Ciclos

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Folhinhas secas, meio douradas até, caindo das árvores, espalhadas pelo chão. A gente sabe que o outono chegou quando vê essa transformação. Sempre gostei dele, o outono, dono dos meses que mais me parecem os de transição realmente. A estação que mais me lembra o significado dos ciclos. Que mais remete ao nascer, ao morrer, ao renascer e recomeçar.

Dizem que a morte é a única certeza da vida. Eu acredito que outra certeza é a impermanência das coisas, sem dúvida. Estamos sempre em movimento, traçando planos, sonhos, nos dedicando a melhorar. Estamos continuamente lidando com as mudanças.

São os ciclos.

Passamos por experiências, aprendizados, frustrações. Temos que lutar, mas sabendo a hora de desistir. Temos que acreditar, sem deixar de perceber quando a vida mostra que é hora de buscar outros caminhos.

É importante que nos nossos processos de renascimento não deixemos de colocar na balança nossas atitudes, sentimentos, posturas, crenças, erros. Porque sem avaliações profundas e sinceras de quem somos e como nos apresentamos ao mundo, de como convivemos com as pessoas, especialmente as que amamos e que nos amam, há o perigo da estagnação. De passarmos nossa tão breve existência cometendo as mesmas falhas. Aí, é ciclo, mas vicioso.

E as transformações por vezes anunciam, ainda, o adeus a gente que foi essencial nos nossos dias. Dói, eu sei… Mas faz parte. Alguns se vão sem nunca mais voltar. Há casos em que a interrupção é breve para repensar. Há amores que viram grandes amizades. Há amizades que se tornam grandes amores. Existem ex-amores e ex-amigos que passamos a enxergar com indiferença. Existem histórias especiais que serão sempre guardadas com carinho e emoção.

Independentemente da situação, feche os olhos e agradeça, com todo o coração, tudo e todos que ensinaram algo a você. Que foram importantes. Guarde as alegrias. Perdoe as tristezas. Siga leve, como são as folhas secas do outono levadas pelo vento. São os ciclos. E não esqueça que fins, sejam lá quais forem, são recomeços.

Crédito da imagem: Hierophant

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Marcas

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O almoço de domingo passado estava quase pronto. Só faltava colocar os peixes empanados no fubá na frigideira quente. É… bem quente… E de tão quente, não consegui segurar o pegador da tampa. Larguei-a no ar, no susto, e com as pontas dos dedos ardendo. Ao cair, a parte de cima encostou bem nas minhas pernas, na frente das coxas, um pouco acima dos joelhos. Sim, das duas pernas. Lá ficaram as queimaduras de segundo grau. Meio palmo cada uma. Duas marcas feias que agora tô torcendo para não se tornarem cicatrizes. Mas algum tipo de marca deixará, sem dúvida.

Olha, eu chorei. Com vontade. Não lembro quando foi a última vez que chorei de não conseguir parar, de não controlar as lágrimas, quase que no piloto automático. Chorei no chuveiro enquanto jogava água fria nas queimaduras. Chorei quando percebi que estavam maiores do que pareciam e começavam a formar bolhas. Chorei quando tive que passar a pomada. Chorei sentada no sofá, pensado por que raios não coloquei o avental. Passei a tarde chorando. No fim, aproveitando que já me via sensível mesmo, chorei copiosamente por outras marcas que a vida deixou.

Ter pena de si mesmo é um saco. Todo mundo sente isso de vez em quando. Só não pode ser sempre, virar hábito. Mas, de repente, a dor grande que eu experimentava na pele queimada e pela qual eu poderia fazer pouca coisa a não ser cuidar e esperar, me lembrou das vezes que a dor foi no coração. E também não havia muito o que fazer, a não ser cuidar e esperar. Passa. Existe o perdão – ou a indiferença. Talvez o ir embora depois de tudo tentar. Mas as marcas que pessoas e situações deixam na nossa memória, são como as cicatrizes: clareiam, não ficam tão aparentes depois de um tempo, mas estão “guardadas”.

Ensinam? Muito. É pra remoer? Não. Situações parecidas são faísca para doer novamente? E como! Dá pra viver sem esse medo? Não sei… Os bem resolvidos, os desencanados e afins diriam pra relaxar, deixar pra lá. É o que se deve fazer. Não é fácil. É um aprendizado. Aprendizado esse que vale a pena a gente compreender pra não transformar sofrimento em eterna desculpa, em fuga, em explicação rasa para os nossos erros recorrentes com aqueles que amamos e que nos amam. Tem gente que se auto-desculpa demais achando que o universo lhe deve compreensão por tudo o que já passou. “Os outros que lidem com meu barulho!”, pensam, cheios de si. Não é por aí, não… Tá arriscado(a) a deixar marcas ruins em pessoas que lhe querem bem, e a se ver marcado(a) pelas consequências.

A sorte é que as marcas boas também existem. As felizes. As que quando relembradas formam aquele sereno sorriso no rosto. Que fazem a gente se sentir abraçado. Todos nós, sem exceção, temos as marcas bonitas. As que nos orgulham, as que nos alegram, as que nos aconchegam, as que nos mostram o que é ser amado e pelo que vale a pena se dedicar. Talvez o segredo para que as cicatrizes que cortaram fundo se tornem bem clarinhas, quase imperceptíveis, seja multiplicar as marcas boas. Então, que para cada sofrimento a gente trate de correr atrás de duas, três ou mais situações que nos deixe feliz. O saldo será sempre positivo. Você terá sempre muito mais marcas boas para sentir e para deixar.

Crédito da imagem: Casal Sem Vergonha