A casa para onde sempre se pode voltar*

Já moro em São Paulo há mais de oito anos. No começo da vida aqui, descia a serra toda semana para rever a família. Chamava lá de ‘minha casa’, como se a capital fosse apenas um detalhe necessário para trabalhar na área que escolhi. Mas aí vieram os amigos. As festas. Os amores. Uma cidade para descobrir. E as visitas familiares foram espaçando. O lugar que eu chamava de casa passou a ser a metrópole, definitivamente.
Só que na fase dos 30 anos você começa a se fazer um milhão de questionamentos. E também a compreender algumas verdades muito mais duras do que poderia imaginar. Uma das realidades que despencou na minha cabeça foi que, um dia (espero, de todo coração, que seja um dia bem, bem longe), meus pais não estarão mais lá. É o tipo de situação que nunca nos preparamos para enfrentar, mesmo que seja o natural da vida. Pensar nela apavora.

Uma segunda-feira dessas, minha mãe ligou. “Filha, você vem esse fim de semana?” Eu disse que não, que seria uma semana cansativa, que eu tinha já compromisso para o sábado. “Tudo bem…”, respondeu a voz materna, tentando disfarçar uma pontinha de tristeza. Na terça-feira fui caminhar de manhã entre a Vila Leopoldina e a City Lapa. Por ser uma região plana e arborizada, muita gente faz corrida e caminhada por ali.

Nas minhas andanças sempre cruzei com duas senhoras, mãe e filha, que caminhavam diariamente. A senhorinha – que um dia, numa conversa rápida com elas, contou que teve um box no Ceagesp durante décadas – segurava no braço da filha para se apoiar num trecho ou outro do exercício. Há algum tempo já não as encontrava.
Naquela terça-feira, vi a mais moça, sozinha, sentada num banco de uma praça. Lenço na mão que alcançava o rosto para enxugar os olhos. Fiquei sem graça de chegar perto. Segui meu percurso. No outro dia, mesmo horário. A mais moça sozinha novamente, sentada no banco da pracinha. Lenço na mão enxugando os olhos. Peguei uma flor amarela caída no chão. Assoprei duas formigas que estavam nela.

Entreguei a flor à senhora-moça, que levantou os olhos, deu um leve sorriso e disse: “Você viu… Ela não está mais… Foi tudo rápido, sem sofrer. E tive o privilégio da companhia da minha mãe até agora, quando chego quase aos 70. Mas essa falta…” Sentei do lado dela e disse que sentia muito, me segurando com todas as minhas forças pra não chorar também. Não por vergonha, não. Mas porque eu não sabia se faria a senhora-moça se sentir mais triste.

Ela perguntou minha idade, se eu ainda tinha meus pais. Disse que sim. “Então, corre pra abraçá-los sempre que você puder. Mesmo que esteja brava por algum motivo, ou que vocês tenham personalidades e opiniões diferentes. Eu tenho tantos bons abraços de lembrança dos meus pais…”

Conversamos mais uns minutos. Me despedi. Na hora que virei as costas, era eu quem enxugava as lágrimas na manga do casaco de moletom. Cheguei em casa e liguei pra mãe. Disse que poderia almoçar com eles no domingo e voltaria para São Paulo segunda-feira de manhã. Sabe quando você percebe pela voz que a pessoa está sorrindo?

O pai foi me buscar como sempre na rodoviária, com a cara de feliz que faz quando me vê. Combinamos que sim, vou acompanhá-lo no Salão do Automóvel (mesmo que eu não entenda nada de carros). Depois do almoço, perguntei pra mãe se ela não queria dar uma caminhada. Era fim de tarde, com vento fresquinho. Dei o braço pra ela apoiar…

Percebi que há algum tempo voltei a chamar a casa dos meus pais de ‘minha casa’. E a senhora-moça voltou a caminhar pelas ruas do bairro, num horário um pouco mais tarde. Ela tem a filha para acompanhá-la.

