Desafios de um negócio que lida com preconceitos

“Su, chamei uma amiga, mas você não acredita no que ela me disse… Que não viria num curso de investimentos apresentado por uma mulher porque mulher não entende do assunto.” A admiração era de uma das participantes do último MAG Finanças, workshop da plataforma Mulheres Ágeis, na qual sou cofundadora com minha amiga Renata Leal.

Como contei a vocês no artigo anterior, a Rê é investidora e idealizou esse workshop para que cada vez mais mulheres se empoderem economicamente. No caso, a última edição foi criada especialmente para quem está com vida financeira em equilíbrio, mas deseja aprender mais sobre investimentos.

Eu, claro, já assisti a todas as edições que realizamos e garanto: ninguém antes me explicou tão bem sobre investimentos, com clareza, didática e respeito às minhas dificuldades e limitações sobre o tema quanto minha sócia. E a percepção não é só minha, mas de todas as MAGs que já fizeram o workshop.

MAG Finanças nasceu também porque muitas mulheres nos confidenciaram se sentirem mal e julgadas em grupos nas redes sociais que abordam finanças. Ou mesmo em cursos. Sofriam bullying e viam suas dúvidas ridicularizadas por homens dizendo que não era mesmo papo para mulher.

Mas aí a gente tem outra mulher que não bota fé no conhecimento de uma investidora…

Falar de gênero é sempre bater de frente com os preconceitos das pessoas. Mesmo aqueles que elas não admitem. Mesmo aqueles que acreditam nem ter. Mesmo aqueles que fazem com que elas também sofram. Faz parte do nosso trabalho mostrar quando é um preconceito e que tal postura gera um impacto negativo na sociedade. Afeta a todos nós.

Ainda assim, quando o machismo vem de uma mulher, a gente dá uma perdida de chão, sabe? Fica um tempo meio entre o choque e o desânimo. Passa rápido! Mostra, porém, que nosso caminho é longo. Bem longo.

Quando um negócio carrega na sua essência lidar com preconceitos, encontramos obstáculos que outras empresas não encontram. O resultado é que nosso crescimento pode ser, sim, mais lento. Mexer com comportamentos é uma tarefa que transforma você em heroína para uns e inimiga para outros. Não tem meio-termo.

O lado bom é que quem enxerga a necessidade de mudança junto com a gente se torna não só defensora (ou defensor) das nossas ideias, como “espalha a palavra” também. Toma pra si a tarefa de nos ajudar a estar em mais lugares, espaços, eventos, empresas, para um público crescente.

Dias depois dessa última edição de MAG Finanças, fiz a sessão de mentoria com uma jovem promissora de 18 anos que começou este ano a faculdade de relações internacionais. Há pouco mais de seis meses, conversamos uma hora, uma vez por semana, com foco na elaboração e no desenvolvimento de seu pensamento crítico. Como já completávamos um semestre de conversas era hora de um balanço. Mandei a ela algumas perguntas.

Uma das coisas que a mentoria despertou na minha futura diplomata foi a possibilidade de, quem sabe, lá na frente também venha a empreender. Que eu, à frente de dois negócios diferentes, mantinha bom humor e parecia ter tempo para minhas questões pessoais. “Sempre achei que mulher dona de empresa era estressada e sem vida”.

Adorei o elogio por um lado, mas chamei a atenção. “Você pensaria isso de um homem à frente de um negócio? Que ele seria estressado e sem vida?”

Ela levou a mão à boca e pediu desculpas, que não tinha se dado conta de que era um preconceito. Que realmente não pensaria isso de um homem. Rimos juntas. Pedi que não se preocupasse, que tudo bem. Nem de longe ela é uma moça preconceituosa. Pelo contrário. É daquelas jovens que permite acreditar que o mundo não está perdido.

Até aqui, fomos criadas com uma série de crenças limitantes de “isso não é para mulher; isso vai prejudicar a sua feminilidade, ninguém vai te querer”, entre outras bobagens. Acabamos projetando as percepções negativas sobre nossa própria capacidade em outras mulheres. “Se não é coisa de mulher, como é que ela sabe fazer? Como entende do assunto?”

O resultado dos padrões de incapacidades que aprendemos é não só deixar de avançar em aspectos pessoais e profissionais, como tentar desqualificar quem já avança. E enfraquecermos as outras é jogar a favor de tudo o que nos prejudica: assédios, violências, salários menores, sobrecarga de tarefas domésticas…

Como eu disse, o caminho é longo. Como prova minha mentorada, são padrões absolutamente possíveis de serem deixados para trás. Cada uma a seu tempo, é verdade. Mas, por favor, quanto antes, melhor.

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Suzane G. Frutuoso é criadora e autora no blog Fale Ao Mundo, cofundadora da plataforma Mulheres Ágeis e da consultoria ComunicaMAG. É jornalista, mestre em sociologia pel PUC-SP, especialista em comunicação corporativa pela FGV e escritora

Artigo originalmente publicado no LinkedIn Brasil

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Vai abrir mão de uma profissional talentosa? Azar da sua empresa

Eu nunca me senti muito confortável quando chegava para trabalhar e uma pessoa do time de RH entregava uma flor ou um bombom no 8 de Março. Menos ainda quando muitos caras aproveitavam a ocasião para fazer a famigerada brincadeirinha “hoje é dia da mulher, do homem é o ano todo”. Geralmente, vinha daquele sujeito que assediava, intimidava e era inconveniente com as mulheres com quem convivia no ambiente de trabalho.

