Não projete suas expectativas e fracassos nos outros

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Uma das coisas mais cruéis que o ser humano tem mania de fazer é projetar suas expectativas e fracassos pessoais nos outros. É achar que aquilo que deu certo pra você com certeza dará certo para o outro se ele fizer igual, se seguir seus passos. Ou comparar uma situação que alguém está vivendo e que foi parecida com a que você viveu e não deu certo, e decretar que para essa pessoa também vai dar errado.

Pode até não ser consciente. Mas é cruel, sim. Pode até vir disfarçado de preocupação e bem querer, mas é jogar uma pedra bem pesada sobre o outro para que ele enterre planos, sonhos, desejos. É malvadeza.

Nada, absolutamente nada, do que foi excelente para você obrigatoriamente funciona para mim. Seja um curso, uma viagem, uma atitude, um jeito de trabalhar, de se relacionar. Claro que existem alguns padrões positivos. São, porém, influenciados por uma série de variáveis que incluem características particulares, ambiente em que se está inserido, relações, entre muitos detalhes a serem considerados.

Sem arrogância ou falsa modéstia, as situações mais legais que passei, as conquistas mais bonitas que tive, foram aquelas que eu tapei meus ouvidos para a opinião de gente demais. De gente que tem medo de dar um novo passo, de gente que prefere a garantia da inércia e do tudo sempre igual ao risco de mudar os rumos e construir um destino muito mais interessante. Sim, conselhos são importantes. Mas tem que filtrar. E saber de quem vem o conselho. Antes de dar ouvidos ao que estão falando sobre um projeto ou um desejo seu, analisa bem qual costuma ser o comportamento da pessoa… Se é acomodada, se só vê o lado difícil, se não arrisca nada, se depende demais dos outros pra tudo, se tem o hábito de culpar terceiros por seus problemas, se é derrotista… E a mimada que acredita que o mundo está aqui para servi-la? É do tipo que eu mais tenho preguiça.

Ou se é uma pessoa que acha que apenas suas conquistas são boas o suficiente. Logo, para alguém ser um “vencedor” só o é de fato se se encaixar num molde que ele próprio criou. Nada disso. O que é sucesso para você pode não ser pra mim, e vice-versa.

Pode dar errado? Pode. Sem dúvida. É o clássico “o não a gente já tem”. Mas, no mínimo, algo novo se aprende, experiências acontecem, pessoas diferentes cruzam nosso caminho. Portanto, não projete suas expectativas e fracassos nos outros. As histórias são diversas e a personalidade de cada um deve ser respeitada. A felicidade nunca terá uma fórmula exata.

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Quando ainda vale a pena

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Faz tempo que não escrevo por aqui, pessoal… Então, a primeira coisa que tenho a dizer é me desculpar pela ausência. Mas sei que vocês ficarão felizes em saber que a ausência é por excesso de coisas boas acontecendo e para agradecer. Lembram quantas vezes eu escrevi que depois da tempestade sempre vem a calmaria? E que momentos bons e ruins se alternam mesmo? E ainda que fundo do poço tem é mola pra gente pegar impulsão de novo? Quantas vezes choramos juntos e nos apoiamos em nossas tristezas divididas? Quanto essa troca de ideias nos ajudou a seguir em frente? Por isso, obrigada sempre… ❤

Se as coisas ainda não vão bem, deixo pra vocês minha torcida sincera e aquela observação clássica: vai passar. Vai melhorar. Vocês serão muito felizes, tenho certeza. Se tudo melhorou, que bom! Aproveitem! Vocês merecem!! E que a roda de agora em diante gire sempre na energia mais bonita e positiva que possa existir.

Mas mesmo nas fases mais felizes, os questionamentos e pequenos aborrecimentos são naturais. É da vida. Dia desses eu estava assim, me perguntando quanto o esforço por algumas situações realmente vale a pena. Então, abri meu e-mail e li uma linda mensagem de uma amiga de uma grande amiga minha. Não somos próximas, mas nos encontramos em festas dessa nossa amiga em comum. Já tivemos o prazer de conversamos várias vezes.

