Mesmo barco

O sol queimando. Nem sinal de inverno. Quinta-feira de feriado. 10h30. Umidade relativa do ar em queda. E eu felizinha de colocar o biquíni depois de meses, de sentir calor na pele, de dar umas braçadas na piscina do prédio. Temperatura da água ideal.

Tem mais gente na piscina. Sempre tem quem prefere não viajar em feriado. Tem também quem tá sem grana mesmo pra viajar no feriado. Não que quem viajou tá assim, com grana. Quem no Brasil atual tá tranquilão pra gastar? Esse Brasil da Lava Jato que ninguém mais sabe no que vai dar. Só se for herdeiro. Aí tá tranquilão. Ah, isso se não for herdeiro de político. Se bem que a cara de pau é tamanha nesse métier que deve ter gente tranquila, sim… Consciência pesada é coisa de classe média, certeza.

“Quer óleo de coco? Dá um bronze”, oferece meu vizinho na espreguiçadeira ao lado. Ou foi gentileza por eu avisar que a cadeira que ele sentaria estava quebrada ou deu a entender que tô precisando de muito sol pra dar uma coradinha.

Agradeço e prefiro acreditar na gentileza. Ele é simpático. Percebi que estava com celular e fone aprendendo italiano online. Reparei também na moça do outro lado, lendo uma revista com pegada holística. Uma outra cantava baixinho as músicas que ouvia com fone. Parei de cuidar da vida alheia e voltei ao meu livro, da Marta Barcellos, “Antes que seque”. Premiado. Recomendo. O meu veio com autógrafo. ❤

Entro na água. A vizinha da revista holística entra um pouco depois. “Tá boa a água”, ela puxa conversa. “Tá, sim”, respondo sorrindo. “Não achei que hoje tivesse tanta gente na piscina”, diz. Já éramos uns dez ali esturricando no sol. “Tempos de incerteza. A piscina sempre enche mais quando o país tá em crise. É lazer sem gasto”, diz uma outra vizinha, que vai todos os dias de sol na piscina e é uma das moradoras mais antigas do condomínio.

O vizinho do óleo de coco participa da conversa e todos comentam sobre mudanças de hábitos recentes para diminuir gastos. No meio do papo, todos percebem que se sentem mais em paz com essas mudanças. Estão lendo mais, por exemplo. E a Netflix, campeã, tá aí pra gente maratonar nos seriados, com preço acessível. Os encontros com os amigos são na casa de alguém e cada um leva uma coisinha. Andar de bike, correr no parque. Tá bom. O importante é não deixar de espairecer. Mas sem gastar.

O povão, o assalariado, o empreendedor, o autônomo, o PJ, o carteira assinada, tá se virando, no compasso de um dia de cada vez. Reaprendendo os prazeres simples da vida – mais em conta. Tipo a piscina do prédio. Ou a viagem pra praia, mas com o dinheiro contado pro sorvete. Ou a viagem pro interior, mas só porque vai ficar na casa de parente. Ou a viagem pra outro estado, mas só porque pagou em 12 vezes. Pra outro país atualmente? Hahahaha… Ai, gente…

Então, não se preocupe. Você não tá mais f#%*@& que ninguém, não. Não acredite nas fotos glam do Facebook. Rede social é que nem os álbuns antigos: ninguém colocava foto de um momento difícil pra guardar de recordação. A diferença é que se mostrava só pras visitas, né? Agora todo mundo vê na timeline. Fica tranquilo. Estamos todos nos mesmo barco de um Brasil passado a limpo que já não se sabe mais nem o que é verdade ou não, quem é culpado ou não.

Todos na batalha, que é o que nos resta. E, sim, quanta graça e prazer no simples. Às vezes tão mais significativo e feliz do que o que nos custou caro. Quantas vezes foi caro e nem de longe foi sinônimo de felicidade? Lembra? Pois é…

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