Que horas são na sua vida?

relogio

Mais um gole de café. Penso se como ou não o último pedacinho de queijo brie. Remexo um pouco com o garfo o que resta no prato. Como o brie. Enquanto saboreio o queijo se desfazendo na boca, observo através da grande porta de vidro. Ela toma conta de toda a parede do local onde é servido o café da manhã. Folhas em diferentes tons de amarelo, lindos, forram o chão daquele pátio que se vê lá fora. Resquícios de um outono que se despede para o inverno que chega. Sai o herbst. Entra o winter. São 9h13 na minha vida. Em outro país. Outro fuso horário. Em um lugar onde eu nunca imaginei um dia estar.

Markdof. Aqui estou.

São 9h14 na minha vida e termino o café da manhã em um hotel nesse povoado no sul da Alemanha. Mal se encontra no mapa. Por relações de afeto, ouvi falar do lugar pela primeira vez há uns dois anos. Agora, novamente por afeto, me vejo na tal cidadezinha pensando o que fazer nas próximas horas onde não há muito por fazer.

Já são mais de 9h20. Perdi uns bons minutos me lembrando da noite anterior quando conheci gente boníssima, agradável, com quem pude trocar impressões culturais, políticas e sociais alemãs e brasileiras. Um jantar animado, inclusive com um drinque que eu nunca havia provado – sugestão do garçom, veja só, de Santa Catarina.

São quase 10 horas na minha vida. Estou em Markdof, um povoado no sul da Alemanha, rememorando momentos bonitos da viagem que fiz nos últimos dias. Acabei por brevemente lembrar algumas tristezas que 2016 trouxe. Inevitável. Elas sempre existem. Essa lembrança, das tristezas, foi breve. Porque são agora 10 horas na minha vida no dia de hoje. E quem decide se as horas que se seguem serão especiais ou não sou eu. Se as horas que marcarão a minha história serão as felizes depende do que construirei no tempo que o destino ainda me concederá.

Que horas são na sua vida? Que caminho dará aos minutos preciosos, que se transformam em anos, que lhe são a cada segundo presenteados pelo universo? Talvez seja a hora, aquela hora, que você tanto esperava.

Crédito da imagem: Shortcuts

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Charlotte, a viralatinha

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Aquela é uma das lembranças mais tristes que tenho da vida. Uma lembrança triste, bem no doce período que deveria ser a infância. Ainda hoje me recordo dos olhinhos vidrados, direcionados à minha mãe, que chorava e massageava o coraçãozinho dela. Estava deitadinha, enrolada num cobertor, embaixo da cristaleira da sala de jantar. Minha vó Lourdes também chorava muito, assim como meu irmão e eu.

Soraia, nossa cadelinha Basset, morreu de problemas cardíacos já velhinha, quando eu contava uns 4 anos. Apesar da pouca idade na ocasião, a imagem se manteve muito clara na minha memória. E como doeu em toda a família. Especialmente na minha vó, que ficara viúva há cerca de um ano.

Desde então, cresci numa casa cheia de gatinhos abandonados. De tempos em tempos, lá apareciam eles na nossa porta. Eram bem cuidados, com carinho. Mas cachorro nunca mais. A mãe não queria de jeito nenhum. Não que a dor pelo adeus aos gatinhos fosse menor. Mas nunca aconteceu em situação tão dramática quanto a morte da Soraia.

Só agora, poucos anos atrás, o pai e a mãe herdaram duas cadelinhas que eram de uma senhora amiga da minha vó. Já eram velhinhas… Faleceram também… Pai e mãe ficaram tristes… Quando foi a Bolinha o pai até chorou escondido no jardim. Mas lá já está a Potiche, mais uma gatinha abandonada que apareceu na casa dos meus pais, toda fofa, meiga e fazendo companhia a eles.

Tirando essa experiência de conviver com os bichos, nunca tive de fato responsabilidade de cuidar de nenhum. Nunca tive animalzinho no meu apê onde moro há dez anos. 2016, no entanto, anda cheio de surpresas bonitas do destino. E essa lindeza aí da foto é minha pequena vira lata, a Charlotte. Aliás, Charlotte Skyla. O primeiro nome foi escolha minha. O segundo, do meu sobrinho – que se inspirou em uma mestra Pokemón (???).

Charlotte é sapeca. Uma espoleta. É bebê, de quatro meses, e acha que a vida é brincar. Tá certa ela. Dorme bem a noite toda sem chorar. Faz as necessidades direitinho no pipi dog que comprei. Precisa aprender a morder só os brinquedos dela – não os móveis! Faz essa cara linda quando leva bronca, mas também quando recebe carinho. E retribui com lambidinhas. Meu irmão e minha cunhada que resgataram ela da rua. O melhor presente que ganhei nos últimos tempos. ❤

Charlotte já mostra a que veio: me ensinar um novo tipo de responsabilidade, a contar com uma companhia diferente no meu dia a dia, a educar com paciência e a ter o coração partido quando é preciso deixar a bolinha de pelo sozinha quase o dia todo. Mas o coração também fica mais em paz quando lembro que ela não é mais um bichinho perambulando pela rua tentando sobreviver à incerteza.

Com minha viralatinha meus dias ficaram ainda mais agitados! Mas enquanto escrevo tenho um quentinho enrolado no pé, aqui embaixo da cadeira. E ganho esse mesmo quentinho encostado na perna enquanto assisto Netflix e ela rói o osso, ambas esparramadas no sofazão.

Chega a hora de dar boa noite. Ela me olha com esses olhos expressivos quando a coloco na caminha lilás e florida. Um afago na patinha, uns beijinhos na cabeça e percebo os olhinhos me fitando de novo, cheios de reconhecimento e afeto, que já nem me vejo mais sem. Então, só consigo desejar: viva muito, por favor. ❤