A casa para onde sempre se pode voltar*

Já moro em São Paulo há mais de oito anos. No começo da vida aqui, descia a serra toda semana para rever a família. Chamava lá de ‘minha casa’, como se a capital fosse apenas um detalhe necessário para trabalhar na área que escolhi. Mas aí vieram os amigos. As festas. Os amores. Uma cidade para descobrir. E as visitas familiares foram espaçando. O lugar que eu chamava de casa passou a ser a metrópole, definitivamente.
Só que na fase dos 30 anos você começa a se fazer um milhão de questionamentos. E também a compreender algumas verdades muito mais duras do que poderia imaginar. Uma das realidades que despencou na minha cabeça foi que, um dia (espero, de todo coração, que seja um dia bem, bem longe), meus pais não estarão mais lá. É o tipo de situação que nunca nos preparamos para enfrentar, mesmo que seja o natural da vida. Pensar nela apavora.

Uma segunda-feira dessas, minha mãe ligou. “Filha, você vem esse fim de semana?” Eu disse que não, que seria uma semana cansativa, que eu tinha já compromisso para o sábado. “Tudo bem…”, respondeu a voz materna, tentando disfarçar uma pontinha de tristeza. Na terça-feira fui caminhar de manhã entre a Vila Leopoldina e a City Lapa. Por ser uma região plana e arborizada, muita gente faz corrida e caminhada por ali.

Nas minhas andanças sempre cruzei com duas senhoras, mãe e filha, que caminhavam diariamente. A senhorinha – que um dia, numa conversa rápida com elas, contou que teve um box no Ceagesp durante décadas – segurava no braço da filha para se apoiar num trecho ou outro do exercício. Há algum tempo já não as encontrava.
Naquela terça-feira, vi a mais moça, sozinha, sentada num banco de uma praça. Lenço na mão que alcançava o rosto para enxugar os olhos. Fiquei sem graça de chegar perto. Segui meu percurso. No outro dia, mesmo horário. A mais moça sozinha novamente, sentada no banco da pracinha. Lenço na mão enxugando os olhos. Peguei uma flor amarela caída no chão. Assoprei duas formigas que estavam nela.

Entreguei a flor à senhora-moça, que levantou os olhos, deu um leve sorriso e disse: “Você viu… Ela não está mais… Foi tudo rápido, sem sofrer. E tive o privilégio da companhia da minha mãe até agora, quando chego quase aos 70. Mas essa falta…” Sentei do lado dela e disse que sentia muito, me segurando com todas as minhas forças pra não chorar também. Não por vergonha, não. Mas porque eu não sabia se faria a senhora-moça se sentir mais triste.

Ela perguntou minha idade, se eu ainda tinha meus pais. Disse que sim. “Então, corre pra abraçá-los sempre que você puder. Mesmo que esteja brava por algum motivo, ou que vocês tenham personalidades e opiniões diferentes. Eu tenho tantos bons abraços de lembrança dos meus pais…”

Conversamos mais uns minutos. Me despedi. Na hora que virei as costas, era eu quem enxugava as lágrimas na manga do casaco de moletom. Cheguei em casa e liguei pra mãe. Disse que poderia almoçar com eles no domingo e voltaria para São Paulo segunda-feira de manhã. Sabe quando você percebe pela voz que a pessoa está sorrindo?

O pai foi me buscar como sempre na rodoviária, com a cara de feliz que faz quando me vê. Combinamos que sim, vou acompanhá-lo no Salão do Automóvel (mesmo que eu não entenda nada de carros). Depois do almoço, perguntei pra mãe se ela não queria dar uma caminhada. Era fim de tarde, com vento fresquinho. Dei o braço pra ela apoiar…

Percebi que há algum tempo voltei a chamar a casa dos meus pais de ‘minha casa’. E a senhora-moça voltou a caminhar pelas ruas do bairro, num horário um pouco mais tarde. Ela tem a filha para acompanhá-la.

