Vai abrir mão de uma profissional talentosa? Azar da sua empresa

Eu nunca me senti muito confortável quando chegava para trabalhar e uma pessoa do time de RH entregava uma flor ou um bombom no 8 de Março. Menos ainda quando muitos caras aproveitavam a ocasião para fazer a famigerada brincadeirinha “hoje é dia da mulher, do homem é o ano todo”. Geralmente, vinha daquele sujeito que assediava, intimidava e era inconveniente com as mulheres com quem convivia no ambiente de trabalho.

Não que eu não goste de flores e bombons. Adoro. Mas que venham de quem eu desejar. E respeito e consideração profissional devem ser estampados no holerite. Nas oportunidades iguais de ascensão profissional. Com os mesmos salários pelas mesmas tarefas e cargos – não os 75% do total do salário dos homens, segundo o IBGE e muitos outros levantamentos mundiais que calculam essa diferença entre 31% e 75%. No ano passado, a ong britânica Oxfam divulgou um relatório mostrando que a igualdade salarial entre gêneros só será alcançada em – tá sentada, miga? – 170 anos.

A mulher prova, a cada dia, que quando uma empresa a valoriza, ela também retribui com excelente trabalho, dedicação, vontade de melhorar o ambiente corporativo e lealdade. A corporação que entende que é imoral demitir após a licença-maternidade, que permite à colaboradora horários flexíveis, meio período, home office, entre outras formas de apoio para que ela equilibre carreira e o cuidado com os filhos, com a família, que paga salários justos e dá chance e incentivo para que lideranças femininas despontem, vai se dar bem. Não só reterá talentos e será desejada por tantas outras profissionais talentosas, como também verá seu lucro aumentar.

Empresas com mulheres em cargos de liderança têm 15% a mais de lucro em relação às concorrentes que não levam em conta a questão da igualdade de gênero na escolha dos gestores. O dado é de uma pesquisa do Peterson Institute for International Economics, de 2016, com base em 22 mil organizações em 91 países. Além disso, um levantamento da empresa de recrutamento Catho mostrou que existem características femininas que trazem dinamismo ao ambiente de trabalho:

-> Entregam tarefas no prazo e promovem mudanças estratégicas;
-> Vencem dificuldades e antecipam crises, mantendo as competências e lidando bem com cenários adversos;
-> São mais flexíveis diante de novas ideias;
-> Contribuem mais com sugestões;
-> Promovem a diversidade, que traz diferentes perspectivas e impactam positivamente no desenvolvimento das atividades do grupo.

Enfim, organizações com mulheres na liderança tendem a registrar melhor desempenho.

Mais um dado para não deixar ninguém em dúvida, heim? Pesquisa da multinacional Regus confirma que 57% das companhias acreditam que reter mães trabalhadoras ajuda a melhorar a produtividade. Essas profissionais são valorizadas pela experiência e transparecem maior confiabilidade e organização que outros colaboradores. Uma boa notícia num mundo em que muitas mulheres ainda levam um choque emocional quando voltam da licença-maternidade.

Divulgado em 2017, um estudo feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), com 247 mil mulheres entre 25 e 35 anos, apontou que metade das que tiveram filhos perderam o emprego até dois anos depois da licença-maternidade. No segundo mês após o retorno ao trabalho, a probabilidade de demissão chega a 10%. Imagina passar toda a gravidez insegura sobre o risco de perder o emprego justamente quando o bebê está prestes a chegar?

É conquista, não festa
O Dia 8 de Março, para quem não sabe, não é uma data aleatória para celebrar a mulher – como muitos ainda pensam. Se eu estou aqui hoje, escrevendo e falando o que eu penso sobre as empresas é só porque muito antes de mim, de você, mulheres abriram passagem, pagando muitas vezes com a vida. É conquista a ser reverenciada, com respeito.

Um pouco de história para vocês, amigxs, de todos os gêneros…

Em 25 de março de 1911 cerca de 130 operárias morreram carbonizadas em um incêndio em uma fábrica têxtil em Nova York. Um marco na luta feminista no século 20. Mas desde o final do século 19, organizações femininas nascidas entre as operárias da Europa e dos Estado Unidos já protestavam contra as jornadas de trabalho de 15 horas diárias, salários de fome e trabalho infantil comum nas fábricas.

