As mulheres da minha vida

Trabalhar especificamente com mulheres não foi algo que planejei desde sempre. Foi a vida mesmo, a minha e de pessoas que me cercam ou cercaram, que mostrou a necessidade grande de discutir preconceitos arraigados que ainda tornam o cotidiano feminino muito mais difícil e temeroso em aspectos sociais, pessoais e profissionais.

Essa jornada completou neste mês de julho um ano. Há exatos 12 meses eu chamava uma das minhas melhores amigas pra conversar numa tarde de domingo sobre questões como mulheres trabalhando o mesmo ou melhor e ganhando menos; profissionais serem demitidas logo após a volta da licença maternidade; homens que ainda acreditam que mulher tem que obedecer e aguentar desaforos, entre tantos outros temas que se transformam em obstáculos para que elas acreditem profundamente em seus potenciais e possibilidades. Para saber mais: www.mulheresageis.com.br e www.facebook.com/mulheresageis.

O que eu não imaginava era quanto esse caminho se tornaria absolutamente rico em conhecimento e conexões com mulheres sensacionais. Desde então, não há um dia praticamente que eu não conheça ou descubra a história de uma mulher foda. De uma mulher que inspira, que ajuda, que cria, que é pioneira, que é uma sobrevivente, que consegue tudo e mais um pouco. Nem um dia. Porque eu entendi que somos muitas. Só não estávamos falando sobre isso, não trocávamos nossas experiências. Ganhamos palco. E a gente merece demais.

Eu também não me dei conta do quanto trabalhar com mulheres me faria pensar e repensar nas histórias das mulheres da minha vida. Minha mãe, minhas avós, minhas tias, primas, amigas, professoras. De quanto, Deus, elas são fantásticas. Do quanto elas foram fortes mesmo quando alguém disse a elas que eram fracas, que podiam menos.

Tive a sorte de viver em meio tanto a mulheres fortes quanto a mulheres sensíveis. Me ensinou a valorizar o equilíbrio. Me ensinou que a forte também carrega a delicadeza e a sensível vira rocha quando necessário.

Outro dia alguém me questionou se eu sempre desejei ser empreendedora, ter negócio próprio. Não. Mas sabia que eu “empreendia” meus sonhos. Sempre corri atrás do que queria, criava estratégias. Tive exemplos lindos de perseverança, inclusive de homens.

Mas a capacidade de acreditar e realizar, eu entendi, veio especialmente da minha avó materna, a dona Lourdes. Que aos 28 anos pegou a filha pequena pela mão, entrou num navio em Portugal, e desembarcou no Brasil para recomeçar a vida, dar um futuro melhor para sua menina. Filha essa que ela transformou em uma historiadora e professora universitária mesmo com estudando apenas até a terceira série. Ninguém pensaria na minha avó, tímida, calada, com traumas, como uma empreendedora. E agora eu me pergunto: como não enxergar minha vozinha como uma desbravadora, minha maior inspiração?

Foi minha avó, quando eu era bem pequena, que primeiro me disse: mulher tem que trabalhar, estudar e ser independente. Lembro claramente dessa cena. Ela passando roupa na cozinha e esquentando meu ferrinho de brinquedo com o ferro de verdade para eu “brincar” de passar os lenços do meu pai. Eu tinha uns 6 anos.

Demorou muito, mas muito mesmo para eu ouvir algo assim de outra pessoa. Minha mãe começou esse mantra quando eu já era adolescente. Fora de casa, foi uma professora de física, quando eu já estava com 17 anos.

Hoje, eu comemoro e agradeço por empreender com propósito e saber que posso ajudar a transformar para melhor os dias de tantas outras mulheres. Especialmente, eu comemoro e agradeço à vida por me mostrar bem cedo que ajudá-las era destino.

