A educação financeira empodera as mulheres

Um dos motivos no topo da lista das mulheres que não conseguem se separar de homens que as agridem está a dependência financeira. Não ter para onde ir, não conseguir criar sozinha os filhos. Antes de apontar aquele dedo julgador, lembre que muitas estão fora do mercado de trabalho há anos. Tantas outras continuam ganhando menos do que seus pares masculinos, mesmo que executem as mesmas tarefas. Há as que estão distantes das famílias de origem. Não é simples. Mas o que importa é que a falta de dinheiro é um dos fatores que as deixam reféns da violência doméstica. São cerca de 34% das mulheres agredidas, segundo levantamento do DataSenado.

Ao mesmo tempo, quando nossas finanças estão bagunçadas, a vida bagunça. Quando nos endividamos, vem a preocupação constante e a dificuldade de se concentrar no trabalho, nas atividades cotidianas, nos relacionamentos pessoais. Não vale o desgaste, não. Mais vale aprender a se controlar, a poupar e – mágica das mágicas – investir para o dinheiro render, trabalhar para você, crescer e aparecer.

A mulher economicamente empoderada é mais forte para dar fim a relacionamentos abusivos. Tem mais poder de escolha, de decisão, pessoal e profissional. A mulher que lida bem com seus recursos financeiros tem mais conforto, segurança, capacidade de realizar os mais diversos sonhos. Viverá uma aposentadoria mais tranquila. Vivemos mais anos do que os homens, é bom não esquecer.

Então, não só guarde – pelo menos! – entre 10% e 20% do que você ganha, como estude investimentos, foque na educação financeira. A partir de R$ 30 é possível investir no Tesouro Direto, um produto de renda fixa. Em muitas cidades brasileiras esse é o preço de uma ida à manicure, gente. Dá pra fazer a unha a cada 15 dias, não toda semana, e já usar esse valor, hein?

Eu, como talvez você, não sou expert em finanças – ainda! Mas sempre fui poupadora, separando uma parte dos meus ganhos para reservas de emergência e (o que eu mais gostava) meu fundo viagem que me permitiu conhecer muitos outros países. Metade do meu primeiro salário, como professora de balé para crianças, aos 16 anos, já foi guardado. E assim se tornou um hábito até hoje, nos meus 39 anos.

Foi graças a uma reserva financeira que pedi demissão no final de 2016 para me tornar empreendedora. Fico livre da preocupação com os boletos enquanto meus negócios dão seus pequenos mas constantes passos? Não. Mas saber que tenho como me manter, mesmo mudando parte do estilo de vida, cortando gastos, me permite fôlego para as coisas se estruturarem.

A Renata Leal, minha sócia, também começou a poupar cedo, ainda adolescente, quando ajudava a mãe de uma amiga a vender cosméticos. E ela também sempre fez o fundo viagem e saímos por aí pelo mundo juntas: Nova York, Paris, Amsterdam, Bruxelas… Já nem me lembro mais a lista! Bem antes de mim, no entanto, a Rê entendeu que existiam meios de fazer o dinheiro crescer, a importância de saber investir. Com esse conhecimento ela estruturou o – modéstia à parte – excelente workshop MAG Finanças, de Mulheres Ágeis, plataforma de inspiração e capacitação para mulheres, que é um das nossas frentes de negócios.

No workshop, que realizamos tanto para pessoas físicas quanto para empresas, Renata conta o que está por trás do comportamento feminino em relação às finanças, da maneira de gastar, influências históricas e sociais e – cereja do bolo! – quais são os tipos de investimentos que existem, as vantagens e desvantagens de cada um, quais são as corretoras para começar facilmente on-line, entre outras sacadas.

No dia 14 de abril, numa manhã de sábado, teremos mais uma edição do MAG Finanças em São Paulo, dessa vez com foco em investimentos de uma maneira mais detalhada. Todas as informações aqui nesse link: https://goo.gl/vRiJVd

O empoderamento econômico feminino é uma das nossas principais bandeiras em Mulheres Ágeis. E estamos bem acompanhadas na nossa certeza. Empoderar economicamente mulheres no mundo todo é uma das metas nos próximos 5 anos do W20, o grupo de mulheres do G20 (que concentra os países que são potências).

