As mulheres da minha vida

Trabalhar especificamente com mulheres não foi algo que planejei desde sempre. Foi a vida mesmo, a minha e de pessoas que me cercam ou cercaram, que mostrou a necessidade grande de discutir preconceitos arraigados que ainda tornam o cotidiano feminino muito mais difícil e temeroso em aspectos sociais, pessoais e profissionais.

Essa jornada completou neste mês de julho um ano. Há exatos 12 meses eu chamava uma das minhas melhores amigas pra conversar numa tarde de domingo sobre questões como mulheres trabalhando o mesmo ou melhor e ganhando menos; profissionais serem demitidas logo após a volta da licença maternidade; homens que ainda acreditam que mulher tem que obedecer e aguentar desaforos, entre tantos outros temas que se transformam em obstáculos para que elas acreditem profundamente em seus potenciais e possibilidades. Para saber mais: www.mulheresageis.com.br e www.facebook.com/mulheresageis.

O que eu não imaginava era quanto esse caminho se tornaria absolutamente rico em conhecimento e conexões com mulheres sensacionais. Desde então, não há um dia praticamente que eu não conheça ou descubra a história de uma mulher foda. De uma mulher que inspira, que ajuda, que cria, que é pioneira, que é uma sobrevivente, que consegue tudo e mais um pouco. Nem um dia. Porque eu entendi que somos muitas. Só não estávamos falando sobre isso, não trocávamos nossas experiências. Ganhamos palco. E a gente merece demais.

Eu também não me dei conta do quanto trabalhar com mulheres me faria pensar e repensar nas histórias das mulheres da minha vida. Minha mãe, minhas avós, minhas tias, primas, amigas, professoras. De quanto, Deus, elas são fantásticas. Do quanto elas foram fortes mesmo quando alguém disse a elas que eram fracas, que podiam menos.

Tive a sorte de viver em meio tanto a mulheres fortes quanto a mulheres sensíveis. Me ensinou a valorizar o equilíbrio. Me ensinou que a forte também carrega a delicadeza e a sensível vira rocha quando necessário.

Outro dia alguém me questionou se eu sempre desejei ser empreendedora, ter negócio próprio. Não. Mas sabia que eu “empreendia” meus sonhos. Sempre corri atrás do que queria, criava estratégias. Tive exemplos lindos de perseverança, inclusive de homens.

Mas a capacidade de acreditar e realizar, eu entendi, veio especialmente da minha avó materna, a dona Lourdes. Que aos 28 anos pegou a filha pequena pela mão, entrou num navio em Portugal, e desembarcou no Brasil para recomeçar a vida, dar um futuro melhor para sua menina. Filha essa que ela transformou em uma historiadora e professora universitária mesmo com estudando apenas até a terceira série. Ninguém pensaria na minha avó, tímida, calada, com traumas, como uma empreendedora. E agora eu me pergunto: como não enxergar minha vozinha como uma desbravadora, minha maior inspiração?

Foi minha avó, quando eu era bem pequena, que primeiro me disse: mulher tem que trabalhar, estudar e ser independente. Lembro claramente dessa cena. Ela passando roupa na cozinha e esquentando meu ferrinho de brinquedo com o ferro de verdade para eu “brincar” de passar os lenços do meu pai. Eu tinha uns 6 anos.

Demorou muito, mas muito mesmo para eu ouvir algo assim de outra pessoa. Minha mãe começou esse mantra quando eu já era adolescente. Fora de casa, foi uma professora de física, quando eu já estava com 17 anos.

Hoje, eu comemoro e agradeço por empreender com propósito e saber que posso ajudar a transformar para melhor os dias de tantas outras mulheres. Especialmente, eu comemoro e agradeço à vida por me mostrar bem cedo que ajudá-las era destino.

