Conhecimento

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Cotovelo na mesa, rosto apoiado na mão. Olhar baixo, direto para a xícara com macchiato duplo. Mexo meu café devagar com a colherinha, meio melancólica. Levanto os olhos. Na cadeira em frente, minha orientadora tenta me animar, com um sorriso leve, maternal, de quem já viu muito da vida. “Nem sempre é fácil. Mas produzir conhecimento tem um valor inestimável. Um valor que não será realizado por qualquer um, nem compreendido por todos. Ainda assim, você contribui com a sociedade, deixa um legado, pensamentos, que ajudam a construir novos caminhos. Até melhores caminhos. Mantenha-se firme.”

Era nosso último encontro antes da minha banca de qualificação. No mestrado e no doutorado, antes do exame com a banca final, é necessário se “qualificar”. Significa que uma banca precisa aprovar o que pesquisei até ali para que eu possa (ou não) seguir adiante. A boa notícia é que fui bem na qualificação. Gostei de saber que os principais adjetivos para o meu trabalho de mestrado foram “rico”, “bonito”, “sensível”, “bem escrito”. Falta pouco pra eu entrar para o time do Mestre dos Magos, do Mestre Yoda… rs… Brincadeira, gente…

Tem coisa pra melhorar, claro. Esse é outro objetivo. Os professores convidados a avaliarem minha dissertação apontaram o que devo aperfeiçoar antes da tese final. As observações positivas me animaram um pouquinho em meio a um mês de abril conturbado, cheio de dificuldades e dúvidas. E uma das dúvidas que me assaltavam é, justamente, se vale a pena tanto esforço para produzir conhecimento.

Ando com a sensação de que não importa quanto informações e pontos de vista coerentes estejam à disposição das pessoas para que reflitam sobre os rumos daquilo que as cercam. Existe uma rigidez em parte de nós, não só de princípios, mas de emoções, que elimina toda e qualquer possibilidade de empatia. Uma rigidez que, por exemplo, impede de nos colocarmos no lugar do outro. Ou de tentar compreender uma visão diferente.

Uma das coisas que mais aprendi com o blog foi a limitação de muita gente com interpretação de texto e noção de direitos. Alguns não entendem de jeito nenhum que um espaço no mundo virtual pode SIM expressar ideias diversas, contrárias ao que eles acreditam serem o “ideal”. Recebem como ofensa pessoal e partem para a completa ignorância, cegos na sua “certeza”. Basta ler os comentários escritos por internautas na sequência de notícias, artigos e reportagens em geral.

Outros tantos são incapazes de entender que, SIM, no texto que estão lendo há também aquilo que defendem!!! Não apenas o que defendem. Mas uma apresentação de opiniões variadas. O problema é que pra ser bom tem que ser só uma única visão fechada. A postura é tão assustadoramente enviesada que as pessoas não enxergam o óbvio.

Cito o que já aconteceu aqui no blog apenas como um exemplo. Mas no cotidiano essa falta de compreensão, de disposição para o entendimento de um mundo bem maior que nosso quintal, é recorrente. Por que, então, vou continuar a dar murro em ponta de faca? Por que tentar aprender agora pra daqui um tempo repassar conhecimento? Por que buscar, por meio das palavras e do debate de ideias, saídas, soluções, direções? E se não der em nada? E se as pessoas continuarem levando em conta apenas o que querem ver dentro de uma ótica mínima?

Apesar de tudo, do cansaço, do desânimo (e das dúvidas até, que permanecem) não vou desistir. Nem de virar professora, nem de ser pesquisadora, nem de continuar a escrever no blog (possibilidades que foram consideradas no auge do estresse). Mas preciso aprender a lidar com a frustração de saber que muita gente prefere permanecer na escuridão e que não há nada que eu possa fazer. Que o concentrar de esforços seja nos que estão dispostos a ouvir. Eles também existem. Não são poucos. Construir conhecimento é tarefa árdua, com resultados demorados. Ainda assim, prefiro a angústia dos passos bem curtos do que a omissão e a acomodação dos que apenas reclamam. Ou da estupidez veloz dos que agem com violência. Dos que a pregam também.

Crédito da imagem: Creative Commons

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