Quando ainda vale a pena

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Faz tempo que não escrevo por aqui, pessoal… Então, a primeira coisa que tenho a dizer é me desculpar pela ausência. Mas sei que vocês ficarão felizes em saber que a ausência é por excesso de coisas boas acontecendo e para agradecer. Lembram quantas vezes eu escrevi que depois da tempestade sempre vem a calmaria? E que momentos bons e ruins se alternam mesmo? E ainda que fundo do poço tem é mola pra gente pegar impulsão de novo? Quantas vezes choramos juntos e nos apoiamos em nossas tristezas divididas? Quanto essa troca de ideias nos ajudou a seguir em frente? Por isso, obrigada sempre… ❤

Se as coisas ainda não vão bem, deixo pra vocês minha torcida sincera e aquela observação clássica: vai passar. Vai melhorar. Vocês serão muito felizes, tenho certeza. Se tudo melhorou, que bom! Aproveitem! Vocês merecem!! E que a roda de agora em diante gire sempre na energia mais bonita e positiva que possa existir.

Mas mesmo nas fases mais felizes, os questionamentos e pequenos aborrecimentos são naturais. É da vida. Dia desses eu estava assim, me perguntando quanto o esforço por algumas situações realmente vale a pena. Então, abri meu e-mail e li uma linda mensagem de uma amiga de uma grande amiga minha. Não somos próximas, mas nos encontramos em festas dessa nossa amiga em comum. Já tivemos o prazer de conversamos várias vezes.

Ela me contou que encontrou uma reportagem minha na internet, de muitos anos, de quando eu trabalhava em uma revista semanal. O tema era o coma e contava histórias de pessoas que voltaram à vida mesmo depois de serem tecnicamente consideradas mortas por alguns minutos. O pai dessa moça está hospitalizado há meses. Na mensagem, ela me dizia como a reportagem que escrevi, há tantos anos (uns oito), havia a ajudado com informações úteis sobre a situação e também trazendo boas esperanças graças às histórias contadas ali.

É um trabalho que ficou lá para trás, é verdade. Mas como é bom saber que algo que fizemos pode ajudar, melhorar a vida das pessoas. Inspirar, acalmar, informar. Nesse dia relembrei como o jornalismo nos meus dias ainda vale a pena. Ainda faz meu coração bater mais forte, integra parte importante da minha personalidade, é parte essencial de quem eu sou.

E é o que eu quero dizer hoje pra vocês: saiba quando ainda vale a pena. Seja a situação que for, perceba. Não jogue tudo para o alto sem antes compreender se é apenas uma fase difícil, se tudo vai se encaixar de novo. Claro, é fundamental dar fim ao que não serve mais. Eis uma atitude indispensável para transformar a vida para melhor. Mas coloque na balança também o que só precisa de calma pra acalmar a alma.

Crédito da imagem: blog Meninices da Vida

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A rotina, seu valor, seus pequenos prazeres

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Dia desses eu escrevi aqui num dos posts que nos últimos três anos minha vida passou por incessantes mudanças – tensas, intensas e variadas. Sempre fui mais a favor da transformação constante do que da rotina, cuja ideia me parecia um tanto antiquada pra quem é curioso e quer ver o que mais o mundo tem pra oferecer. Mas desde o ano passado compreendi melhor como a rotina pode ser de grande valor. Não significa se acomodar. É disciplinar com alguma sabedoria as exigências do cotidiano justamente pra ganhar mais horas de descanso, lazer, diversão, estar entre os queridos.

No geral, eu sempre fui organizada, só que mais preocupada em finalizar as obrigações e aí encaixar no que “sobrava” o lado bom. Não deixava de fazer nada, nem o dever e nem a farra. Mas pra dar conta de tudo tinha que viver como ligada numa tomada. E um dia a saúde, física e emocional, cobra o preço. Aproveitei o empurrão que enfrentei quando o jornal que eu trabalhava fechou as portas pra tirar uns meses só viajando, estudando e passando mais tempo com família e amigos. Aprendi que muitas vezes o suficiente já tá ótimo e perfeição é um dos maiores mitos da humanidade. A gente vai falhar, sabe? E tudo bem.