Pense nisso. Comprar mais uma blusinha traz prazer momentâneo. Ter grana para se jogar em grandes experiências é demais.

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Para comprar meu livro Tem Dia que Dói – mas não precisa doer todo dia e nem o dia todo, acesse a loja virtual: https://temdiaquedoi.lojaintegrada.com.br/

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Viajando no quintal

Masp

Quando eu ainda era bem menina criei uma regra pra minha vida: conhecer pelo menos um lugar novo todo ano. Claro, quando a gente é adolescente e dependente da família, o campo de ação fica limitado. Por um bom tempo, chegava só até onde minha bicicleta me levava. Com 12 anos fui liberada pra andar de ônibus – e não parei mais quieta. Então, explorava as cidades da região onde morava mesmo. Conhecia todos os museus. Todas as partes históricas. Tudo quanto era bairro. Se tinha novidade, eu ía lá ver. Até que aquele mundo se esgotou um tanto…

Depois de determinar que muita coisa inédita por aí me esperava minha providência foi ganhar dinheiro. Com 16 anos comecei a dar aulas de balé para crianças. Foi também nesse ano que visitei pela primeira vez outro país, os Estados Unidos. Viagem paga pelos meus pais. Mas parte da grana que levei pra gastar consegui com as aulas.

Diante da constatação “dinheiro pode me levar mais longe” resolvi sempre guardar parte do que recebia. Nascia o meu “fundo viagem”. Foi graças a ele que coloquei os pés em boa parte dos estados brasileiros e em 15 países até hoje. Os planos não acabam nunca. Quem começa a viajar vicia. O melhor vício que pode existir. Não para nunca mais. Porque sempre tem mais um lugar. Sabe AQUELE lugar? Parece que é o próximo. Aí, você vai lá, conhece, curte. Mas nem a atual viagem acabou e você já se pega imaginando o destino seguinte. Viajante é assim.

Só que a vida é imprevisível. Tem hora que a situação financeira aperta. A gente tem que fazer outras escolhas. Planejar outras conquistas que também requerem gastos. Quando acontece, minha opção são roteiros mais próximos. Parar jamais! Viajar, a essa altura, já é praticamente sinônimo de respirar. Quando, porém, nem os roteiros curtos conseguem ser encaixados, eu lembro da minha sabedoria infantil de ir mais perto… Bem pertinho mesmo.

Eis a vantagem de morar na maior e mais rica cidade do país. Cheia de defeitos, é verdade. Mas repleta de atrações! E o pertinho pra mim inclui alguns dos melhores museus e centros culturais do Brasil (muitos deles gratuitos). Um centro histórico fascinante e com bastante construção bonita restaurada. Bairros que representam algumas das culturas que aqui fincaram raízes. Cinemas passando filmes que vão do “cult” ao “blockbuster”. Restaurantes pra todos os gostos. Eu poderia estender a lista do melhor de São Paulo quase que infinitamente.

Sou obrigada, então, a fazer um mea-culpa. Porque ultimamente briguei tanto com a metrópole, aborrecida com seus entraves, que andei esquecendo o quanto ela me ajudou a fazer vir à tona minha personalidade real. Quem eu sou e sempre quis ser. Inclusive como viajante, já que São Paulo foi a primeira grande cidade da minha vida e a prova de que existia de fato muito mais pra ver. No fim, num momento em que minhas felizes idas ao aeroporto diminuíram, me vejo redescobrindo a cidade que me adotou. E até conhecendo lugares onde nunca nem estive. Afinal, tô firme no conceito “pelo menos um lugar novo todo ano”! Vou viajando no quintal pra manter a curiosidade em movimento.

