A mentira como violência

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Sempre pensamos na violência como algo que machuca fisicamente. De uns anos pra cá, e muito graças a mais debates, informações e ações em relação à violência doméstica e contra a mulher, a sociedade passou a compreender que xingamentos, humilhações, intimidações, agressões verbais são também tão violentas quanto os ataques que deixam marcas roxas, tiram sangue.

É o criticar de um jeito que coloque pra baixo, que envergonhe. É usar palavras de baixo calão para se referir ao outro. É, ao ser minimamente contrariado, se virar contra o interlocutor com estupidez, arrogância, menosprezando, tentando amedrontar, botar medo, impor silêncio, fazer calar.

A violência psicológica, portanto, é um mal a ser combatido e que deve ser tratado com a gravidade que lhe cabe. E não é fácil. Especialmente em relacionamentos amorosos. Porque a pessoa que sofre as agressões costuma acreditar que aquele a quem ama pode mudar, pode melhorar, pode perceber os erros que comete e se arrepender sinceramente. Acredita que amando ensinará esse alguém a amar. Mas existe quem nunca seja capaz de amar, ou porque não conviveu com amor na educação que recebeu, ou por mau-caratismo mesmo, pelo prazer doentio de transformar aquele que lhe dirige bons sentimentos em vítima de sua perversidade e/ou imaturidade.

Mas há uma outra violência tão grave e prejudicial quanto as anteriores: a da mentira. Normalmente, não enxergamos a mentira como uma violência, mas como farsa, enganação, traição. Sim, ela é tudo isso. Mas é também violência. Ficou claro pra mim como a mentira é uma agressão emocional acompanhando uma história bem triste.

Uma amiga querida levou longe demais um relacionamento em que o cara fez o que citei antes: xingou, humilhou, intimidou, mandou ela se calar. Era só ter uma opinião diferente, o sujeito virava bicho. Não bastasse, ainda mentia. Ela notava mudanças de comportamento bruscas, atitudes sacanas, informações que não batiam, desencontradas, reações faciais que escancaravam as inverdades. Achou que era bobagem, “coisa de homem”. Tudo foi se acumulando. As trocas de olhares com outras mulheres, as viagens a trabalho em que desaparecia sem dar sinal de vida, as idas ao banheiro com o celular (que tentava esconder quando de lá saía), a necessidade de, de repente, trabalhar até mais tarde.

Ela tentava conversar, ele levantava a voz. Dizia que ela era ciumenta demais e que a largaria. Vejam. Ela não o acusava. Pedia para conversar. Mas ele se transformava, mudava de assunto, jogava nela a culpa de seu nervosismo. Era só não perguntar nada. Aceitando de cabeça baixa, as coisas correria bem, seriam felizes.

Até que ela pegou de fato uma traição. Juntou os pontos. Posts de redes sociais, horários e idas a lugares diferentes, fotos, mensagens. Bingo: conhecidos em comum. História mais que confirmada. Questionou. Não só ele não respondeu à indagação, como disse que ela era louca, que não o merecia. Virou o jogo. Mas enquanto o fodão achou que estava abafando, tratando a situação como um grande teatro, por dentro ela foi desmoronando diante da perplexidade do que ele se mostrava capaz, da maneira como agia sem escrúpulos. Insistindo que nada daquilo existia. Era o ator principal, narcisista e megalomaníaco.

Esse abuso psicológico tem nome. Gaslighting é uma forma de agressão emocional na qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade. Casos de gaslighting podem variar da simples negação por parte do agressor de que incidentes abusivos anteriores já ocorreram, até a realização de eventos bizarros pelo abusador com a intenção de desorientar a vítima. https://pt.wikipedia.org/wiki/Gaslighting

Ela mostrava as evidências. Ele dizia que ela precisava ser internada. “Ciumenta doentia, burra e louca, é o que você é”. Disse que a perdoava, era só seguir em frente e não apurrinhar mais. Se calar, com sorriso no rosto (e alma dilacerada). Ela deixou pra lá. Deu outras chances. Outras, no plural, porque ele sempre pisava na bola de novo e de novo, na certeza e na imaturidade de que a enganaria sempre.