***

Para comprar on-line meu livro Tem Dia Que Dói – Mas não precisa doer todo dia e nem o dia todo (Editora Volpi & Gomes), acesse: https://temdiaquedoi.lojaintegrada.com.br/

Anúncios

Causas, consequências e responsabilidades da violência contra a mulher

13041492_777246402374983_3158845601644099736_o

A Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), um marco no combate à violência contra a mulher no Brasil, completa dez anos em 7 de agosto. Por favor, não pare de ler esse texto já acreditando que você não tem nada a ver com isso. Tem sim. Homens e mulheres. Quem já agrediu, quem já foi agredida, quem nunca agrediu. Quem acha que nunca agrediu ou que nunca foi agredida (agressões verbais e emocionais também são violência, vale lembrar).

Porque a lei foi essencial para punir, salvar e colocar holofotes sobre uma condição considerada natural na sociedade durante anos. O homem tem poder. Logo, a mulher se submete, aceita. Tudo. Desde opressão, humilhação, até tapa na cara e ameaça de morte. A legislação, classificada como uma das três melhores do mundo na questão de gênero, escancarou: isso não é um direito masculino, não é um dever feminino e as consequências são graves, afetando gerações inteiras que enxergam na crueldade e na violência algo do cotidiano, reproduzindo tal banalidade em todas as suas demais relações e ações.

Já é claro quanto a noção deturpada de masculinidade que muitos homens carregam vem da infância. Não estou tirando a culpa de quem a tem, do tipo “coitado, age assim porque presenciou a violência dentro de casa, também foi vítima dela”. Não. Mas é uma realidade inegável. As pessoas reproduzem o que aprenderam. Alguns conseguem compreender que é errado e buscam ajuda psicológica para não entraram no mesmo ciclo vicioso no qual se viram ainda crianças. Não é, porém, um passo fácil no clássico universo de homem que é homem não chora, não é vulnerável, não é sensível.

É preciso reforçar sempre como a educação dos meninos, por décadas, deu a eles a ideia equivocada de que podem mais, são mais fortes, precisam conquistar, jamais fracassar, viver do status de vencedor – incluído aí uma bela mulher, “educada”, mas que não questione e não dê muito “trabalho”. Que não se sobressaia, mas seja um acessório que faça a ele brilhar mais.

A culpa, aqui, não só é dos pais, mas também das mães que reforçam esse imaginário de que eles são donos da verdade e das decisões, e que elas só devem “acompanhar”. Nenhuma relação verdadeiramente saudável e satisfatória se constrói sob tais termos.

Mas esse foi o “tradicional” durante décadas. Ainda o é para muitos casais. E quantas violações de direitos humanos já não foram cometidas ao longo da História em nome das “tradições”?

Temos, então, ainda um caminho razoável a percorrer que exige mudança de mentalidade e transformação de comportamentos. É possível. Quer entender melhor o que é a violência contra a mulher, suas causas, consequências e responsabilidades? Assiste os três vídeos nos links a seguir. São parte da série USP Talks, que levanta debates sobre temas atuais presentes na vida de todos nós.

As palestrantes são a pesquisadora Ana Flávia d’Oliveira, professora da Faculdade de Medicina da USP, e Silvia Chakian, promotora de justiça do Ministério Público de São Paulo. Elas são incríveis, didáticas e trazem dados alarmantes. Os dois primeiros vídeos são as explanações de cada uma, por 15 minutos. O terceiro são as respostas de perguntas da plateia.

Entre as informações que as especialistas expõem estão:

  • uma em cada três mulheres na cidade de São Paulo já sofreu algum tipo de violência, independentemente da classe social;
  • a violência sofrida pela mulher impacta diretamente seu desempenho profissional, tanto a violência enfrentada em casa quanto a emocional que pode estar presente no ambiente de trabalho;
  • o registro de mulheres com casos de depressão, síndrome do pânico e transtornos de ansiedade são maiores e estão muito mais ligados a agressões emocionais e físicas do que se imaginava;
  • elas demoram a pedir ajuda pensando na família, nos filhos; sofrem vários episódios de violência até romperem o silêncio, seja na justiça ou com amigos e familiares;
  • muitas mulheres e homens não entendem que estão sofrendo e praticando violência porque o contexto no qual cresceram e viveram sempre foi o mesmo que hoje reproduzem;
  • não há um perfil determinado do agressor; ele pode ser trabalhador exemplar, bom pai, sem vícios, nível socioeconômico e cultural elevados;
  • culturalmente os homens apresentam maior dificuldade em reconhecer fragilidades, a necessidade de cuidados médicos – imagine cuidados psicológicos; mas muitos têm real condição de compreenderem que suas atitudes são violentas e podem superar essa condição com ajuda de terapias.