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Para comprar on-line meu livro Tem Dia Que Dói – Mas não precisa doer todo dia e nem o dia todo (Editora Volpi & Gomes), acesse: https://temdiaquedoi.lojaintegrada.com.br/

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Mulher-Maravilha

O azulejo Wonder Woman, da imagem acima, foi presente que ganhei do meu sobrinho de 12 anos no meu aniversário, em fevereiro. Na verdade, minha cunhada, mãe dele, quem escolheu a lembrança. Mas como é bom saber que existem meninos sendo criados hoje para reconhecerem, sem medo, as potencialidades femininas. Aprendendo a respeitarem as mulheres de suas vidas…

Sim, ainda temos muito para avançar. É o que eu mais penso neste 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Quanta violência, desrespeito, intimidação ainda nos cercam. Quantos homens ainda acreditam terem esses “direitos” baseados em suas ignorâncias. Ai da mulher que se sobressaia. Ai daquela que lhe fizer sombra. Ai da abusada que questionar seus erros. São moleques mimados, somente. Se acham espertos, poderosos. São apenas fracos. Que causam, porém, marcas e traumas nos dias de tantas de nós.

A pesquisa “Visível e Invisível: A Vitimização de Mulheres no Brasil”, realizada pelo Datafolha a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgada hoje, mostra que uma em cada três brasileiras foi vítima de violência no último ano. E quando se fala de violência não é apenas a física. Mas também verbal e emocional, que são graves e em algum momento acabam levando para a física (https://goo.gl/aSOiqX).

Se você foi espancada, xingada, ameaçada, agarrada, perseguida, empurrada, chutada; teve um objeto jogado na sua direção, levou um tapa; se viu em situação de intimidação, constrangimento e amedrontamento; foi tachada de louca ao apontar situações reais que o agressor quis dissimular; sim. Você foi vítima de violência.

Preocupa saber que uma em cada três brasileiras passaram por isso. Preocupa ainda mais saber que muitas não se dão conta que esse tipo de tratamento é agressão.

Por histórias assim, nos últimos meses venho me dedicando junto com minha amiga Renata Leal a uma nova empresa, a Mulheres Ágeis (www.mulheresageis.com.br). Nosso foco? Empoderamento Feminino. Vamos usar histórias de mulheres incríveis, líderes em suas áreas, para inspirar outras mulheres. Já estamos lançando nossos primeiros workshops de desenvolvimento pessoal e profissional para reforçar o quanto, garotas, vocês são lindas, fortes e capazes; para que despertem o melhor em si mesmas e transformem seus dias. Para que sejam capacitadas e encontrem caminhos fora da dependência financeira e emocional.

Não somos frágeis. Somos ágeis. Somos Mulher-Maravilha, sem dúvida!! Não sei se salvamos o mundo. Mas vamos melhorar muito o mundo de muitas outras queridas. Juntas somos mais. Ai de quem disser o contrário.

Causas, consequências e responsabilidades da violência contra a mulher

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A Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), um marco no combate à violência contra a mulher no Brasil, completa dez anos em 7 de agosto. Por favor, não pare de ler esse texto já acreditando que você não tem nada a ver com isso. Tem sim. Homens e mulheres. Quem já agrediu, quem já foi agredida, quem nunca agrediu. Quem acha que nunca agrediu ou que nunca foi agredida (agressões verbais e emocionais também são violência, vale lembrar).

Porque a lei foi essencial para punir, salvar e colocar holofotes sobre uma condição considerada natural na sociedade durante anos. O homem tem poder. Logo, a mulher se submete, aceita. Tudo. Desde opressão, humilhação, até tapa na cara e ameaça de morte. A legislação, classificada como uma das três melhores do mundo na questão de gênero, escancarou: isso não é um direito masculino, não é um dever feminino e as consequências são graves, afetando gerações inteiras que enxergam na crueldade e na violência algo do cotidiano, reproduzindo tal banalidade em todas as suas demais relações e ações.

Já é claro quanto a noção deturpada de masculinidade que muitos homens carregam vem da infância. Não estou tirando a culpa de quem a tem, do tipo “coitado, age assim porque presenciou a violência dentro de casa, também foi vítima dela”. Não. Mas é uma realidade inegável. As pessoas reproduzem o que aprenderam. Alguns conseguem compreender que é errado e buscam ajuda psicológica para não entraram no mesmo ciclo vicioso no qual se viram ainda crianças. Não é, porém, um passo fácil no clássico universo de homem que é homem não chora, não é vulnerável, não é sensível.