Foram 1500 americanas que fizeram o primeiro Dia Nacional da Mulher surgir, quando aderiram a uma manifestação em prol da igualdade econômica e política, em maio de 1908. Em 1910, durante a II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas na Dinamarca, uma resolução para a criação de uma data anual pelos direitos da mulher foi aprovada por mais de cem representantes de 17 países. O objetivo era honrar as lutas femininas e obter apoio para o direito ao voto universal em diversas nações.

Mas foi em 8 de março de 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, quando 90 mil operárias se manifestaram contra o Czar Nicolau II, as más condições de trabalho, a miséria e a participação russa na guerra – em um protesto conhecido como “Pão e Paz” – que a data se consagrou. A oficialização do Dia Internacional da Mulher veio em 1921.

Vinte anos se passaram, e em 1945 a Organização das Nações Unidas (ONU) assinou o primeiro acordo internacional que para princípios de igualdade entre homens e mulheres. Nos anos 1960, o movimento feminista cresceu, em 1975 comemorou-se oficialmente o Ano Internacional da Mulher e, em 1977, o “8 de março” foi reconhecido oficialmente pelas Nações Unidas.

No Brasil, a partir dos anos 1970 surgiram organizações que passaram a debater a igualdade entre os gêneros, a sexualidade e a saúde da mulher. Em 1982, é criado o Conselho Estadual da Condição Feminina em São Paulo e, em 1985, a primeira Delegacia Especializada da Mulher.

Vocês podem conhecer mais detalhes sobre a data no livro As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres, de Ana Isabel Álvarez Gonzalez.

Como a gente sempre diz em Mulheres Ágeis, plataforma na qual sou uma das fundadoras (www.mulheresageis.com.br), temos muito para avançar. E se você quer saber como tornar sua empresa um exemplo em equidade de gênero e levar reflexão sobre a importância do empoderamento feminino para seu time, conheça o projeto MAG In Company (https://goo.gl/uZ9nQr). Palestras e workshops sobre o tema para impactar positivamente o ambiente corporativo com ações justas. Não é só cuidar da imagem da marca. É discurso, sim, mas para despertar consciência e virar prática.

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Para comprar meu livro Tem Dia que Dói – mas não precisa doer todo dia e nem o dia todo, acesse a loja virtual: https://temdiaquedoi.lojaintegrada.com.br/

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Cada momento da vida

Eu já me permiti um período absolutamente slow life. Tirei um sabático de sete meses quando a vida pedia reflexões, reavaliações e transformações profundas. Foi ótimo. Me dedicava ao mestrado, aos livros, a idas ao cinema, às viagens… Passava um tempo precioso e de qualidade com a minha família e meus amigos. Era 2012. Comecei ali a construir pedacinhos pequenos de realizações que se tornariam reais agora, nos últimos meses.

E, então, que esses tais últimos meses passaram a ser o completo oposto do período sabático. Mas também cheios de valor. Os planos idealizados na calmaria inauguraram dias repletos de acontecimentos, reuniões, gente nova, algumas frustrações naturais dos riscos, uma dose a mais de sangue frio para lidar com situações/pessoas, celebrações esfuziantes até das menores vitórias.

Parece que o que aconteceu há uma semana faz tanto tempo. O que ocorreu há meses se mostra absolutamente distante. Há toda uma estrada sendo construída com as pedrinhas do caminho. Que bom.

Tanto movimento hoje. As lembranças daqueles meses mais contemplativos. Cada momento da vida carrega sua preciosidade, seu ensinamento. A gente precisa é parar de lamentar os desafios que acompanham cada fase. Chega de “não sei”, “não quero”, “não mereço passar por isso”. Foca no “o que posso fazer”. Aprender a pedir ajuda quando necessário (e estar disposto a ajudar porque um dia todo mundo precisa ser ajudado) também vai fazer diferença, aliviar os temores.

Vai ser fácil? Não vai, não. Mas vai ser rico se você apreciar a jornada e enxergar tudo indo além de si mesmo.

