Menos internet. Mais tédio essencial e ações calorosas

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Há cerca de um ano e meio, tive que fazer uns ajustes financeiros na vida. Disposta a passar alguns meses sem trabalhar, convivendo mais com família, amigos, viajando e cuidando da saúde, precisava também dar aquela economizada. Ver o dinheiro render, pelo menos no período que estipulei pra repensar a rotina e os planos até ali, era o objetivo. Logo, eu teria que cortar despesas.

A primeira delas foi a conta do celular. Negociei um plano sem internet com a operadora. Saiu mais barato na época. Quando contava que não usaria o smartphone pra ficar conectada 24 horas, a maioria das pessoas me olhava com cara de espanto. Ainda olham. Porque continuo sem usar (apesar de já existirem pacotes que incluem a internet quase do mesmo preço que pago atualmente).

Minha decisão inicial foi baseada em grana. Minha opção de tornar a mudança algo permanente é baseada em tempo. Mais especificamente tempo para o tédio. Tempo para observar. Consequentemente, tempo para pensar e repensar. Tempo para a espera. E para entender a necessidade da espera.

Quando deixei de lado esse, que é apenas um dos gadgets que me mantinha conectada, a sensação era de voltar a enxergar melhor os dias. Afinal, sem a cara enfiada naquela telinha no trajeto do ônibus, no metrô, na fila de algum lugar ou em qualquer momento que me sentisse entediada, olhei o que estava ao redor. Como há muito tempo, afogada num cotidiano frenético, eu não percebia.

É verdade que sempre tive comigo livro, revista, alguma coisa pra ler enquanto espero, por exemplo. E isso hoje pode ser feito no celular ou no tablet. Mas, uma vez conectado, quem resiste a dar aquela espiada no que tá rolando na rede social e nos e-mails? A concentração fica prejudicada. As atividades são “picadas” e fica tudo meio embolado.

Vai ver é um problema meu. Pode ser. Mas não estou só na minha sensação. Muita gente interessante e estudiosos em geral vêm ressaltando que desconectar parte do dia ajuda, por exemplo, a criatividade. Outra vantagem é o autoconhecimento. Saber ficar a sós com os próprios pensamentos ajuda a avaliar ações, reações, desejos, planos. Até a tomar decisões. As pessoas que conheço que não reservam um tempo pra esse exercício são as que sempre me parecem viver aos tropeços em si mesmas. Vão carregadas pela vida, sem saber direito o que estão fazendo ou que rumo seguir. Eu acho ruim…

Se não bastasse o benefício da criatividade e do autoconhecimento, ficar um pouco longe da velocidade e da constância virtual torna, ainda, as relações mais agradáveis. Quer ver coisa deselegante? Olhar toda hora o raio do celular quando na companhia de outras pessoas, num bate-papo, numa conversa a dois. Quando alguém precisa ser ouvido. É uma das pragas do mundo moderno. Por fim, uma situação que vem me incomodando: gente que tá com a cara lá na telinha do smartphone e te tromba na rua. Céus…

Às vezes, me questiono se minha opção é a ideal ao considerar o lado profissional. Mas, sinceramente, não sofri nenhum prejuízo até agora por não ter checando um e-mail de trampo às 22h de uma sexta-feira. No dia a dia, trabalho boa parte do tempo no computador e online. São horas suficientes pra resolver o que precisa. Entendo que não é assim pra parte das pessoas e que de fato elas necessitam de urgência nas tarefas. Mas vejo muito exagero. E um imediatismo que esconde um medo irracional (talvez incosciente) de não querer ficar pra trás. De ser o primeiro a curtir, compartilhar, saber, responder, marcar presença e território.

Ninguém tem que desistir da tecnologia, não. Pelo contrário. Maneirar, sem dúvida. O tédio de não fazer nada (nada mesmo) por uns bons minutos, só pensando na vida, ou a troca do virtual por ações calorosas (telefonar, conversar com foco em quem está na sua presença), desconfio, são algumas das coisas que nos têm faltado em dias de crescente insensibilidade e insegurança. Uma sociedade incapaz de olhar em volta, tão egocêntrica e desatenta (porque excesso de informação não significa desenvolvimento de perspicácia) também se torna pobre demais em reflexões e relações positivas.

Crédito da imagem: CSV

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2 respostas em “Menos internet. Mais tédio essencial e ações calorosas

  1. Oi Suzane!
    Tudo bem? Quanto tempo, né?!
    É engraçado que essa coisa de smartphone me incomoda bastante! Há pouco tempo tive que trocar meu celular e acabei comprando um desses, ou seja, sou nova na parada! Confesso que não tenho muita paciência para ficar checando toda hora as redes sociais, e-mails, etc, mas por outro lado, descobri que, se bem usado, é uma ótima ferramenta! O problema é que a cena mais comum é aquela em que as pessoas estão sentadas numa mesa cada uma no seu mundinho (se celular), sem nem se dar conta que estão perdendo um tempo precioso de conversa, curtindo coisas inúteis no mundo virtual e deixando a vida real de lado. Vejo muita gente reclamar que está sozinha, mas a pessoa não dá nem a liberdade de outra se aproximar, porque ela compensa a “solidão” com uma curtida, uma olhadinha na rede social. E com isso o mundo vai ficando cada vez mais fechado. Me lembro que em 2010 eu fiz uma viagem pros EUA e fiquei chocada com as pessoas nos seus celulares, e o que me deixa triste é que estamos fazendo igualzinho aqui.Confesso que às vezes me pego dando uma conferida no que está rolando por aí, mas eu tento ter autocontrole em deixar o aparelhinho de lado, e funciona! Até mesmo porque eu adoro olhar o mundo ao redor! É claro que eu sempre levo um livrinho para deslocamentos longos, filas de banco, etc, mas também tento o exercício de largar tudo e só observar…
    Abraços,

    • Oi, Adri!!
      A gente não deve mesmo deixar de se atualizar. A tecnologia é fundamental e nos permitiu grandes avanços, né? O que não pode é trocar as essenciais relações humanas, de afeto, pra viver numa espécie de “bolha” no mundo virtual… A vida é boa demais pra gente viver de um jeito tão artificial… 🙂
      Bom fds, querida! Bjão

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