O desafio

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7h30 da manhã. Encarei a montanha. 350 metros pra subir. Bem mais de mil degraus. Inclinações, passagens estreitas. A promessa de um visual lá de cima dos mais inesquecíveis. Me intimidei. Me perguntei se chegaria ao fim. Mas a paisagem deslumbrante ao redor, saber que eu estava com os pés ali, em um dos maiores tesouros da humanidade, tendo o privilégio de ver o sol nascer na cidade sagrada de uma civilização antiga das mais inteligentes que nossa História já registrou… deu coragem.

Conhecer Machu Picchu, no Perú, concebida pelo povo Inca, era um dos meus sonhos de viajante. Só não achava que desafiar a altitude da grandiosa montanha Wayna Picchu entraria na brincadeira. Entrou. Lá fui eu. Na metade, me perguntei de novo se alcançaria o topo ou se dava meia volta. Continuei, focada na respiração, em colocar força nas pernas, em ser esperta de dar umas paradas pra tomar Gatorade, comer barrinha de cereal e apreciar o cenário de filme do Indiana Jones que era o Vale do Império Inca.

Uma das minhas sortes é não ter nenhum medo de altura. Pra quem tem acaba sendo um desafio maior. Meu pânico são locais estreitos e fechados (mentes estreitas e fechadas também me amedrontam, vale ressaltar). Em Florença, na Itália, tentei subir a escada em espiral que leva à cúpula do Duomo, a catedral da cidade. São 463 degraus – bem menos que a subida à montanha de Machu Picchu. E no meio do caminho, comecei a passar mal de nervoso. Pressão caiu, não conseguia respirar. Me senti oprimida e desesperada com a falta de espaço da escadaria que se fechava e se fechava. Fui salva por um casal de brasileiros e caí fora na metade.

Mas na Wayna Picchu, não. Eu subia, cansada, olhava em volta e me sentia viva. No topo, no final de tudo, com vento no rosto, era a liberdade e o horizonte infinito que me recebiam. Era a imensidão que me abraçava.

E aí, eu entendi como é bom, revigorante, especial e bonito a gente se desafiar. Lembrei como a liberdade (que não tem a ver com desrespeito a nada e nem a ninguém), de pensamento, de atitude, é importante e nos permite fazer escolhas mais acertadas e mais coerentes com nosso coração e nossos valores. Nos ajuda a ser capaz de enfrentar novos desafios, a buscar sonhos, a deixar ir com prece nos lábios, perdão e gratidão no coração o que já não mais deve estar conosco.

Lembrei também de como a sensação era absolutamente contrária a tudo isso na escadaria limitadora e opressiva do Duomo. Provavelmente, seria “libertador” chegar ao fim. Mas qual o preço? Pra mim, seu trajeto era agressivo demais, pesado demais, emocionalmente desgastante. Não deu. Nem todo desafio será vencido, afinal. Principalmente aqueles que de alguma maneira podem causar traumas. Não precisa. Tem que conhecer seu próprio limite, tem que respeitar a si mesmo. Alguns desafios, então, são apenas aprendizados para entendermos o que realmente queremos e devemos tentar. Quais experiências e até pessoas vão somar ou não, vão despertar o nosso melhor ou não.

Hoje, ao acordar e de imediato recordar a sensação de chegar ao topo da montanha Inca, um sorriso de satisfação apareceu no meu rosto. Ela, a montanha, me deu força pra muito mais. Falou baixinho “você é senhora de si, seja plena, serena, confiante e feliz”.Quem sou eu pra discordar da imponente e mágica rainha de um vale sagrado… 🙂 ❤

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Crédito das imagens: Peter Ellner

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Escolha relações de paz

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O note estava pra ser fechado em segundos. Eram quase 22h. Eu ainda queria me dedicar a algumas páginas de um dos livros que estou lendo. Mas na última olhada na tela, surge a mensagem inbox da minha melhor amiga: “Bonitona, só vim aqui deixar um beijinho.”

Mandei outro beijinho pra ela. E lá se foram uns 20 minutos de conversa. Falamos quase todos os dias pelos mais diferentes meios: celular, telefone fixo, mensagem de texto no Whats, mensagem de voz no Whats, e-mail pessoal, e-mail do trabalho, inbox do Facebook. Nunca deixamos de responder à outra. Nunca nos deixamos sozinhas. E sempre há aquela sensação de acolhimento, de ver a mensagem dela e lembrar a sorte que é saber escolher para a vida pessoas que trarão paz para nossos dias mesmo quando há caos ao redor.

Falamos muito que relacionamentos devem nos dar alegria, nos “completar”. O conceito de completar eu realmente discordo. Tem que somar. Você precisa antes se sentir “inteiro” pra realmente oferecer algo que vale a pena a alguém.

Por exemplo, eu e minha melhor amiga não nos completamos. Temos visões contrárias em muitas coisas, mas valores iguais. Somamos. Ideias, experiências. A alegria na nossa história de amizade já existiu muitas e muitas vezes. Mas foi nas horas de tristeza que a relação se mostrou grandiosa e indispensável. Na dor, apesar da dor, essa amizade me trouxe paz. Aquela, do abraço apertado. Da esperança, de que eu não estava só.

Já no amor, quer melhor trecho de música do que “eu quero a sorte de um amor tranquilo”, do Cazuza? Vida a dois não é fácil. É uma grande invasão de privacidade, não há como negar. E pra ser bom, pra ser soma, pra não ser justamente invasiva, tem que ser a paz que a gente sempre quis. A paz que nasce da confiança, do companheirismo, da parceria. Amor não é tormenta. Claro, todo relacionamento tem fases mais difíceis, suas tempestades. Mas se é angústia a principal característica de uma relação, não tá certo, não tá bom.

Ter paz em relações de trabalho e familiares é mais complexo porque, nesses casos, tem gente que é guerra o tempo todo. Que parece gostar da briga, do desentendimento, da intriga. E tem parente que não dá pra deixar de conviver, assim como não dá pra jogar o emprego para o alto sem pensar no dia de amanhã, sem planejar.

Mas dentro do que você pode escolher, faça a opção pelo que aconchega alma, encanta com leveza o coração. Já somos obrigados a carregar “barulho” demais num cotidiano árduo. Escolha a paz e seja reflexo dela. Qualquer coisa contrária a isso é excesso.

Crédito da imagem: Hierophant