O efeito vilarejo

Banquinha de frutas, verduras, legumes. A moça que vende massas, o rapaz que vende queijos da Serra da Canastra. Tem o tio do pastel, a menina boleira e a representante de cosméticos das mais simpáticas, que também vende prata e chocolate, e salva quem precisa dos presentinhos de última hora. É feira, meio bazar. E sabe onde acontece? No meu condomínio.

Tendência em São Paulo a feirinha ir até as pessoas. Inclusive em prédios comerciais. A ideia é facilitar a vida de quem tá sempre na corrida eterna paulistana, que é pior pra quem enfrenta trânsito nos horários de pico. Mas aqui no meu condomínio a coisa cresceu e ganhou um novo significado: o de aproximar as pessoas.

“Uma volta às vilas de antigamente, onde todos se conheciam, se ajudavam, consumiam produtos e serviços dos vizinhos”, logo lembrou minha mãe, que é historiadora. Foi nesse encontro semanal que conheci gente nova das mais variadas – e olha que lá se vão dez anos que moro aqui. É louco como não sabemos quem tá na parede ao lado, né? Minha vizinha de porta é hoje uma das minhas melhores amigas. Quando comento isso, muitos se espantam porque nunca falam com os vizinhos. Magina ser amiga? Quase exótico.

Depois das compras, o pessoal acaba ficando mais tempo por ali para papear, se conhecer. E finalmente o salão de festas e a área da churrasqueira passam a ser um lugar melhor além dos bate-bocas das reuniões de condomínio! 🙂

A psicóloga canadense Susan Pinker é autora do livro The Village Effect: How Face-To-Face Contact Can Make us Healthier, Happier and Smarter (em tradução livre O Efeito Vilarejo: Como o Contato Cara a Cara Pode Nos Tornar Mais Saudáveis, Felizes e Inteligentes). Susan aborda a importância do contato pessoal para a longevidade em tempos digitais. Ela esteve no Brasil e falou do assunto no começo do mês como conferencista do projeto Fronteiras do Pensamento (assiste um trecho da apresentação, de cinco minutinhos, no final do texto).

Susan defende quanto integração social e relações próximas são fatores essenciais para que as pessoas sejam felizes e produtivas. Para ela, relações próximas são com as pessoas com quem podemos contar a qualquer momento, como quando nos sentimos mal no meio da noite ou que nos ouve durante uma crise existencial. E precisamos de três a quatro pessoas dessas na vida. Pra pegar o telefone e ligar a qualquer hora.

Não menos importante são o que ela chama de laços frágeis da integração social. Os que mantemos com aquela senhora que cumprimentamos todos os dias de manhã quando vamos passear com o cachorro ou encontramos na missa (ou culto ou reunião, enfim). Acabam sendo superficiais, mas são sinal de que pertencemos a algo, a um grupo, uma comunidade. E a sensação de pertencimento ajuda a preservar a saúde e o bem-estar.

A psicóloga destaca que esses contatos cara a cara diminuem significativamente os índices de demência com a idade. É também o que leva membros de redes de mulheres (de empreendedorismo, networking, rodas de conversa), a sobreviverem mais ao câncer de mama do que mulheres que não participam de tais grupos. Homens que fazem voluntariado ou jogam cartas juntos uma vez por semana estão mais protegidos de derrames.

Quase um quarto da população dos países desenvolvidos não tem com quem conversar. E, em certa medida, nossas vidas profissional, pessoal, educacional e até social se tornaram mais solitárias. Fazemos muito mais coisas sozinhos, sem depender de ninguém. Mas há um efeito colateral aí. Cuidado.

Então, como sugere Susan Pinker, coloque a socialização, literalmente, na agenda. Um encontro com amigas, um café com a mãe, um almoço com o irmão, mesmo uma visita a um ex-professor. Ou chamar o vizinho pra uma caminhada no bairro! Ou até só pra conversar no jardim do prédio! Assim como você determina os dias de academia ou o prazo da entrega de um projeto, coloque o contato com as pessoas como uma prazerosa meta.

Essa troca fortalece o sistema imunológico, aumenta os hormônios responsáveis pelo bem-estar, ajuda crianças a se desenvolverem e aprenderem melhor, permite aos adultos viverem vidas longas, felizes e saudáveis. Na semana passada fui almoçar com duas amigas. Pra dar aquele abraço já de boas festas e de muito obrigada por tudo em 2017. Organizei todo o resto do dia em torno do tempo para esse encontro. Saí mais em paz e renovada para o restante das tarefas que me aguardavam.

