Às vezes, não ouça

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Você não vai conseguir. Você não serve pra isso. Se adapte sem questionar. Aceite ganhar menos para manter a estabilidade no emprego. Deixe de lado esses sonhos bobos. Deixe de lado esses talentos tolos. Abaixe a cabeça. Seja previsível. Faça mais do mesmo. Nada de se destacar. Não mude as regras. Não tenha orgulho de si mesmo(a) – pega mal.

Pior.

Realize os sonhos dos outros. Realize aquilo que determinaram pra você. Não. Não importa se é sua vontade. Faça o que os outros decidiram ser o melhor pra você. Eles sabem mais, o que é melhor. Sufoque sua alma, mas se encaixe no padrão, faça o favor. Que padrão? Aquele, em que o ideal é se manter controlado, quadrado, dominado, fazendo todo dia tudo sempre igual. Seja fácil, bonzinho(a), não “dê trabalho”.

Quantas vezes você já ouviu todos esses “conselhos”? Quantas vezes você se viu obrigado a “obedecer” para não criar conflito? Engoliu seco, mantendo o silêncio sobre o que não concorda, engolindo junto sua alegria de viver, sua luz, seu sorriso fácil. Lembra? O seu sorriso era fácil…

Não. Não falo aqui de ultrapassar limites de bom senso e caráter em que se desrespeite, machuque, exponha os outros. Até porque relacionamentos saudáveis são construídos numa comunhão de acordos, de sonhos em comum – não de adaptações exclusivas das vontades de um dominante na história. Isso não é relação. É prisão. É ver o seu melhor sendo subtraído.

Também não falo de se sentir “feliz”. Felicidade não é e nem nunca vai ser um estado constante. A felicidade está em momentos, passagens da vida. O que é preciso é que cada um se pergunte: tenho serenidade para conviver com as oscilações entre horas felizes e dias de intraquilidade? Me sinto pleno(a) e realizado(a) com o que construí até aqui, com a maneira como encaro meus dias, com meus planos de curto, médio e longo prazo? Ou a intranquilidade vem cercando cada passo que dou? Fico me apegando a como as coisas poderiam ilusoriamente ser ao invés de estar de fato presente em algo especial que o destino entregou docemente em minhas mãos? Gosto de quem me tornei?

Assumir nossos reais desejos requer coragem. Talvez, a gente não consiga assumir todos eles. Existe mesmo uma parte nossa que precisa considerar que não estamos nesse mundo pra tomar decisões unilaterais, passando por cima dos sentimentos de quem nos é caro. Mas acredito que é possível, sim, adaptar o melhor da nossa essência e da nossa verdade ao bem querer de quem pavimenta o caminho junto conosco. Sem desrespeito. Com amor. Pelos outros e por si mesmo. Sendo a melhor versão de quem olhamos todos os dias no espelho.

Às vezes, não ouça, principalmente àqueles cujos conselhos não visam ser apoio e impulso para você se realizar. Mas que esperam apenas não te permitirem chegar longe, bonito, em paz, como você sabe que pode. E você pode. Olhe no espelho. A sua melhor versão existe. Ela está aí dentro. Você consegue encontrá-la!

Crédito da imagem: blog Casal Sem Vergonha

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Lute contra a cultura do estupro e do machismo. Sempre.

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Uma menina de 16 anos é estuprada por 33 animais absolutamente irracionais. Porque não podem ser chamados de homens. Nem de seres racionais. Simplesmente. Estupro nunca é culpa da mulher. É culpa da ignorância, da pequenez humana. Feminismo nunca matou. Machismo mata todos os dias. E é hora de cada um parar pra pensar quais são suas atitudes diárias que suportam, propagam e reforçam essa cultura do medo, do desrespeito, da crueldade. Se você, homem, precisa diminuir ou agredir uma mulher pra se sentir macho, forte, sinto informar, você é um bosta. Se você mulher julga e condena outras mulheres por suas escolhas, jeito de vestir, de se comportar, de viver, sinto informar, você também é culpada por estarmos expostas a atos violentos como esse.

Como escreveu um amigo meu, esse episódio da menina estuprada por um bando de infelizes prova que não estamos no fundo do poço. Nós somos o próprio fundo do poço. E tem horas que não vejo saída pra essa sociedade doente que se formou, em todos os níveis, em todas as classes sociais, inclusive entre os que se acreditam bem “educados”. Tá difícil não ser pessimista. Mas eu ainda acredito de verdade que a gente pode ser melhor. Que a gente lute todos os dias por punições severas a situações assim. Que a gente não tenha medo de combater essa escrotidão, que chega a esse ponto, inclusive, por meio das pequenas piadinhas e atitudes cotidianas. Que dão poder a uma ideia coletiva de que eles podem. E não podem. Nem de brincadeira. Nem com um ato hediondo.

Liberdade não é desrespeito

Lygia Carla Miranda

Soube esses dias de duas histórias tristes de mulheres enganadas pelos parceiros. Ambas casadas, agora divorciadas.

Uma teve os sentimentos traídos. Mesmo depois de pedir a separação, o marido insistiu em continuar a relação. Mas logo se soube que insistiu também em manter a infidelidade com frequência. A outra enfrentou um golpe financeiro. Percebeu a conta pessoal desfalcada pelo próprio companheiro, seguidas vezes, por meses.

A dor de uma descoberta assim desestabiliza. Imagina, aquele(a) a quem se dedicou amor calculou que poderia mentir gravemente, acreditando não haver consequências! Até se reconhecendo genial no comportamento. Há consequências. A principal delas é nunca viver relações verdadeiramente plenas e felizes. É estar mergulhado no sombrio. É assistir afetos sinceros escorrerem por entre os dedos.

Já vi gente com atitudes nessa linha se auto definir como autêntico e dono de uma espécie de “poder”. E não é poder. É vazio.

Liberdade é uma benção. Liberdades de comportamento e pensamento nos tornam seres humanos mais capazes de grandes e bonitas realizações.

Liberdade não significa desrespeito. Não significa passar por cima dos sentimentos das pessoas. Não é satisfazer apenas e tão somente os próprios desejos, de forma egoísta e irresponsável, a ponto de desmantelar relações, tanto pessoais quanto profissionais.

Aqui cabe lembrar também: individualidade não é individualismo. Individualidade, novamente, tem a ver com autenticidade, com personalidade. Mas se essa individualidade vem acompanhada de arrogância e certeza da impunidade, então, se torna individualismo. Fazer só o que se quer, sem pensar no rastro de destruição que se deixa na vida de outras pessoas, e na própria também, não é aventura, não é testar limites. É se ver sem autoestima.

Crédito da imagem: Lygia Carla Miranda