É preciso reforçar sempre como a educação dos meninos, por décadas, deu a eles a ideia equivocada de que podem mais, são mais fortes, precisam conquistar, jamais fracassar, viver do status de vencedor – incluído aí uma bela mulher, “educada”, mas que não questione e não dê muito “trabalho”. Que não se sobressaia, mas seja um acessório que faça a ele brilhar mais.

A culpa, aqui, não só é dos pais, mas também das mães que reforçam esse imaginário de que eles são donos da verdade e das decisões, e que elas só devem “acompanhar”. Nenhuma relação verdadeiramente saudável e satisfatória se constrói sob tais termos.

Mas esse foi o “tradicional” durante décadas. Ainda o é para muitos casais. E quantas violações de direitos humanos já não foram cometidas ao longo da História em nome das “tradições”?

Temos, então, ainda um caminho razoável a percorrer que exige mudança de mentalidade e transformação de comportamentos. É possível. Quer entender melhor o que é a violência contra a mulher, suas causas, consequências e responsabilidades? Assiste os três vídeos nos links a seguir. São parte da série USP Talks, que levanta debates sobre temas atuais presentes na vida de todos nós.

As palestrantes são a pesquisadora Ana Flávia d’Oliveira, professora da Faculdade de Medicina da USP, e Silvia Chakian, promotora de justiça do Ministério Público de São Paulo. Elas são incríveis, didáticas e trazem dados alarmantes. Os dois primeiros vídeos são as explanações de cada uma, por 15 minutos. O terceiro são as respostas de perguntas da plateia.

Entre as informações que as especialistas expõem estão:

  • uma em cada três mulheres na cidade de São Paulo já sofreu algum tipo de violência, independentemente da classe social;
  • a violência sofrida pela mulher impacta diretamente seu desempenho profissional, tanto a violência enfrentada em casa quanto a emocional que pode estar presente no ambiente de trabalho;
  • o registro de mulheres com casos de depressão, síndrome do pânico e transtornos de ansiedade são maiores e estão muito mais ligados a agressões emocionais e físicas do que se imaginava;
  • elas demoram a pedir ajuda pensando na família, nos filhos; sofrem vários episódios de violência até romperem o silêncio, seja na justiça ou com amigos e familiares;
  • muitas mulheres e homens não entendem que estão sofrendo e praticando violência porque o contexto no qual cresceram e viveram sempre foi o mesmo que hoje reproduzem;
  • não há um perfil determinado do agressor; ele pode ser trabalhador exemplar, bom pai, sem vícios, nível socioeconômico e cultural elevados;
  • culturalmente os homens apresentam maior dificuldade em reconhecer fragilidades, a necessidade de cuidados médicos – imagine cuidados psicológicos; mas muitos têm real condição de compreenderem que suas atitudes são violentas e podem superar essa condição com ajuda de terapias.

Para terminar e deixá-los com as palestras do USP Talks explicando muito melhor do que eu seria capaz: não está a ninguém reservado o direito de julgar mulheres que não desejam ver os companheiros encarcerados ou se separarem deles. Relações de afeto não são desligadas pressionando um botão. Sim, muitas vezes há amor nesses relacionamentos. E o que elas esperam é que acabe a violência. Não o vínculo. É amplo, é complexo. Pare de criticar e ajude.

USP Talks Violência Contra a Mulher: Ana Flávia d’Oliveira
USP Talks Violência Contra a Mulher: Silvia Chakian
USP Talks Violência Contra a Mulher: debate

Crédito da imagem: Mete a Colher Rede de Apoio Entre Mulheres

Lute contra a cultura do estupro e do machismo. Sempre.

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Uma menina de 16 anos é estuprada por 33 animais absolutamente irracionais. Porque não podem ser chamados de homens. Nem de seres racionais. Simplesmente. Estupro nunca é culpa da mulher. É culpa da ignorância, da pequenez humana. Feminismo nunca matou. Machismo mata todos os dias. E é hora de cada um parar pra pensar quais são suas atitudes diárias que suportam, propagam e reforçam essa cultura do medo, do desrespeito, da crueldade. Se você, homem, precisa diminuir ou agredir uma mulher pra se sentir macho, forte, sinto informar, você é um bosta. Se você mulher julga e condena outras mulheres por suas escolhas, jeito de vestir, de se comportar, de viver, sinto informar, você também é culpada por estarmos expostas a atos violentos como esse.