Com mais tempo pra mim, “reprogramei” minha rotina. Avaliei os hábitos que deveriam permanecer e os que deveriam finalmente partir. Incluí pequenos prazeres diários. Volta e meia a danada da culpa aparecia – porque eu não estava sendo “produtiva” como sempre fui. Ela ainda me assombra eventualmente. Mais na TPM! Hormônios… Mas já não tem a força de antes, não. E por que eu tô aqui brindando o “slow life” ao qual me dei direito? Porque uma hora a agenda cheia de compromissos retorna. Ela voltou desde março. E lá fui eu criar uma nova rotina. Agora, porém, consigo com muita tranquilidade equilibrar trabalho e hedonismo.

Em tempos influenciados pela rapidez da tecnologia e da modernidade, que acabam influenciando também nossos comportamentos, minha decisão é um desafio. Causa algum estranhamento pra parte das pessoas dizer que paro tudo o que tô fazendo no final da tarde pra ver o sol se pôr aqui da janela, por exemplo. Hoje, trabalho de casa – e há quem considere a falta de vínculo com uma empresa específica (e até o estresse) um retrocesso profissional. Eu nunca acreditei que a rotina de bater cartão e ter mesa num lugar faria de mim uma jornalista mais ou menos competente. Liberdade.

“Home office” é uma tendência, especialmente em metrópoles como São Paulo, onde existem sérios problemas de mobilidade, trânsito, transporte público deficiente. E justamente por enfrentar menos vezes na semana os complexos deslocamentos pela cidade, dá pra ser eficiente com o trabalho em menos horas e preencher muitas outras com o que a gente gosta. A tal qualidade de vida. Claro, como a única certeza da nossa existência é a mudança, as coisas podem… mudar. Mas enquanto isso não acontece, vou curtindo minha rotina mais leve e feliz depois de anos mergulhada numa eterna ansiedade. Quando a transformação chegar novamente será recebida por uma Suzane mais em paz com sua história. Espero que você também consiga se sentir um dia assim. Como diz uma frase que li recentemente: “De reviravolta em reviravolta a alma chega a um destino interessante”.

Crédito da imagem: CSV

Afeto x afinidade

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“Às vezes esqueço que minha paisagem favorita no mundo é a minha cidade iluminada à noite, vista da Imigrantes. Ali na estrada, olhando a cidade lá embaixo, deixo aparecer um sorriso afetuoso em meus lábios. Lembro de amores e dissabores, penso na vida que tive e a que sonhei ter. Então, com um brilho nos olhos, sigo em frente. São Paulo me aguarda.
A saudade da cidade natal toma conta de mim. A saudade das pessoas que lá deixo, só faz crescer. Meu corpo estremece com as possibilidades infinitas que o futuro me guarda na ponta desta estrada. É interessante como a Imigrantes é mais do que uma estrada. Para mim, ela não liga duas cidades, liga o passado e o futuro. Andar por ela é uma viagem que leva do retorno às raízes, a quem eu sou e quem eu posso ser.”

Não fui eu quem escreveu o trecho acima. Mas eu gostaria de ter escrito. E talvez não conseguisse me expressar melhor em relação a um sentimento que é tão presente pra mim. O autor, Vitor Sampaio, é psicólogo (e futuro escritor, apesar dele não me levar a sério quando digo isso). É amigo de uma amiga querida. Agora, amigo também. Com ele tive a oportunidade recente de travar boas conversas e parar pra pensar em como a vida chegou do jeito que chegou até aqui. Gente que ensina sem nem perceber que tá ensinando.

A amiga querida em comum e em questão é a Nara. Ela fez parte de um dos momentos mais doces dos meus 34 anos, quando por mais de uma década fizemos balé juntas e nosso maior problema era qual sapatilha escolher. Me formava em jornalismo quando ela ingressava na mesma faculdade. Passamos anos distantes. E no reencontro (viva as redes sociais!) foi como se a despedida tivesse acontecido ontem. Entre gargalhadas escandalosas e muitas histórias num restaurante numa das últimas vezes que a gente se viu, há mais ou menos um mês, eu entendi que o afeto, independentemente do tempo e da distância, não muda. Como escreveu Vitor, o passado também é responsável por quem a gente é e quem podemos ser. Por isso, o carinho pelo que ficou pra trás deve ser valorizado. Ajuda a gente a se reencontrar no mundo.