Não que eu não goste de flores e bombons. Adoro. Mas que venham de quem eu desejar. E respeito e consideração profissional devem ser estampados no holerite. Nas oportunidades iguais de ascensão profissional. Com os mesmos salários pelas mesmas tarefas e cargos – não os 75% do total do salário dos homens, segundo o IBGE e muitos outros levantamentos mundiais que calculam essa diferença entre 31% e 75%. No ano passado, a ong britânica Oxfam divulgou um relatório mostrando que a igualdade salarial entre gêneros só será alcançada em – tá sentada, miga? – 170 anos.

A mulher prova, a cada dia, que quando uma empresa a valoriza, ela também retribui com excelente trabalho, dedicação, vontade de melhorar o ambiente corporativo e lealdade. A corporação que entende que é imoral demitir após a licença-maternidade, que permite à colaboradora horários flexíveis, meio período, home office, entre outras formas de apoio para que ela equilibre carreira e o cuidado com os filhos, com a família, que paga salários justos e dá chance e incentivo para que lideranças femininas despontem, vai se dar bem. Não só reterá talentos e será desejada por tantas outras profissionais talentosas, como também verá seu lucro aumentar.

Empresas com mulheres em cargos de liderança têm 15% a mais de lucro em relação às concorrentes que não levam em conta a questão da igualdade de gênero na escolha dos gestores. O dado é de uma pesquisa do Peterson Institute for International Economics, de 2016, com base em 22 mil organizações em 91 países. Além disso, um levantamento da empresa de recrutamento Catho mostrou que existem características femininas que trazem dinamismo ao ambiente de trabalho:

-> Entregam tarefas no prazo e promovem mudanças estratégicas;
-> Vencem dificuldades e antecipam crises, mantendo as competências e lidando bem com cenários adversos;
-> São mais flexíveis diante de novas ideias;
-> Contribuem mais com sugestões;
-> Promovem a diversidade, que traz diferentes perspectivas e impactam positivamente no desenvolvimento das atividades do grupo.

Enfim, organizações com mulheres na liderança tendem a registrar melhor desempenho.

Mais um dado para não deixar ninguém em dúvida, heim? Pesquisa da multinacional Regus confirma que 57% das companhias acreditam que reter mães trabalhadoras ajuda a melhorar a produtividade. Essas profissionais são valorizadas pela experiência e transparecem maior confiabilidade e organização que outros colaboradores. Uma boa notícia num mundo em que muitas mulheres ainda levam um choque emocional quando voltam da licença-maternidade.

Divulgado em 2017, um estudo feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), com 247 mil mulheres entre 25 e 35 anos, apontou que metade das que tiveram filhos perderam o emprego até dois anos depois da licença-maternidade. No segundo mês após o retorno ao trabalho, a probabilidade de demissão chega a 10%. Imagina passar toda a gravidez insegura sobre o risco de perder o emprego justamente quando o bebê está prestes a chegar?

É conquista, não festa
O Dia 8 de Março, para quem não sabe, não é uma data aleatória para celebrar a mulher – como muitos ainda pensam. Se eu estou aqui hoje, escrevendo e falando o que eu penso sobre as empresas é só porque muito antes de mim, de você, mulheres abriram passagem, pagando muitas vezes com a vida. É conquista a ser reverenciada, com respeito.

Um pouco de história para vocês, amigxs, de todos os gêneros…

Em 25 de março de 1911 cerca de 130 operárias morreram carbonizadas em um incêndio em uma fábrica têxtil em Nova York. Um marco na luta feminista no século 20. Mas desde o final do século 19, organizações femininas nascidas entre as operárias da Europa e dos Estado Unidos já protestavam contra as jornadas de trabalho de 15 horas diárias, salários de fome e trabalho infantil comum nas fábricas.

Foram 1500 americanas que fizeram o primeiro Dia Nacional da Mulher surgir, quando aderiram a uma manifestação em prol da igualdade econômica e política, em maio de 1908. Em 1910, durante a II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas na Dinamarca, uma resolução para a criação de uma data anual pelos direitos da mulher foi aprovada por mais de cem representantes de 17 países. O objetivo era honrar as lutas femininas e obter apoio para o direito ao voto universal em diversas nações.

Mas foi em 8 de março de 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, quando 90 mil operárias se manifestaram contra o Czar Nicolau II, as más condições de trabalho, a miséria e a participação russa na guerra – em um protesto conhecido como “Pão e Paz” – que a data se consagrou. A oficialização do Dia Internacional da Mulher veio em 1921.

