Os sustos que o coração leva

Desespero é a definição. Eu corria, chorava, gritava por ajuda e ficava ainda mais desesperada ao perceber que perdia força e não a alcançava. A manhã do último domingo foi de terror ao sair para caminhar com minha viralatinha Charlotte. Sempre corremos juntas no começo ou no fim das caminhadas que fazemos duas vezes por dia, manhã e fim da tarde. Eu ensinei a ela que correr é a parte divertida do passeio. Também ensinei a voltar para o prédio. E ela voltou. Mas o portão estava fechado, e ela foi embora rua abaixo, correndo muito, como eu disse que devia.

Charlotte é um bichinho forte. De porte médio, esguia, mas atlética mesmo. Só que eu não tinha me dado conta que com menos de um ano e que as corridas e brincadeiras fizeram dela uma cadelinha forte além do que eu imaginava. Na nossa corrida, nos assustamos, as duas, com um cachorro enorme que apareceu na nossa direção. Ela deu um tranco forte e arrebentou a coleira. Eu chamava. Ela chegou a olhar para trás. Fez que voltaria. Muita gente começou a tentar pegá-la no caminho. Se assustou mais. Foi embora.

Sentei na calçada chorando, com a calça legging rasgada no joelho. Levei um tombão ao tentar agarrá-la. Sangue no joelho esquerdo ralado, sangue na mão esquerda ralada. Mas o que doía mesmo era o coração. Eu nunca mais veria minha filhotinha. Ela poderia ser atropelada a qualquer momento. Muita gente tentou ajudar. Porteiros, três motoqueiros, gente que passava na rua. Uma vizinha se materializou na minha frente com o carro dela pra gente rodar o bairro.

40 minutos de desespero.

Voltamos para o prédio prontas a espalhar cartazes e fotos da minha pequena por redes sociais. E lá estava ela. No colo do porteiro. Na coleira do cachorrinho do vizinho, que a encontrou na rua e soltou o bichinho dele na direção dela. Como ele fez festinha, Charlotte se acalmou e o Luiz, meu vizinho, conseguiu colocar a coleira nela.

Chorei mais, mas dessa vez de alívio. Ganhei muitos lambeijos e abanadinhas de rabo, cabecinha batendo no meu peito como quem diz “mamaizínea, me desculpa, estou feliz de te ver!” Passamos as duas amuadas todo domingo, agarradinhas, eu com as lágrimas que não paravam de descer. Sim, já estava tudo bem. Mas fiquei imaginando o que sente quem perde alguém. Um filho. De não saber o paradeiro. De não saber se está vivo ou morto. Que dor terrível deve ser. Que dias infinitos de espera capazes de tornar a vida absolutamente cinza e de difícil compreensão…

Os sustos que o coração leva. Esse sem dúvida foi um dos maiores pra mim. O lado bom dessa “experiência” dramática é ver quanta gente sai ajudando sem nem pensar. Que age. Que se joga. Tem um instinto de proteção aí, nas situações em que vemos outra pessoa sofrendo. Tem uma bravura na alma de muitos, um acolhimento, uma generosidade, que ajuda a sempre lembrar: o mundo tem sua crueldade. Mas também tem gente boa demais.

Crédito da imagem: Filipe Hilário

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Delicadeza em papel, caneta e colorido

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A gente às vezes perde muito tempo pensando em como poderia ajudar alguém. Acaba sem de fato ajudar, sem saber o que fazer. Dizer que não tem tempo é de praxe. Não é nem que não é verdade. Nos enrolamos mesmo nesse cotidiano preenchido demais. Sempre existe, porém, um caminho. E a ideia simples, mas desenvolvida com dedicação e carinho, pode ser bem impactante. Ter um efeito tão positivo que permite às pessoas retomarem sonhos, se reerguerem, recomeçarem. Acreditarem em dias melhores.