Crédito da imagem: blog Eu Amo a Vida

A fluidez que vem dos valores

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Semana passada uma amiga que é coach me contou quanto é gratificante acompanhar o progresso de suas clientes (ela atende apenas mulheres). Disse que é bonito de ver os insights que as fazem mudar rumos, perseguir as metas de vida e profissão que de fato falam mais alto ao coração. Perceber que as meninas começam a “voar” quando entram em sintonia com seus valores e acreditam em potencialidades que elas mal se lembram que estão lá, sempre estiveram lá.

Gostei especialmente quando ela ressaltou que a vida flui quando a gente “roda o sistema” dentro dos nossos valores. Quando criamos projetos, trabalhamos ou nos relacionamos dentro de uma vibe que vai de encontro com o que realmente nos faz feliz. Isso nos energiza. E faz a gente ir em frente, e mais e mais, e não parar, e realizar, e concretizar e atrair quem soma e nos ajuda a crescer. Que nos dá leveza.

E o contrário? Bom, o contrário também é verdadeiro… Infelizmente. Aquilo ou quem nos coloca pra baixo, não está de acordo com o que nossos sentimentos dizem ser realmente importante e valioso, pesa. Torna cada movimento mais arrastado. Tira a energia. Não dá. Quer dizer, dá. Mas tem preço. Lembra dos seus valores? Os que iluminam sua alma, levam sorriso fácil ao rosto? Então… Vai bancar o preço de abrir mão do que te dá fluidez e transforma cada dia em uma oportunidade de alegria?

Um novo ano chega em breve pra você sair do padrão repetitivo, negativo – e acomodado. Pra rodar o sistema dentro de valores bonitos e deslanchar em coisas boas: amores verdadeiros, trabalhos gratificantes, uma saúde física e emocional forte, objetivos que desafiam a ser melhor, inclusive como ser humano. Também, quem sabe, pra parar de ser o que ou quem coloca os outros para baixo. Flua. Sem ilusões. Com coragem. Humildade. E finalmente você entenderá o que é se sentir realizado(a).

Crédito da imagem: Frases do Bem

Compre on-line o livro “Tem Dia Que Dói”, de Suzane G. Frutuoso

Lançado em setembro, o livro “Tem Dia Que Dói – Mas Não Precisa Doer Todo Dia e Nem o Dia Todo”, de Suzane G. Frutuoso, jornalista, escritora e autora do blog Fale Ao Mundo, pode ser adquirido on-line no link http://temdiaquedoi.lojaintegrada.com.br/. Veja resenha abaixo:

Como levantar da cama quando a primeira coisa que vem à cabeça ao abrir os olhos é um sofrimento? Não tem jeito. Tempos de felicidade se alternam com períodos de tempestades. É o ciclo natural da vida. Mas como fazer o coração (e mesmo o corpo) compreender que, simplesmente, faz parte? Porque tem dia que dói… E dói tanto que a dor chega a ser física. Falta o ar direito. Falta força pra arrumar a postura. Falta vontade de continuar a caminhada. A obra traz crônicas sobre relacionamentos e questões cotidianas; alegrias, desafios e afetos. E como lidar com tudo isso em tempos de incertezas socioeconômicas e instabilidades de comportamentos e sentimentos. É como se autora estivesse sentada num café conversando com um grande amigo (nessa caso o leitor), contando histórias e refletindo sobre como superar os obstáculos quando nos vemos diante deles. Editora Volpi & Gomes. 160 páginas. R$ 28,50.

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Suzane é jornalista formada pela Universidade Católica de Santos (Unisantos), mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e especialista em Comunicação Corporativa pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Foi repórter nas revistas Época e Istoé, repórter especial no Jornal da Tarde (Grupo O Estado de São Paulo), e editora-chefe da revista Gosto (do segmento de gastronomia e estilo de vida). Hoje atua como assessora de comunicação corporativa em São Paulo. Criou o blog Fale Ao Mundo (www.faleaomundo.com.br) em outubro de 2012, que deu origem ao livro.

Charlotte, a viralatinha

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Aquela é uma das lembranças mais tristes que tenho da vida. Uma lembrança triste, bem no doce período que deveria ser a infância. Ainda hoje me recordo dos olhinhos vidrados, direcionados à minha mãe, que chorava e massageava o coraçãozinho dela. Estava deitadinha, enrolada num cobertor, embaixo da cristaleira da sala de jantar. Minha vó Lourdes também chorava muito, assim como meu irmão e eu.