Vinte anos se passaram, e em 1945 a Organização das Nações Unidas (ONU) assinou o primeiro acordo internacional que para princípios de igualdade entre homens e mulheres. Nos anos 1960, o movimento feminista cresceu, em 1975 comemorou-se oficialmente o Ano Internacional da Mulher e, em 1977, o “8 de março” foi reconhecido oficialmente pelas Nações Unidas.

No Brasil, a partir dos anos 1970 surgiram organizações que passaram a debater a igualdade entre os gêneros, a sexualidade e a saúde da mulher. Em 1982, é criado o Conselho Estadual da Condição Feminina em São Paulo e, em 1985, a primeira Delegacia Especializada da Mulher.

Vocês podem conhecer mais detalhes sobre a data no livro As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres, de Ana Isabel Álvarez Gonzalez.

Como a gente sempre diz em Mulheres Ágeis, plataforma na qual sou uma das fundadoras (www.mulheresageis.com.br), temos muito para avançar. E se você quer saber como tornar sua empresa um exemplo em equidade de gênero e levar reflexão sobre a importância do empoderamento feminino para seu time, conheça o projeto MAG In Company (https://goo.gl/uZ9nQr). Palestras e workshops sobre o tema para impactar positivamente o ambiente corporativo com ações justas. Não é só cuidar da imagem da marca. É discurso, sim, mas para despertar consciência e virar prática.

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Nenhum extremo é válido

A balança indica: já cumpri uma das metas que estipulei pra mim mesma em 2018. Ano passado ganhei felizes dois quilos no primeiro semestre depois de dar fim a uma situação que eu não desejava mais pra minha vida. Estava mais magra do que gosto de me ver. Aí, embarquei de vez no cotidiano de empreendedora, com dois negócios pra fazer acontecer e ainda tocar uns projetos pessoais/profissionais do coração. Diminui a frequência da academia e continuei comendo a mesma quantidade. No meu caso, quando você lê “quantidade” pode pensar em muita! Eu adoro comer!

Chega o segundo semestre, e os dois quilos a mais já tinham virado seis. Dá-lhe dor no joelho esquerdo por aumento de peso, menos disposição, cansaço batendo mais fácil. Não tive dúvida. Na lista de metas do novo ano perder quatro quilos estava no meu top five. Nada a ver com desejo de alcançar padrões estéticos x y z. Era saúde mesmo. Não queria um joelho doendo, não queria me sentir cansada logo quando havia um mundo de coisas exigindo disciplina, responsa, prazo, serviço bem feito. E, não! Não queria as roupas novas apertadas!

Então, no início de janeiro, comentei com uma conhecida que perder esses quilinhos a mais era um objetivo. Fui olhada com decepção, um pouco de horror. Por que como eu, uma mulher que trabalho com mulheres, em busca de levantar a autoestima delas, tinha coragem de sair falando por aí que estava em busca de me encaixar em um padrão estético determinado pela sociedade? Como eu me rendia, assim, à ditadura da magreza com tantas mulheres sofrendo com distúrbios alimentares? Como eu era incapaz de aceitar o meu corpo?

Oi?

Por alguns segundos, achei que era brincadeira. Mas percebi rápido que ela falava sério. Uma pessoa que se diz evoluída espiritualmente (?) e é incapaz de compreender a informação que eu passava. Precisa evoluir em compreensão de mensagem também, né? Magina como deve ser a compreensão de texto?

Ela ficou brava, realmente brava comigo. Eu era um mau exemplo. Eu perpetuava o sofrimento de quem faz de tudo para emagrecer independentemente das consequências.

Pra mim, a única coisa que ela fez naquele momento foi reproduzir um discurso carregado de preconceito típico de quem não sabe defender ideias com reflexão, poderação. Sem ouvir o outro! Que tem ódio de tudo. Que mesmo que você defenda a mesma bandeira que ela, mas por caminhos diferentes, não serve, não tem valor. Ela era, enfim, contra a ditadura da magreza que, sim, traz tantos danos para mulheres em todo o mundo. Mas determinava, naquele segundo, a ditadura do “só eu tô certa e não preciso ouvir mais nada”. E pra se fazer absolutamente certa, tudo bem distorcer os meus motivos pra mostrar que eu não servia mesmo pra trabalhar com mulheres.

Nenhum extremo é válido, gente. O radicalismo, seja pra que lado e assunto for, é cego, surdo – só não é mudo porque vem acompanhado de muita besteira sendo dita. Mergulhada num universo bonito de pessoas que se dedicam a dar fim a preconceitos variados, a jogar luz sobre ignorâncias, também vejo muita gente transformando lutas importantes para a sociedade em segregação. E aí, meu bem, seu discurso não só perde força e credibilidade como também ajuda outras dores a nascerem e o mundo a piorar um pouco mais.

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Empoderamento? Feminismo? Ainda vamos falar muito sobre isso – e queremos mais rapazes na conversa

Eu preferiria não falar sobre empoderamento feminino em 2018. De verdade. Preferiria saber que mulheres já ganham os mesmos salários pelas mesmas tarefas que os homens (não cerca de 76% do total), que não são mais vítimas de violência doméstica, física e emocional, que não têm o emprego em risco ao retornarem de licença-maternidade ou que meninas não estão sendo criadas para acreditar que algumas coisas não são para o bico delas (da infância à juventude, a autoestima das meninas cai três vezes em relação a dos meninos). Que não somos mais intimidadas em situações de assédio ou mesmo inferiorizadas caso a gente decida ser dona de casa e criar os filhos. Ou não ser dona de casa e não ter filhos.