* Crônica originalmente publicada por Suzane G. Frutuoso no Jornal da Tarde (2012)

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Chama pra perto

Há mais de 20 anos, eu e minha melhor amiga damos um jeito de conversar quase todos os dias. Nem sempre é o encontro cara a cara. Às vezes, nem aquele bate-papo longo pelo telefone. Pode ser o link de uma notícia via e-mail que vai interessar a outra. Ou uma foto mandada pelo whatsapp de alguma coisa que lembrou a gente. E um salve às mensagens de voz!! São muitas, de muuuiitos minutos.

Mas logo no começo do ano eu percebi que a gente não vinha conversando como deveria. Nada de briga. Só as duas mergulharam em fases de horas infinitas de trabalho. Projetos que as duas acreditam e exigem dedicação por alguns bons meses.

Por sugestão de outra amiga que é coach, coloquei essa “reaproximação” em uma lista de tarefas urgentes. Em janeiro. Só tomei vergonha na cara de “cobrar” o contato diário de novo essa semana, enquanto esperava ser atendida na consulta com a ginecologista. Mandei uma mensagem de whatss melosa, daquelas que só a melhor amiga vai aturar.

Chamei pra perto. Ganhei visita e até buquê de flores vermelhas. Não, não fazia tempo que a gente não se via. O aniver dela acabou de acontecer. Sim, nas horas difíceis continuamos lá, juntas, num estalar de dedos e sem pensar. Mas fazia tempo que a gente não se via sozinha pra falar besteira como quando a gente era adolescente.

E poucas coisas na vida podem ser tão boas e desopilantes quanto rir como quando a gente é adolescente.

Sempre tem alguém que queremos chamar mais pra perto, pra voltar para os nossos dias, pra ser presença e afeto. Pode ser pai, mãe, irmão, sobrinha, vó, vô, amigo de infância, de facul, tio, prima, ex-chefe bacana, ex-professora. Quem sabe aquele crush que você não deu bola no passado? Pode ser até a pessoa com quem você está num relacionamento de anos. Ou de meses. Mas que importa, que é essência.

Chama pra perto. Ri junto, conversa. Vê o que ficou pelo caminho, se necessário. Só não desenlaça os dedos de quem faz seu mundo brilhar.

Crédito da imagem: Hierophant

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Não se preocupe: ninguém é feliz o tempo todo

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Eu ando feliz. Bem feliz. Muita coisa boa aconteceu nas últimas semanas. Tomei decisões importantes. Me senti querida por gente que é especial pra mim. Transformei projetos que me são caros em realidade. Não quer dizer que é fácil o tempo todo. Pelo contrário. Em meio a tudo, teve aborrecimento, teve estresse, teve atraso, teve gente agindo da pior maneira possível. Mas a felicidade foi mais forte. E é nisso que eu tenho que focar.

Eu ando bem feliz e sei bem que é temporário. Por isso, o negócio é aproveitar a onda boa e surfar nela. Porque acaba. É assim que é. É da vida. É oscilação. É alto e baixo. Alguns dos períodos de “alto” são super realizadores, com uma coisa boa chamando a outra, rápido, na sequência, se completando. Alguns dos períodos “baixo” parecem se arrastar, não terem fim, com problemas se sobrepondo, com tristeza dura que exige valentia pra superar.

Mas é vai e volta. Pra mim. Pra você. Pra todos nós.

Não se preocupe. Não deixe aquela invejinha que gela a espinha tomar conta de você quando vê alguém realizado. Ninguém é feliz o tempo todo. Claro, há quem vá atrás de criar oportunidades para si mesmo. Que busca o que acredita e não se deixa acomodar com o que não faz bem. Que tem, sim, medo de errar. Mas mais medo ainda de não tentar. Lembrando que se não dá certo fica como aprendizado. E ponto.

Exige coragem? Sem dúvida. E capacidade de lidar com o desconforto da incerteza. Rende, no entanto, uma existência plena, de momentos inesquecíveis.

Ninguém é feliz o tempo todo, vamos reforçar. Mas você precisa fazer a sua parte. A invejinha que gela a espinha pode até, de certa maneira, te impulsionar a correr atrás do que também quer. Só não vai ser combustível real e suficiente. Pare de perder dias preciosos incomodado com a alegria dos outros e construa alegrias para você e para aqueles que ama. ❤ 🙂

Crédito da imagem: YouTube Seu Jorge

Para onde você voltaria?