Para terminar e deixá-los com as palestras do USP Talks explicando muito melhor do que eu seria capaz: não está a ninguém reservado o direito de julgar mulheres que não desejam ver os companheiros encarcerados ou se separarem deles. Relações de afeto não são desligadas pressionando um botão. Sim, muitas vezes há amor nesses relacionamentos. E o que elas esperam é que acabe a violência. Não o vínculo. É amplo, é complexo. Pare de criticar e ajude.

USP Talks Violência Contra a Mulher: Ana Flávia d’Oliveira
USP Talks Violência Contra a Mulher: Silvia Chakian
USP Talks Violência Contra a Mulher: debate

Crédito da imagem: Mete a Colher Rede de Apoio Entre Mulheres

Lute contra a cultura do estupro e do machismo. Sempre.

13319722_1192237540801016_4721165719761808076_n

Uma menina de 16 anos é estuprada por 33 animais absolutamente irracionais. Porque não podem ser chamados de homens. Nem de seres racionais. Simplesmente. Estupro nunca é culpa da mulher. É culpa da ignorância, da pequenez humana. Feminismo nunca matou. Machismo mata todos os dias. E é hora de cada um parar pra pensar quais são suas atitudes diárias que suportam, propagam e reforçam essa cultura do medo, do desrespeito, da crueldade. Se você, homem, precisa diminuir ou agredir uma mulher pra se sentir macho, forte, sinto informar, você é um bosta. Se você mulher julga e condena outras mulheres por suas escolhas, jeito de vestir, de se comportar, de viver, sinto informar, você também é culpada por estarmos expostas a atos violentos como esse.

Como escreveu um amigo meu, esse episódio da menina estuprada por um bando de infelizes prova que não estamos no fundo do poço. Nós somos o próprio fundo do poço. E tem horas que não vejo saída pra essa sociedade doente que se formou, em todos os níveis, em todas as classes sociais, inclusive entre os que se acreditam bem “educados”. Tá difícil não ser pessimista. Mas eu ainda acredito de verdade que a gente pode ser melhor. Que a gente lute todos os dias por punições severas a situações assim. Que a gente não tenha medo de combater essa escrotidão, que chega a esse ponto, inclusive, por meio das pequenas piadinhas e atitudes cotidianas. Que dão poder a uma ideia coletiva de que eles podem. E não podem. Nem de brincadeira. Nem com um ato hediondo.

Cerveja Feminista, a red ale que veio para regar o debate sobre machismo

safe_image

Três publicitárias criaram uma red ale batizada de Cerveja Feminista como reação ao machismo histórico que toma conta dos comerciais de cerveja. Escrevi sobre o assunto na minha coluna no site da Revista GOSTO, na qual sou redatora-chefe. Dá uma olhada no texto aqui.

É verdade que nos últimos cinco anos isso melhorou muito. As empresas focaram mais em cenas divertidas entre amigos, por exemplo. E quando parecia que tal cultura mudaria, a Skol vai lá e pisa na bola com seu comercial de carnaval cujo slogan sugeria que na abordagem durante o xaveco carnavalesco não se aceitaria não como resposta a uma investida. Elas aproveitaram o episódio infeliz e criaram, há uma semana, a Cerveja Feminista. Para homens e mulheres, de produção artesanal e que pode ser encomendada pela internet. Já encomendei a minha. Ótima oportunidade para debater um tema tão fundamental. E pode ser abrindo uma cerveja, na mesa do bar… 😉

Não merecemos, não! (e qual a parcela de culpa do recalque feminino)

1941449_780573318619591_760879328_o

Sentei em frente a janela do terraço. Abracei os joelhos. Abaixei a cabeça pra chorar. De raiva. Lá fora, chovia. Cheguei ao limite. Da paciência, da compostura, do manter a educação com quem não se incomodava em me machucar dizendo que eu era a culpada.