Soraia, nossa cadelinha Basset, morreu de problemas cardíacos já velhinha, quando eu contava uns 4 anos. Apesar da pouca idade na ocasião, a imagem se manteve muito clara na minha memória. E como doeu em toda a família. Especialmente na minha vó, que ficara viúva há cerca de um ano.

Desde então, cresci numa casa cheia de gatinhos abandonados. De tempos em tempos, lá apareciam eles na nossa porta. Eram bem cuidados, com carinho. Mas cachorro nunca mais. A mãe não queria de jeito nenhum. Não que a dor pelo adeus aos gatinhos fosse menor. Mas nunca aconteceu em situação tão dramática quanto a morte da Soraia.

Só agora, poucos anos atrás, o pai e a mãe herdaram duas cadelinhas que eram de uma senhora amiga da minha vó. Já eram velhinhas… Faleceram também… Pai e mãe ficaram tristes… Quando foi a Bolinha o pai até chorou escondido no jardim. Mas lá já está a Potiche, mais uma gatinha abandonada que apareceu na casa dos meus pais, toda fofa, meiga e fazendo companhia a eles.

Tirando essa experiência de conviver com os bichos, nunca tive de fato responsabilidade de cuidar de nenhum. Nunca tive animalzinho no meu apê onde moro há dez anos. 2016, no entanto, anda cheio de surpresas bonitas do destino. E essa lindeza aí da foto é minha pequena vira lata, a Charlotte. Aliás, Charlotte Skyla. O primeiro nome foi escolha minha. O segundo, do meu sobrinho – que se inspirou em uma mestra Pokemón (???).

Charlotte é sapeca. Uma espoleta. É bebê, de quatro meses, e acha que a vida é brincar. Tá certa ela. Dorme bem a noite toda sem chorar. Faz as necessidades direitinho no pipi dog que comprei. Precisa aprender a morder só os brinquedos dela – não os móveis! Faz essa cara linda quando leva bronca, mas também quando recebe carinho. E retribui com lambidinhas. Meu irmão e minha cunhada que resgataram ela da rua. O melhor presente que ganhei nos últimos tempos. ❤

Charlotte já mostra a que veio: me ensinar um novo tipo de responsabilidade, a contar com uma companhia diferente no meu dia a dia, a educar com paciência e a ter o coração partido quando é preciso deixar a bolinha de pelo sozinha quase o dia todo. Mas o coração também fica mais em paz quando lembro que ela não é mais um bichinho perambulando pela rua tentando sobreviver à incerteza.

Com minha viralatinha meus dias ficaram ainda mais agitados! Mas enquanto escrevo tenho um quentinho enrolado no pé, aqui embaixo da cadeira. E ganho esse mesmo quentinho encostado na perna enquanto assisto Netflix e ela rói o osso, ambas esparramadas no sofazão.

Chega a hora de dar boa noite. Ela me olha com esses olhos expressivos quando a coloco na caminha lilás e florida. Um afago na patinha, uns beijinhos na cabeça e percebo os olhinhos me fitando de novo, cheios de reconhecimento e afeto, que já nem me vejo mais sem. Então, só consigo desejar: viva muito, por favor. ❤

Banho de mangueira (e todas aquelas diversões simples que você deixou se perder)

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Sábado de sol no interiorrrr. 30 graus. Nada de correr vento. Coloquei o biquíni, passei filtro solar, ajeitei os óculos escuros, escondi a garrafa d’água numa sombrinha. E lá fiquei eu, largada na espreguiçadeira. Não era piscina. Era o gramado do quintal mesmo. É das coisas simples da vida que me fazem bem, me divertem. Sol na pele. Me energiza.

Mas o calor do interiorrrr… Pra combatê-lo, tive uma grande ideia. Banho de mangueira! Claro! Não tinha piscina, fui de esguincho! Meu namorado, que achou graça na situação, me ajudou. Mirou o jato da água fresquinha em mim. Foi tão bom quanto um mergulho.

