Desafios de um negócio que lida com preconceitos

“Su, chamei uma amiga, mas você não acredita no que ela me disse… Que não viria num curso de investimentos apresentado por uma mulher porque mulher não entende do assunto.” A admiração era de uma das participantes do último MAG Finanças, workshop da plataforma Mulheres Ágeis, na qual sou cofundadora com minha amiga Renata Leal.

Como contei a vocês no artigo anterior, a Rê é investidora e idealizou esse workshop para que cada vez mais mulheres se empoderem economicamente. No caso, a última edição foi criada especialmente para quem está com vida financeira em equilíbrio, mas deseja aprender mais sobre investimentos.

Eu, claro, já assisti a todas as edições que realizamos e garanto: ninguém antes me explicou tão bem sobre investimentos, com clareza, didática e respeito às minhas dificuldades e limitações sobre o tema quanto minha sócia. E a percepção não é só minha, mas de todas as MAGs que já fizeram o workshop.

MAG Finanças nasceu também porque muitas mulheres nos confidenciaram se sentirem mal e julgadas em grupos nas redes sociais que abordam finanças. Ou mesmo em cursos. Sofriam bullying e viam suas dúvidas ridicularizadas por homens dizendo que não era mesmo papo para mulher.

Mas aí a gente tem outra mulher que não bota fé no conhecimento de uma investidora…

Falar de gênero é sempre bater de frente com os preconceitos das pessoas. Mesmo aqueles que elas não admitem. Mesmo aqueles que acreditam nem ter. Mesmo aqueles que fazem com que elas também sofram. Faz parte do nosso trabalho mostrar quando é um preconceito e que tal postura gera um impacto negativo na sociedade. Afeta a todos nós.

Ainda assim, quando o machismo vem de uma mulher, a gente dá uma perdida de chão, sabe? Fica um tempo meio entre o choque e o desânimo. Passa rápido! Mostra, porém, que nosso caminho é longo. Bem longo.

Quando um negócio carrega na sua essência lidar com preconceitos, encontramos obstáculos que outras empresas não encontram. O resultado é que nosso crescimento pode ser, sim, mais lento. Mexer com comportamentos é uma tarefa que transforma você em heroína para uns e inimiga para outros. Não tem meio-termo.

O lado bom é que quem enxerga a necessidade de mudança junto com a gente se torna não só defensora (ou defensor) das nossas ideias, como “espalha a palavra” também. Toma pra si a tarefa de nos ajudar a estar em mais lugares, espaços, eventos, empresas, para um público crescente.

Dias depois dessa última edição de MAG Finanças, fiz a sessão de mentoria com uma jovem promissora de 18 anos que começou este ano a faculdade de relações internacionais. Há pouco mais de seis meses, conversamos uma hora, uma vez por semana, com foco na elaboração e no desenvolvimento de seu pensamento crítico. Como já completávamos um semestre de conversas era hora de um balanço. Mandei a ela algumas perguntas.

Uma das coisas que a mentoria despertou na minha futura diplomata foi a possibilidade de, quem sabe, lá na frente também venha a empreender. Que eu, à frente de dois negócios diferentes, mantinha bom humor e parecia ter tempo para minhas questões pessoais. “Sempre achei que mulher dona de empresa era estressada e sem vida”.

Adorei o elogio por um lado, mas chamei a atenção. “Você pensaria isso de um homem à frente de um negócio? Que ele seria estressado e sem vida?”

Ela levou a mão à boca e pediu desculpas, que não tinha se dado conta de que era um preconceito. Que realmente não pensaria isso de um homem. Rimos juntas. Pedi que não se preocupasse, que tudo bem. Nem de longe ela é uma moça preconceituosa. Pelo contrário. É daquelas jovens que permite acreditar que o mundo não está perdido.

Até aqui, fomos criadas com uma série de crenças limitantes de “isso não é para mulher; isso vai prejudicar a sua feminilidade, ninguém vai te querer”, entre outras bobagens. Acabamos projetando as percepções negativas sobre nossa própria capacidade em outras mulheres. “Se não é coisa de mulher, como é que ela sabe fazer? Como entende do assunto?”

O resultado dos padrões de incapacidades que aprendemos é não só deixar de avançar em aspectos pessoais e profissionais, como tentar desqualificar quem já avança. E enfraquecermos as outras é jogar a favor de tudo o que nos prejudica: assédios, violências, salários menores, sobrecarga de tarefas domésticas…

Como eu disse, o caminho é longo. Como prova minha mentorada, são padrões absolutamente possíveis de serem deixados para trás. Cada uma a seu tempo, é verdade. Mas, por favor, quanto antes, melhor.