Já se passavam uns dois meses desde o fim de um relacionamento que não andava nada bom. Mas não importava quão problemática era a situação, a diferença de gênios, de valores, de comportamentos. Com mais de 30 anos, me diziam, eu é que não soube “levar”. Porque, “nessa idade”, a mulher TEM que saber levar – ou acaba sozinha. Era minha culpa também ter opinião demais. Não ser mais condescendente. Não baixar a cabeça pra certos abusos.

A noite em que chorei tanto foi seguida do dia que falei poucas e boas a pessoas que faziam questão de ressaltar que se não consegui “levar” era porque eu era egoísta demais. Não interessava as conquistas pessoais e profissionais que tive até ali, o meu caráter, nada. Nem os (muitos) erros dele!!

O término de uma história que já beirava o precipício foi jogado no meu colo como uma falha particular minha. Uma falha feminina.

Nenhum homem me disse isso.
Foram todas mulheres. Das mais diversas idade.

Lembrei do momento esses dias depois de ver o resultado da pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) que, assustadoramente, revelou opiniões machistas e violentas por parte dos brasileiros em relação à população feminina. As principais:

– 54,9% dos entrevistados concordaram total ou parcialmente com a afirmação: “tem mulher que é pra casar, tem mulher que é pra cama”
– 64% dos entrevistados concordaram total ou parcialmente com a ideia de que “homens devem ser a cabeça do lar”
– 14% acreditam que a mulher deve se submeter totalmente aos desejos sexuais do marido
– 65% dos brasileiros acham que mulher de roupa curta merece ser atacada

E dos quase 4 mil entrevistados, 66% eram mulheres.

Não quero tirar o foco do quanto o estudo mostrou que o comportamento de muitos caras é agressivo e perigoso. De como parte deles ainda se acha sim no direito de subjugar parceiras e fazer valer sua vontade à força caso, por exemplo, tomem uma negativa. E não tem nada a ver com o tipo de roupa, como tentam “justificar” parte dos pesquisados.

Já cansei de ouvir barbaridades e de me sentir ameaçada na rua usando jeans, camiseta e tênis. Mulheres são estupradas no mundo todo, independentemente de como estão vestidas. Inclusive as que são obrigadas a viver debaixo de burcas. Um levantamento realizado pelo Centro para o Diálogo Nacional do Rei Abdulazi apontou que 86,5% dos homens na Arábia Saudita afirmam que uma das causas do assédio sexual em locais públicos do país é culpa da maquiagem usada pelas sauditas. O rosto é a única parte do corpo que elas revelam, vale destacar. Por vezes, são apenas os olhos.

Mas pensando nos resultados do estudo brasileiro, nos números, na maioria dos participantes, como ignorar que o machismo feminino é forte, parece crescente, e tão (ou mais) danoso quanto o dos homens?

O recalque feminino, diz uma amiga minha, é um dos mais graves problemas da humanidade. Gera confrontos, humilhações, bullying, calúnia, difamação. Reforça estereótipos negativos e dá carta branca para que a violência contra a mulher se perpetue. E nem só contra a mulher.

Quantas vezes você já não ouviu de alguma amiga ou conhecida que se o cara não pegou, não se rendeu às investidas dela, ele só pode ser gay? Nada contra os gays, de maneira alguma. Mas colocar a masculinidade de alguém em dúvida é um indício cruel do quanto uma mulher consegue ser machista. Na mesma proporção de quando chama a outra de vadia por um motivo qualquer.

Machista e recalcada, vamos esclarecer. Ela tende a denegrir a imagem da “rival” pra se sentir superior por uma questão de baixa autoestima, insegurança, auto imagem negativa. Mesmo motivo pra detonar o sujeito que não quis nada com ela, pelas mais diversas razões.

No fim, entrei em choque com os resultados da pesquisa não só porque confirmei a sensação de ameaça que sinto por parte dos homens como algo real. Mas porque tive a triste certeza de que as mulheres são incapazes de perceber quanto contribuem para piorar a própria situação.