* Crônica originalmente publicada por Suzane G. Frutuoso no Jornal da Tarde (2012)

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Indiferença

indiferença

No último texto falei sobre o filme “Álbum de Família”, que está em cartaz no cinema e traz Meryl Streep no papel de uma mãe sórdida que humilha e agride as filhas. E sobre como o enredo me lembrou o único livro na vida que não consegui terminar de ler, chamado “Feia – a história real de uma infância sem amor”. A obra foi escrita pela juíza inglesa Constance Briscoe, que entrevistei uma vez. Ela conta como sofreu violência física e psicológica, praticadas pela própria mãe. As cenas descritas eram tão pesadas que não consegui ir adiante na leitura. Enfim, o post era sobre como muitas crianças são machucadas e maltratadas pelos próprios pais (é o anterior a este).

Pra hoje, então, eu havia decidido escrever sobre um assunto animadinho. Mas o texto alegre vai ter que esperar. Porque recebi uma mensagem muito comovente de uma leitora. Ela me permitiu publicar uma parte do desabafo. Juntas, concluímos que o depoimento pode ajudar outras pessoas. Quando a gente pensa em violência automaticamente vêm à mente gritos, palavrões, tapas, machucados. Existe, porém, a violência da indiferença. Vocês vão entender o que quero dizer lendo o que M. (vou chamá-la assim) me escreveu. Pra pensar…

“Minha mãe e meu pai nunca levantaram a voz pra mim e meu irmão mais novo. Também nunca xingaram ou bateram na gente. Na verdade, eles mal chegavam perto de nós dois. Sempre tiveram grana. Meu pai era executivo e minha mãe se formou em letras, mas nunca trabalhou. Isso não quer dizer que ela cuidava da gente. Nossa empregada e três babás diferentes cuidaram da gente. Finais de semana também eram elas, se revezando nas tarefas de dar banho, comida, vestir, levar no parquinho, na escola…

Não critico de jeito nenhum mulheres que trabalham fora (ou nem trabalham fora) e precisam de empregadas para ajudarem a criação das crianças. Mas o problema é ter o filho e não assumir as responsabilidades que isso traz junto. Muito cedo eu aprendi que se tivesse alguma tristeza, dificuldade, se eu caísse e ralasse o joelho era com a empregada que eu buscava socorro. Minha mãe passava o dia atarefada com coisas de madame, encontros sociais, na academia e no salão, preparando jantares para visitas. Eu e meu irmão só fazíamos o papel de filhos deles quando precisavam impressionar com a história da família perfeita. Aí, pegavam a gente no colo, apresentavam pra todo mundo. Mas eles não tinham paciência e davam um jeito de se livrar da nossa presença o quanto antes.

Então, eu não cresci numa casa violenta. Mas cresci atingida pela indiferença, pela negligência de duas pessoas que, como disse o seu texto, tiveram filhos apenas como mais uma conquista, como se fossemos brinquedos para serem usados na hora do entretenimento. Entretenimento deles. Não me lembro dos meus pais brincando com a gente. Nunca.

O lado bom é que eu e meu irmão somos unidos. Ele não quer ter filhos. Imagino sempre se tem algo a ver com o que vivemos. Tenho uma menina que é minha maior riqueza. Tudo o que não fizeram por mim eu faço por ela. Inclusive impor limites. Porque isso também é amor. Também um tipo de amor que não senti. Meus pais, hoje, são separados. Ele até melhorou, principalmente depois que minha menina nasceu. Visita a gente. Mas ela, minha mãe, está sempre muito ocupada com os dias egoístas dela. A violência física e verbal devem deixar marcas muito sérias. Mas a falta da educação de fato, da proximidade, do carinho deixaram cicatrizes na minha vida. A indiferença pode ser tão dolorosa quanto um tapa na cara.”

