A Nona Sinfonia

Ainda rolava a Copa do Mundo, o Brasil não havia sido desclassificado e o clima no país era de uma eterna balada. Mas eis que meu querido amigo Leandro me convidou para acompanhá-lo, junto com sua noiva e mais uma amiga, a um dos meus lugares preferidos na capital paulista: a Sala São Paulo. É um lindo espaço de concertos, casa da Orquestra Sinfônica de São Paulo (Osesp), instalado no edifício da Estrada de Ferro Sorocabana. Restaurado há alguns anos, o lugar ficou deslumbrante. O prédio é datado de 1938 e hoje é parte do complexo cultural Estação Julio Prestes. Vale o passeio e a programação.

Naquele domingo, a orquestra tocaria uma das mais lindas e elevadas composições da história da música clássica: a Nona Sinfonia de Beethoven. Eu nunca ouvira a sinfonia completa. Conhecia apenas os trechos mais famosos, aqueles que a gente aprende na aula de música – no meu caso, aula de teclado (mas eu não levava jeito, infelizmente).

Adorei. É emocionante demais. Inspirado pela apresentação, Leandro, que é mestre em ciências sociais e professor universitário, escreveu o texto abaixo. Lembrou, ainda, do vídeo acima com uma cena incrível do filme “O Segredo de Beethoven”, de 2006. Para enfeitar a semana que logo começa. Para desejar paz e alegria ao mundo, que estamos precisando.

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Beethoven e o Céu

Por Leandro Ortunes

No imaginário cristão, o céu é um lugar de paz, sem dor e de felicidade eterna. Independentemente da crença ou religião, tal lugar é um desejo de grande parte dos seres humanos. E é neste sentido que o céu deve passar a ser um plano da práxis (ação, conduta). Um modelo platônico de como nossa sociedade poderia ser se todos os homens e mulheres se vissem como irmãos.

O clamor pela irmandade mundial é presente em várias tradições religiosas e nas artes. Mas destaco este clamor especialmente na Nona Sinfonia de Beethoven. O poema chamado Ode an die Freude (Ode à Alegria), letra da composição e escrito por Friedrich Schiller, é majestoso. Nos provoca e evoca a paz: “Oh amigos, mudemos de tom! Entoemos algo mais agradável e cheio de alegria!”.

Schiller criou o corpo e Beethoven concedeu alma a uma das obras artísticas mais importantes da humanidade. E assim, como toda arte, esta obra não se encerra em si. Ela propõe algo além. É fácil identificar que a união da humanidade é a proposta central da Nona Sinfonia: “Teus encantos unem novamente, o que o costume rigorosamente separou. Todos os homens se tornam irmãos sob suas asas suaves”. Se essa era a intenção de Beethoven, não tenho dúvidas que ele conseguiu cumprir seu objetivo. Pelo menos quando escutamos a sinfonia.

Na batuta do maestro, nos arcos e nas boquilhas dos instrumentos vemos a vida vibrando. Nos rostos dos músicos vemos o êxtase. Um êxtase que transcende e atinge um desconhecido. Para a plateia cabe o espanto diante de tanta beleza. Na Nona não há tristeza. Ela é paz. Não há tempo para nos lembrar das dores do dia a dia, dos compromissos e das diferenças que temos uns com os outros.

O mundo para e contempla. “Abracem-se milhões de seres! Enviem este beijo para todo o mundo! Irmãos! Sobre o céu estrelado deve morar um Pai Amado. Vos prosternais, multidões? Mundo, percebeste o Criador? Buscais além do céu estrelado! Sobre as estrelas Ele deve morar”.

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