É isso. É criar o efeito vilarejo. É alimentar com afeto a proximidade. É o que meu condomínio vem fazendo. É um lindo objetivo a ser alcançado por você ano que vem. ❤

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Para comprar meu livro Tem Dia que Dói – mas não precisa doer todo dia e nem o dia todo, acesse a loja virtual: https://temdiaquedoi.lojaintegrada.com.br/

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Não se acostume só com proximidade virtual

Acordei numa manhã gelada de domingo, há um mês, com os olhos ainda meio borrados da maquiagem mal tirada. Logo cedo, enquanto limpava melhor o rosto, lembrava do quanto o dia anterior, do casamento da minha prima, foi feliz, lindo, caprichado, emocionante. Mas uma das minhas tias não me saía da cabeça. Desde que eu havia acordado; ali, enquanto tomava meu café quentinho. Não tirei foto com ela e acabamos conversando pouco na festa.

Resolvi mandar mensagem. Oi, tia! Oi, minha linda! O que tá fazendo? Já tá quase tudo no carro. Quase tudo o que, tia? Ué? Até minha televisão grande. E vai onde? Morar lá perto deles.

Minha tia mudaria não só de cidade, mas de estado. Pra junto da filha única, da netinha e do genro. Vai começar vida nova perto dos queridos. Fiquei feliz por ela, e triste. Tinha em mente marcar um café em breve, colocar conversa em dia. Por que não marquei antes, poxa?

Muito por essa falsa sensação que as redes sociais nos dão: de que tá todo mundo perto, logo ali. É reconfortante, por um lado, acompanhar o dia a dia de quem a gente quer bem em fotos, compartilhamentos. Fazemos contato rápido. Mas é um tapa na cara quando a gente percebe que fica na tela do computador ou do smartphone vendo a vida passar e o aconchego do abraço, do olho no olho, acaba em último plano.

Já se deram conta quantos filhos de amigos vocês estão vendo crescer só pelo Facebook? Pensei nisso outro dia… É maravilhoso ter a chance de acompanhar o desenvolvimento dos pequenos por fotos, vídeos… Mas não pode ser só isso! A não ser que a pessoa more muito longe. Não pode a amiga ter bebê e você ver essa fofura um, dois anos depois!

O cotidiano é de pressa, sem dúvida. Estamos na batalha. Redes sociais nos conectam. Mas não nos afagam. Acho fantásticas as possibilidades que o mundo digital nos dá, pessoais e profissionais. Devem, no entanto, ser apenas meio de levar ao real. Não é a vida. É só um frame.

Compre on-line o livro “Tem Dia Que Dói”, de Suzane G. Frutuoso

Lançado em setembro, o livro “Tem Dia Que Dói – Mas Não Precisa Doer Todo Dia e Nem o Dia Todo”, de Suzane G. Frutuoso, jornalista, escritora e autora do blog Fale Ao Mundo, pode ser adquirido on-line no link http://temdiaquedoi.lojaintegrada.com.br/. Veja resenha abaixo:

Como levantar da cama quando a primeira coisa que vem à cabeça ao abrir os olhos é um sofrimento? Não tem jeito. Tempos de felicidade se alternam com períodos de tempestades. É o ciclo natural da vida. Mas como fazer o coração (e mesmo o corpo) compreender que, simplesmente, faz parte? Porque tem dia que dói… E dói tanto que a dor chega a ser física. Falta o ar direito. Falta força pra arrumar a postura. Falta vontade de continuar a caminhada. A obra traz crônicas sobre relacionamentos e questões cotidianas; alegrias, desafios e afetos. E como lidar com tudo isso em tempos de incertezas socioeconômicas e instabilidades de comportamentos e sentimentos. É como se autora estivesse sentada num café conversando com um grande amigo (nessa caso o leitor), contando histórias e refletindo sobre como superar os obstáculos quando nos vemos diante deles. Editora Volpi & Gomes. 160 páginas. R$ 28,50.

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Suzane é jornalista formada pela Universidade Católica de Santos (Unisantos), mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e especialista em Comunicação Corporativa pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Foi repórter nas revistas Época e Istoé, repórter especial no Jornal da Tarde (Grupo O Estado de São Paulo), e editora-chefe da revista Gosto (do segmento de gastronomia e estilo de vida). Hoje atua como assessora de comunicação corporativa em São Paulo. Criou o blog Fale Ao Mundo (www.faleaomundo.com.br) em outubro de 2012, que deu origem ao livro.