Que as pessoas não pensam duas vezes antes de machucar alguém com opiniões limitadas e preconceituosas eu já sabia. Só não acreditava que elas pudessem assinar embaixo de um crime achando que estão garantindo “moral”. Nada mais imoral.

Crédito da imagem: Brasil Post

*****

O resultado da pesquisa deu origem ao movimento “Eu Não Mereço Ser Estuprada”, criado pela jornalista Nana Queiroz. A página da comunidade no Facebook já conta com quase 18 mil seguidores: https://www.facebook.com/pages/Eu-n%C3%A3o-mere%C3%A7o-ser-estuprada/262686010579662?fref=ts
#EuNãoMereçoSerEstuprada #NinguémMerece

Namoro violento, casamento errado

machismo controle

Meu coração apertou esse fim de semana quando eu assistia o noticiário. A imagem da câmera de segurança de um supermercado no Paraná mostrava uma adolescente, funcionária do local, sendo arrastada com violência pelo ex-namorado. É possível vê-la correndo, tentando fugir ao ser baleada nas costas. Não satisfeito, o cara deu mais um tiro na cabeça da menina. Letícia, 17 anos, foi morta por dar fim ao namoro de oito meses. Choca muito porque acompanhamos nas cenas o desespero dela. E a valentia dele, como se tivesse direito de tirar uma vida ao levar um “não quero mais”.

O problema é que casos como esse são mais corriqueiros do que se imagina. Há alguns meses, escrevi um post aqui sobre como o machismo é presente em atitudes, masculinas e femininas, no cotidiano. Recebi um comentário de um jovem de 20 e poucos anos (consegui checar o perfil dele no Facebook), que dizia o seguinte: “Mulher tem que saber que respeito é bom, eu gosto e preserva os dentes.” Não liberei a mensagem, que carregava mais algumas barbaridades. Mas é um exemplo claro de que estamos falhando na educação das atuais gerações quando se fala da questão de gêneros, de poder, de igualdade, de preconceitos.

Em geral, a violência entre casais é exemplificada com histórias de relacionamentos longos, de casamentos, tendo a mulher como principal vítima. E é assim porque as estatísticas de violência com raiz no machismo são alarmantes. Ainda é pouco abordada, porém, a violência no namoro. Jovens enfrentam relações tóxicas com discussões que passam muito do limite, empurrões, tapas e terror psicológico. Familiares de Letícia disseram que a relação com o ex que a matou era tumultuada, com brigas constantes. Ele já teria a agredido fisicamente, inclusive.

Segundo um estudo recente da Universidade de São Paulo (USP), coordenado pela psicóloga Tânia Flake, com 362 jovens de ambos os sexos, 75% já sofreram algum tipo de violência durante o relacionamento. Outros 67% foram alvo de agressões psicológicas. São índices muito altos. Nos EUA, 30% dos adolescentes relatam abusos nos relacionamentos, de acordo com o Serviço de Referência da Justiça Criminal. Os rapazes não estão livres de serem eles as vítimas. E também devem sair o quanto antes de relações tão pesadas. Bom lembrar que a justiça reconhece como violência doméstica, passível de pena, as agressões no namoro, mesmo que os envolvidos nunca tenham morado juntos. Tem advogado que diz que não. Juízes, porém, vêm entendendo que cabe a punição, sim.

O mais triste é que muita gente (especialmente as moças) acreditam no clássico e falível “ele(a) vai mudar”. Acabam casando com seus agressores e passam uma vida entre insultos e o medo de “desagradarem” os parceiros. Conheço alguns casamentos nessa linha (e que nem têm tanto tempo). A pesquisa da USP indicou que a violência iniciada no namoro aumenta ao se tornar relação conjugal. Meninas e meninos, os sinais estão sempre lá. É um ciúmes exagerado, um tom de voz levantado, seu celular e e-mail checados (sem ou com sua autorização), um apertão no braço, um beliscão, a tentativa de fazer você se sentir inferior seja pelo que for.