Então, com tristeza e algum distanciamento, ela compreendeu que não adiantava… Por vezes, parecia que ele tinha uns lampejos de consciência, procurava melhorar mesmo, virava um cara bacana. Nunca durava muito tempo. Voltava a “brincar” de vida de solteiro quando ela não estava por perto. Só que o infeliz era tão amador que facilmente era desmascarado. O preço foi ficando alto demais pra ela.

Chorou muito, desesperada por amar alguém que não merecia. Um fraco, pra dizer o mínimo. Fiquei com o coração partido de ver a cena. Recordei que passei por situações bem semelhantes às que ela descreveu… E como dói… Fiz com que olhasse para o espelho enquanto enxugava as lágrimas e dissesse em voz alta todas as qualidades incríveis que tinha. Aquela mulher linda, inteligente, divertida, querida pelos amigos, amada pela família, perdera o brilho que lhe era tão característico. Insisti para que lembrasse quem ela era. Foi ficando mais calma e confiante. Quando nos despedimos, fiquei feliz por vê-la certa de que o destino preparava uma linda surpresa, um recomeço. De que o melhor ainda estaria por vir.

Se você que lê agora esse texto se identifica, enfrenta uma história parecida, sinta-se abraçada(o). Pra você também, o melhor está por vir. Tenha só a coragem necessária de seguir em frente, cuidar da saúde emocional com a ajuda da família, dos amigos, de uma terapia. Trace novos projetos de vida.

Já se sua identificação é com o o outro lado da história, peça e aceite ajuda psicológica o quanto antes, enfrente seus demônios internos, seus traumas do passado. Não afaste quem te ama produzindo tanta dor. 2016 pode ser o ano do castigo, ou da cura, da redenção. Escolha se quer viver na ilusão de que mentir lhe dá algum poder (e acabar sozinho(a) e detestado(a)) ou construir um caminho bonito de verdade. Com pessoas e sentimentos reais.

P.S.: Minha amiga já está bem feliz, com um cara super bacana e que a trata como a querida linda que ela é, do jeitinho que sempre mereceu.

P.S.2: O algoz foi desmascarado não só na vida pessoal, mas também no trabalho. Perdeu emprego e está lidando com o desprezo daqueles a quem enganou. Aqui se faz…

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5 respostas em “A mentira como violência

  1. Existe um termo muito em moda atualmente que resume a questão para as mulheres: “quem nunca?”. QUem nunca amou um idiota desse tipo e passou por situações iguais ou piores e ainda se sentiu culpada; quem não teve que recomeçar em algum momento, buscando forças só Deus sabe onde para se reconstruir, se reencontrar, pelo medo de perder o ser que tanto ama, mas sem ter a noção de que a maior perda numa situação dessas é a sua própria? Quem nunca se perdeu entre o que julga certo e o que o outro diz não ser? Quem nunca se perdeu entre quem era e o que se tornou, como se nunca tivesse sido boa o bastante, pq um alguém que surgiu há algum tempo na sua vida se tornou mais importante para você, pq você deu força? “Quem nunca?” São amigas, irmãs, parceiras, companheiras, nós mesmas e tantas mulheres que passam por esse tipo de violência, a manipulação pela mentira. Impossível não se identificar com esse texto, em maior ou menor grau. Mas o melhor de tudo é conseguir seguir em frente e recomeçar, mais forte, mais livre, mais inteira, mais feliz e mais segura, aprendendo a valorizar tudo mais além do que uma única pessoa. Bom demais viver isso e saber que tantas outras mulheres maravilhosas conseguiram se libertar dessa tirania e reencontraram a felicidade. Obrigada por trazer esse assunto à tona! Parabéns mais uma vez pelo texto, por tanta sensibilidade e simplicidade! #sou_fa

    • Querida, muito obrigada pelo comentário que é um complemento ao texto. Assino embaixo de cada linha. Não acredito que eu vá “ensinar” alguém a ser melhor ou mesmo conseguir se livrar dessa tirania (palavra perfeita, que vc colocou). Mas espero jogar luz sobre o tema e fazer com que as pessoas reflitam. Tanto as que são vítimas quanto as que impõe tal sofrimento. Tanto para algumas se libertarem quanto para outras buscarem a transformação. Um lindo fds pra vc e um 2016 bonito, de alegrias e paz! Bjão 🙂 ❤

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