Crédito da imagem: Museu de Arte de São Paulo (Masp)

O poder do dinheiro (para o bem e para o mal)

dinheiro

Dinheiro é bom. Acho que ninguém em sã consciência consegue negar isso. A história de que dinheiro não traz felicidade é beeem relativa. Porque grana te dá sim tranquilidade, segurança, conforto, ajuda a realizar sonhos. E a gente percebe mais ainda todas as vantagens quando a conta oscila mais do que gangorra em parquinho de criança. É verdade que não é o dinheiro sozinho que te permite experimentar a serenidade, o companheirismo, a amizade sincera, o grande amor, uma conquista pessoal bacana, entre outras coisas incríveis que estão aí no nosso caminho. Quando, no entanto, a vida financeira tá sussa é uma preocupação a menos e tempo a mais pra focar energia naquilo que não tem preço – mas valor. Ou pelo menos deveria ser assim…

O problema do dinheiro na nossa sociedade é ter se transformado numa arma pra triste mania de status e para o preocupante consumo desenfreado. Veja, nada de errado em ser bem recompensado pelo trabalho que se desenvolve e muito menos usufruir do jeito que quiser do dinheiro que você ganha porque merece. O que me deixa meio abismada é a quantidade de pessoas que a cada dia estão mais interessadas em serem reconhecidas por aquilo que elas têm do que por aquilo que elas são. Você pode dizer “ah, Suzane, mas esse discurso é antigo”. Tem razão. E justamente por ser antigo já deveria ter melhorado muito! Já deveria ter entrado na cabeça de todos nós que não é o carro que você dirige, o restaurante que você frequenta, a viagem para o destino exótico, o celular que quase diz que te ama, nem a roupa de grife que faz de alguém um ser humano decente.

Fico sinceramente feliz em perceber quanto nos últimos cinco anos o brasileiro teve a oportunidade de aproveitar uma economia estável (agora nem tanto) pra realizar o sonho da casa própria, de poder viajar, de conhecer mais de gastronomia, frequentar mais o cinema, o teatro, equipar a casa com móveis e eletrodomésticos que facilitem o cotidiano, se dar um presente, estudar… Mas na hora que o consumo vira um “quem pode mais é porque tem” ele perde todo seu lado positivo.

Então, você me pergunta também: “Mas Suzane, não sempre foi assim? Quem tem dinheiro pode mais, faz o que quer, age como quer?” Sim, você tem de novo razão. Historicamente, o poder financeiro permitiu a muitos acreditarem terem aval pra agirem com superioridade, arrogância e exploração. Mas por que a gente vai reproduzir o pior? Por vingança do dia que nos trataram assim? Não me parece muito esperto, não. É desgastante e angustiante demais a eterna luta pra ver quem é melhor seja lá no que for – porque no fundo essa luta é travada internamente. Não é o outro que tem mais. É algo dentro de você que te leva a acreditar que tem menos (e que te diminui como pessoa). Aí é uma urgente necessidade de autoconhecimento, de buscar ajuda pra compreender porque esse sentimento tá presente.

Conversando com duas amigas do mestrado dia desses descobri dois exemplos quase inacreditáveis do quanto o desespero pelo consumo chega a cegar as pessoas. Uma delas esteve recentemente numa cidade no interior do Pará, lá onde o mapa faz curva, bem longe. Numa cidadezinha que nem tinha rede de internet, todo mundo era dono de smartphone!! Os moradores usam o celular mais avançado pra despertador, por exemplo, e pra mostrar que têm um iPhone. Gente, para.

Outra colega, que estuda justamente o consumo na classe C, já se deparou com pesquisas nas quais os entrevistados se dizem muito satisfeitos com a tevê de tela plana, a bolsa de grife, o (de novo!) smartphone de ultimíssima geração, e tudo que andaram comprando recentemente. Mas convivem com esgoto a céu aberto na porta de casa e sofrem num transporte público precário diariamente. Acreditam serem incluídas na sociedade graças ao que consomem. Não percebem, porém, que aquilo que realmente melhoraria consideravelmente a vida delas está longe de ter solução.

De novo, gente, dinheiro é bom e a gente gosta. Ele permeia todas as nossa relações pessoais, inclusive – familiares, de trabalho, de amizade, a dois. E, por isso, grana tem que ser um detalhe, não o foco. Tem que ser usada com equilíbrio, não pra causar discórdia e disputa. Não pode ser mais importante do que nossos relacionamentos e nem ser aquilo que nos destaca no mundo. Eu desejo profundamente ter mais dinheiro nos próximos meses, sim (e eu vou ter). Mas espero que ele só me deixe mais tranquila diante do cotidiano. Nunca faça de mim alguém mais ou menos interessante pra alguém.