Mas, pra minha alegria, não só o afeto pela minha amiga permanece. Também a afinidade. E foi Nara quem, numa frase simples, me levou a perceber uma verdade óbvia, mas não tão clara no nosso cotidiano: “Afeto e afinidade nem sempre andam juntos”. A gente caminhava, depois do almoço indiano, em direção a Avenida Paulista. Eu nunca tinha me dado conta como sim, você pode continuar a sentir afeto por muita gente, mesmo que desejos e horizontes entrem em conflito. A saída para preservar essas relações é ser mais… tolerante. Saber se colocar no lugar do outro. Compreender que aquilo que é essencial pra você não tem o menor sentido pra outras pessoas. E tudo bem.

Tudo bem, principalmente, porque, como a Narita me disse numa segunda ocasião, afeto casado com afinidade é “uma coisa tão rara, mas tão rara que eu considero um tesouro. Não é que Narciso acha feio o que não é espelho. Mas é você poder partilhar sua vida e visão de mundo com pessoas que realmente compreendem e te fazem pensar além do que você via e sob a sua ótica”.

E é com a filosofia da minha amiga que eu entendo e aceito que, às vezes, as pessoas te ofendem e te machucam, simplesmente, porque elas só podem oferecer aquilo que conhecem. Pra contrabalançar, a vida dá de presente gente que além de querida, te compreende. Os afetos me recordam quem eu sou, de onde vim. Os afetos com afinidade me mostram sempre quem eu posso ser. E quanto eu me tornei melhor do que os limites que me foram colocados.

Crédito da imagem: Cultura Inquieta

Uma perda de identidade coletiva

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A primeira disciplina que frequentei no mestrado foi Fundamentos de Sociologia, indispensável para quem não vem da área de ciências sociais (minha formação é em comunicação). Em Fundamentos aprendi mais sobre as teorias dos fundadores da sociologia, os considerados clássicos: o francês Émile Durkheim e os alemães Max Weber, Karl Marx e Friedrich Engels. Apesar de minha maior empatia com os ideais de Weber (que um dia explico aqui pra vocês), é inegável que o contato com as teses marxistas são essenciais e fascinantes pra quem deseja compreender a sociedade. Mesmo que muito do que ele tenha escrito já seja revisto e complementado por novos cenários da contemporaneidade. Marx foi pioneiro ao descrever a situação dos trabalhadores na Inglaterra – e mostrou o quanto o mundo do trabalho poderia ser cruel e injusto com a predominância da exploração de uns em detrimento do enriquecimento de outros.

Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que acredito profundamente que aqueles que se esforçam no trabalho, dão duro, fazem a diferença, são criativos, determinados, inovadores e dispostos a realizar o melhor merecem sim usufruir de seu empenho. Merecem sim ganhar mais que aqueles que trabalham sem vontade, são encostados, só fazem mais do mesmo e têm no bater ponto a preocupação exclusiva. Merecem abrir seus próprios negócios e prosperarem muito. Isso não significa que empresas tenham o direito de tratar seres humanos como apenas mais um número, mais um mero detalhe de um processo macro.

Ninguém é inocente de achar que o desejo principal de um empresário não seria o lucro. E seu desejo é legítimo. Mas será mesmo que ele pode sugar a vida de seus colaboradores para não mexer em seus ganhos? Se aproveitar daqueles que são apaixonados pelo que fazem para os encarcerarem 12, 14 horas por dia, ou além, dando a eles a falsa ideia de que são tão bons e por isso só ganham mais e mais responsabilidades – quando na real o objetivo é fazer o sujeito acumular tarefas para não contratar mais funcionários e, assim, manter de forma equilibrada a divisão das atividades? Quão ordinária não é a inversão de um jogo que justifica para um profissional que a perda de sua qualidade de vida está diretamente ligada ao seu sucesso?

