Pensamentos, emoções e a direção de nossas vidas

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“Nascemos com Deus e o demônio dentro de nós. São os potenciais da bondade e da maldade. A jornada espiritual é a regulação desses dois aspectos: intensificar os estados mentais positivos e mitigar os destrutivos. Nosso esforço deve ser por alimentar os aspectos positivos para sentirmos paz e bem-estar. A emoção que nutrimos é a que ganha, que se transforma em hábito, em comportamento.”

Ficamos lá, uma ao lado da outra, num exame de consciência e também de avaliação daqueles que nos são próximos. Eu e minha melhor amiga passamos o último sábado na palestra do monge budista Geshe Dadul. O seminário foi organizado pelo Tibet House Brasil, centro de estudos e práticas tibetanas em São Paulo. Geshe explicou, com bom humor e leveza, como pensamentos e emoções influenciam-se mutuamente e determinam a direção que tomamos nas nossas vidas; como podemos regular as emoções com base nos nossos pensamentos e percepções de que algo não vai bem, que determinada situação nos faz muito mal.

Trocávamos olhares cúmplices quando o monge descrevia uma situação semelhante a que uma das duas passou, ou parecia falar de alguém do nosso convívio e – a mais difícil das tarefas – quando era o nosso pior mesmo que ele parecia apontar.

A descrição sobre a raiva foi das que mais nos impressionou: “Um episódio de raiva é a percepção distorcida da realidade. E pelo fato da emoção distorcer a realidade, nossa reação também está afetada. A capacidade de saber agir certo ou errado é sabotada. Quando somos tomados por uma emoção destrutiva, ainda que a gente não queira, não consegue responder de forma acertada.”

Conversamos depois, tomando café e entre um doce português e outro, sobre essa mania que temos de projetar nas pessoas e situações muito mais do que de fato está sendo oferecido. E como acabamos bravas, decepcionadas. Do quão complexo é tomar a perspectiva do outro e ser mais flexível ou, até mesmo, simplesmente desapegar.

Geshu deixou como lição a prática da meditação. De fato, quando eu fazia ioga e meditava todo dia, me achava um ser humano melhorzinho… Me concentrava com mais facilidade, inclusive. Prometemos que vamos tentar. Cinco minutinhos a noite, pelo menos, pra (re)começar. Geshu explicou: “Meditação é investir na educação do nosso coração. Então, percebemos ela (a raiva) chegando e sabemos o que acontecerá antes mesmo de surgir. E corta. Você não é varrida pela emoção.”

Vale para tudo o que o monge chamou de estados mentais obsessivos: inveja, ciúmes, ganância, vingança, agressividade e todas as sensações que não levam a nada, só nos fazem perder tempo e saúde emocional. Para minimizar essas reações na gente e também compreender quando alguém age tomado por esses sentimentos. É uma caminhada longa de compreensão e perdão. Mas ainda dá tempo. Vamos lá.

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Um retrato

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“Tomara que seja eu…” Observando a foto demoradamente, depois de me emocionar com a primeira olhada sobre ela, essa foi a frase que me veio à cabeça. Senti o sorriso do rosto perdendo força. Um aperto no coração, resultado da percepção do que se tornará óbvio. A imagem é linda. Céu azul pincelado por nuvens bem branquinhas. Aquelas que ameaçavam chuva logo foram embora. Contraste com a grama verdinha do parque. Todos juntos. Inclusive os bebês que já nasceram pra aumentar a turma.

Era um encontro de amigos muito especial, com a graça de um piquenique. Conseguimos nos reunir numa tarde de calor de mais de 30 graus pós-Natal. Gente que mora em São Paulo. Gente que mora no Rio. Gente que mora nos Estados Unidos. Gente que mora na França. Estávamos lá, todos juntos. Trocando ideias, as últimas experiências, novidades bonitas. Todos juntos naquele instante congelado.

“Tomara que seja eu…” Meu pensamento era egoísta. Dizem que às vezes dá até medo de ser muito feliz. Porque quando acaba a felicidade é sinal de que apareceu a tristeza. E a idade, o tempo, vão reforçando uma verdade inevitável: um dia não estamos mais aqui. Pior: aqueles que amamos podem ir embora antes de nós. Já perdi muitas pessoas amadas da família em quase 35 anos. Algumas, bem jovens e em situações trágicas. Mas Deus, o universo, o destino (ou seja lá quem for o responsável) me preservou a alegria de nunca ter que me despedir eternamente de um amigo.

A questão é que um dia (que seja distante, por favor) isso vai acontecer. Temos prazo de validade e nossa finitude é a única certeza da vida. Vocês devem estar achando esse texto mórbido. Não é. É declaração de amor. Amor por todas as vezes que eles estiveram ali, me estenderam a mão, bateram boca comigo, riram das minhas confusões, me seguraram da queda, me empurraram pra seguir em frente. “Amigos são a família que a gente escolhe”. “Amigos são como uma segunda família”. “Há amigos que se tornam irmãos.” Como discordar de tais ditados?