Como escreveu um amigo meu, esse episódio da menina estuprada por um bando de infelizes prova que não estamos no fundo do poço. Nós somos o próprio fundo do poço. E tem horas que não vejo saída pra essa sociedade doente que se formou, em todos os níveis, em todas as classes sociais, inclusive entre os que se acreditam bem “educados”. Tá difícil não ser pessimista. Mas eu ainda acredito de verdade que a gente pode ser melhor. Que a gente lute todos os dias por punições severas a situações assim. Que a gente não tenha medo de combater essa escrotidão, que chega a esse ponto, inclusive, por meio das pequenas piadinhas e atitudes cotidianas. Que dão poder a uma ideia coletiva de que eles podem. E não podem. Nem de brincadeira. Nem com um ato hediondo.

Cerveja Feminista, a red ale que veio para regar o debate sobre machismo

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Três publicitárias criaram uma red ale batizada de Cerveja Feminista como reação ao machismo histórico que toma conta dos comerciais de cerveja. Escrevi sobre o assunto na minha coluna no site da Revista GOSTO, na qual sou redatora-chefe. Dá uma olhada no texto aqui.

É verdade que nos últimos cinco anos isso melhorou muito. As empresas focaram mais em cenas divertidas entre amigos, por exemplo. E quando parecia que tal cultura mudaria, a Skol vai lá e pisa na bola com seu comercial de carnaval cujo slogan sugeria que na abordagem durante o xaveco carnavalesco não se aceitaria não como resposta a uma investida. Elas aproveitaram o episódio infeliz e criaram, há uma semana, a Cerveja Feminista. Para homens e mulheres, de produção artesanal e que pode ser encomendada pela internet. Já encomendei a minha. Ótima oportunidade para debater um tema tão fundamental. E pode ser abrindo uma cerveja, na mesa do bar… 😉

#HeForShe e uma jovem talentosa como representante da igualdade de genêros

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Hermione cresceu. E que bom saber que uma jovem talentosa e inteligente como Emma Watson foi eleita embaixadora da ONU Mulheres para entrar na luta contra preconceitos, sem medo de se dizer feminista e explicando o que é ser feminista nos dias de hoje. É lindo, emocionante e inspirador. Destaco aqui esse trecho:

“Homens, eu gostaria de usar essa oportunidade para apresentar o convite formal. Igualdade de gêneros é seu problema também (…) Eu vi jovens homens sofrendo de doenças, incapazes de pedirem ajuda por medo de que isso os torne menos homens – de fato, no Reino Unido, suicídio é a maior causa de morte entre homens de 20-49 anos, superando acidentes de carro, câncer e doenças de coração. Eu vi homens frágeis e inseguros sobre o que constitui o sucesso masculino. Homens também não têm o benefício da igualdade. Nós não queremos falar sobre homens sendo aprisionados pelos esteriótipos de gênero, mas eles estão. Quando eles estiverem livres, as coisas vão mudar para as mulheres como consequência natural. Se homens não tem que ser agressivos, mulheres não serão obrigadas a serem submissas. Se homens não têm a necessidade de controlar, mulheres não precisarão ser controladas. Tanto homens quanto mulheres deveriam ser livres para serem sensíveis. Tanto homens e mulheres deveriam ser livres para serem fortes. É hora de começar a ver gênero como um espectro ao invés de dois conjuntos de ideais opostos.”

Vale ler o discurso inteiro dela abaixo:

“Hoje estamos aqui lançando a campanha HeForShe. Eu estou falando com vocês porque precisamos de ajuda. Queremos acabar com a desigualdade de gêneros – e pra fazer isso, todo mundo precisa estar envolvido.
Essa é a primeira campanha desse tipo na ONU. Precisamos mobilizar tantos homens e garotos quanto possível para a mudança. Não queremos só falar sobre isso. Queremos tentar e ter certeza que é tangível.

Eu fui apontada como embaixadora da boa vontade para a ONU Mulheres há seis meses e quanto mais eu falava sobre feminismo, mais eu me dava conta que lutar pelos direitos das mulheres muitas vezes virou sinônimo de odiar os homens. Se tem uma coisa que eu tenho certeza é que isso tem que parar. Para registro, feminismo, por definição é a crença de que homens e mulheres devem ter oportunidades e direitos iguais. É a teoria da igualdade política, econômica e social entre os sexos.