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Suzane G. Frutuoso é criadora e autora no blog Fale Ao Mundo, cofundadora da plataforma Mulheres Ágeis e da consultoria ComunicaMAG. É jornalista, mestre em sociologia pel PUC-SP, especialista em comunicação corporativa pela FGV e escritora

Artigo originalmente publicado no LinkedIn Brasil

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A educação financeira empodera as mulheres

Um dos motivos no topo da lista das mulheres que não conseguem se separar de homens que as agridem está a dependência financeira. Não ter para onde ir, não conseguir criar sozinha os filhos. Antes de apontar aquele dedo julgador, lembre que muitas estão fora do mercado de trabalho há anos. Tantas outras continuam ganhando menos do que seus pares masculinos, mesmo que executem as mesmas tarefas. Há as que estão distantes das famílias de origem. Não é simples. Mas o que importa é que a falta de dinheiro é um dos fatores que as deixam reféns da violência doméstica. São cerca de 34% das mulheres agredidas, segundo levantamento do DataSenado.

Ao mesmo tempo, quando nossas finanças estão bagunçadas, a vida bagunça. Quando nos endividamos, vem a preocupação constante e a dificuldade de se concentrar no trabalho, nas atividades cotidianas, nos relacionamentos pessoais. Não vale o desgaste, não. Mais vale aprender a se controlar, a poupar e – mágica das mágicas – investir para o dinheiro render, trabalhar para você, crescer e aparecer.

A mulher economicamente empoderada é mais forte para dar fim a relacionamentos abusivos. Tem mais poder de escolha, de decisão, pessoal e profissional. A mulher que lida bem com seus recursos financeiros tem mais conforto, segurança, capacidade de realizar os mais diversos sonhos. Viverá uma aposentadoria mais tranquila. Vivemos mais anos do que os homens, é bom não esquecer.

Então, não só guarde – pelo menos! – entre 10% e 20% do que você ganha, como estude investimentos, foque na educação financeira. A partir de R$ 30 é possível investir no Tesouro Direto, um produto de renda fixa. Em muitas cidades brasileiras esse é o preço de uma ida à manicure, gente. Dá pra fazer a unha a cada 15 dias, não toda semana, e já usar esse valor, hein?

Eu, como talvez você, não sou expert em finanças – ainda! Mas sempre fui poupadora, separando uma parte dos meus ganhos para reservas de emergência e (o que eu mais gostava) meu fundo viagem que me permitiu conhecer muitos outros países. Metade do meu primeiro salário, como professora de balé para crianças, aos 16 anos, já foi guardado. E assim se tornou um hábito até hoje, nos meus 39 anos.

Foi graças a uma reserva financeira que pedi demissão no final de 2016 para me tornar empreendedora. Fico livre da preocupação com os boletos enquanto meus negócios dão seus pequenos mas constantes passos? Não. Mas saber que tenho como me manter, mesmo mudando parte do estilo de vida, cortando gastos, me permite fôlego para as coisas se estruturarem.

A Renata Leal, minha sócia, também começou a poupar cedo, ainda adolescente, quando ajudava a mãe de uma amiga a vender cosméticos. E ela também sempre fez o fundo viagem e saímos por aí pelo mundo juntas: Nova York, Paris, Amsterdam, Bruxelas… Já nem me lembro mais a lista! Bem antes de mim, no entanto, a Rê entendeu que existiam meios de fazer o dinheiro crescer, a importância de saber investir. Com esse conhecimento ela estruturou o – modéstia à parte – excelente workshop MAG Finanças, de Mulheres Ágeis, plataforma de inspiração e capacitação para mulheres, que é um das nossas frentes de negócios.

No workshop, que realizamos tanto para pessoas físicas quanto para empresas, Renata conta o que está por trás do comportamento feminino em relação às finanças, da maneira de gastar, influências históricas e sociais e – cereja do bolo! – quais são os tipos de investimentos que existem, as vantagens e desvantagens de cada um, quais são as corretoras para começar facilmente on-line, entre outras sacadas.

No dia 14 de abril, numa manhã de sábado, teremos mais uma edição do MAG Finanças em São Paulo, dessa vez com foco em investimentos de uma maneira mais detalhada. Todas as informações aqui nesse link: https://goo.gl/vRiJVd

O empoderamento econômico feminino é uma das nossas principais bandeiras em Mulheres Ágeis. E estamos bem acompanhadas na nossa certeza. Empoderar economicamente mulheres no mundo todo é uma das metas nos próximos 5 anos do W20, o grupo de mulheres do G20 (que concentra os países que são potências).

Pense nisso. Comprar mais uma blusinha traz prazer momentâneo. Ter grana para se jogar em grandes experiências é demais.

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