Aproveitei pra passar uns bons minutos analisando outras fotos, com outros amigos queridos. Lá estava o aperto no coração, o sorriso perdendo força, o pensamento “tomara que seja eu”. Fechei álbuns, tela de computador e pedi: “Deus, sei que temos nossos embates, que te provoco com certas malcriações. Mas se você tá ouvindo (e muita gente sempre me diz que você tá), vou pedir, por favor, que preserve meus amigos queridos na minha vida por longos anos, pelo passar das décadas. E na hora que já não pudermos mais estarmos aqui, por favor, que não seja eu a contabilizar aqueles que já não mais estão nas fotos. Tomara que seja eu a primeira a partir. Porque sem eles aqui eu não aguento o tranco. Obrigada. Desculpe qualquer coisa. Obrigada mesmo”.

Tomara que seja eu. Tomara que demore muito pra todos nós. Tomara que saibamos aproveitar cada minuto que nos é presenteado. Tomara que novos e constantes encontros aconteçam. Mas principalmente, egoisticamente, tomara que seja eu.

Crédito da imagem: Photography

Minha fé em “rehab”

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Juro que o post de hoje é apenas coincidência. Não foi a chegada do Papa Francisco ao Brasil que me motivou a escrever sobre fé. Há alguns dias eu já me preparava pra falar sobre esse que é um tema delicado e, pra mim, atualmente confuso. Mas confesso que ver a comoção das pessoas nas ruas, como se o pontífice fosse um astro (ou é e por isso é pop?), me ajudou a pensar em que momento minhas crenças ficaram abaladas. Senti uma pontinha de inveja dos jovens que enxergavam no evento uma renovação de esperanças. Me emocionei com as mães e pais que acreditaram que, após uma benção papal, seus bebês, de agora em diante, seriam mais protegidos do que nunca. Desejei um pouco o brilho nos olhos que o otimismo de estar tão próximo a uma forte e carismática figura institucional provocava em milhares.

Digam o que for, Francisco tem um ar de bondade sincera. E quem de nós não sente algum conforto em saber que ainda existe gente boa no mundo? Claro, importante lembrar sempre que não é religião que torna alguém melhor ou pior. Conheço muito ateu de bom coração e verdadeiramente solidário, que não faz o bem porque, do contrário, vai parar no purgatório (ou inferno, ou umbral, ou afins). É do bem por acreditar ser o correto. Enquanto isso, também não falta gente que ora, que pede, que agradece a todo tipo de entidade, mas não pensa duas vezes antes de ser maledicente, de prejudicar o próximo. Nada de transformar, portanto, religião em sinônimo de caráter.

Mas é inegável que a crença de que há uma força maior, de que não estamos sozinhos quando assim parece, que as dificuldades são ensinamentos que nos preparam para tempos mais felizes, traz alento. E, às vezes, só essa sensação de paz de que nem tudo está sob nosso controle já ajuda muito a seguir em frente com mais determinação. Os azedos vão dizer que é jogar a responsabilidade das nossas escolhas no além. É verdade que ninguém provou cientificamente que Deus tá aí. Mas ninguém também conseguiu provar que Ele não tá.

E quase todo mundo tem uma história pessoal de um acontecimento que a razão não explica: uma doença incurável curada, uma ajuda inesperada (caída do céu?) quando tudo parecia perdido, uma ligação forte com outra pessoa e que “adivinhamos” quando ela precisa de auxílio… Assim vai… Sim, pode ser a intuição atuando. E quem disse que a intuição não é obra de Deus, que usa nossa mente pra nos comunicar o que ainda não compreendemos? Não sou eu quem vou dizer nem que sim e nem que não. Só sei que a minha funciona feito uma antena parabólica. Abençoada? Quem sabe…

Quando a vida pesa, me parece, vamos aos extremos: ou nos agarramos à fé com todas as forças, rezando a anjos e santos, ou a perdemos de vez, acreditando mais no que é racional, concreto, paupável. Por motivos pessoais, precisei acreditar muito na capacidade da ciência recentemente. E era tanta coisa pra entender, tanta coisa pra questionar e achar resposta certeira, que fui deixando minha fé de lado. As atitudes de algumas pessoas também reforçaram meu distanciamento das crenças positivas. Aliás, o comportamento da sociedade em geral não anda ajudando muito a gente a acreditar no melhor.

Mas enquanto eu proclamava aos quatro ventos que, sinceramente, o que me valia era acreditar em mim, amigos muito espiritualizados me ouviam com paciência e sempre diziam “vou rezar por você”, entre outras palavras de apoio. Ficava meio brava. Entendia como um minimizar dos meus problemas, como se com magia eles pudessem ser resolvidos. Agora que tudo vai entrando nos eixos, humildemente perguntei a esses amigos se, nesses meses todos, eles rezaram por mim de fato. “Todos os dias.” “Claro, Su!” “Coloquei seu nome toda semana na caixinha de passes”. Amigos católicos, evangélicos, kardecistas, budistas… Eles se preocuparam em enviar pra mim carinho e bons ventos em forma de oração. Como perder de vez a fé? Será que não é Divino encontrar tanta gente generosa no meu caminho? Gente que tanto me quer bem?