Eu comecei a questionar as suposições baseadas em gênero quando eu tinha oito anos. Fui chamada de mandona porque eu queria dirigir uma peça para nossos pais – mas os meninos não foram. Aos quatorze anos, sendo sexualizada por membros da imprensa. Com quinze anos, minhas amigas começaram a sair dos times esportivos porque não queriam parecer masculinas. Aos 18, meus amigos homens não podiam expressar seus sentimentos.

Eu decidi que eu era uma feminista. Isso não parecia complicado pra mim. Mas minhas pesquisas recentes mostraram que feminismo virou uma palavra não muito popular. Aparentemente, eu estou entre as mulheres que são vistas como muito fortes, muito agressivas, anti homens, não atraentes.

Por que essa palavra se tornou tão impopular? Eu sou da Inglaterra e eu acho que é direito que me paguem o mesmo tanto que meus colegas de trabalho do sexo masculino. Eu acho que é direito tomar decisões sobre meu próprio corpo. Eu acho que é direito que mulheres estejam envolvidas e me representando em políticas e decisões tomadas no meu país. Eu acho que é direito que socialmente, eu receba o mesmo respeito que homens.

Mas infelizmente, eu posso dizer que não existe nenhum país no mundo em que todas as mulheres possam esperar ver esses direitos. Nenhum país do mundo pode dizer ainda que alcançou igualdade de gêneros. Esses direitos são considerados direitos humanos, mas eu sou uma das sortudas.

Minha vida é de puro privilégio porque meus pais não me amaram menos porque eu nasci filha. Minha escola não me limitou porque eu era menina. Meus mentores não acharam que eu poderia ir menos longe porque posso ter filhos algum dia. Essas influências são as embaixadoras na igualdade de gêneros que me fizeram quem eu sou hoje. Eles podem não saber, mas são feministas necessários no mundo de hoje. Precisamos de mais desses.
Não é a palavra que é importante. É a ideia e ambição por trás dela, porque nem todas as mulheres receberam os mesmos direitos que eu. De fato, estatisticamente, muito poucas receberam.

Em 1997, Hillary Clinton fez um famoso discurso em Pequim sobre direitos das mulheres. Infelizmente, muito do que ela queria mudar ainda é verdade hoje. Mas o que me impressionou foi que menos de 30% da audiência era masculina. Como nós podemos efetivar a mudança no mundo quando apenas metade dele é convidada a participar da conversa?

Homens, eu gostaria de usar essa oportunidade para apresentar o convite formal. Igualdade de gêneros é seu problema também. Até hoje eu vejo o papel do meu pai como pai ser menos válido na sociedade. Eu vi jovens homens sofrendo de doenças, incapazes de pedirem ajuda por medo de que isso os torne menos homens – de fato, no Reino Unido, suicídio é a maior causa de morte entre homens de 20-49 anos, superando acidentes de carro, câncer e doenças de coração. Eu vi homens frágeis e inseguros sobre o que constitui o sucesso masculino. Homens também não têm o benefício da igualdade.

Nós não queremos falar sobre homens sendo aprisionados pelos esteriótipos de gênero, mas eles estão. Quando eles estiverem livres, as coisas vão mudar para as mulheres como consequência natural. Se homens não tem que ser agressivos, mulheres não serão obrigadas a serem submissas. Se homens não têm a necessidade de controlar, mulheres não precisarão ser controladas.

Tanto homens quanto mulheres deveriam ser livres para serem sensíveis. Tanto homens e mulheres deveriam ser livres para serem fortes. É hora de começar a ver gênero como um espectro ao invés de dois conjuntos de ideais opostos. Deveríamos parar de nos definir pelo que não somos e começarmos a nós definir pelo que somos. Todos podemos ser mais livres e é isso que HeForShe é sobre. É sobre liberdade. Eu quero que os homens comecem essa luta para que suas filhas, irmãs e esposas possam se livrar do preconceito, mas também para que seus filhos tenham permissão para serem vulneráveis e humanos e fazendo isso, sejam uma versão mais completa de si mesmos.