Logo lembrei das vezes que minha vó me deu banhos de mangueira para combater os dias quentes de quem foi criada em cidade de praia. Também daquela clássica piscina de plástico, Regan, que meu pai montava nas férias pra mim e meu irmão. Quantas Barbies, Falcons e Playmobils nadaram ali com a gente. Às vezes, o pai e a mãe entravam junto, família inteira. Parecia um banheirão, pequena pra todo mundo. Diversão garantida.

Banho de mangueira. Família espremida na piscina de plástico. Castelinhos na areia da praia com a vó ou as tias. Tomar sol. Jogar queimada na rua no fim de tarde (com sol mais baixo já, dizia a vó). Ir no clube domingo só com o pai – que deixava a gente almoçar coxinha com Guaraná. Noites de verão com a cadeira de praia no portão pra conversar ou caminhada no calçadão à beira mar.

Lembranças boas de infância. E olha que essas são só as de verão! Tanta coisa simples e gostosa que a gente já fez nessa vida… Se divertiu de verdade com tão pouco e na companhia de pessoas queridas…

Um dos nossos maiores erros é deixar que se percam essas alegrias singelas, mas que são as que guardamos na memória com mais carinho. Aqueles momentos que não foram caros e nem glamurosos, mas cheios de amor envolvido.

Vou continuar achando bacana nadar na piscina infinita de um hotel bonitão. Voltarei, porém, a prestar atenção e dar valor a um engraçado e refrescante banho de mangueira, por exemplo. Aliás, em tempos de economia apertada, é uma ótima ideia redescobrir programas simples, baratinhos, nos quais o que importa mesmo é a companhia. Os blocos de rua do Carnaval, que ninguém paga nada pra brincar, estão aí pra provar isso. 🙂

Valorizar a simplicidade também ajuda a fazer uma faxina emocional. A entender o que é realmente essencial nos nossos dias. O que nos traz equilíbrio. Receito a você pelo menos um banho de mangueira por semana (ou algo do gênero). Receito um resgate urgente das diversões e alegrias simples. São boas soluções para recarregar as energias e nocautear os desafios.

Crédito da imagem: Blog Vai Pra Rua Menino

A mentira como violência

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Sempre pensamos na violência como algo que machuca fisicamente. De uns anos pra cá, e muito graças a mais debates, informações e ações em relação à violência doméstica e contra a mulher, a sociedade passou a compreender que xingamentos, humilhações, intimidações, agressões verbais são também tão violentas quanto os ataques que deixam marcas roxas, tiram sangue.

É o criticar de um jeito que coloque pra baixo, que envergonhe. É usar palavras de baixo calão para se referir ao outro. É, ao ser minimamente contrariado, se virar contra o interlocutor com estupidez, arrogância, menosprezando, tentando amedrontar, botar medo, impor silêncio, fazer calar.

A violência psicológica, portanto, é um mal a ser combatido e que deve ser tratado com a gravidade que lhe cabe. E não é fácil. Especialmente em relacionamentos amorosos. Porque a pessoa que sofre as agressões costuma acreditar que aquele a quem ama pode mudar, pode melhorar, pode perceber os erros que comete e se arrepender sinceramente. Acredita que amando ensinará esse alguém a amar. Mas existe quem nunca seja capaz de amar, ou porque não conviveu com amor na educação que recebeu, ou por mau-caratismo mesmo, pelo prazer doentio de transformar aquele que lhe dirige bons sentimentos em vítima de sua perversidade e/ou imaturidade.

Mas há uma outra violência tão grave e prejudicial quanto as anteriores: a da mentira. Normalmente, não enxergamos a mentira como uma violência, mas como farsa, enganação, traição. Sim, ela é tudo isso. Mas é também violência. Ficou claro pra mim como a mentira é uma agressão emocional acompanhando uma história bem triste.

Uma amiga querida levou longe demais um relacionamento em que o cara fez o que citei antes: xingou, humilhou, intimidou, mandou ela se calar. Era só ter uma opinião diferente, o sujeito virava bicho. Não bastasse, ainda mentia. Ela notava mudanças de comportamento bruscas, atitudes sacanas, informações que não batiam, desencontradas, reações faciais que escancaravam as inverdades. Achou que era bobagem, “coisa de homem”. Tudo foi se acumulando. As trocas de olhares com outras mulheres, as viagens a trabalho em que desaparecia sem dar sinal de vida, as idas ao banheiro com o celular (que tentava esconder quando de lá saía), a necessidade de, de repente, trabalhar até mais tarde.

