Glória

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Tia Glória era irmã do meu avô materno. Não a conheci. Estive em sua casa em Monção, cidadezinha do norte de Portugal, um mês depois de sua morte. Eu tinha 19 anos – e já são quase duas décadas desde então. Na ocasião, entrei com minha mãe na casa vazia, ainda intacta, tudo no lugar do jeito que tia Glória deixou. Chorou minha mãe, de saudade. Chorei eu, de saudade de não tê-la conhecido. Mexi em algumas de suas coisas, objetos, roupas, joias, como se ela sempre estivesse ao meu lado. Como se ela ainda estivesse ali…

Sua foto de moça eu já havia visto entre recordações guardadas pela minha mãe em uma gaveta. Sabia do espanto das pessoas ao me conhecerem. Mas, naquele dia, vi uma outra foto da tia Glória, só de rosto, bem de perto. Nossos olhos eram iguais, o formato, o jeito de olhar. Diziam que também a cor era a mesma, algo que a imagem em preto e branco não denunciava. E também nossa postura, jeito de andar. Reconheci na foto antiga parte de mim. Alguém que me inspirava, com um caminho que eu também poderia ter.

Ela foi daquelas mulheres inteligentes, à frente de seu tempo, que passou por cima de preconceitos, foi conhecer outros lugares, morou um tempo na África, viveu intensamente, teve um grande amor com quem casou, apesar de nem sempre a relação ter sido fácil. Foi muito feliz e realizada. Era linda, independente. Sensível sem ser boba. Enxergava longe, entendia a vida de um jeito melhor e mais amplo do que a maioria.

Os anos se passaram e são muitas as vezes que até hoje tia Glória surge nos meus sonhos. Quando minha cabeça não para, pensa demais, questiona demais e me impede de ouvir o que diz a alma e o coração, ela aparece, num salão de festas, com vestido de baile, os olhos iguais aos meus a me encarar, sentada com o mesmo cruzar de pernas que eu faço.

Iluminada pela luz que passa por uma enorme janela de vidro do salão, sua frase é sempre igual: “A escolha certa está feita, você sabe qual é. Agora, caminhe.” Ela só nunca diz se a caminhada será leve ou árdua. Mas considerando as outras vezes em que “apareceu” pra me ajudar e as escolhas que fiz, diante do que olho para trás e me orgulho de ter vivido, não há como não confiar na tia Glória novamente.

Tem horas que a gente precisa parar de pensar demais quando entende que a escolha está feita. Então, agora, pelo menos por um tempo, caminhe. Só caminhe.

Crédito da imagem: Mentors Channel

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4 respostas em “Glória

  1. Que texto lindo! A escolha já está feita é ótimo! Algumas pessoas mais velhas, da família da minha mãe, que não conheci pq ela morreu um dia após o parto, aos 33 anos, tb se assustam ao me ver. E quando eu falo, brinco, gargalho alto, nossa, todos dizem que estão vendo ela. Muito estranho isso! Pena que ela não vem nos meus sonhos, acho que seria muito legal! Mas cada coisa tem seu tempo… um dia, vamos nos encontrar!

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