação do metrô numa das avenidas da região nobre, disse que a expansão da linha até ali seria negativa porque levaria “gente diferenciada” ao lugar? Na concepção dela, era gente que não estava à altura de circular onde, veja só, há muito “cidadão de bem”. O termo foi usado por outra moradora que conheço ao defender o “gente diferenciada” da vizinha.

Só que o problema ganha uma dimensão arriscada quando a ideia de “cidadão de bem” legitima ações violentas. Me parece a pior das escolhas ter dentro da sociedade civil grupos de vingadores, que fazem justiça com as próprias mãos, aclamados como “cidadãos de bem” que estão cansados do Estado omisso.

Na hora que se cria um “poder paralelo”, com base em ódio, há também margem para surgirem conceitos os mais esdrúxulos do que é justiça. Na hora que esses grupos já estiverem bem fortes e apoiados por parte da população, quem garante que não passarão a usar a força, inclusive, contra aqueles que apenas o contrariarem em outras esferas? Quem garante que todos os envolvidos são “cidadãos de bem”? Quem garante que não se deslumbrarão com o poder adquirido e passarão a usá-lo em benefício próprio ou dos seus? Não dá pra saber. Não dá pra legitimar.

Eu, você, todos os brasileiros estamos, sim, preocupados e revoltados com a criminalidade. É culpa dos governos (não só dos atuais, mas de todos os anteriores), de muito dinheiro desviado ao longo de décadas, que deveria ter sido usado para educação e construção de uma sociedade mais igualitária. É culpa nossa, que votamos mal, somos bem corruptíveis no dia a dia e não sabemos nos organizar para pressionar e exigir transformações profundas. Precisamos nos interessar e acompanhar mais política e nossos políticos. Fiscalizar como aqueles que receberam nosso voto estão trabalhando. Pressionar. Exigir. Pressionar. Exigir. Não torturar. Não destilar ódio. Não piorar ainda mais o que já está péssimo.

E desconfiar sempre do discurso do “cidadão de bem”. Porque é só um sinal de que a intolerância vai chegando a limites antes inimaginavelmente perigosos.

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

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7 respostas em ““Cidadão de bem” boa coisa não é

  1. “Cidadão de Bem” era o nome de um pasquim criado em 1913 por uma comunidade religiosa protestante e de discurso anti-católico. Na década seguinte, passaria a ser publicação de apoio da Ku Klux Klan: http://en.wikipedia.org/wiki/The_Good_Citizen. De qualquer forma, tenho a impressão que o uso da expressão no jornal tem o mesmo sentido usado até hoje nos Estados Unidos e no Brasil, e para o qual ambos torcemos o nariz.

  2. Eu discordo parcialmente, pois uma coisas é o eu na minha idividualidade outra coisa é o eu social, são coisas diferentes com responsabilidades diferentes, o eu na minha individualidade só prejudica a mim mesmo, já o eu social não. Logo existem regras porque vivamos em sociedade como homens e mulheres livres e responsáveis por nossas condutas.

    A máxima da justiça por meios próprios, deve-se lembrar que essa é um extremo, logo não necessariamente deve ser assim, você conjecturou sobre a máxima, digamos conservadora, caso corrompida possível ditadura conservadora, correto concordo com você, seria muito ruim, porém você esqueceu de conjectura o outro extremo que é o da falta de limites, da extrema libertinagem, que é o que estamos vendo agora, se a outra era ruim, essa é desastrosa e destrutiva. # a algum tempo atras libertinagem = pseudacensura

    Logo prefiro o Cidadão de bem, que seja um hipócrita na sua individualidade prejudicando a si próprio e a quem ESCOLHER viver com ele;
    Do que o LIBERTINO impondo suas verdades como absolutas, mesmo que as tais destram a sociedade.

    Respeitosamente, cordialmente e atenciosamente.

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