Ela tentava conversar, ele levantava a voz. Dizia que ela era ciumenta demais e que a largaria. Vejam. Ela não o acusava. Pedia para conversar. Mas ele se transformava, mudava de assunto, jogava nela a culpa de seu nervosismo. Era só não perguntar nada. Aceitando de cabeça baixa, as coisas correria bem, seriam felizes.

Até que ela pegou de fato uma traição. Juntou os pontos. Posts de redes sociais, horários e idas a lugares diferentes, fotos, mensagens. Bingo: conhecidos em comum. História mais que confirmada. Questionou. Não só ele não respondeu à indagação, como disse que ela era louca, que não o merecia. Virou o jogo. Mas enquanto o fodão achou que estava abafando, tratando a situação como um grande teatro, por dentro ela foi desmoronando diante da perplexidade do que ele se mostrava capaz, da maneira como agia sem escrúpulos. Insistindo que nada daquilo existia. Era o ator principal, narcisista e megalomaníaco.

Esse abuso psicológico tem nome. Gaslighting é uma forma de agressão emocional na qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade. Casos de gaslighting podem variar da simples negação por parte do agressor de que incidentes abusivos anteriores já ocorreram, até a realização de eventos bizarros pelo abusador com a intenção de desorientar a vítima. https://pt.wikipedia.org/wiki/Gaslighting

Ela mostrava as evidências. Ele dizia que ela precisava ser internada. “Ciumenta doentia, burra e louca, é o que você é”. Disse que a perdoava, era só seguir em frente e não apurrinhar mais. Se calar, com sorriso no rosto (e alma dilacerada). Ela deixou pra lá. Deu outras chances. Outras, no plural, porque ele sempre pisava na bola de novo e de novo, na certeza e na imaturidade de que a enganaria sempre.

Então, com tristeza e algum distanciamento, ela compreendeu que não adiantava… Por vezes, parecia que ele tinha uns lampejos de consciência, procurava melhorar mesmo, virava um cara bacana. Nunca durava muito tempo. Voltava a “brincar” de vida de solteiro quando ela não estava por perto. Só que o infeliz era tão amador que facilmente era desmascarado. O preço foi ficando alto demais pra ela.

Chorou muito, desesperada por amar alguém que não merecia. Um fraco, pra dizer o mínimo. Fiquei com o coração partido de ver a cena. Recordei que passei por situações bem semelhantes às que ela descreveu… E como dói… Fiz com que olhasse para o espelho enquanto enxugava as lágrimas e dissesse em voz alta todas as qualidades incríveis que tinha. Aquela mulher linda, inteligente, divertida, querida pelos amigos, amada pela família, perdera o brilho que lhe era tão característico. Insisti para que lembrasse quem ela era. Foi ficando mais calma e confiante. Quando nos despedimos, fiquei feliz por vê-la certa de que o destino preparava uma linda surpresa, um recomeço. De que o melhor ainda estaria por vir.

Se você que lê agora esse texto se identifica, enfrenta uma história parecida, sinta-se abraçada(o). Pra você também, o melhor está por vir. Tenha só a coragem necessária de seguir em frente, cuidar da saúde emocional com a ajuda da família, dos amigos, de uma terapia. Trace novos projetos de vida.

Já se sua identificação é com o o outro lado da história, peça e aceite ajuda psicológica o quanto antes, enfrente seus demônios internos, seus traumas do passado. Não afaste quem te ama produzindo tanta dor. 2016 pode ser o ano do castigo, ou da cura, da redenção. Escolha se quer viver na ilusão de que mentir lhe dá algum poder (e acabar sozinho(a) e detestado(a)) ou construir um caminho bonito de verdade. Com pessoas e sentimentos reais.

P.S.: Minha amiga já está bem feliz, com um cara super bacana e que a trata como a querida linda que ela é, do jeitinho que sempre mereceu.

P.S.2: O algoz foi desmascarado não só na vida pessoal, mas também no trabalho. Perdeu emprego e está lidando com o desprezo daqueles a quem enganou. Aqui se faz…