Vem terminando o primeiro mês deste novo ano e tudo isso que citei continua acontecendo. Se não comigo, se não com você ou com uma mulher com quem você convive, com milhares de mulheres no Brasil e no mundo, de diferentes realidades e classes sociais. Não consigo viver ajeitando aqui o meu mundinho particular, com a certeza de que tenho voz e atitude para me defender se necessário de situações em que eu seja desrespeitada, e não dar a mínima para padrões nocivos da sociedade que fazem das mulheres reféns de agressões, dor, menos oportunidades.

De comportamentos que, mesmo que uma mulher acredite que não é com ela, um dia será com ela. Na vida pessoal, no trabalho, na rua. Não se trata de vitimismo, de tornar o feminino uma condição de eterna vulnerabilidade. Se trata de um cenário que para muitas de nós é, simplesmente, cruel. Onde há medo. Onde há morte. Ouvi recentemente de uma mulher que ela nunca foi assediada porque sabia se impor. Que bom. Mas esqueceu que 1) as pessoas são diferentes, com personalidades diferentes, com maior ou menor grau de segurança para reagir; 2) ninguém deve ser obrigada a se impor para não ser molestada ou agredida.

Empatia, por favor, gente. Não adianta pedir pela paz mundial e não ser capaz de se colocar no lugar do outro, de compreender os impactos negativos que nosso egocentrismo causa.

Com o fim deste janeiro, no dia 30 de ontem, veio também o aniversário oficial de um ano da plataforma Mulheres Ágeis (www.mulheresageis.com.br), que fundei com minha amiga e sócia, Renata Leal. Mais de 3 mil pessoas foram impactadas pelo nosso trabalho em 2017, entre eventos e redes sociais.

Mulheres Ágeis nasceu para contar histórias de mulheres inspiradoras e líderes em suas áreas, que são exemplos lindos para todas nós; e para criarmos workshops de desenvolvimento pessoal e profissional só para mulheres – sim, grupos de conhecimento e troca nos quais apenas elas entram. Decisão tomada após uma pesquisa on-line que realizamos em agosto de 2016, quando a ideia nascia, e mais de 500 mulheres responderam em menos de uma semana, entre outras questões, que adorariam cursos voltados especificamente ao público feminino.

A experiência mostrou que Renata e eu não estávamos erradas na escolha: num ambiente em que elas se sintam acolhidas e não julgadas, abrem o coração, se reconhecem nas histórias das outras, saem fortalecidas e com mais informações que permitem se não mudar de vez o que não querem mais, ao menos pensar sobre o assunto. Foram encontros ricos, gratificantes e poderosos, com reflexões, exercícios, boas risadas, lágrimas, amizades que se formaram, negócios que foram fechados. Apoio. O “não estou sozinha”. O “eu vou conseguir”.

Que venha o masculino
Além do site e dos workshops, criamos também o seminário O Impacto das Mulheres: onde chegamos e o que falta conquistar. O objetivo é debater o empoderamento feminino, o feminismo e as questões que impactam a vida não só das mulheres, mas também dos homens. Foram cinco edições em 2017, duas em São Paulo, uma em Santos, uma no Rio de Janeiro e a última em Campinas. Sempre gratuito e aberto ao público em geral, para pessoas de todos os gêneros.

Sempre tinha um rapaz. Poucos. Bem poucos. Mas tinha. Desde o começo de Mulheres Ágeis, recebemos apoio de muitos amigos e conhecidos. Eles entendiam quando a gente explicava sobre os workshops serem apenas para o público feminino, compreendiam o sentido.

Caras legais (e enquanto escrevo isso consigo lembrar de logo uns dez), que sabem bem quanto dividir igualmente tarefas de casa e educação dos filhos melhora os relacionamentos e que encorajar meninas a serem tudo o que desejarem e meninos a serem mais afetivos os tornará adultos mais felizes. Que promover mulheres torna suas empresas mais eficientes e lucrativas e oferecer alternativas na volta da licença-maternidade (home office, meio período por alguns meses) permite que elas cresçam na carreira mantendo o equilíbrio com a maternidade. Segura grandes talentos.

Caras legais que estão cansados de ouvir coisas como “onde está sua mulher?” quando avisam o chefe sobre sair mais cedo para a reunião de pais da escola ou para levar os filhos ao médico. Que não desejam mais carregar a obrigação de provedor e também querem tempo com os filhos; esperam que licença seja parental (com mesmo período da licença-maternidade e não a cinco dias da atual licença-paternidade).

Caras legais que, agora, dizem: “por favor, ajuda a gente a explicar para os outros caras, mostrar que é importante?”