Meus amigos de infância, meus amigos de faculdade, meus professores. Os amigos dos meus pais, tão orgulhosos quanto eles, com aquele olhar cheio de afeto de quem me viu crescer. Havia calor. O do clima e o de gente que me quer bem.

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Antes de tudo, pessoal, mil desculpas por ficar mais tempo do que o esperado sem escrever por aqui. A ideia é postar sempre uma vez por semana. E lá se vão 16 dias desde o último texto. Mas olha, foi por bom e feliz motivo: a correria gostosa pra mais um dia de lançamento do meu livro Tem Dia Que Dói – Mas não precisa doer todo dia e nem o dia todo (Editora Volpi & Gomes), no último dia 15.

Foi em Santos, litoral de São Paulo. A cidade onde nasci. O lugar de onde vim. A tarde de autógrafos ocorreu na Livraria Realejo. Ali eu folheava e admirava os livros nas prateleiras quando ainda era uma jovem jornalista, recém-formada, com um desejo secreto guardado no coração – ser também escritora.

Foi especial. Com a minha família. Minhas tias! Meus amigos de infância, meus amigos de faculdade, meus professores. Os amigos dos meus pais, tão orgulhosos quanto eles, com aquele olhar cheio de afeto de quem me viu crescer. Havia calor. O do clima e o de gente que me quer bem.

Foi especial. Na hora e nos dias seguintes. Ao andar na praia com sol no rosto e água fresquinha na altura do tornozelo. Ao conhecer minha viralatinha filhote, a Charlotte, que meu irmão e minha cunhada salvaram das ruas e me deram de presente. Ao sentar para conversar com universitários da região, lembrar a carreira que construí e incentivá-los mostrando que eles podem muito mais.

Ao olhar em volta e, de repente, tantos anos depois pensar: “Eu não só tenho para onde voltar. Eu tenho também, se assim eu decidir, como aqui (re)começar uma nova parte da minha história.” Por muito tempo eu não me senti mais parte desse lugar. Acho saudável. Acredito que a gente deve construir nosso caminho respeitando nossa identidade e aquilo que desejamos para nós. São Paulo me deu isso e muito mais. Sou grata e ainda me sinto em casa na capital cheia de poréns, mas também repleta de motivos de alegria pra mim.

Foi especial, no entanto, saber que parte do meu melhor tem raiz num lugar para onde eu voltaria. Cheio de referências positivas e no qual conseguiria desenvolver meus novos planos de vida que estão aí, batendo na minha porta.

É especial ter para onde voltar. Já pensou a respeito? Para onde você voltaria? Para uma cidade? Uma casa? Um colo? Ou um coração? Haverá uma volta em parte da história que você está (re)construindo a partir de agora?

Porque o novo é sempre bom e excitante. Mas a transformação que leva ao inédito caminho não precisa deixar para trás a nossa essência. Pelo contrário. É justamente a essência do que temos de bom que vai nos segurar e nos guiar pelos horizontes que se descortinam.

Então, pense bem… O que ficou para trás, mas ainda é parte importante de você? Para onde você voltaria?

Crédito da imagem: Tumblr

O livro Tem Dia Que Dói (Editora Volpi & Gomes) está à venda na Livraria da Vila da Alameda Lorena (www.livrariadavila.com.br), em São Paulo, e na Livraria Realejo (www.oseulivreiro.com.br), em Santos. A partir de novembro a publicação será comercializada também pela internet. Chegaremos em novas livrarias até o fim do ano. 🙂

Escreve pra mim! :)

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Vem conversar comigo, me contar sua história, dividir experiências! Vamos trocar ideias sobre relacionamentos, desafios, perdas, alegrias e afetos! 🙂 O FALE AO MUNDO Por Suzane G. Frutuoso agora tem também e-mail: blogfaleaomundo@gmail.com. Espero sua mensagem! ❤ #boanoite