Você pode pensar: Quem é essa menina de Harry Potter? O que ela está fazendo na ONU? É uma boa questão e acreditem em mim, eu tenho me perguntado a mesma coisa. Não sei se sou qualificada para estar aqui. Tudo que eu sei é que eu me importo com esse problema e eu quero melhorar isso. E tendo visto o que eu vi e sendo apresentada com a oportunidade, eu acho que é minha responsabilidade dizer algo. Edmund Burke disse: “Tudo que é preciso para que as forças do mal triunfem é que bons homens e mulheres não façam nada.”

Cheia de nervos para esse discurso e em um momento de dúvida eu disse pra mim mesma: se não eu, quem? Se não agora, quando? Se você tem as mesmas dúvidas quando apresentado uma oportunidade, eu espero que essas palavras possam ajudar.

Porque a realidade é que se a gente não fizer nada, vai demorar 75 anos, ou até eu ter quase 100 anos antes que mulheres possam esperar receber o mesmo tanto que os homens no trabalho. 15.5 milhões de garotas vão se casar nos próximos 16 anos como crianças. E nas taxas atuais não vai ser até 2086 que todas as crianças da África rural possam receber educação fundamental.

Se você acredita em igualdade, você pode ser um desses feministas que não sabem sobre os quais eu falei mais cedo. E por isso, eu te aplaudo. Estamos lutando, mas a boa notícia é que temos a plataforma. É chamada Ele por Ela. Eu convido você a ir em frente, ser visto e se perguntar: se não eu, quem? Se não agora, quando? Obrigada.”

Fonte: http://www.unwomen.org/en/news/stories/2014/9/emma-watson-gender-equality-is-your-issue-tooC

#HeForShe

Sim, eu sou feminista – e você também deveria ser

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Juro que eu esperava mudar de assunto no post de hoje. Mas é impossível. Nas duas últimas semanas assisti uma sequência de notícias que provam o quanto o machismo é arraigado na nossa sociedade. Uma perigosa verdade tanto para homens como para mulheres. Teve estudo dizendo que eles acham moças tatuadas mais “fáceis”. Aumento de 37% nos índices de estupro contra a população feminina na cidade de São Paulo. Apareceu uma fulana se autointitulando “heart hunter”, cuja função é ensinar as mulheres a serem mais “femininas” por meio de lições que as transformam, na real, em submissas sem poder de decisão (olha o post de quarta-feira).

Pra coroar o espetáculo da ignorância surge o absurdo Estatuto do Nascituro, que dá à mulher que engravida após ser violentada o “direito” de receber pensão alimentícia. Há quem diga que se trata de um benefício e seja um meio de proteção. Não é. É um vil instrumento de pressão para que a mulher não exerça seu direito de abortar em casos de estupro, como já prevê a lei. E ainda me pergunto como ninguém se deu conta do quanto essa decisão só reforça a ideia de que o homem pode, sim, agir violentamente contra uma mulher, que pode subjugá-la, já que o Estado se responsabilizará pela consequência do seu ato. Como bem lembrou um amigo meu, o jornalista Victor Farinelli, a partir daí não é impossível que um estuprador consiga absolvição alegando que a atrocidade que ele cometeu não gera inconveniente à mulher caso engravide. Afinal, receberá a pensão. A interpretação será de um juiz – que, antes de tudo, é um ser humano que não está livre de carregar seus preconceitos.

Na quarta-feira a noite, ainda sem saber bem da cruel novidade mascarada de benefício, eu tentava argumentar com um colega na aula do mestrado sobre como temos assistido ao retrocesso de direitos individuais. Claro que ao longo de décadas contabilizamos centenas de vitórias que melhoraram muito a vida das pessoas. Mas numa sociedade que vem se mostrando bem intolerante como a atual nossas conquistas acabam sendo cíclicas. Volta e meia elas são novamente ameaçadas – e lá vamos nós brigar para mantê-las. Caímos, então, no debate machismo x feminismo. E aí, minha gente, eu fui obrigada a riscar o fósforo.