Crédito da imagem: CSV

Triste infância sem amor

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“Entreguei a fotografia tirada na escola para minha mãe. Ela olhava da fotografia para mim. De mim para a fotografia. Então disse: ‘Meu Deus, como ela pode ser tão feia. Feia. Feia.’” Esse é um dos trechos do único livro na vida que não consegui terminar de ler, apesar de me interessar. “Feia – A história real de uma infância sem amor” (Ed. Bertrand) foi lançado no Brasil em 2009. A autora é a juíza inglesa Constance Briscoe, vítima da crueldade da própria mãe quando criança.

Entrevistei Constance na época para a revista que eu trabalhava. A reportagem falava de um termo que há pouco tempo havia sido cunhado por psicólogos americanos: pais tóxicos. São pessoas que agridem física e psicologicamente os filhos, constantemente, sem arrependimentos. Uma série de maus-tratos que, claro, podem ser irreversíveis e criar um ciclo vicioso de gente que quando adulta repete as agressões em relacionamentos que deveriam ser de afeto. Como se assim “descontassem”, se vingassem, das agruras as quais se viram submetidos.

Lembrei do livro e da reportagem porque assisti esses dias o filme “Álbum de Família”. A atriz Meryl Streep interpreta uma mãe que não poupa as três filhas (uma delas é Julia Roberts) de comentários maldosos, insensíveis, amargos e de uma estupidez sem limites. Da mesma maneira age sua irmã com o filho. A “desculpa” para o comportamento hostil seria a infância difícil que enfrentaram.

Saí do cinema com aquela mesma sensação ruim experimentada ao ler “Feia”. Para a entrevista com a autora, li apenas trechos da obra. Depois, desejava terminar a leitura. Não deu. A cada página, a crueldade da mãe de Constance ía muito além da minha capacidade de compreensão, aceitação. O livro continua na minha estante, marcado na página 83. Sei que tem um final “feliz”, de superação – que a própria escritora me contou. Ela é casada, tem dois filhos (que disse amar incondicionalmente), uma carreira brilhante. Mas como dói saber que um ser humano ouviu os piores insultos, sofreu as mais terríveis humilhações e teve o corpo torturado por quem mais deveria amá-lo numa idade de ainda tanta fragilidade.

É bom que se diga que nenhum pai ou mãe está livre de perder a compostura por motivos os mais diversos. Não se acusa aqui pais que perdem a paciência vez por outra. Mas questiono aqueles (não poucos) que machucam crianças estimulados por uma raiva irascível, sem sombra de lamentação, como aparecem no livro e no filme. A violência física é gravíssima. Não é menos grave, porém, a violência verbal e psicológica, o que parece não ser tão óbvio para muitos de nós. Outro dia aguardava na fila do supermercado e presenciei uma mãe xingando o filho sem a menor cerimônia. Ela podia estar cansada, ter se aborrecido. Ela podia até ter chamado a atenção dele de maneira mais ríspida. Mas não humilhá-lo na frente de quem fosse.

Há quem se defenda com o discurso do “tive uma vida difícil”. Olha, não me parece razoável que uma criança pague por seus traumas e frustrações, que podem inclusive ser tratados. Se você acha que sim, que tem esse direito, sua “certeza” só reforça a minha ideia de que não é todo mundo que deveria ter filho nessa vida. Que muitos resolvem se tornar pais e mães apenas como mais uma “conquista” pessoal, como se criança fosse brinquedo ou só mais um item de uma lista de desejos fugazes, como o smartphone do momento.

Do mesmo modo, tenho pouca paciência com quem tem bons pais, mas joga a culpa de seus insucessos neles. Que não consegue se colocar no lugar deles, dentro das circunstâncias, educação e período histórico que viviam e que fizeram o possível dentro de suas limitações. São dois extremos da balança: pais cruéis que detonam a cabeça (e a alma) dos filhos e filhos ingratos que acusam os pais de que isso ou aquilo poderia ter sido melhor, diferente.

