Contra tempos sombrios

paz

Choque e sensação de impotência. Experimentamos sentimentos perturbadores diante das imagens dos atentados em Paris. Não foi a primeira vez. Já acompanhamos a dor de um 11 de Setembro. Choca porque é a cidade dos sonhos, de quem já viajou muito, de quem ainda quer viajar. O cenário da lua de mel, do amor. E da bandeira Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Nunca se imaginou que a ousadia – e a articulação “competente” – dos terroristas nos traria de volta a um mundo em que as Torres Gêmeas viravam pó. Em que inocentes morrem. Em que governos, no fim, se mostram absolutamente rendidos a uma insanidade perigosa que ainda carrega o mau-caratismo de falar em nome de um deus.

Choca porque agora ficou evidente que o terror está cada vez mais próximo. Que é guerra, sim. A terceira mundial, que só não foi assim nomeada por governantes por falta de coragem em admitir. Contra indivíduos que não se importam nem um pouco em darem a vida pelo que acreditam ser uma causa.

Uma guerra que tem na internet uma das principais e mais poderosas armas. Tanto para mobilizar atentados, quanto para mostrar em escala global o sofrimento que impõem, as gargantas que cortam, as mulheres que escravizam, as crianças que matam.

Mas que ninguém se engane. O terrorismo está entre nós faz tempo, por mais que a gente não dê muita atenção às centenas de milhares de mortes que ocorrem em outros países. Por mais que a gente não queira enxergar. Por exemplo, passam quase despercebidas notícias como os cerca de 2 mil mortos na Nigéria, de janeiro a novembro desse ano, vítimas do grupo radical islâmico Boko Haram.

Na quinta anterior ao atentado em Paris, a capital do Líbano, Beirute, também foi alvo do mesmo Estado Islâmico (EI) que atacou na França. Mais de 40 pessoas morreram. O número de feridos foi além de duas centenas. A mesma organização matou recentemente cem pessoas na Turquia durante uma manifestação pacífica. No Kuwait, dezenas de inocentes foram assassinados por uma explosão no momento em que rezavam numa mesquita.

Alguns exemplos de muitos cuja chamada no site de notícias ou na TV batemos os olhos rapidamente e nunca acreditamos que se torne uma realidade a enfrentar.

E é bom que se diga: os sírios são tão vítimas do terrorismo do EI quanto foram os franceses.

E é essencial que se ressalte: o EI é financiado pelos dólares que vêm do petróleo e também financiam a indústria bélica do Ocidente.

E é fundamental que não se esqueça: refugiados e seguidores do Islã não são terroristas prontos a atacar.

Que não se tire o direito de alguém professar sua fé. Que não se tire o direito de famílias inteiras recomeçarem a vida após expulsas pela violência de suas próprias terras.

O terror nasce da loucura, da ganância e da intolerância de alguns. Não de povos inteiros. Não de uma religião.

São tempos sombrios. Onde há também crimes urbanos que nos cercam; negligências deixam um rastro de destruição como as de Mariana; atiradores atacando dentro de escolas; “gritarias”, ofensas, vaidades vazias e perigosas e uma legião de portadores da síndrome do pequeno poder nas redes sociais.

Vamos mal. Podemos melhorar. A começar por nosso cotidiano, pela maneira como tratamos os demais, como nos colocamos no lugar do outro. Compreensão. Disposição em ouvir. Não atacar. Lembrar que a verdade pode ser elástica no sentido de que as pessoas vivem realidades distintas, foram criadas de maneiras diferentes, enfrentam lutas diárias que até podem ser similares, mas são enfrentadas e digeridas de acordo com o histórico de cada um.

Tolerância. Paz. Amor. Desapego do excesso de certezas. São caminhos para que a gente vá além das meras acusações e sejamos capazes de nos transformar.

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O que é Estado Islâmico:
http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/11/1706936-estado-islamico-nasceu-em-1999-e-cresceu-com-guerras-no-iraque-e-siria.shtml

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Confiança, o óbvio

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Relutei durante anos a ler por inteiro o livro “O Monge e o Executivo – Uma história sobre a essência da liderança” (Editora Sextante). Achei que não precisava, apesar de saber que foram milhões de cópias vendidas em todo o mundo e que permanece nas principais listas de obras mais vendidas.

