Poesia para entender a vida

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No último sábado, estive na entrega do prêmio de um concurso de poesias promovido pela Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios Frei Gaspar da Madre de Deus, na cidade de São Vicente, litoral de São Paulo. Minha mãe é a atual presidente. Eu, que gosto de escrever mas não sei escrever poesia, achei que seria interessante conferir o que pessoas com esse talento trariam de novo. Gostei de todas, tanto dos ganhadores da categoria adulto quanto dos que venceram na categoria juvenil. É sempre agradável para a mente, a alma e o coração ouvir palavras bonitas e inteligentes serem declamadas.

Mas uma das poesias, especificamente, me chamou a atenção. Primeiro, quando o rapaz alto e magro, que havia se posicionado em frente ao microfone, logo avisou aos presentes: “Me desculpem, estou um pouco nervoso”, o que tirou da plateia risos de simpatia, afeto e solidariedade. Então, Marcio, 16 anos, impostou a voz para levar ao público as linhas escritas por ele mesmo. Parei imediatamente de responder uma mensagem de trabalho que acabara de chegar no meu smartphone.

A sensibilidade e a profundidade das palavras ditas pelo menino me impressionaram. E me alegraram. Bom saber que em tempos de perda de grandes escritores – João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna e Rubem Alves, por exemplo e de uma vez – tem gente boa por aí, em cada canto desse país, produzindo arte com beleza e delicadeza. Bom saber que nossa literatura pode ser renovada com qualidade.

Abaixo, a poesia do jovem Márcio, dono de um futuro especial entre as letras, se assim ele desejar. Que seja inspiração para muitos outros criarem. Para quem apenas aprecia, que a poesia ajude a entender a vida…

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ETERNO ENIGMA
Por Márcio Martins

De amplos climas e memorosas eras
Compõe-se esse prolongado mistério.
Com bondosos rios e suntuosas serras
Faz-se pátria sublime o antigo império.

Mas como pode florescer ar sério
Em onde revoltas estão as terras,
Se mesmo com o alvo bálsamo etéreo
Ainda nos perdemos nas mesmas guerras?

Brasil, charada proposta ao destino,
Que mesmo faltando-nos a mudança
Precisa e sobrando-se o doce mito,

Ainda mantém seu plano cristalino
A sobreviver guardando a esperança,
Desse esperar que contém o infinito!

Crédito da imagem: Photography

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“O Captain! My Captain”

No filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, um dos mais importantes da minha vida o professor John Keating, interpretado pelo ator Robin Williams, diz aos alunos que eles poderiam chamá-lo como “O Captain! My Captain”, que é um poema de Walt Whitman. Virou uma das cenas mais emocionantes do cinema quando, ao fim do filme, os alunos mostram seu apoio ao professor demitido, desafiando o diretor da escola e chamando a frase na sala de aula, um por um, subindo nas carteiras. Uma história de como um bom professor faz diferença na trajetória das pessoas. Uma mensagem linda deixada por um grande ator que vai embora… #RIPRobinWilliams

A Nona Sinfonia

Ainda rolava a Copa do Mundo, o Brasil não havia sido desclassificado e o clima no país era de uma eterna balada. Mas eis que meu querido amigo Leandro me convidou para acompanhá-lo, junto com sua noiva e mais uma amiga, a um dos meus lugares preferidos na capital paulista: a Sala São Paulo. É um lindo espaço de concertos, casa da Orquestra Sinfônica de São Paulo (Osesp), instalado no edifício da Estrada de Ferro Sorocabana. Restaurado há alguns anos, o lugar ficou deslumbrante. O prédio é datado de 1938 e hoje é parte do complexo cultural Estação Julio Prestes. Vale o passeio e a programação.

Naquele domingo, a orquestra tocaria uma das mais lindas e elevadas composições da história da música clássica: a Nona Sinfonia de Beethoven. Eu nunca ouvira a sinfonia completa. Conhecia apenas os trechos mais famosos, aqueles que a gente aprende na aula de música – no meu caso, aula de teclado (mas eu não levava jeito, infelizmente).

Adorei. É emocionante demais. Inspirado pela apresentação, Leandro, que é mestre em ciências sociais e professor universitário, escreveu o texto abaixo. Lembrou, ainda, do vídeo acima com uma cena incrível do filme “O Segredo de Beethoven”, de 2006. Para enfeitar a semana que logo começa. Para desejar paz e alegria ao mundo, que estamos precisando.

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Beethoven e o Céu

Por Leandro Ortunes

No imaginário cristão, o céu é um lugar de paz, sem dor e de felicidade eterna. Independentemente da crença ou religião, tal lugar é um desejo de grande parte dos seres humanos. E é neste sentido que o céu deve passar a ser um plano da práxis (ação, conduta). Um modelo platônico de como nossa sociedade poderia ser se todos os homens e mulheres se vissem como irmãos.

O clamor pela irmandade mundial é presente em várias tradições religiosas e nas artes. Mas destaco este clamor especialmente na Nona Sinfonia de Beethoven. O poema chamado Ode an die Freude (Ode à Alegria), letra da composição e escrito por Friedrich Schiller, é majestoso. Nos provoca e evoca a paz: “Oh amigos, mudemos de tom! Entoemos algo mais agradável e cheio de alegria!”.

Schiller criou o corpo e Beethoven concedeu alma a uma das obras artísticas mais importantes da humanidade. E assim, como toda arte, esta obra não se encerra em si. Ela propõe algo além. É fácil identificar que a união da humanidade é a proposta central da Nona Sinfonia: “Teus encantos unem novamente, o que o costume rigorosamente separou. Todos os homens se tornam irmãos sob suas asas suaves”. Se essa era a intenção de Beethoven, não tenho dúvidas que ele conseguiu cumprir seu objetivo. Pelo menos quando escutamos a sinfonia.

Na batuta do maestro, nos arcos e nas boquilhas dos instrumentos vemos a vida vibrando. Nos rostos dos músicos vemos o êxtase. Um êxtase que transcende e atinge um desconhecido. Para a plateia cabe o espanto diante de tanta beleza. Na Nona não há tristeza. Ela é paz. Não há tempo para nos lembrar das dores do dia a dia, dos compromissos e das diferenças que temos uns com os outros.

O mundo para e contempla. “Abracem-se milhões de seres! Enviem este beijo para todo o mundo! Irmãos! Sobre o céu estrelado deve morar um Pai Amado. Vos prosternais, multidões? Mundo, percebeste o Criador? Buscais além do céu estrelado! Sobre as estrelas Ele deve morar”.