Esse é o drama de quem permanece numa companhia depois de muitas demissões. Ele sobrevive aos cortes. Mas se for minimamente sensível passa a se perguntar: por quê? O profissional que não entra no facão fica confuso sobre seu valor. Arrasado ao ver colegas indo embora. Aliviado por manter seu ganha pão. Acuado com a impossibilidade de não mais poder questionar, debater e exigir melhores condições de trabalho. Sua identidade é esfacelada. Porque a profissão é sempre parte da imagem que projetamos no mundo. Quando, porém, viramos reféns da oscilação (e queda) da área que escolhemos, quem somos nós?

A perda de identidade é coletiva. Atinge os que permanecem na empresa, sem saber o dia de amanhã. Atinge os que foram expulsos dos quadros de empregados, sem saber quando e se uma nova colocação será possível. Em profissões como jornalismo, que enfrenta uma de suas maiores crises, sem saber bem para onde correr diante das novas tecnologias, a perda de identidade coletiva está acontecendo agora, neste exato momento. Somos milhares vendo o mercado minguar, em busca de planos B (e C e D e o que aparecer). Observamos com tristeza que aquela reportagem bem feita, aquele texto bem escrito e o reconhecimento pelo trabalho bem executado já é quase coisa de outsider, de veículo alternativo, que a gente faz por prazer, pra preservar algo da nossa essência. Mas amor sozinho não paga contas…

Vejo amigos jornalistas completamente perdidos. Não são mais o João da Silva da revista tal ou Antônio Santos do jornal x. Sentem como se tivessem ficado sem parte do sobrenome. Percebem que toda a beleza de durante anos se prepararem para refletir e informar sobre os acontecimentos sociais não mais importa. É valor sem espaço pra ser valorizado. O trabalho dignifica o homem?! Sou obrigada a dizer que os atuais rumos do mercado de trabalho, especialmente em jornalismo, não me parecem ser dignos… O que há em formação é uma coleção de homens de alma danificada.

Crédito da imagem: Oleg Dou (Cultura Inquieta)

A imprensa e o poder que ela te dá

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O poder é seu. Todo seu. Você pode desligar a televisão ou mudar de canal. Ouvir apenas música no rádio. Acessar sites com os conteúdos específicos que te interessam. Passar batido pela banca de jornais e revistas. A escolha é sua. Você não precisa acompanhar a intensa cobertura de mais uma tragédia. Mas eu acredito mesmo que você deveria… Porque a imprensa incomoda pra que ninguém se acomode.

Eu sei… Concordo que tem muito veículo, programa, carregando nas tintas. Apelando para o sensacionalismo. Mas nós sabemos, eu e você, quais são eles. E basta não dar audiência, se assim cada um desejar. Só é bom lembrar que o sensacionalismo existe porque há quem se interesse. Não é pouca gente. Nem é o seu caso, certo? Você só quer assistir/ler o jornal diário sem ter que saber de mais sequestros, assassinatos, assaltos, desigualdade… Aí, sou obrigada a te contar um segredo… O problema não é o jornalismo. É a sociedade em que a gente vive. É a sociedade que se acomoda porque não gosta de ser incomodada.

Mas você vai insistir comigo: por que continuar noticiando os desdobramentos de dramas como o que envolve hoje a cidade gaúcha de Santa Maria? Pra quê? Eu te devolvo a pergunta com outra pergunta… Será que se você soubesse dessa história apenas por meio de uma nota rápida, anunciada no jornal, que 235 jovens morreram numa boate que pegou fogo, você se comoveria? Talvez, surgisse um pensamento breve de “ai, que tristeza tão grande”. Mas eu acho que a maioria de nós consideraria mais um fim trágico entre muitos outros.

Quando obrigados a observar cenas de desespero, de salvamentos, de medo, de revolta, de perda, junto com informações que detalham a dor, somos impactados. Primeiro, ficamos perplexos. Depois, sentimos profundamente, nos colocando no lugar daqueles que estão sofrendo. Daí em diante, alguns colocam a mão na massa pra ajudar de alguma maneira. Outros, rezam. Alguns, cobram mudanças para que situações assim não mais aconteçam ou pelo menos diminuam. Há quem prefira ignorar, o que é um direito. Mas boa parte de nós compreende que esse não pode ser mais um fim trágico entre muitos outros. Uma transformação é urgente.