Memórias afetivas da gastronomia*

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Comida é afeto. Aprendi essa regra desde muito criança. Na minha família, de portugueses, a culinária sempre teve papel de destaque. Nenhuma festa, nenhuma ceia, era menos do que farta. Na verdade, nem as refeições diárias tinham o direito de se resumirem a meros pratos rápidos. Os tempos difíceis, do dinheiro curto e das incertezas de quem vivia num Brasil de inflação estratosférica, bateram à porta da minha casa na infância. Mas comida? Essa não faltaria jamais. Porque mais do que alimento, ela sempre significou cuidado, amor.

Boa parte das minhas melhores lembranças tem alguma coisa de comer no meio, sempre ligada a alguém importante pra mim: bolinho de chuva (minha avó materna), bolinho de arroz (minha madrinha), goiaba (minha avó paterna), batata frita (meu irmão), lasanha (minha mãe), coxinha com Guaraná (meu pai), bolos, gelatina com leite condensado e sopa da ‘fortuna’ (minhas tias), bem-casado (minha melhor amiga), mini pizza (minha cunhada), maria mole (meu padrinho), Diamante Negro e rabanadas (minha tia-avó)… A lista é interminável. Até a imagem que guardei do meu avô materno, que morreu quando eu tinha três anos e de quem me lembro pouco, é de me levar para comprar suspiros, uns que eram quadradinhos, em rosa e azul.

Talvez por isso, eu não consiga entender quem vive de saladinha, numa eterna dieta. Por favor, não me entendam mal. Sei que muita gente precisa mesmo, por recomendações médicas, maneirar na alimentação. Eu também, por mais que goste, não saio atacando tudo isso que descrevi todo dia. Cuidar da saúde é importante e uma alimentação equilibrada é fundamental. Mas tem quem quase desmaie de fome pra manter um padrão equivocado de magreza absoluto – e o mau humor junto. Eu realmente prefiro manter meus dois insistentes quilos a mais e me divertir num churrascão com os amigos do que deixar de conviver com gente querida porque a tentação está na mesa.

Não curtir uma refeição gostosa é um pecado ainda maior quando se vive em São Paulo, com seus 12,5 mil restaurantes, 15 mil bares e 3.200 padarias. Uma vez tive um encontro em uma das cantinas do Bexiga. Jantares/almoços são sempre um método de aprovação/eliminação de pretendente. Se ele me acompanhar na orgia gastronômica, ganha pontos. Não foi o que aconteceu na ocasião. Enquanto eu me acabava no pão de calabresa e no nhoque, ele comeu só salada (numa preocupação descomunal em dobrar a alface, sem cortá-la), deu meia dúzia de garfadas no capelete e – cavando a sepultura do encontro – colocou adoçante no café. Ninguém precisa concordar comigo, é coisa minha, mas dá pra ser sexy tomando café com adoçante?

Relacionamentos à parte, também as feiras de rua na capital sempre me ajudam a manter toda essa memória afetiva. Basta um passeio entre as barracas, um pastel e um caldo de cana. Pronto. Lá vêm as lembranças felizes das manhãs de sábado, quando minha mãe arrastava o carrinho em uma mão e eu em outra. Consigo até sentir o cheirinho da feira, aquele misturado de frutas e legumes. E atire a primeira pedra quem nunca se deliciou com a fritura do pastel se desfazendo na boca.

Outro dia uma amiga veio aqui em casa, potinho na mão, com um pedaço de bolo de chocolate que guardou pra mim. Tinha sido uma semana difícil. E essa lembrança fez toda a diferença naquele momento. Mais do que questão de sobrevivência, comida é um jeito de dizer ‘eu te amo’, ‘me preocupo com você’. É demonstrar, sem palavras mas com pratos, carinho e querer bem. E é por isso que eu vou lá agora, preparar o almoço de domingo para as visitas. Dizer a elas o quanto são importantes na minha vida, com a ajuda dos temperos e das panelas.