Crédito da imagem: Cultura Inquieta

“Mulheres Ricas”. Mas pode chamar de vergonha alheia

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Não julgo o que as pessoas gostam de assistir na televisão. “Cada louco com a sua mania” é um bom ditado pra definir as escolhas televisivas de cada um. Eu, por exemplo, me amarro em canal de oferta. Não compro nada. Mas fico fácil uma hora vendo quanto custam sofás, pisos de madeira, imóveis, carros, joias, roupas… “Ah, isso é bonito!”, “Nossa! Que cor péssima!”, “Apartamento decorado… tsc, tsc, tsc… Enganando o povo no tamanho”, são algumas das observações mentais que faço pra mim mesma.

No momento, estou fascinada pelo Pinguino Turbo Freeze, um ar condicionado portátil da Polishop. “Chegam os dias quentes e você fica sonhando com um ar condicionado em cada cômodo de sua casa? Apresentamos Pinguino Turbo Freeze, o ar condicionado que esfria de verdade!”, anuncia o locutor. Diversão garantida!

Logo, tô nem aí pra quem curte reality show. Conheço muita gente inteligente que acompanha os BBBs da vida porque deseja, justamente, ver algo que não acrescente nada no seu dia. Só ter alguma coisa pra relaxar depois do expediente. Nada pra pensar muito profundamente quando chega em casa cansado. Desde que a pessoa não vicie e não deixe de incluir no cotidiano leitura, cinema, encontros com os amigos, tempo com a família, cursos, e assim por diante, tudo bem. Eu, particularmente, acho perda de tempo. No entanto, como também deve ter quem ache a mesma coisa da minha mania de ver as ofertas, fico quieta.

Lembro que acompanhei as duas primeiras edições do Big Brother. Mas naquela época (lá se vão dez anos) ainda era interessante observar o que acontecia no programa. Os participantes eram mais “originais”. Eu achava curioso ser espectadora de uma espécie de experiência das relações humanas, num ambiente onde as características pessoais (negativas e positivas) se exacerbavam com o confinamento. Observar os limites comportamentais das pessoas. Tinha algo de psicologia que me chamava a atenção.

Aí, a cada edição, os participantes foram aprendendo a “atuar” diante das câmeras. O perfil sarado(a)-bonito(a)-esquentado(a) praticamente virou regra. E tudo ficou artificial demais e sem graça, com discussões inúteis, muito narcisismo e até uma certa violência em vários dos embates.

Mas quando a gente acha que nada pior pode ocupar espaço na programação, aparece uma bizarrice batizada de “Mulheres Ricas”. O primeiro já era de chorar de desespero. Como, no mundo em que a gente vive, pode ter um pessoal que acredita que a maior contribuição que possa dar à sociedade é mostrar seu estilo de vida nababesco, enquanto há quem conte moeda pra sobreviver? Era o que eu me perguntava ao assistir alguns dos programas da primeira temporada.

Essa semana, resolvi assistir um dos capítulos desta segunda etapa. Quando uma delas disse pra outra “ser sincero não é chique”, entre outras pérolas, percebi que o programa não só tem um conteúdo muito ruim, mas se presta a um completo desserviço.

O que me preocupa é que se o programa está no segundo time de ricaças é porque a audiência é boa. Se a audiência é boa ou tem quem se identifique ou tem quem almeje o estilo de vida apresentado. Ser rico todo mundo quer, óbvio. Essa história de que dinheiro não traz felicidade é uma falácia. Só dinheiro não resolve nossos problemas, mas dá sim conforto, segurança, traquilidade e realiza sonhos. Eu poderia comprar o Pinguino Turbo Freeze! Ele custa R$ 3,5 mil…

Mas ter dinheiro e usufruir dele é uma coisa. Outra é ostentar sem noção e por vaidade pra milhares de pessoas verem. E se mostrar o que você tem é uma massagem no ego, sinto informar que seu ego anda frágil e sua autoestima precisa urgente de um divã. As mulheres ricas do programa (algumas, nem tão ricas assim – e viva o marketing!) são, no mínimo, um mal exemplo.