O noticiário de hoje, em todo o Brasil, destacou reforços na fiscalização das casas noturnas. Governos municipais, agora, exigem alvarás de funcionamento em dia e planos de emergência rigorosos. Descobri que dois lugares que frequento em São Paulo não tinham alvará. Minha segurança estava em risco e eu nem desconfiava. Será que se a tragédia de Santa Maria não ganhasse à exaustão destaque na imprensa nossos governantes teriam se mexido? Olha, eu acho que não…

A imprensa te fala da tragédia. E te ensina quais são seus direitos civis e humanos. Onde, como e com quem você pode reclamar por eles. Conta o que fazer para melhorar sua saúde. Explica quais são as tendências de mercados, de comportamentos, das artes. Ajuda a entender como sair do vermelho. Mostra o mundo grande que nos cerca – e como temos cuidado mal dele.

A imprensa também erra. A imprensa, muitas vezes, poderia fazer melhor do que faz. Eu, que sou parte da imprensa, tenho minhas críticas a ela. Mas garanto que não falta gente na profissão empenhada em querer o melhor para o público. Porque a imprensa convive com a simbólica expressão “o quarto poder”. O que a maioria de nós deseja de verdade, no entanto, é que o empoderado seja você.

Crédito da imagem: Diário de Santa Maria

O dia que matei aula por Gay Talese

Sentei em uma das cadeiras do corredor pensando que seria mais fácil sair no meio da palestra de Gay Talese. A apresentação do jornalista americano foi em maio, no TUCA, teatro da PUC de São Paulo. Acabei de ajeitar bolsa, pasta e livros na poltrona vazia a minha esquerda quando olho pra trás para ter uma ideia se o auditório estava mais pra cheio. Perdi o foco ao me dar conta que Mr. Talese descia rumo ao palco, passando bem do meu lado.

Aos 80 anos, ele anda rápido. Sobe as escadas que levam à mesa diante da platéia com agilidade. Seu movimento mostra mais disposição do que eu o meu, de 33. Magro, cabelo bem branco e ralo, chegou com um terno clássico de três peças (colete compondo o visual), tecido bem cortado, gravata de seda amarela combinando com o lenço no bolso. Nas mãos, um chapéu Panamá. Filho de um alfaiate italiano que imigrou para os EUA, Talese disse que sempre se vestiu dessa maneira, desde menino.

Enquanto analisava a elegância do escritor, que é uma lenda viva do jornalismo (nem gosto muito desse termo, mas não tem como explicar de outro jeito), lembrei em que momentos da minha vida li “A Mulher do Próximo”, sobre a revolução sexual americana; e “Fama e Anonimato”, com o clássico perfil “Frank Sinatra está resfriado”. Me envergonhei mais uma vez por não ter lido até hoje “O Reino e O Poder”, sobre a história do jornal New York Times, onde ele trabalhou muitos anos.

Talese é um expoente do New Journalism, gênero nascido nos anos 60, que dá à narrativa jornalística um tom literário. E ele, simplesmente, sabe contar bem uma história. Mais do que isso. Ele transforma qualquer história, a mais comum, em algo extraordinário, interessante, emocional, curioso.

Não adiantou sentar na poltrona do corredor para cair fora logo e não perder a aula mais importante do semestre para minha tese de mestrado. Me atrasei 1h40 para a aula de pouco mais de três horas. Mas tive a melhor aula de jornalismo de todos os tempos, que ajudou a reafirmar a minha crença de que vale o esforço pela profissão. Só precisamos descobrir caminhos alternativos, que não nos façam depender das grandes empresas. Pra mim, é a hora de criarmos os lugares que desejamos trabalhar.

Trechos da palestra:

“Me tornei um contador de histórias ao me dar conta de que mudamos, de um dia ao próximo, nossa personalidade.”