Hoje eu trago aqui no blog dois exemplos bonitos de projetos criativos que estão ajudando muitas mulheres pelo país. Por meio de cartas com palavras de acolhimento e ilustradas com sensibilidade, as voluntárias dizem “você não está sozinha”. Vocês precisam conhecer! Abaixo, mais detalhes dos projetos “Eu vejo flores em você” e “Flores e Histeria”:

Eu vejo flores em você (www.euvejofloresemvoce.com / www.facebook.com/asfloresemvoce/)

Feito por garotas que se viram em situações difíceis e encontraram na troca de cartas um jeito de apoiar outras mulheres. Diz a página do Facebook do projeto:

“Nós ilustramos cartas de mulheres para outras mulheres e enviamos por correio sem custo algum, mas num envelope lotado de amor! Para ver algumas das cartas já enviadas, acesse euvejofloresemvoce.com.”

As meninas também vendem cadernos do tipo Moleskine (com impressão em couro sintético) por R$ 50. A receita é revertida para pagar os custos de produção; pagar um caderno de presente para cada voluntária que está trabalhando intensamente desde fevereiro no projeto; cobrir alguns custos recorrentes do projeto; e financiar novas ações, inclusive a produção do livro para a gaúcha Gisele Santos, que teve as mãos decepadas por seu companheiro (http://bit.ly/campanhagisele).

Flores e Histeria (www.facebook.com/floresehisteria/)

Como diz a página do Facebook do projeto, “a decisão do tema veio da necessidade de reduzir a distância e a frieza com que, geralmente, a grande mídia trata os casos de transtornos psiquiátricos, que, com frequência, incidem mais sobre o sexo feminino. Não queremos falar de estatísticas, números ou estudos. Nosso objetivo é trazer a delicadeza e sensibilidade que estão em falta. Queremos promover o amor e carinho que existe entre as mulheres nesta condição. Ainda somos um grupo – uma dupla, na verdade – bem pequeno, então vamos explicar aqui como vai funcionar a primeira fase de “teste”:

• Vamos criar um formulário para receber as histórias e dados das interessadas em participar do projeto.
• Vamos fazer um processo de “triagem” (infelizmente, já que a gente queria poder mandar cartas para todas…), e entrar em contato.
• O critério principal da triagem será a diversidade (realidades distintas, diferenças regionais e culturais, etc).
• O contato será feito totalmente de forma virtual e a seleção dos pares (quem entrará em contato com quem) será feita por nós.
• As selecionadas vão encaminhar as cartas para nós (por e-mail) e todo o processo de escrita, ilustração e o envio ficará por nossa conta.
Nossa ideia é que isso ocorra mensalmente, criando assim um grande vínculo e um núcleo de mulheres que possam se ajudar com carinho, atenção e cuidado.”

As meninas, que são voluntárias em ambos os projetos, são uma excelente inspiração para começarmos mais uma semana. São alento em tempos em que tantas vezes nos custa acreditar na humanidade. Mas sempre tem quem se importe. Sempre vai existir quem seja capaz de espalhar doçura e delicadeza por onde passar.

Crédito da ilustração: Letícia Rodrigues

Aprendendo a pedir ajuda. E a aceitar gentilezas

ajuda

Eu estava toda feliz aquele dia por ajudar uma amiga muito querida. Enrolada com as contas, cheia de dificuldade para gastar menos do que ganhava, ela se sentou comigo à mesa de sua sala, desanimada com a situação financeira. Dei início a uma conversa franca sobre como ela usava o dinheiro de uma maneira emocional, que precisava urgentemente aprender a economizar e que tudo seria possível sem abrir totalmente mão do lazer. Tenho talento para economia doméstica! E fizemos contas e mais contas até encontrarmos as possibilidades. Ela se mostrou aliviada ao ver que poderia realizar as mudanças necessárias. E, por enquanto, está indo bem.

Mais tarde, comentei com um outro amigo o quanto me sentia satisfeita ao ajudá-la. De saber que consegui levar alguma tranquilidade e esperança numa hora bem caótica. Foi então que ele fez uma observação que bateu em mim como se eu estivesse levando um tapão na testa. “Viu? Todo mundo gosta de ajuda. Menos você.” Fiquei uns cinco segundos muda antes de pronunciar um espantado “Eu? Mas por quê?” No fundo, sem querer admitir, sabia que ele estava certo. Tenho mesmo dificuldade de pedir ajuda. Basicamente, só tem duas amigas muito próximas a quem peço algum favor e só quando não consigo de jeito nenhum resolver.