Ela me contou que encontrou uma reportagem minha na internet, de muitos anos, de quando eu trabalhava em uma revista semanal. O tema era o coma e contava histórias de pessoas que voltaram à vida mesmo depois de serem tecnicamente consideradas mortas por alguns minutos. O pai dessa moça está hospitalizado há meses. Na mensagem, ela me dizia como a reportagem que escrevi, há tantos anos (uns oito), havia a ajudado com informações úteis sobre a situação e também trazendo boas esperanças graças às histórias contadas ali.

É um trabalho que ficou lá para trás, é verdade. Mas como é bom saber que algo que fizemos pode ajudar, melhorar a vida das pessoas. Inspirar, acalmar, informar. Nesse dia relembrei como o jornalismo nos meus dias ainda vale a pena. Ainda faz meu coração bater mais forte, integra parte importante da minha personalidade, é parte essencial de quem eu sou.

E é o que eu quero dizer hoje pra vocês: saiba quando ainda vale a pena. Seja a situação que for, perceba. Não jogue tudo para o alto sem antes compreender se é apenas uma fase difícil, se tudo vai se encaixar de novo. Claro, é fundamental dar fim ao que não serve mais. Eis uma atitude indispensável para transformar a vida para melhor. Mas coloque na balança também o que só precisa de calma pra acalmar a alma.

Crédito da imagem: blog Meninices da Vida

“Amei e fui amado; doei-me e muito me foi dado; eu li, viajei, pensei e escrevi”

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Pouco depois do carnaval correu a triste notícia de que Oliver Sacks, escritor, neurologista e professor do curso de medicina da Universidade de Nova York, tem poucos meses de vida. Foi ele mesmo quem anunciou em uma comovente carta publicada no jornal The New York Times (a íntegra você pode ler aqui). Há nove anos lutando contra o câncer, afirmou no texto que já não havia mais nada a fazer contra a metástase.

Sacks é daquelas entrevistas que não tive a oportunidade de fazer. Tentei algumas vezes, quando trabalhava em uma das principais revistas semanais do país. Não consegui. Sempre o admirei por sua contribuição à ciência e por alguns de seus livros que li. Sempre esteve na minha lista daquelas pessoas com quem eu gostaria de sentar com calma numa tarde qualquer para uma conversa longa, entre um gole e outro de café.

Ele é autor de grandes obras como O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu e Tempo de Despertar – que inspirou o filme homônimo estrelado por Robert De Niro e Robin Williams.

Aprendi muito com as ideias de Sacks. Tenho certeza que tantos outros de seus leitores também. E até no final, enfrentando uma doença terminal, ele é capaz de me ensinar com sua carta de adeus.

Deixo pra vocês alguns trechos da carta de levar às lágrimas e que nos (re)desperta para o que realmente tem valor no fim de tudo, quando estivermos para acabar…

“Agora, cabe a mim escolher como viver os anos que me restam. Tenho que viver da maneira mais rica, intensa e produtiva possível (…)”

“Nos últimos dias, pude ver minha vida de outro ângulo, como uma paisagem, e com um forte senso de conexão entre as partes. Isso não significa que me entreguei. Pelo contrário, me sinto intensamente vivo, e eu quero e espero, no tempo que me resta, aprofundar minhas amizades, me despedir das pessoas que amo, escrever mais, viajar se eu tiver forças, e alcançar novos conhecimentos. Mas também haverá tempo para um pouco de diversão (e até algumas tolices).”

“Eu me sinto feliz por ter usufruído mais nove anos de boa saúde e produtividade desde o diagnóstico original, mas agora estou face a face com a morte.”
“Tenho um novo senso de perspectiva. Não há tempo para o que é trivial. Tenho que focar em mim, no meu trabalho e nos meus amigos.”

“Isto não é indiferença, mas desapego — ainda me importo com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com a igualdade, mas estas coisas não são mais para mim, elas pertencem ao futuro. E eu fico feliz de ver jovens talentosos — como o que diagnosticou minha metástase. Sinto que o futuro está em boas mãos.”
“Não posso fingir que não tenho medo. Mas meu sentimento predominante é a gratidão. Eu amei e fui amado; doei-me e muito me foi dado; eu li, viajei, pensei e escrevi. Eu me relacionei com o mundo, o relacionamento especial entre escritores e leitores. Acima de tudo, eu fui um ser humano ciente, um animal pensante, neste belo planeta, e só isso já foi um enorme privilégio e aventura.”

Crédito da imagem: Creative Commons