Crédito da imagem: blog As Devoradoras
*Texto publicado no Jornal da Tarde em abril de 2012

Tempinho precioso

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Quantas vezes você não para por dia pensando: “Preciso arrumar um tempinho para…”. As reticências podem ser preenchidas por uma infinidade de quereres. O problema é quando ficam só na ideia, no desejo, e a gente não coloca em prática. E como é bom arrumar aquele tempinho precioso pra fazer coisas especiais, falar com gente querida…

É verdade que fim de ano começa aquela correria para adiantar serviço, organizar festas, comprar presentes, ir a eventos da escola dos filhos ou da firma… Mas não esquece do tempinho, não… Vença o cansaço! Reserva uma hora pra ligar pra amiga que tá precisando de ajuda, pra escrever uma mensagem para o amigo que começou no novo emprego, pra mandar flores pra alguém importante, ou deixar um recadinho de voz gracinha no whatsapp desejando bom dia…

Quem sabe até marcar aquele café no fim da tarde. Ou caminhar com o pai e a mãe no calçadão da praia ou olhando vitrine no shopping. E quando não dá pra encontrar um querido por vez, organiza uma pizza, chama todo mundo, separa aquele mesão no restaurante. As conversas ficam meio cruzadas, não dá pra contar tudo o que precisa, mas pelo menos dá pra dar um abraço apertado em cada um. E sempre tenha uma tarde de sábado ou domingo inteiramente livres para brincar com as crianças da sua família.

No fim, o tal tempinho, que às vezes a gente considera bobagem, é a diferença que faltava pra deixar nossa vida mais repleta, aconchegante… Mais feliz… É riqueza grande… 🙂

Crédito da imagem: Creative Commons

Família imperfeita cheia de perfeições

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Essa semana recebi um comentário carinhoso aqui no blog sobre o post que falava dos benefícios de tomar sol e andar na praia. A Nazaré, que é mãe de uma amiga querida, acompanha o Fale ao Mundo assiduamente desde o começo. Virou minha amiga também. Disse que achava bonita a maneira como eu me referia à minha família em vários textos. Como recordo nos meus escritos muitas coisas que vivi pra exemplificar situações que acontecem na vida de todos nós, acabo realmente relembrando momentos especiais (e até difíceis) ao lado das pessoas que amo.

Família margarina?! Nada disso!! Aliás, desconfio profundamente de quem não tem um arranca-rabo com pai, mãe, irmãos, filhos, tios, primos, sogro, sogra, genro, nora, cunhados volta e meia. É natural. É saudável. É bem humano. Simplesmente porque onde tem gente tem bagunça. Tem pensamento diferente. Tem desejos diferentes. Ninguém precisa concordar comigo, mas eu sempre tenho um pé atrás com quem não ficou de bico, emburrado, chateado com um parente. A questão é até que ponto manter a cara amarrada ou bater o pé que tem razão e “pronto, cabô”. Precisa mesmo? Vai fazer taaanta diferença assim? Pensa bem…

Claro, conheço pessoas que precisaram se afastar de familiares. Por uma questão de saúde emocional. E é legítimo. Ninguém deve aceitar ser humilhado, mal tratado, só porque a atitude vem de alguém da família. Porque deve respeito ao outro. Alto lá! Independentemente de idade, respeito todo mundo merece. Direito à opinião também. Que cada um aprenda a falar o que pensa e se mantenha preparado pra ouvir. Eu sei… É aí que começam as confusões na sua casa, né? Pensa bem… Não tô sugerindo que você deixe de se expressar. Fale. Uma vez. E deixe aquele que insiste no bate-boca falando sozinho. Funciona. Vai por mim. Foque sua energia de debate e convencimento para o ambiente de trabalho, a sociedade, a rede social.

Com os mais folgados basta colocar um limite sem dó nem piedade – e muito amor e desprendimento – que tudo dá certo. Família imperfeita é a regra. Não imagine o contrário. E que delícia jogar um olhar generoso sobre a sua família imperfeita e ver que ela é cheia de perfeições. Que deixa de lado as picuinhas pra se ajudar nas horas difíceis. Que brinda no Natal. Que dá aqueles conselhos que você pensa “céus…”, mas é com base no que a outra pessoa acredita de verdade ser o melhor pra você.

Acho que nosso maior problema é reclamar demais do que foi, do que passou. Mirar nas situações de desacordo. Meu filtro interno é para as coisas boas. É assim que tenho tão claramente dias felizes à minha frente quando fecho os olhos. Como consigo isso? Não sei se é uma disposição interna, genética, comportamental… Eu só acredito mesmo que não vale a pena perder tempo com chatice. Somos uma história breve. Então, que seja cheia de abraços e sorrisos dos nossos queridos.