O único ponto forte da atração é reforçar a certeza de que dinheiro não é sinônimo de educação e elegância. Além das participantes corresponderem à definição de “vergonha alheia”, elas conseguem ser cafonas ao cubo, muitas vezes no estilo de se vestir e quase sempre nas atitudes. Algumas delas são empresárias de sucesso, profissionais talentosas, geram muitos empregos, se dedicam a trabalhos sociais. Juro que me questiono qual vantagem enxergaram numa exposição pública tão inútil.

No caso das que não nasceram em famílias abastadas e já experimentaram dificuldades financeiras, estariam elas tentando “sambar na cara da sociedade” pra mostrar que vieram do nada e “venceram”? De novo, quem sente necessidade de agir assim precisa cuidar da saúde emocional. Isso não é normal.

E alguém precisa avisar a essas senhoras que valorizar a beleza é completamente diferente de se maquiar feito o palhaço Krusty (aquele de “Os Simpsons”, esse sim um bom programa, que vem antes de “Mulheres Ricas”, no mesmo canal).

Fica minha proletária dica… Não adianta ter cartão de crédito ilimitado. Não adianta ter balha na agulha pra espalhar Pinguino Turbo Freeze pela casa toda (em todas as casas – da cidade, da praia, do campo). Não adianta desfilar dia e noite com uma taça de champanhe cara na mão. Não adiantaria nem beber ouro líquido – porque o espírito continuaria uma miséria. Grana nunca vai encobrir falta de conteúdo.

Crédito da imagem: Divulgação/Band

Essa loucura de conhecer o mundo que não sai de mim

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Tenho menos roupa, sapato e bolsa do que a maioria das mulheres. Também não sou dona da maioria das novidades tecnológicas que invadem o mercado. Meu apê tem 50 metros quadrados. Às vezes, lamento não ter uma sala um pouquinho maior pra receber as pessoas queridas (umas das coisas que eu curto muito fazer). Mas minha casa cabe no meu bolso. É isso o que realmente importa. Sou, como dizem por aí, controlada. Não muquirana, veja bem. Só não gasto por impulso. É bem raro acontecer. E nem vivo uma vida que não posso. Muito menos pra fingir ser alguém que não sou (isso sim é pobreza, minha gente).

A única coisa que me faz gastar dinheiro, sem dó nem piedade, é viajar. Geralmente, quando tô embarcando (ainda no começo da viagem!), já vou pensando qual pode ser meu próximo destino. É um vício pegar mapas e traçar rotas. De-onde-pra-onde-passando-por-qual-lugar-eu-posso-ir. Consegui, até aqui, visitar 14 países (menos do que eu gostaria!) e ter o privilégio de conhecer aquelas cidades que sempre sonhamos: Nova York, Roma, Paris, Londres… Tem muitas outras, tão especiais… Agora, sinto que é o momento de colocar meus determinados pezinhos de viajante em terras mais exóticas, distantes, daquelas que um dia eu nem imaginei que poderia chegar.

Uma das vantagens de se tornar viajante é justamente essa sensação de que nunca mais existirá um lugar onde você não possa ir. E, de alguma maneira, essa certeza vira uma característica do seu comportamento em outras áreas da vida. Você sabe que uma conquista pode ser difícil. Não impossível. Durante a viagem, o roteiro pode ser modificado. Mas em algum destino você vai chegar. Do mesmo modo, nossos planos, por vezes, precisam ser revistos. E você, ainda assim, alcança objetivos.

Viajando aprendemos a nos adaptar a diferentes circunstâncias. A curtir uma paisagem tanto em dia de sol como em dia de chuva. A dar de cara com aquele edifício histórico que bem na sua vez está em restauro – e descobrir que logo ali, na esquina, tem um outro monumento, praça, castelo, rua, incríveis. E você nem sabia! Olha que legal! Ah, e tem aquela liberdade que enche seu coração e chega a ser difícil de explicar. Só experimentando.

