Além de educação, aprender a pensar

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Uma vez uma pessoa me perguntou se, caso eu pudesse definir verbas de governos, para qual área destinaria mais recursos: saúde ou educação? Acredito de verdade que saúde é a coisa mais importante na vida. Com ela, a gente corre atrás do resto. Mas sem educação, uma das muitas consequências é, inclusive, não saber cuidar da saúde.

Na ocasião, então, minha resposta foi educação. E minha convicção só aumenta. Com uma ressalva importante – não me interessa apenas a educação formal para todos que é incapaz de levar o sujeito a refletir. A clássica decoreba pra passar de ano vem perdendo força no ensino e dando lugar à reflexão. É o que forma cidadãos questionadores, conscientes de seus direitos, deveres, limites e liberdades. Mas essa é uma realidade nas escolas particulares de elite. Aparece muito pouco nas redes públicas.

Enfim, há avanços, cujos resultados demorarão algum tempo pra aparecer. E ainda não dá pra saber se de fato essa educação “pensadora” vai se expandir para todas as classes. Mantenhamos o otimismo. Enquanto isso, é de chorar o tanto de opinião destrambelhada que a gente ouve por aí. Eis um dos ganhos que as redes sociais trouxeram: escancarar o quanto somos despreparados e ignorantes.

Não falo aqui de gente que não teve a chance de estudar, não. Tô falando de gente que frequentou bons colégios, gente pós-graduada, viajada. Mas que, apesar dos diplomas, não consegue fazer uma observação “fora da caixa”. Só enxerga o mundo por uma ótica simplista demais, não faz conexões da realidade, de como uma situação puxa a outra. Por exemplo, que violência tá sim ligada aos padrões de uma sociedade consumista, que dá tanto valor e julga pela aparência e por questões materiais. A arma na cara na hora do roubo é impulsionada por desejos e instintos alimentados pela desigualdade.

Em ano de eleição (e não só de Copa!), me impressiona quanto ainda as pessoas não têm a menor ideia de como funciona a divisão das responsabilidades de governos municipais, estaduais e federal. Falam mal da presidente por um problema que é municipal. Xingam o prefeito por uma questão estadual. Detonam o governador que não pode se meter numa determinação federal. E esquecem completamente a poderosa força de deputados e senadores e como eles dão as cartas no jogo.

Taí algo que nem de longe aparece na educação do brasileiro: política. Especialmente de uns cinco anos pra cá, surgiu uma enorme preocupação com educação financeira nas escolas. É mesmo essencial. Quem sabe lidar com dinheiro não se endivida, se mantém em segurança, ganha a chance de realizar sonhos e ter uma vida mais tranquila. Mas conhecer política é ter nas mãos a oportunidade de decidir melhor pra onde caminhará nosso país e saber de quem cobrar os erros.

Por fim, era bom que nossa educação nos ensinasse também a avaliar situações com generosidade. Nos últimos dias choveu no Facebook posts sobre todos os motivos pra ser contra o Bolsa Família, dizendo que tem gente que se aproveita do benefício pra levar vida mansa. Numa nação corrupta (lembrando que é corrupta porque nós também somos no cotidiano) é claro que alguém vai se aproveitar. Não significa ser a regra.

Pesquisa indicam, por exemplo, o empoderamento de mulheres que recebem o benefício. Menos dependentes financeiramente, elas puderam colocar pra fora de casa homens que as espancavam e exigiam que os filhos trabalhassem ou mendigassem ao invés de estudarem. Como a gente é preconceituoso demais, também tem o outro triste lado. Um levantamento da Organização Internacional do Trabalho diz que essas mesmas mulheres são vistas no mercado de trabalho como preguiçosas. É, no mínimo, injusto e generalista. É a tal ótica simplista.

Preguiçoso é quem tá com a faca e o queijo na mão desde sempre, teve todas as oportunidades, mas não se dá ao trabalho de estudar, analisar, debater e buscar informações coerentes pra fazer escolhas mais conscientes e uma sociedade menos doente. Ativismo de Facebook tem pouca valia se você não sabe (e nem quer) compreender como fazer a sua parte de verdade.

Crédito da imagem: Creative Commons

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