“Meu pai imigrou da Itália para os EUA. Minha mãe era filha de italianos. Na Segunda Guerra, eu tinha dois tios lutando no exército fascista. Meu pai passava as noites ouvindo pelo rádio as notícias da guerra, preocupado com a mãe viúva que estava numa cidadezinha da Itália que poderia ser bombardeada a qualquer momento. Mas ele, que era alfaiate, abria a loja no dia seguinte atendendo os clientes com sorriso e simpatia. Pra mim, foi mais difícil na escola. Eu era xingado o tempo todo, inclusive de Mussolini. Quando EUA e Itália se tornaram inimigos na segunda grande guerra, mesmo nascendo americano, eu era um meio cidadão, sempre suspeito.”

“’Essa conversa é interessante…’ Foi o que comecei a perceber sobre as conversas banais das pessoas, com suas emoções cotidianas. Histórias reais, que de uma forma ou de outra, podem ser encontradas em qualquer lugar da cidade. É sempre por aí que um romance vai emergindo.”

“Eu era por natureza tímido e não era bom aluno. Não tinha aula para mim. Não havia aula de curiosidade. Eu era um observador.”

“Sua grande entrevista não precisa ser com um presidente, um líder empresarial ou uma celebridade. Pode ser com as pessoas marginais, figuras normais. O que importa é falar, por meio delas, das mudanças do mundo. Mulheres falavam da revolução da pílula anticoncepcional na loja de vestidos da minha mãe.”

“Você tem que estar lá para ver com os próprios olhos, com seus preconceitos e medos. Mas tem que estar no lugar para ouvir a história.”

“Em 1953, o NY Times tinha 600 repórteres. Eles usavam a máquina de escrever, fumavam, havia barulho… Era um lugar com vida. Eram aquelas pessoas que cobriram as guerras, a Grande Depressão, o naufrágio do Titanic… Comecei lá como office-boy/copidesquista, quatro meses depois de formado.”

“Eu tinha um olhar diferente. Os repórteres comuns ficam esperando a notícia acontecer. Minhas histórias de pessoas ordinárias receberam credibilidade porque eu escrevia com curiosidade sobre elas. Compreendi que, se escrita bem, a história de qualquer um é interessante. Há bons personagens e complexidade no vizinho, nas pessoas do seu dia.”

“Não precisa escrever só sobre o sucesso porque o fracasso também é parte da vida.”

“Jornalismo é estar lá. Não pode ser telefone e Google. Se o editor diz que você tem pouco tempo responda que você quer tempo para fazer jornalismo de qualidade se ele quer um jornal de qualidade. Brigue! Seja o melhor!”

“Ao jovem jornalista, observação é essencial. Ou você só terá informações de segunda mão. Não basta. Outro conselho que dou: leia bons escritores. Eu não era bom aluno, mas li os grandes escritores. Você precisa entender o que as pessoas estão pensando, não só o que elas estão dizendo. E olhe os detalhes insignificantes. Juntos, eles se tornam muito significantes. Vá ao teatro, ao cinema ver a contação de histórias.”

“Se você usar só a internet, você não será especial, não será um produtor de qualidade. Se é para capturar o caráter, a emoção, só o jornalista estando lá.”

“Em 1930, já diziam que os jornais iriam falir. Depois, disseram que ele não poderia competir com a televisão. Também disseram que o rádio acabaria com a TV. E o rádio continua sendo muito melhor. Há mercado para a qualidade. Acredito que o jornalismo está melhorando justamente porque ele está ameaçado. Mas nem se preocupem com isso. Vocês só devem se preocupar em serem os melhores.”

Crédito da imagem: David Shankbone/Creative Commons

Pra você, jovem jornalista…

Eu fiquei lá menos de dois anos. O suficiente pra perceber que estava cercada por uma das equipes com mais gente boa por baia da qual eu participei. Redações são cheias de vaidades. A do Jornal da Tarde, não. Fiz amigos que agora levo pra vida toda nesse lugar que deixou de existir hoje, 31 de outubro de 2012, depois de 46 anos. O JT, um símbolo do jornalismo brasileiro, que ajudou São Paulo a ser melhor, mostrando defeitos, qualidades e curiosidades da maior cidade do País, acabou. Deixaram acabar… A equipe era chamada de Família JT. Isso diz muito.