Viajar traz a rica compreensão de que somos diferentes, sem que signifique sermos melhores ou piores do que os demais. Somos, apenas, diversos. Com nossos costumes, nossas tradições, nossas preferências. E como é tudo o que já vivemos na nossa cultura, por que não se jogar na cultura do outro pra enxergar um horizonte mais amplo e aprender o que cada um tem de mais interessante?

Pensei muito nessa loucura de conhecer o mundo que não sai de mim depois de conversar ontem por mais de três horas com Marcelo, um dos entrevistados para minha tese de mestrado. Viajante como eu, ele também não entende quem não tem esse impulso de ver, afinal, o que mais tantos países por aí têm a nos oferecer. Adoro conversar com pessoas assim porque me sinto como quem tem turma, sabe?

Eu sei que nem sempre a grana sobra pra viajar, que existem aquelas contas que são prioridade. Ninguém deve ser irresponsável de parar de pagar um plano de saúde, por exemplo, pra pagar prestações de um passeio. Tem quem faça esse tipo de coisa. Acho arriscado. Melhor é saber equilibrar as contas e poupar um pouco cada mês pra poder viajar. Faz um fundo-viagem! E é super possível viajar, especialmente nos dias de hoje, com preços acessíveis.

Há muitas promoções de passagens aéreas. Fora da alta temporada (julho e de dezembro a fevereiro), tudo em turismo é mais em conta. Você não precisa se hospedar em hotel cinco estrelas pra ficar confortável. Existem muitos sites onde é possível encontrar a avaliação de hotéis, pousadas, hostels por todo o mundo. Costumam ser bem confiáveis porque são os próprios ex-hóspedes que analisam e descrevem as condições dos locais. Indicações dos amigos viajantes, daqueles que botam mesmo o pé na estrada, também costumam funcionar.

Sugiro a vocês um exercício que funcionou muito pra mim. Enquanto minhas viagens eram apenas sonhos que eu construía folheando um Atlas Geográfico, nunca deixei de conhecer um lugar novo perto de onde eu morava. Quantas vezes, inclusive, mal conhecemos o que nossa própria cidade oferece? Ir a um museu, um parque, uma igreja, ou só um bairro que não o nosso já desperta aquela curiosidade de ver mais, de ir além, de se perguntar “o que mais tem por aí pra ser descoberto”.

Começa assim, passeando pelo que está mais próximo. Visita os amigos que moram em outras cidades. Guarda também um pouquinho de grana por mês pra realizar esse desejo de ver o mundo – boa resolução de ano novo, heim?! Lembrando que turismo de compras (uma das piores invenções contemporâneas) não vai te acrescentar em nada (a não ser um cartão de crédito estourado). E quem quiser me acompanhar, pode vir! Só se prepara que meu ritmo é pesado. Porque eu ando muito, pra ver TUDO, e testando sempre onde mais eu posso chegar. Te garanto que é longe.

Crédito da imagem: Quark Expedition

Em 2013, não ensaie a vida. Somos finitos.

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Eu poderia desejar, de coração, muita coisa boa pra você viver no novo ano que logo tá aí. Poderia colocar na minha lista de pedidos que você tenha muito amor, sucesso, dinheiro, paz, felicidade. Mas não vou. Não que eu não queira que você viva tudo de melhor em 2013 – e sempre. É que 2012, entre outras lições, me ensinou algo que há algum tempo eu já vinha desconfiando: a gente só precisa de saúde e atitude pra seguir em frente.

São esses elementos que nos impulsionam a ir atrás de todo o resto. Com saúde física e psicológica, aguentamos melhor o tranco das dificuldades, dos desafios. Porque eles sempre estão no caminho. Fazem parte de uma existência plena, de quem não quer ter um destino neutro ou decidido por terceiros. A atitude é o que te faz perseguir sonhos. É com ela que tomamos coragem de nos arriscar por aquilo que julgamos precioso. Que nos ajuda a solucionar os problemas (sem esperar um milagre acontecer). Que nos faz sentar, traçar planos, e depois levantar para concretizá-los.