Primeiro, ele disse não ser machista. Que “ajuda” a esposa em casa e se pudesse colocaria três empregadas pra ela. Eu disse que a ideia de “ajudar” era vaga e que deveria ser substituída por igualdade de tarefas. Se a casa é dos dois, ambos cuidam. Existe, é verdade, uma dificuldade feminina de querer tomar conta de cada detalhe e achar que o cara nunca vai fazer direito. Uma mentalidade a ser modificada urgentemente. Mas eu nem bem tinha dito isso quando ele solta a pérola: “Quando você casar vai entender como funciona”.

Ele parte do princípio de que para eu compreender uma relação a dois e a divisão de tarefas sou, antes de tudo, obrigada a casar – nada mais machista! Eu disparei um chocado “como é que é?” e senti o sangue subindo. Ele perguntou se eu era feminista. Eu disse que não me considerava feminista, mas sensata o suficiente pra exigir equilíbrio e dignidade quando se aborda a questão de gênero no Brasil. Uma colega logo afirmou que era feminista, sim. Ele: “Se você é feminista eu posso ser machista!” Antes que todas as mulheres da sala tentassem falar ao mesmo tempo pra quebrar o argumento dele, nossa professora fez a observação mais genial da discussão: “Não, senhor. Machismo é preconceito. Feminismo é uma luta.”

O feminismo cego também pode virar preconceito. Mas ele só surgiu como um movimento de protesto pra livrar as mulheres da opressão, da violência, do desrespeito, de serem tratadas como seres de segunda categoria por homens que agiam como bem entendiam. Sem dúvida, o começo do feminismo foi radical. Não havia outra saída. Não poderia ser suave para ser ouvido. As primeiras feministas precisavam chamar a atenção. Conseguiram com certa agressividade em suas exigências e atos como queimar sutiãs em praça pública.

Hoje, vejo muitas de nós dizendo “ah, não fui eu quem queimou sutiã, não”. Pois você, minha cara, deveria ter um orgulho enorme dessas mulheres. Elas enfrentaram todo um sistema engessado pra que atualmente você não só trabalhe fora de casa e seja reconhecida como um ser pensante. Mas controle quando deseja ter filhos, escolha se quer menstruar ou não, saia sozinha com suas amigas numa sexta-feira a noite, possa ir e vir sem uma constante presença masculina (marido, pai, irmão), viaje pelo mundo, deixe pra trás um relacionamento infeliz, desfrute de uma sexualidade plena cheia de orgasmos, tenha o prazer de comprar seu próprio apartamento. De comprar seu próprio anel de brilhantes como símbolo do seu sucesso!! Graças a elas podemos encontrar parceiros que nos respeitam, nos amam e sentem orgulho de nós justamente pelas nossas conquistas individuais que moldam nossa personalidade.

Portanto, SUA FÚTIL, mais respeito com aquelas que são responsáveis por muito do que você aproveita agora!

Voltando ao meu colega de mestrado (que depois disse que não era machista coisa nenhuma), ele é o exemplo de como muitos homens não percebem que, sim, eles são machistas. Nem sempre acho que é má fé do cara. Ele só reproduz aquilo que aprendeu como verdade a vida inteira e fica sem saber como agir. A educação brasileira é machista. Quantas de nós, ainda meninas, não fomos chamadas para ajudar nossas mães na cozinha, enquanto nossos irmãos mal aprenderam a lavar uma louça? Então, rapazes, até dou a vocês um refresco. Mas não os desculpo. Porque informação tem. E ninguém precisa ser tão esperto assim pra saber que pressionar, controlar, humilhar, agir com superioridade e violência (inclusive verbalmente) é errado. É machista.

No fim, tanta revolta essa semana serviu pra que eu enxergasse uma parte importante da minha identidade: sim, eu sou feminista. Nunca tinha me compreendido dessa maneira. Mas eu sou porque há muito tempo brigo pra que meus direitos e de todas as mulheres sejam mantidos em segurança. Não porque eu quero que os homens percam os direitos deles. Nada disso. A ideia do feminismo moderno não é ser superior ao homem, não é agredir. Não desejo ser algoz de quem um dia fui vítima. Quero o direito de igualdade nos deveres pra que as oportunidades e as recompensas estejam ao alcance de todos nós. Por isso, você, homem ou mulher, também deveria ser feminista. Não é uma questão de gênero. É uma questão de melhorar todas as relações que nos cercam. De vivermos num saudável equilíbrio.

Crédito da imagem: Cultura Inquieta