Muitos homens ainda não conseguem entender completamente os nossos motivos. Mas já se sentem desconfortáveis com as reflexões que vieram à tona. Perceberam que carregaram ou carregam comportamentos que prejudicam as mulheres. Esse desconforto, alguns deles me disseram, os torna abertos a ouvir.

Então, quando em setembro de 2017, Rê e eu definimos o planejamento de Mulheres Ágeis deste ano, resolvemos que sim, era hora de trazer mais rapazes para a conversa, juntar forças. Para que eles conheçam nossas histórias e para que internalizem quanto a ideia ainda prevalente de uma educação em que a masculinidade é agressiva piora seus relacionamentos e suas próprias vidas.

Ainda precisamos desses momentos sozinhas, como nos workshops. Mas não podemos ficar falando sozinhas, sem que a outra parte tão fundamental das nossas relações entenda, aprenda e repasse esse aprendizado. Porque empoderamento feminino é sobre todos nós. É sobre mais do feminino na sociedade, que todos nós temos – sensibilidade, empatia, colaboração, intuição, cuidado. É sobre empoderar, que significa conceder poder de conscientização a si próprio e a outras pessoas, e não apoderar (tomar o poder, dominar alguém ou uma situação).

E vai ter feminismo
Feminismo não tem nada a ver com ser desse ou daquele partido político, odiar os homens, ser mal resolvida ou exigir o fim da liberdade sexual. Na real, é o contrário de tudo isso e muito mais. O feminismo só existe porque tivemos que aprender a nos defender de um preconceito violento, o machismo. E não, não são termos contrários. O feminismo é inclusivo e fala de uma sociedade mais equilibrada para todos nós, na qual as pessoas se realizam de diferentes maneiras e sem padrões limitantes estabelecidos.

Quem quer casar, casa. Quem não quer, não casa. Uns querem ter filhos e outros não. Mulheres podem ser CEOs de empresas, homens podem ser donos de casa. E, sim! Claro! Homens podem continuar CEOs de empresas e mulheres donas de casa! Mulheres podem ser empreendedoras e homens não precisam se ver obrigados a perseguir cargos de liderança para provar masculinidade se assim não desejarem. Entendem? Menos padrão, mais coração. E tudo com respeito, tratando o outro como se espera ser tratado.

O feminismo prova que quando um casal ganha salários semelhantes, eles desfrutam de uma vida mais confortável, segura. Quando dividem as tarefas de casa igualmente, os relacionamentos ganham mais tranquilidade, menos estresse. Há uma valorização do parceiro, do companheirismo.

E se eu ainda não convenci você: o machismo mata. O Brasil está num vergonhoso quinto lugar em taxas de feminicídio no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde e o Mapa da Violência de 2015. As mulheres negras são ainda mais afetadas por esse tipo de homicídio doloso, com aumento de 54% no número de mortes entre elas entre 2003 e 2013.

Por isso que quando alguém diz que movimentos como o #MeToo são um completo exagero, epa, epa, epa! Mais respeito com quem teve coragem de escancarar a própria ferida e se mobiliza para que assédios sexuais, estupros, agressões não continuem afetando mulheres ao redor do mundo. Não sejam a regra em muitas indústrias, mercados, escritórios, estúdios de cinema, salas de aula, chãos de fábrica e por aí vai.

Você sabe o que é, por exemplo, se certificar de não ficar sozinha no horário de almoço no mesmo ambiente que um cara que tem as costas quentes na empresa? Porque sabe que, assim que ele tiver a chance, vai te encurralar no corredor, falando bobagens pra você, colocando a mão na sua cintura, descendo no quadril, sem autorização? E depois ter que aguentar uma reunião em que o mesmo sujeito está presente e você nem conseguir se concentrar porque ele te encara, com raiva, pelo fora que levou?

Eu sei o que é isso. É pouco perto de situações que outras mulheres enfrentaram. Mas eu tinha 20 e poucos anos e, sem dúvida, atrapalhava meu trabalho, meu desempenho.

“Ah, mas um monte de mulheres começou a falar que sofreu assédio só porque outras falaram”. Lógico! Quando você não se vê sozinha, reflete sobre uma situação tão constrangedora, desagradável ou mesmo violenta que enfrentou, que entende que aquilo fez mal pra você e até impactou outras áreas da sua vida, relacionamentos, tem mais é que falar! E dar um jeito de não acontecer mais, seja comigo, com você, com senhoras ou meninas da nova geração.

O feminismo não quer o fim do flerte gostoso, devidamente recíproco. Não crucifica o sexo, por amor ou por tesão, com consentimento. Só exige limites, bom senso, sem invasões de privacidade graves, perturbadoras. Tá errado.

Sororidade se aprende
Não queremos os homens na guilhotina. Mas que repensem suas atitudes, se arrependam e não façam mais. Na onda de denúncias é bem possível, sim, que um inocente seja acusado. Falta de caráter não é exclusividade de gênero. Mas a verdade sempre aparece. Ninguém pode dizer que os casos de assédio nos últimos tempos são uma histeria coletiva feminina. É sintoma de uma sociedade em que a mulher é colocada como inferior há décadas, como objeto, propriedade. Não há mais espaço para tal.