Pra me deixar desconcertada de vez, ele disse: “O problema é que só descobrimos que você precisa da gente quando sua saúde física e emocional está por um fio”. Me encolhi, fazendo um beicinho, olhos meio arregalados, comovida com a preocupação dele e me dando conta de que sim, também tenho meus momentos de fragilidade. Não sou infalível. E eu nunca tinha parado pra pensar a respeito.

Nem sei dizer a vocês quando foi que começou. Desde muito cedo me vi independente, tomando minhas próprias decisões. Nunca como um ato de rebeldia. Mas sendo persuasiva. Porque aprendi a construir bem meus argumentos quando queria alguma coisa. Junto com meu jeito responsável, ganhei a confiança dos meus pais. Logo, botando as manguinhas de fora, passei apenas a transmitir a decisão que eu havia tomado. Depois de alguns cabelos arrancados e, finalmente, percebendo que eu era sensata nas minhas escolhas, eles relaxaram.

Com o tempo, isso fez de mim não só independente. Mas auto-suficiente. Até demais. Passei a suportar minhas angústias praticamente sozinha e, heroicamente, a acolher as de amigos e familiares. Não por egoísmo deles, não. Mas porque simplesmente eles não tinham como saber o que acontecia comigo. Ninguém tem essa obrigação se a gente não fala! E como é bem natural eu ser mais pra otimista e sorrir bastante, posso praticamente me transformar num enigma! Nem dá pra desconfiar!

Só que um dia a casa cai. E a minha desmoronou num tsunami de problemas que apareceram em sequência. Na marra, quase a contragosto, vou aprendendo a pedir ajuda. Ainda não é fácil. Mas sozinha eu não aguento. Não dessa vez. Às vezes, sinto minhas bochechas corando ao fazer um pedido a alguém. Até pra minha mãe – que aliás anda repetindo o mantra “filha, a gente te ajuda”, cada vez que me liga. Tô melhorando, pessoal. Mesmo. É muito bom ver quanta gente querida tá disposta a nos estender a mão… Que dizem “ó, tô aqui”. E saber que, cara, elas estão de verdade do meu lado, para o que der e vier! Isso eu nunca vou esquecer…

Aí, já achando que estou à beira do sucesso no meu processo de seja-humilde-peça-ajuda, travo uma conversa com meu irmão no telefone. Conto como foi meu fim de semana e de uma situação em que não me deixaram rachar a conta no restaurante. E lá vem mais uma gongada: “E por que você nunca pode aceitar uma gentileza?” Três segundos muda. Tento articular a frase. “Eeeuuu?? Quem falou que eu nunca aceito gentileza?!!” Ele começou a dar exemplos de coisas que fiz e falei algumas vezes provando que, é, aceitar gentileza não é meu forte e anda de mãos dadas com minha dificuldade de pedir ajuda.

Não é que eu não goste de gentilezas. Mas fico sem graça, acho que tô dando trabalho, sei lá… Confesso até que, em dias de autoestima oscilante, chego a me perguntar se mereço… Pior é que nunca nem trabalhei a questão na terapia porque, simplesmente, não era uma questão na época. E já deixei o divã há alguns anos. Depois de me auto analisar, entendi que a dificuldade com a gentileza é recente. Gosto de ser gentil, mas não sei bem recebê-la de volta. Preciso, agora, descobrir os motivos… Ainda não sei dizer a vocês… Só desconfio.

Pelo menos, o mais importante, é entender que tenho muito o que melhorar. E que os caminhos existem. Descobrir nossas limitações e carências, desvendar medos e atitudes rígidas, não é lá muito confortável. A transformação completa precisa de atitude. Mas a conscientização já é um passo fundamental para vivermos mais em paz. Agora, é fazer da certeza um hábito.

Crédito da imagem: Clockblock (Cultura Inquieta)