Crédito da imagem: CSV

A arte de compreender relacionamentos aos 30

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Relacionamento a dois não é fácil. Por mais que se goste, por mais que se aprenda o tal do ceder, se relacionar de um modo saudável, me parece, é uma arte para poucos. Sim, namoros e casamentos podem ser muito felizes! Eu acredito nisso fortemente porque vejo casais amigos meus, bem próximos, que estão genuinamente contentes e serenos com a escolha que fizeram. Mas se você chegou aos 30 e está solteiro, lamento dizer, terá que encarar uma profusão de desejos confusos. Tanto por parte dos homens como por parte das mulheres.

Porque 30 anos, eu descobri, pode ser a mais angustiante das fases sentimentais da vida de alguém. É verdade que, a essa altura, você já aprendeu aquilo que NÃO quer mais. E, cá entre nós, é um tremendo adianto ter certeza das situações/tipos de pessoas com as quais não se espera mais conviver. Mas dependendo de como conduziu seu caminho até aqui, você ainda não sabe realmente o que deseja, como dizem por aí, para o resto dos seus dias (o que me soa tempo demais, inclusive, caso eu chegue aos 100 anos).

Não bastassem dúvidas como “caso ou dou a volta ao mundo sozinho(a)”, “me torno pai/mãe ou continuo com um foco único na carreira pra ganhar dinheiro e fazer o que eu bem entender”, ainda temos que lidar com as fragilidades alheias. E as fragilidades femininas e as masculinas divergem horrores nessa fase. Comecei a conversa “o que eles querem, o que elas querem” com um amigo num almoço de domingo, que se estendeu num outro dia por telefone e acabou numa partida de sinuca numa noite depois do expediente. Temos teorias diferentes sobre o assunto, mas complementares.

Ele acredita que na casa dos 30, especialmente os caras separados (e são uns tantos) precisam de “espaço”. Querem ter alguém, mas não o tempo todo. Enquanto isso, a mulherada de 30 quer provar para o sujeito que pode amá-lo (em curto espaço de tempo!) mais do que sua própria mãe. Permear TODAS as horas do dia dele. Eu concordo que a situação descrita seja bem corriqueira, com destaque para parte (atenção para a palavra “parte” no contexto) das mulheres que se dedicaram nos últimos anos exclusivamente à carreira e a se realizarem individualmente. Mesmo que inconsciente, o desejo de ter alguém pra compartilhar os dias se torna urgente. Nem sempre pra casar e ter filhos. Mas pelo prazer único que é amar alguém e que andou em segundo plano. De ter companhia nas lutas que estão por vir – porque enfrentar tudo sozinha uma hora enche o saco e você quer sim um ombro mais forte que o seu pra deitar um pouquinho.

Como contrapartida, a outra parte das mulheres que optaram pela realização individual antes de pensar se realmente se encaixam no padrão família margarina é que PRECISA do tal espaço (que meu amigo julgou ser uma exclusividade masculina). Não é regra, não. E essa mulher não entende quando é atropelada pelos desejos de caras que querem sim casar, ter filhos, a família margarina – mas desde que seja do jeito deles. Amigo, essa moça não vai aceitar sem debate suas imposições. Ela foi dona de si até aqui, querido. Você acha mesmo que ela vai trocar automaticamente o estilo de vida dela pelo seu sem concessões? Não vai. E ela pode até chorar uns dias quando vocês romperem pela divergência de ideias. Mas em seguida estará planejando uma viagem pra Ibiza com as amigas.

Uma coisa a gente concordou nas nossas conversas: homens de 30, no fim, graças à insegurança e à preguiça, acabam preferindo meninas bem mais jovens, no começo dos 20 anos. Palavras dele: “Elas são muito mais fáceis de impressionar, têm menos experiência. Se eu te contar da minha última viagem pra Londres não vai ser nada incrível pra você. Tenho que te contar alguma coisa do tipo ‘a última vez que estive no Nepal’.” Significa que eles, bobinhos, temem não serem páreo pra nós em termos de experiências. Não entendem que levamos em consideração muitas outras coisas legais, como caráter, atenção e disposição de aprenderem junto com a gente infinitas possibilidades que o mundo tem a oferecer.

Independente da idade e da crise sentimental em que se está mergulhado, uma regra nunca deve ser esquecida: relação boa é relação saudável. Amor rima com dor só em caderno de poeta. Na vida real, amor tem que ser gostoso e leve. Eu acho. Do contrário, sempre cabe aqui o clássico “antes só do que mal acompanhado”.

Crédito da imagem: Casal Sem Vergonha