Enfim, há um longo caminho, especialmente para os homens. Mas eles vão conseguir. Essa é uma discussão aberta, cheia de sutilezas e influências culturais, mas que está na ordem do dia e, juntos, a gente encontra a fórmula.

As pessoas têm tempos diferentes de compreensão. Não só homens, como também mulheres. Outro dia, uma mulher me disse que feminismo é coisa de quem quer roubar o marido da outra. Gente… É o tipo de fala que me assusta bastante. E é por isso que explicar mais o sentido de sororidade é fundamental.

O termo tem origem no latim. Vem da palavra “sóror” e significa irmãs. A sororidade se tornou um dos principais alicerces do feminismo e do movimento pelo empoderamento feminino. É a união e a aliança entre mulheres, com base na empatia e no companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum.

É o não julgamento entre as próprias mulheres, que também ajudam a fortalecer estereótipos preconceituosos criados por uma sociedade machista. Sororidade é lembrar que há espaço para todas nós, mais ainda quando estendemos a mão a outras mulheres. Criamos redes de apoio, de trocas de experiências, de histórias, de serviços.

De proteção também. Eu não preciso sofrer violência doméstica para lutar pelo fim da violência a que tantas e tantas mulheres são submetidas. Mas eu posso denunciar e mostrar quanto essa é uma situação grave com consequências de tantos outros desrespeitos e riscos para todas nós.

Não espere sentir em si própria para compreender a dor da outra. Não reforce preconceitos, inclusive, porque sua autoestima não está lá grande coisa e você precisa de certezas em voz alta para se convencer de que sua realidade é que é boa, não tem que mexer em nada. Mesmo que não esteja nada boa. Não tem uma angústia aí?

Parem, mulheres, de bater no peito dizendo “sou mãe, logo, sou melhor do que você”, “sou casada, logo sou melhor do que você”, “comando uma empresa, logo sou melhor do que você”, “sou dona de casa e estou em contato com o meu eu feminino, logo, sou melhor do que você”, “sou independente, logo, sou melhor do que você”.

Não há melhor ou pior. Existem realidades, construídas por cada uma e que podem mudar a qualquer momento. Há muitas mulheres infelizes na maternidade e no casamento, mas não podem nem pensar em falar a respeito. Há tantas outras emanando aquela aura de poder e liderança, mas que estão de saco cheio da pressão. E há as que são extremamente felizes como líderes e desbravadoras, ou mães e esposas, ou um mix de tudo, ou seja lá qual for o papel que optaram por desempenhar.

Em Mulheres Ágeis acreditamos que hoje a colaboração vence a competição; a rivalidade se desfaz e dá lugar ao vamos juntas para irmos mais longe. Essa é a beleza. Singularidades preservadas e celebradas para aprendermos umas com as outras numa ainda longa estrada.

Para saber mais:
http://www.mulheresageis.com.br
http://www.rme.com.br
http://www.b2mamy.com.br
http://www.feminaria.com.br
http://www.chegadefiufiu.com.br
http://www.facebook.com/empodereduasmulheres/
http://www.onumulheres.org.br
http://www.frmeninas.com.br
http://www.girlsrockcampbrasil.org
http://www.thinkolga.com
http://www.facebook.com/chegadeassedio/
http://www.papodehomem.com.br

Para assistir (trailers):
As Sufragistas (https://goo.gl/krBQEh)
She’s Beautiful When She’s Angry (https://goo.gl/LBvQ9X)
Repense o elogio (https://goo.gl/jkR3uw)
The Mask You Leave In (https://goo.gl/3oxfZH)
Precisamos Falar com os Homens (https://goo.gl/M3QA5T)
Ban bossy (https://goo.gl/HnbtnK)

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As mulheres da minha vida

Trabalhar especificamente com mulheres não foi algo que planejei desde sempre. Foi a vida mesmo, a minha e de pessoas que me cercam ou cercaram, que mostrou a necessidade grande de discutir preconceitos arraigados que ainda tornam o cotidiano feminino muito mais difícil e temeroso em aspectos sociais, pessoais e profissionais.

Essa jornada completou neste mês de julho um ano. Há exatos 12 meses eu chamava uma das minhas melhores amigas pra conversar numa tarde de domingo sobre questões como mulheres trabalhando o mesmo ou melhor e ganhando menos; profissionais serem demitidas logo após a volta da licença maternidade; homens que ainda acreditam que mulher tem que obedecer e aguentar desaforos, entre tantos outros temas que se transformam em obstáculos para que elas acreditem profundamente em seus potenciais e possibilidades. Para saber mais: www.mulheresageis.com.br e www.facebook.com/mulheresageis.

O que eu não imaginava era quanto esse caminho se tornaria absolutamente rico em conhecimento e conexões com mulheres sensacionais. Desde então, não há um dia praticamente que eu não conheça ou descubra a história de uma mulher foda. De uma mulher que inspira, que ajuda, que cria, que é pioneira, que é uma sobrevivente, que consegue tudo e mais um pouco. Nem um dia. Porque eu entendi que somos muitas. Só não estávamos falando sobre isso, não trocávamos nossas experiências. Ganhamos palco. E a gente merece demais.