O triste é saber que se pessoas submetidas a maldades de familiares, seja do lado que for, não buscarem ajuda, reproduzem raivas, inseguranças, fragilidades e medos que atrapalham a construção de uma história bonita. Impedem dias de felicidade pelo caminho. Impedem também a concretização de uma sociedade mais tolerante e em paz. Se for o seu caso ou o de alguém que você conhece, sei que passado não se apaga. Ou que o inferno pode ser o que acontece no seu presente. Mas vá atrás de auxílio psicológico, se afaste do agressor, procure a Justiça. As cicatrizes ficam, é verdade. Feridas, porém, não precisam permanecer abertas.

Tomar sol, pé no mar

sol faz bem

Dizem que mãe sabe tudo. Sente tudo. Não sou mãe. Então, não sei – nada?! Mas tenho uma mãe inteligente, que me ensinou o valor do estudo, do conhecimento, sem esquecer de me ajudar a enxergar soluções práticas nas ações bem simples. Tomar sol e colocar o pé no mar foram remédios maternos pra uma variedade de problemas na minha vida.

Exemplo 1:
– Tô cansada, mãe…
– Vai tomar sol! Andar na praia!

Exemplo 2:
– Mãe, acho que tô ficando gripada.
– Toma sol. Se o mar não estiver gelado, caminha um pouco na beira d’água. Mas leva um camiseta pra não pegar friagem.

Exemplo 3:
– Ai, mãe, tô tão triste… (lágrimas)…
– Filha… Vai tomar um solzinho, vai… Bota o pé na água do mar, faz uma oração e deixa a energia ruim ir embora.

Exemplo 4:
– Tô ansiosa, mãe! Não consigo parar de pensar nisso!
– Para! Vai andar na praia e sentir o sol pra relaxar. Mas para!

E não é que, segundo pesquisadores, ela sempre teve toda a razão? A ciência já mostrou que os benefícios da luz solar são enormes. Um deles, o mais conhecido, é a produção de vitamina D no organismo, substância que ajuda num montão de coisa: prevenção de vários tipos de câncer, de doenças cardíacas, no fortalecimento do sistema imunológico (o que evita, por exemplo, gripes e resfriados) e dos ossos.

Até as funções cognitivas ficam comprometidas quando a exposição ao sol não é suficiente. Os bronzeados têm os neurônios mais protegidos, o que retarda o aparecimento de males como Alzheimer ou falhas de memória.

Andar na praia tem efeito calmante. Relaxa, desestressa, desacelera. No quesito estética, a caminhada na areia exige maior desempenho muscular, cria resistência. E melhora uns tantos indicadores de saúde: mantém peso em equilíbrio, diminui taxas como as do colesterol e de diabetes, traz mais disposição física, entre outros benefícios.

Claro, como tudo em excesso, sol demais e sem protetor solar causa câncer de pele e envelhecimento precoce. Um mar poluído, contaminado, pode levar ao aparecimento de doenças de pele. Mas com cuidado e informação é possível aproveitar só o lado bom.

Nos últimos dias provei tanto a máxima da minha mãe (tomar sol, pé no mar) quanto as conclusões dos cientistas. Me sinto mais disposta do que há algumas semanas, desacelerei preocupações e pensamentos. Na verdade, coloquei em prática uma outra função da dupla sol/mar que descobri ao longo de tantas andanças na praia. A de decidir.

Quando fico em dúvida, tenho uma decisão a tomar, é com a água salgada cobrindo o tornozelo, o sol batendo nas costas e os olhos fixos no oceano que eu defino que rumo seguir. Há 34 anos. A julgar pelo que vivi até aqui, no balanço de prós e contras, deu certo. Mais uma vez, sei o que fazer. Certeza absoluta? Jamais. Nada nunca é 100% certeza. Sei, porém, qual o próximo passo. O que acabou e o que vai adiante. O que não merece mais esforço e em que colocar energia. Vem, volta, leva, se desfaz de vez, refaz o novo com força. Como movimento de onda do mar.

