Confiança, o óbvio

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Relutei durante anos a ler por inteiro o livro “O Monge e o Executivo – Uma história sobre a essência da liderança” (Editora Sextante). Achei que não precisava, apesar de saber que foram milhões de cópias vendidas em todo o mundo e que permanece nas principais listas de obras mais vendidas.

Tive a sorte de entrevistar o próprio executivo da história, o autor do livro James C. Hunter, quando trabalhava numa revista semanal. Nos encontramos no saguão de um hotel em São Paulo na ocasião para uma reportagem sobre autoestima e como viver melhor. Simpático, com fala pausada, o escritor americano me deu uma aula particular sobre liderança e como promover mudanças positivas no cotidiano.

Para entrevistá-lo, até pelo tempo curto que tive para me preparar antes do encontro, li apenas algumas partes do livro. Depois, com nossa conversa de uma hora, concluí que não precisava mesmo me dedicar àquelas páginas. Fui direto e pessoalmente na fonte, afinal.

Quase dez anos depois, vi o livro na estante do meu namorado. Peguei. Fininho, pouco mais de cem páginas. Leio rápido, pensei. A primeira conclusão sobre o conteúdo foi: tudo óbvio. Como devemos agir, que precisamos nos dedicar a mudar para melhor, caso contrário a vida não vai pra frente e vamos afundar nos mesmos erros, e tal tal tal.

Só que, muitas vezes, a gente precisa ouvir ou ler em voz alta, para nós mesmos, o óbvio – que fica perdido em meio a dias que passam carregados de tarefas e emoções mal percebidas e/ou compreendidas. O óbvio que deixa de ser óbvio porque a gente, muitas vezes, não quer é enxergar as escuridões que se transformam em fantasmas. Dores e sombras que renegamos, mas que uma hora o inconsciente escancara.

Quando cheguei no trecho a seguir do livro, entendi quanto essas poucas palavras devem ter batido fundo no ego de muita gente:

“Qual é então o ingrediente mais importante num relacionamento bem-sucedido? A resposta é simples: confiança. Sem confiança é difícil senão impossível conservar um bom relacionamento. A confiança é a cola que gruda os relacionamentos. Se vocês não tiverem certeza disso, perguntem-se: quantos relacionamentos bons vocês têm com pessoas em quem não confiam? Sem níveis básicos de confiança, os casamentos se desfazem, as famílias se dissolvem, as organizações tombam, os países desmoronam.”

Confiança, o óbvio. Para namoros virarem casamentos, para casamentos serem longos e felizes. Para famílias terem seus membros sempre próximos, para os familiares saberem que sempre haverá com quem contar. Para amizades sólidas, para amigos se tornarem a família que escolhemos. Para empresas serem almejadas por pessoas dedicadas e corretas, para profissionais desejarem permanecer em um lugar que possam crescer e acreditar. Para países se mostrarem realmente um lar pelo qual se possa e queira lutar e melhorar.

Sem confiança, todo o resto não se segura. Sem confiança, nada é duradouro. Onde há subterfúgios, trapaças, ações pelas costas do outro, o bom, o feliz, o compromisso, não vingam. A falta de confiança acaba também com a admiração. E admiração é o combustível para amores verdadeiros, dedicação profissional, vontade de estar junto, de ficar onde e com quem se está.

Sempre é tempo de mudar, aprender a criar confiança. Mas também não espere tanto assim. Ou um dia, de repente, o tempo para construir a confiança e a mudança terá esgotado. Ou se esgota a paciência dos envolvidos.

P.S.: Abaixo, um trecho da entrevista que realizei em 2006 para a Revista Época com James C. Hunter:

“Todo mundo concorda que precisa de mudanças na vida. Mas o que fazer para sair do mediano e alcançar o topo? O primeiro passo é entender que mudar é realmente difícil. O segundo é ver que mudanças são possíveis, mas exigem disciplina. O terceiro é saber aonde se quer chegar. Existe um espaço falho entre “aonde quero ir” e “onde estou”. É preciso compreender que espaço é esse (…) Identificando as falhas nesse caminho e eliminando-as. Uma maneira eficiente de descobrir o que está errado é pedir ajuda aos outros. Qualquer um pode pedir a pessoas a seu redor que dêem uma opinião sincera sobre seu modo de agir. E, a partir daí, mudar o comportamento. É necessário tempo e constância até que velhos hábitos sejam extintos e novos comecem a emergir. Isso vale no trabalho, nos negócios, na família.”

Crédito da imagem: blog Casal Sem Vergonha

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4 respostas em “Confiança, o óbvio

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