Eu não te desejo amor, sucesso, dinheiro, paz, felicidade. Porque não adianta eu e você esperarmos por eles, não. Às vezes, eles não estarão lá… Não que a gente não mereça. Apenas, tem épocas que é mesmo a complexidade que toma conta, com os altos e baixos emocionais te colocando numa gangorra que parece sem fim. Mas uma hora melhora. E é só pra aprendermos alguma coisa, pode acreditar.

Focar tanto em amor, sucesso, dinheiro, paz, felicidade pode acabar causando um efeito contrário. Ficamos tão preocupados em conseguir isso tudo que esquecemos de realmente viver. Em meio às idealizações que nos perseguem, acabamos só ensaiando a vida. Ficamos sempre no “quase”. Esperando a tal hora certa. Mas deixa eu te contar… Só temos duas horas certas: a de nascimento e a de morte. A primeira você já sabe. Eu também. A segunda ninguém sabe. A única coisa que devemos saber, no último caso, é que somos finitos. De uma hora pra outra, não estaremos mais aqui. Não estarei escrevendo pra você. Você não estará lendo o que escrevo. Não importa a idade, desaparecemos.

E, pra quem tem data marcada pra partir, acredito que perdemos tempo demais remoendo o que não deu certo. Pensando muito no que gostaria de ter materialmente sem enxergar o que de bom nos cerca. Com raiva. Com medo. Com inveja. Com ciúmes. Cheios de lamentações e de impaciência. Cuidando da vida alheia. Pode ter certeza que tem gente se divertindo mais do que você se esses sentimentos têm tomado conta dos seus dias.

Só te permito sentir tristeza. Porque ela é inevitável se você é alguém normal. E ela, sim, te transforma, te faz parar pra refletir. Numa sociedade em que todo mundo agora tem obrigação de ser feliz, mostrar que estamos tristes é quase um ato de rebeldia. Mas a tristeza, é bom que se diga, é saudável. Claro, fazer dela sempre uma muleta, uma desculpa para se acomodar, não é legal. Existe também a tristeza que se aprofunda e precisa de cuidados médicos, como a depressão. Fora essas situações, ter aquela dorzinha no peito de vez em quando mostra sua sensibilidade… Mas olha, vai ficar tudo bem… Vai sim…

E se eu ainda não te convenci, vamos lá. Quer amor? Pare de procurar o par perfeito. Vai lá e se declara pra pessoa que cada vez que passa faz seu coração sair pela boca. Se tomar um fora, lembra da minha teoria da tristeza que acabei de contar. E não desista. Quer sucesso? Se esforce, foque um objetivo, se prepare bem e lembre que reconhecimento sólido é reflexo de trabalho bem feito. Ah, você quer dinheiro? Aprenda, de uma vez por todas, a poupar. Aprenda, de uma vez por todas, que torrar dinheiro em shopping não é o programa mais legal do mundo. Aprenda de uma vez por todas, a não consumir por impulso ou só para manter status. Quer paz? Comece dando “bom dia” para as pessoas que te cercam, seja gentil, paciente, respeite diferenças.

E eis a felicidade… É sempre nela que você insiste. Na verdade, você quer todo o resto sempre pra chegar nela. Quer ser feliz? Então, voltamos lá no começo. Cuide da sua saúde. Vá atrás dos seus sonhos. Pra ser feliz agora, basta lembrar que nunca sabemos o dia de amanhã. Não ensaie a vida. E feliz 2013!

Crédito da imagem: Cultura Inquieta

Então, você alcançou o sucesso. Tem certeza?

sucesso?

Eu nunca me senti tão perto do fracasso. Pra quem sempre teve metas de curto, médio e longo prazo, e assim conseguiu conquistar muita coisa que a sociedade julga sinal de sucesso, é surpreendente que nos últimos seis meses eu mal soubesse o que seria da minha vida nos próximos dois dias. Basicamente, sabia que deveria frequentar as aulas do mestrado em Ciências Sociais. Mas todo o resto se tornou etéreo. Fora do jornalismo (como parte dos primeiros reflexos do fim do Jornal da Tarde, onde eu trabalhava), decidi que se o destino estava me dando essa chance era chegada a hora de me presentear com um período sabático.