Enfim, continuo batendo boca com Deus. Mas já menos do que antes. Voltei a agradecer ao meu anjo da guarda – porque olha, eu faço ele trabalhar, viu? Minha fé, acho, tá numa espécie de “rehab”. Percebo que a frase que vivem me dizendo “tudo acontece no tempo de Deus” vai ganhando sentido de novo. A ver… De qualquer maneira, sou obrigada a agradecer muito (a Ele, a Darwin, ao universo) as boas pessoas que sempre cruzam meu destino, crentes ou não.

Crédito da imagem: Max Brum

Todo meu respeito aos ateus

Quem me conhece bem sabe que eu sou daquelas que acende vela para o anjo da guarda, reza quando acorda, sou chegada num passe, volta e meia pede uma força pra São Jorge e, quando o bicho pega, em última instância, troca uma ideia direto com Deus – porque eu sempre acho que Ele tem mais o que fazer. Então, não peço ajuda pra qualquer coisa.

E já fui ver de perto tudo quanto é religião. Visitei igreja católica romana, católica ortodoxa, evangélica de diferentes segmentos, centro espírita, terreiro de umbanda, mesquita, sinagoga, templo budista… Tenho amigos de todas essas crenças (e de outras). Pra mim, entender como funcionam as religiões sempre foi uma maneira de compreender também as pessoas, suas escolhas e suas posturas.

Nada disso, porém, me faz acreditar que seja possível trocar sessões de quimioterapia por uma novena. Ou que um passe espiritual coloca fim a uma depressão. Ou que fazer oferenda pra santo é capaz de tirar alguém de uma cama de hospital. Eu não questiono aqui o poder da fé, independentemente de como ela é manifestada, como um impulso pra acreditarmos na cura, em dias melhores. É comprovado (cientificamente) que oração, crença numa força maior, são aliados importantes em processos de recuperação. Mas sem a ciência, o espiritual, sozinho, não dá conta da matéria.

Ser religioso também não faz alguém necessariamente um ser humano de caráter. Fui criada na religião católica. Cansei de sair da missa, não dar cinco minutos, e as pessoas, que louvaram tanto, já começavam a falar mal umas das outras (é bem fácil ver isso em cidades menores). E aqueles que não perdem um culto, mas enganam descaradamente, são desonestos? E não. Não adianta meditar, ser médium, ser casto, não beber, não fumar, realizar cinco orações diárias, dar dinheiro para as obras de caridade do padre/pastor/rabino, colocar a farofa bonitinha na encruzilhada, se você nem cumprimenta o porteiro, se não trata bem seus funcionários, se é um pai/mãe ausente, se é arrogante e se acha dono da verdade.

Por isso tudo, gosto cada vez mais dos ateus. Quase todos os que eu conheço (há uma exceção) são livres de hipocrisias, são mais abertos ao convívio com pessoas diversas, parecem aceitar melhor que ninguém está livre de falhar. Eles sabem enxergar os potenciais do ser humano como algo interno, não como um presente divino. Geralmente, é gente legal, que não julga os demais pelo comportamento.

Eles estão saindo do armário, especialmente nas metrópoles como São Paulo, onde a diversidade é mais bem aceita. Mas nossa sociedade, pra tudo que não é padrãozinho, ainda é bem chinfrim. Os ateus sofrem bastante preconceito, como se fossem seres inacabados, sem coração, sem sentimentos. Tudo bobagem. Eles podem ser os melhores amigos do mundo. São aqueles que te ajudam a enxergar as situações de uma maneira racional – o que não significa sem afeto.

Não conheço nenhum ateu que não seja inteligente. Graças a muitos deles a medicina avançou, as ciências exatas e humanas chegaram a descobertas fundamentais, a tecnologia está a serviço de todos e a criatividade ultrapassa todas as barreiras. Há uma lista interminável de grandes figuras, em tempos diferentes da História, cujo ateísmo não as impediu de fazerem o bem, de causarem enormes transformações em suas áreas: o cientista Albert Einstein, o empresário Bill Gates, o artista Charles Chaplin, o músico David Bowie, o vocalista do Pearl Jam Eddie Vedder, o escritor James Joyce, a atriz-diva Katharine Hepburn, a política chilena Michelle Bachelet, etc. Só para citar alguns. Tem mais aqui: http://ateuativo.wordpress.com/ateus-famosos/. Viu quanta gente que não precisou crer num algo a mais do universo pra fazer coisas boas na nossa sociedade?

Eu acredito numa força maior que me ajuda a seguir pelos melhores caminhos, a fazer escolhas. E olha que minha fé já foi testada… Não tenho uma explicação exata para o que eu sinto. Só sei que, pra mim, faz sentido. Mas é isso: pra MIM. Um amigo ateu me disse outro dia: “Não preciso escolher as pessoas do meu convívio porque elas pensam e sentem o mesmo que eu”. Tá aí. Essa é uma postura bem de ateu. E é assim que eles ganham a cada dia todo o meu respeito. Acho até que vou pedir a Deus pra encontrar mais gente assim por aí.

Credito da imagem: Cultura Inquieta