Entre fotos e vídeos de despedida do último fechamento, não consegui não chorar ontem. E sem estar presente (fisicamente), eu pensava em tudo o que eu gostaria de dizer para os meus amigos que escreviam e editavam os últimos textos, definiam as imagens e a montagem das páginas. Mas em cada nova mensagem postada no Facebook, tinha uma turminha dali que não saía da minha cabeça: os jovens jornalistas e estagiários.

Quando me formei (e lá se vão dez anos), eu não fazia muita ideia de por onde começar quando segurei o diploma na mão. No primeiro ano, tive mais medo do jornalismo, de não dar conta dele, do que alegria. Era muita ansiedade pra fazer dar certo. Foi quando entrei no Curso de Focas do Estadão (uma espécie de trainee de três meses do Grupo Estado). Foi o que me abriu portas para entrar no concorrido mercado da capital. Nesses anos todos aqui, desde 2001, quatro veículos no currículo, sempre fui daquelas que acordava feliz na segunda-feira sabendo que iria trabalhar com o que eu escolhi. Eu via sentido em ser jornalista.

Durante o curso, fiquei duas semanas no JT. Uma porque me mandaram. Outra porque tinha uma semana livre, pedi pra voltar e deixaram. E se nas outras editorias a gente fazia no máximo notinha, o editor de Variedades me permitiu escrever duas matérias inteiras – e ainda assinar!! Era demais para um coração foquinha!! Uma matéria sobre a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e outra sobre o livro “Cobras Criadas”, de Luiz Maklouf. Acabei de olhar pra minha estante. Continua ali, na penúltima prateleira.

Muito tempo se passou até eu voltar. E aí… fui feliz de verdade. Fiquei brava muitas vezes. Dei chilique, dei risada (mais do que chilique). Implorava espaço na diagramação para meus textos (e o pessoal sempre me ajudava). Descobri que podia escrever de um jeito diferente do que eu estava acostumada até então (é um pouco esse que vocês acompanham aqui no blog). Fiz reportagens que vou me orgulhar pra sempre, que eu sei que fizeram diferença na vida das pessoas, que me escreveram/ligaram e disseram “muito obrigada por me ajudar a contar minha história”.

E foi sobre isso que escrevi ontem pra oito jovens talentosos que acabaram acompanhando tão de perto esse fim, que é triste pra toda imprensa, mas deixa um vazio maior pra quem foi parte do JT. O que eu disse a eles (e aproveito pra dizer pra todo jornalista iniciante que puder ler agora) foi “não desistam”. Jornalismo parece ter se tornado uma profissão ingrata. Demissões, referências que se vão… Mas eu acredito de verdade que é cíclico. Tem períodos melhores, outros piores, e não acho que é só um problema dessa profissão.

O que eu percebo que TEM que mudar é a nossa postura diante da realidade da profissão. Temos um sindicato fraco. E muitos de nós são cada vez mais burocráticos e desapaixonados. Sei que estamos longe de ganhar bem como engenheiros, que somos obrigados a presenciar cortes constantes e, provavelmente, estamos entre os profissionais mais esgotados do mundo (deadline apertado, plantão, pescoção). Não justifica sermos uma classe desunida. Porque, pra mim, também não adianta ser solidário depois que acaba (ou quando está na iminência de acabar). Temos todos que bater pé junto, antes da situação sair do controle.

Mas enfim, minha geração (eu me incluo, claro), não conseguiu enxergar essa necessidade, não encontrou um jeito de mudar. Peço, jovens jornalistas, perdão pela nossa incapacidade. Deixamos esse desafio pra vocês que estão chegando. E eu só reforço de novo um “não desistam” porque eu sei que vocês podem. Quem sabe ainda não vemos juntos outros símbolos como o JT nascerem? Eu acredito mesmo que a gente consegue.

Crédito da imagem: Alex Silva (foto)/ Viviane Jorge (capa)