Eu também não me dei conta do quanto trabalhar com mulheres me faria pensar e repensar nas histórias das mulheres da minha vida. Minha mãe, minhas avós, minhas tias, primas, amigas, professoras. De quanto, Deus, elas são fantásticas. Do quanto elas foram fortes mesmo quando alguém disse a elas que eram fracas, que podiam menos.

Tive a sorte de viver em meio tanto a mulheres fortes quanto a mulheres sensíveis. Me ensinou a valorizar o equilíbrio. Me ensinou que a forte também carrega a delicadeza e a sensível vira rocha quando necessário.

Outro dia alguém me questionou se eu sempre desejei ser empreendedora, ter negócio próprio. Não. Mas sabia que eu “empreendia” meus sonhos. Sempre corri atrás do que queria, criava estratégias. Tive exemplos lindos de perseverança, inclusive de homens.

Mas a capacidade de acreditar e realizar, eu entendi, veio especialmente da minha avó materna, a dona Lourdes. Que aos 28 anos pegou a filha pequena pela mão, entrou num navio em Portugal, e desembarcou no Brasil para recomeçar a vida, dar um futuro melhor para sua menina. Filha essa que ela transformou em uma historiadora e professora universitária mesmo com estudando apenas até a terceira série. Ninguém pensaria na minha avó, tímida, calada, com traumas, como uma empreendedora. E agora eu me pergunto: como não enxergar minha vozinha como uma desbravadora, minha maior inspiração?

Foi minha avó, quando eu era bem pequena, que primeiro me disse: mulher tem que trabalhar, estudar e ser independente. Lembro claramente dessa cena. Ela passando roupa na cozinha e esquentando meu ferrinho de brinquedo com o ferro de verdade para eu “brincar” de passar os lenços do meu pai. Eu tinha uns 6 anos.

Demorou muito, mas muito mesmo para eu ouvir algo assim de outra pessoa. Minha mãe começou esse mantra quando eu já era adolescente. Fora de casa, foi uma professora de física, quando eu já estava com 17 anos.

Hoje, eu comemoro e agradeço por empreender com propósito e saber que posso ajudar a transformar para melhor os dias de tantas outras mulheres. Especialmente, eu comemoro e agradeço à vida por me mostrar bem cedo que ajudá-las era destino.

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Mulher-Maravilha

O azulejo Wonder Woman, da imagem acima, foi presente que ganhei do meu sobrinho de 12 anos no meu aniversário, em fevereiro. Na verdade, minha cunhada, mãe dele, quem escolheu a lembrança. Mas como é bom saber que existem meninos sendo criados hoje para reconhecerem, sem medo, as potencialidades femininas. Aprendendo a respeitarem as mulheres de suas vidas…

Sim, ainda temos muito para avançar. É o que eu mais penso neste 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Quanta violência, desrespeito, intimidação ainda nos cercam. Quantos homens ainda acreditam terem esses “direitos” baseados em suas ignorâncias. Ai da mulher que se sobressaia. Ai daquela que lhe fizer sombra. Ai da abusada que questionar seus erros. São moleques mimados, somente. Se acham espertos, poderosos. São apenas fracos. Que causam, porém, marcas e traumas nos dias de tantas de nós.

A pesquisa “Visível e Invisível: A Vitimização de Mulheres no Brasil”, realizada pelo Datafolha a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgada hoje, mostra que uma em cada três brasileiras foi vítima de violência no último ano. E quando se fala de violência não é apenas a física. Mas também verbal e emocional, que são graves e em algum momento acabam levando para a física (https://goo.gl/aSOiqX).

Se você foi espancada, xingada, ameaçada, agarrada, perseguida, empurrada, chutada; teve um objeto jogado na sua direção, levou um tapa; se viu em situação de intimidação, constrangimento e amedrontamento; foi tachada de louca ao apontar situações reais que o agressor quis dissimular; sim. Você foi vítima de violência.

Preocupa saber que uma em cada três brasileiras passaram por isso. Preocupa ainda mais saber que muitas não se dão conta que esse tipo de tratamento é agressão.

Por histórias assim, nos últimos meses venho me dedicando junto com minha amiga Renata Leal a uma nova empresa, a Mulheres Ágeis (www.mulheresageis.com.br). Nosso foco? Empoderamento Feminino. Vamos usar histórias de mulheres incríveis, líderes em suas áreas, para inspirar outras mulheres. Já estamos lançando nossos primeiros workshops de desenvolvimento pessoal e profissional para reforçar o quanto, garotas, vocês são lindas, fortes e capazes; para que despertem o melhor em si mesmas e transformem seus dias. Para que sejam capacitadas e encontrem caminhos fora da dependência financeira e emocional.

Não somos frágeis. Somos ágeis. Somos Mulher-Maravilha, sem dúvida!! Não sei se salvamos o mundo. Mas vamos melhorar muito o mundo de muitas outras queridas. Juntas somos mais. Ai de quem disser o contrário.