Memórias afetivas da gastronomia*

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Comida é afeto. Aprendi essa regra desde muito criança. Na minha família, de portugueses, a culinária sempre teve papel de destaque. Nenhuma festa, nenhuma ceia, era menos do que farta. Na verdade, nem as refeições diárias tinham o direito de se resumirem a meros pratos rápidos. Os tempos difíceis, do dinheiro curto e das incertezas de quem vivia num Brasil de inflação estratosférica, bateram à porta da minha casa na infância. Mas comida? Essa não faltaria jamais. Porque mais do que alimento, ela sempre significou cuidado, amor.

Boa parte das minhas melhores lembranças tem alguma coisa de comer no meio, sempre ligada a alguém importante pra mim: bolinho de chuva (minha avó materna), bolinho de arroz (minha madrinha), goiaba (minha avó paterna), batata frita (meu irmão), lasanha (minha mãe), coxinha com Guaraná (meu pai), bolos, gelatina com leite condensado e sopa da ‘fortuna’ (minhas tias), bem-casado (minha melhor amiga), mini pizza (minha cunhada), maria mole (meu padrinho), Diamante Negro e rabanadas (minha tia-avó)… A lista é interminável. Até a imagem que guardei do meu avô materno, que morreu quando eu tinha três anos e de quem me lembro pouco, é de me levar para comprar suspiros, uns que eram quadradinhos, em rosa e azul.

Talvez por isso, eu não consiga entender quem vive de saladinha, numa eterna dieta. Por favor, não me entendam mal. Sei que muita gente precisa mesmo, por recomendações médicas, maneirar na alimentação. Eu também, por mais que goste, não saio atacando tudo isso que descrevi todo dia. Cuidar da saúde é importante e uma alimentação equilibrada é fundamental. Mas tem quem quase desmaie de fome pra manter um padrão equivocado de magreza absoluto – e o mau humor junto. Eu realmente prefiro manter meus dois insistentes quilos a mais e me divertir num churrascão com os amigos do que deixar de conviver com gente querida porque a tentação está na mesa.

Não curtir uma refeição gostosa é um pecado ainda maior quando se vive em São Paulo, com seus 12,5 mil restaurantes, 15 mil bares e 3.200 padarias. Uma vez tive um encontro em uma das cantinas do Bexiga. Jantares/almoços são sempre um método de aprovação/eliminação de pretendente. Se ele me acompanhar na orgia gastronômica, ganha pontos. Não foi o que aconteceu na ocasião. Enquanto eu me acabava no pão de calabresa e no nhoque, ele comeu só salada (numa preocupação descomunal em dobrar a alface, sem cortá-la), deu meia dúzia de garfadas no capelete e – cavando a sepultura do encontro – colocou adoçante no café. Ninguém precisa concordar comigo, é coisa minha, mas dá pra ser sexy tomando café com adoçante?

Relacionamentos à parte, também as feiras de rua na capital sempre me ajudam a manter toda essa memória afetiva. Basta um passeio entre as barracas, um pastel e um caldo de cana. Pronto. Lá vêm as lembranças felizes das manhãs de sábado, quando minha mãe arrastava o carrinho em uma mão e eu em outra. Consigo até sentir o cheirinho da feira, aquele misturado de frutas e legumes. E atire a primeira pedra quem nunca se deliciou com a fritura do pastel se desfazendo na boca.

Outro dia uma amiga veio aqui em casa, potinho na mão, com um pedaço de bolo de chocolate que guardou pra mim. Tinha sido uma semana difícil. E essa lembrança fez toda a diferença naquele momento. Mais do que questão de sobrevivência, comida é um jeito de dizer ‘eu te amo’, ‘me preocupo com você’. É demonstrar, sem palavras mas com pratos, carinho e querer bem. E é por isso que eu vou lá agora, preparar o almoço de domingo para as visitas. Dizer a elas o quanto são importantes na minha vida, com a ajuda dos temperos e das panelas.

Crédito da imagem: blog As Devoradoras
*Texto publicado no Jornal da Tarde em abril de 2012