Tive a sorte de entrevistar o próprio executivo da história, o autor do livro James C. Hunter, quando trabalhava numa revista semanal. Nos encontramos no saguão de um hotel em São Paulo na ocasião para uma reportagem sobre autoestima e como viver melhor. Simpático, com fala pausada, o escritor americano me deu uma aula particular sobre liderança e como promover mudanças positivas no cotidiano.

Para entrevistá-lo, até pelo tempo curto que tive para me preparar antes do encontro, li apenas algumas partes do livro. Depois, com nossa conversa de uma hora, concluí que não precisava mesmo me dedicar àquelas páginas. Fui direto e pessoalmente na fonte, afinal.

Quase dez anos depois, vi o livro na estante do meu namorado. Peguei. Fininho, pouco mais de cem páginas. Leio rápido, pensei. A primeira conclusão sobre o conteúdo foi: tudo óbvio. Como devemos agir, que precisamos nos dedicar a mudar para melhor, caso contrário a vida não vai pra frente e vamos afundar nos mesmos erros, e tal tal tal.

Só que, muitas vezes, a gente precisa ouvir ou ler em voz alta, para nós mesmos, o óbvio – que fica perdido em meio a dias que passam carregados de tarefas e emoções mal percebidas e/ou compreendidas. O óbvio que deixa de ser óbvio porque a gente, muitas vezes, não quer é enxergar as escuridões que se transformam em fantasmas. Dores e sombras que renegamos, mas que uma hora o inconsciente escancara.

Quando cheguei no trecho a seguir do livro, entendi quanto essas poucas palavras devem ter batido fundo no ego de muita gente:

“Qual é então o ingrediente mais importante num relacionamento bem-sucedido? A resposta é simples: confiança. Sem confiança é difícil senão impossível conservar um bom relacionamento. A confiança é a cola que gruda os relacionamentos. Se vocês não tiverem certeza disso, perguntem-se: quantos relacionamentos bons vocês têm com pessoas em quem não confiam? Sem níveis básicos de confiança, os casamentos se desfazem, as famílias se dissolvem, as organizações tombam, os países desmoronam.”

Confiança, o óbvio. Para namoros virarem casamentos, para casamentos serem longos e felizes. Para famílias terem seus membros sempre próximos, para os familiares saberem que sempre haverá com quem contar. Para amizades sólidas, para amigos se tornarem a família que escolhemos. Para empresas serem almejadas por pessoas dedicadas e corretas, para profissionais desejarem permanecer em um lugar que possam crescer e acreditar. Para países se mostrarem realmente um lar pelo qual se possa e queira lutar e melhorar.

Sem confiança, todo o resto não se segura. Sem confiança, nada é duradouro. Onde há subterfúgios, trapaças, ações pelas costas do outro, o bom, o feliz, o compromisso, não vingam. A falta de confiança acaba também com a admiração. E admiração é o combustível para amores verdadeiros, dedicação profissional, vontade de estar junto, de ficar onde e com quem se está.

Sempre é tempo de mudar, aprender a criar confiança. Mas também não espere tanto assim. Ou um dia, de repente, o tempo para construir a confiança e a mudança terá esgotado. Ou se esgota a paciência dos envolvidos.

P.S.: Abaixo, um trecho da entrevista que realizei em 2006 para a Revista Época com James C. Hunter:

“Todo mundo concorda que precisa de mudanças na vida. Mas o que fazer para sair do mediano e alcançar o topo? O primeiro passo é entender que mudar é realmente difícil. O segundo é ver que mudanças são possíveis, mas exigem disciplina. O terceiro é saber aonde se quer chegar. Existe um espaço falho entre “aonde quero ir” e “onde estou”. É preciso compreender que espaço é esse (…) Identificando as falhas nesse caminho e eliminando-as. Uma maneira eficiente de descobrir o que está errado é pedir ajuda aos outros. Qualquer um pode pedir a pessoas a seu redor que dêem uma opinião sincera sobre seu modo de agir. E, a partir daí, mudar o comportamento. É necessário tempo e constância até que velhos hábitos sejam extintos e novos comecem a emergir. Isso vale no trabalho, nos negócios, na família.”

Crédito da imagem: blog Casal Sem Vergonha