Causas, consequências e responsabilidades da violência contra a mulher

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A Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), um marco no combate à violência contra a mulher no Brasil, completa dez anos em 7 de agosto. Por favor, não pare de ler esse texto já acreditando que você não tem nada a ver com isso. Tem sim. Homens e mulheres. Quem já agrediu, quem já foi agredida, quem nunca agrediu. Quem acha que nunca agrediu ou que nunca foi agredida (agressões verbais e emocionais também são violência, vale lembrar).

Porque a lei foi essencial para punir, salvar e colocar holofotes sobre uma condição considerada natural na sociedade durante anos. O homem tem poder. Logo, a mulher se submete, aceita. Tudo. Desde opressão, humilhação, até tapa na cara e ameaça de morte. A legislação, classificada como uma das três melhores do mundo na questão de gênero, escancarou: isso não é um direito masculino, não é um dever feminino e as consequências são graves, afetando gerações inteiras que enxergam na crueldade e na violência algo do cotidiano, reproduzindo tal banalidade em todas as suas demais relações e ações.

Já é claro quanto a noção deturpada de masculinidade que muitos homens carregam vem da infância. Não estou tirando a culpa de quem a tem, do tipo “coitado, age assim porque presenciou a violência dentro de casa, também foi vítima dela”. Não. Mas é uma realidade inegável. As pessoas reproduzem o que aprenderam. Alguns conseguem compreender que é errado e buscam ajuda psicológica para não entraram no mesmo ciclo vicioso no qual se viram ainda crianças. Não é, porém, um passo fácil no clássico universo de homem que é homem não chora, não é vulnerável, não é sensível.

É preciso reforçar sempre como a educação dos meninos, por décadas, deu a eles a ideia equivocada de que podem mais, são mais fortes, precisam conquistar, jamais fracassar, viver do status de vencedor – incluído aí uma bela mulher, “educada”, mas que não questione e não dê muito “trabalho”. Que não se sobressaia, mas seja um acessório que faça a ele brilhar mais.

A culpa, aqui, não só é dos pais, mas também das mães que reforçam esse imaginário de que eles são donos da verdade e das decisões, e que elas só devem “acompanhar”. Nenhuma relação verdadeiramente saudável e satisfatória se constrói sob tais termos.

Mas esse foi o “tradicional” durante décadas. Ainda o é para muitos casais. E quantas violações de direitos humanos já não foram cometidas ao longo da História em nome das “tradições”?

Temos, então, ainda um caminho razoável a percorrer que exige mudança de mentalidade e transformação de comportamentos. É possível. Quer entender melhor o que é a violência contra a mulher, suas causas, consequências e responsabilidades? Assiste os três vídeos nos links a seguir. São parte da série USP Talks, que levanta debates sobre temas atuais presentes na vida de todos nós.

As palestrantes são a pesquisadora Ana Flávia d’Oliveira, professora da Faculdade de Medicina da USP, e Silvia Chakian, promotora de justiça do Ministério Público de São Paulo. Elas são incríveis, didáticas e trazem dados alarmantes. Os dois primeiros vídeos são as explanações de cada uma, por 15 minutos. O terceiro são as respostas de perguntas da plateia.

Entre as informações que as especialistas expõem estão:

  • uma em cada três mulheres na cidade de São Paulo já sofreu algum tipo de violência, independentemente da classe social;
  • a violência sofrida pela mulher impacta diretamente seu desempenho profissional, tanto a violência enfrentada em casa quanto a emocional que pode estar presente no ambiente de trabalho;
  • o registro de mulheres com casos de depressão, síndrome do pânico e transtornos de ansiedade são maiores e estão muito mais ligados a agressões emocionais e físicas do que se imaginava;
  • elas demoram a pedir ajuda pensando na família, nos filhos; sofrem vários episódios de violência até romperem o silêncio, seja na justiça ou com amigos e familiares;
  • muitas mulheres e homens não entendem que estão sofrendo e praticando violência porque o contexto no qual cresceram e viveram sempre foi o mesmo que hoje reproduzem;
  • não há um perfil determinado do agressor; ele pode ser trabalhador exemplar, bom pai, sem vícios, nível socioeconômico e cultural elevados;
  • culturalmente os homens apresentam maior dificuldade em reconhecer fragilidades, a necessidade de cuidados médicos – imagine cuidados psicológicos; mas muitos têm real condição de compreenderem que suas atitudes são violentas e podem superar essa condição com ajuda de terapias.

Para terminar e deixá-los com as palestras do USP Talks explicando muito melhor do que eu seria capaz: não está a ninguém reservado o direito de julgar mulheres que não desejam ver os companheiros encarcerados ou se separarem deles. Relações de afeto não são desligadas pressionando um botão. Sim, muitas vezes há amor nesses relacionamentos. E o que elas esperam é que acabe a violência. Não o vínculo. É amplo, é complexo. Pare de criticar e ajude.

USP Talks Violência Contra a Mulher: Ana Flávia d’Oliveira
USP Talks Violência Contra a Mulher: Silvia Chakian
USP Talks Violência Contra a Mulher: debate

Crédito da imagem: Mete a Colher Rede de Apoio Entre Mulheres