Uma amiga psicóloga disse que até aquela tentativa de “trazer” você para o mundo do outro excessivamente, desconsiderando o que você gosta de fazer, é perigoso. A princípio, pode parecer o sincero desejo do apaixonado de nos colocar na vida dele. Romântico? Será? Pode ser a tentativa de sufocar a sua personalidade de tal maneira que você nem lembrará mais, depois de alguns anos, quem é de verdade. Onde há controle e intimidações não há amor.

Crédito da imagem: O Machismo Nosso de Cada Dia (a ilustração acima que acompanha o post é voltada para mulheres, mas vale também como entendimento para os rapazes que são as vítimas dos abusos)

A cruel exigência de que eles sejam fortes demais

homem sensível

A lágrima caiu. Misturou ao café na pequena xícara. Olhos marejados. O choro maior que ele não queria deixar vir à tona era segurado. Engoliu em seco e continuou. Meu amigo, que eu já não encontrava há alguns anos, tem 33. Casado. Um filhinho de dois anos. Trabalha no mercado financeiro. Disse que acompanha o blog desde o começo e pediu pra gente conversar. Achou que eu poderia ajudá-lo a dar significado pra tudo o que vem enfrentando. Me senti até lisonjeada. Bom saber que alguém confia na gente nessa proporção. De auxiliar a clarear ideias. Não sou psicóloga, claro, mas amigo é pra essas coisas. E acho sempre verdadeira aquela história de que quem enxerga de fora pode ver o que no fundo não desejamos.

Ele está no limite. Físico e mental. Vive um efeito sanfona de engorda-emagrece. Agora, me pareceu magro demais. Tem gastrite, insônia, ansiedade. Sua luta é pra manter o padrão de vida que sempre quis. E alcançou. O preço anda alto. Odeia o que faz. Diz que vive pesados embates profissionais diários. Competitividade ao extremo. Ninguém desconfia, diz. “Não quero que as pessoas percebam o quanto me sinto fraco e inútil”. Depois dessa frase, o choro contido (talvez de anos) veio de uma vez. Quase chorei junto. Fiquei firme pra tentar explicar que aquilo que ele sentia era legítimo, um direito. “Ao homem isso não é permitido, Su…”

Infelizmente, não tenho como discordar do meu amigo que a fragilidade dele é mal vista na nossa sociedade. Já melhorou muito. Mas a clássica ideia de que homem não chora persiste. Especialmente quando o ambiente de trabalho pede decisões duras. A cruel exigência de que eles sejam fortes demais é tão machista quanto a ideia de que mulheres devem ser submissas pra serem “valorizadas”, “escolhidas”, “amadas”.

Dias antes, um outro amigo que mora fora me contou como a saudade, a distância de pessoas importantes, tem feito ele sofrer e questionar decisões anteriores. Profissional de humanas, da escrita, encontra mais facilidade em demonstrar seus sentimentos. Não teme falar sobre o assunto. Mas ele ainda não é maioria. Ao homem é quase proibido lidar com um problema emocional. E essa é uma das nossas maiores falhas. Separar. Em gêneros, classes, etnias, idade. Somos todos seres humanos à mercê de dores, batalhas. A resiliência não depende de estar ou não encaixado em determinado grupo. Depende de ajuda. De autoconhecimento. De nos libertarmos de estereótipos, sermos mais generosos e menos preocupados com o “parecer” pra impressionar. Pobre de nós, que precisamos da aprovação alheia, e corremos constantemente atrás disso, mesmo que nossa alma esteja em frangalhos.

Aos meus amigos meninos, pedi, antes de tudo, calma. As tempestades passam. Para o amigo que eu não via há anos, recomendei, a partir da minha humilde compreensão do mundo e com base na amizade sincera, que ele abra o coração para a família. Depois, que procure ajuda de um terapeuta e passe por uma bateria de exames. Por fim, que não permaneça paralisado pelo medo de mudar. Claro, com pessoas que dependem dele, a mudança não pode ser radical. Mas por fases, um passo após o outro, e ele vai conseguir. Temos o direito de viver com mais suavidade. Tanto homens quanto mulheres. Que bom será quando a tristeza e a delicadeza forem permitidas a todos nós.

Crédito da imagem: CSV