Essa parada essencial na minha rotina permitiu mais tempo aos estudos (que é a preparação para uma nova fase profissional, ainda adiante). Mas também viajar, cuidar da minha saúde (que andava por um fio), ajudar a cuidar da saúde de pessoas queridas, dedicar um tempo precioso aos amigos em cafés, almoços e jantares. Me reaproximar de gente que importa. E pensar com calma sobre quem realmente sou e como, a partir de então, eu me colocaria na vida.

Hoje, me sinto perto do fracasso não porque me sinto uma fracassada. Meu sabático vem sendo uma das decisões mais sensatas que já tomei. Mas me sinto tão perto do fracasso porque as pessoas fazem questão de dar valor às outras por causa de cargos, posições, status, ao que aparentam e ao que elas têm. Dizer pra quem quiser ouvir “parei para rever o que fiz até aqui, o que deve permanecer, o que deve ser resgatado e o que deve mudar” é quase um escândalo. Eu dou valor ao trabalho. Acredito que é uma das maneiras de atingirmos nossa plenitude como seres humanos. Não proponho aqui que saiam todos pedindo demissão e vivam como se no dia 21 de dezembro o mundo acabe mesmo – porque não vai. Até porque é com dinheiro que se sobrevive.

Só que me parece urgente que as pessoas dêem mais atenção a chamados internos, aqueles que muitas vezes apenas nossos pensamentos conhecem. Claro que temos contas a pagar. Mas será que precisamos de TANTAS contas assim? Lógico que construir uma carreira, um negócio, traz realização. Mas será que não é melhor aprender a dividir reconhecimento e responsabilidade com sócios ou delegando tarefas, e ter mais tempo para si mesmo e para a família? Quem não gosta de se ver bem diante do espelho, com um visual legal? Mas pra quê se enrolar em cartões de crédito pra ter um guarda-roupa abarrotado? E comprar a própria casa é pra maioria de nós um sonho especial. Será, no entanto, que ela precisa ser enorme, exigindo mais recursos para ser quitada? Ah, sim… Criar filhos custa caro. Não estaríamos, porém, educando uma geração inteira para acreditar que só se realiza e tem valor quem consome o máximo de coisas materiais?

Ontem, um amigo me contou que foi mandado embora há poucas semanas. E optou também por passar uns meses se dedicando à família. Não viajava há anos. Trabalhou em muitos Natais. No próximo dia 23, embarca num cruzeiro com a mulher e a filhinha de oito anos. Depois, vão pegar o carro e passar janeiro percorrendo o litoral norte de São Paulo. Enquanto a gente conversava, me contou que acabara de sair da cozinha. “Fiz aqueles biscoitos natalinos bem comuns entre os americanos, sabe? Fiz até um em formato de árvore de Natal.” Sabe quando você fala com a pessoa pelo telefone e consegue perceber que ela está sorrindo? “Minha filha disse que sou o sucesso dos biscoitos de Natal”, disse ele. O que pode ser melhor do que ser um sucesso pra quem nos ama e por um motivo simples?

Dia desses bateu um receio de como será a vida nos meses que se aproximam. Em relação a tudo. Trabalho, dinheiro, amor, família, opções, escolhas. O questionamento é parte (por vezes dolorosa) do sabático. Foi quando lembrei de uma coisa que minha avó (já falecida), me disse uma vez, quando eu estava bem triste, com sua inconfundível voz de fado português: “Mantenha a fé, filha… Não te entristeças. Às vezes, a vida nos faz dar um passo atrás para depois darmos dois à frente. Vais conseguir. Tenhas paciência…”

Dei vários passos atrás desde julho. Isso se eu considerar o que a sociedade afirma ser o sucesso. Pra quem gosta de mim de verdade, quem conseguiu compreender ou já passou por um sabático, o que diz a sociedade não é o que vale. Para essas pessoas especiais (a quem eu deixo aqui meu “muito obrigada”), eu simplesmente nunca estive tão à frente da maioria. E é esse o reconhecimento que agora me basta.

Crédito da imagem: Cultura Inquieta