Crédito da imagem: Suzane G. Frutuoso

Mães e seus incríveis superpoderes de adivinhação

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Há alguns anos, num dia em que eu estava triste mas tentando disfarçar que não, minha mãe chegou perto de mim e mandou um “que foi, filha?”. Sem querer admitir que tinha sim coisa machucando meu coração, eu sorri, dizendo “tem nada não, mãe…”. Ela respondeu que tudo bem se eu não quisesse falar, mas que ela sabia que meu sorriso sincero era aquele em que eu aperto bem os olhos e eles ficam miudinhos. E naquela hora eu não sorria com os olhos…

Mães têm um incrível poder de, simplesmente, saber. Claro que quem te conhece desde a hora que você nasceu também observou cada passo seu na vida, cada evolução. Logo, te decifra bem. Mas mãe consegue ir além ao desvendar os sentimentos do filho. Mãe é meio vidente, meio bruxa, meio sensitiva. Quando uma mulher se torna mãe, provavelmente recebe junto com o despertar do maior amor do mundo incríveis superpoderes de adivinhação.

“Porque parece que tem coisa que eu não mereço da vida!!!”. Essa era eu, aos prantos no telefone com minha mãe dia desses, num raro momento de pena de mim mesma. De novo, eu não quis dar detalhe do que exatamente acontecia, da bagunça que andavam as mais diferentes áreas da minha movimentada existência. Nem precisou. Minha mãe começou a falar – ou melhor, adivinhar – tudo o que se passava. E cada observação era tão certeira que se eu não tivesse certeza que minha mãe não entende de computador eu acharia que ela vasculhou meus e-mails e meu Facebook.

E aí, minha gente, quando a mãe adivinha e diz na sequência umas verdades, baixemos a orelha. Porque amigo fala, irmão fala, pai fala… Mas quando é a mãe que coloca tudo no devido lugar, dimensiona as coisas como elas realmente são, mesmo que ela se obrigue a dizer o que não queremos ouvir, não tem como não aceitar. Tem até por trás uma obediência inconsciente. Afinal, essa senhora, se pudesse, trocaria de lugar com você pra que sua dor fosse embora, nem que pra isso ela a vivesse. Mãe sofre junto. Mãe, independentemente da sua idade e altura, sempre vai querer te pegar no colo e resolver tudo com um beijinho e um abraço.

Eu tenho a felicidade de, aos 34 anos, poder viver mais um Dia das Mães ao lado da minha mãe. Ainda não tive a oportunidade de me tornar uma mulher com os tais superpoderes maternos… Um dia, quem sabe… Mas pelo menos eu sempre vou ter a alegria de saber que, não importa o tempo e a dificuldade, eu serei cuidada por aquela que vê em mim seu maior presente. Quando tudo parece dar errado, ainda assim eu sei que ela está lá. E não me deixa nunca esquecer a mulher forte na qual ela me transformou.

Crédito da imagem: Casal Sem Vergonha

Arthur, Suellen, Tito: os pequenos que me ajudaram a compreender o tempo

hora do recreio

Foi amor à primeira vista. Quando olhei para Arthur, então com seis meses, no colo de sua mamãe, minha amiga, ele logo abriu aquele sorriso gostoso que só os bebês têm. O que derrete e ganha seu coração instantaneamente. Abracei meu amiguinho com a certeza de que seremos parte da vida um do outro sempre. Nosso encontro foi no Rio de Janeiro.

Passar os dedos pelos cachinhos macios de Suellen foi uma alegria de enorme significado. Aos cinco meses, ela era o impulso que faltava para, finalmente, eu reencontrar sua mãe, minha amiga da época de faculdade. Quantos anos separadas por quilômetros de estrada… Os olhinhos brilhantes e felizes, logo notei, eram herança materna. Nosso encontro foi em Itararé, interior de São Paulo.

Tito veio correndo pelas escadas da entrada do hotel, falando sem parar – conforme seu pai, meu amigo, já havia me alertado. Elétrico, engraçado, conversador, uma figurinha única. Cabelos escuros, cheios, bonitos, brilhantes. Bochechudinho. Misturava um pouquinho o português com o espanhol. Já tem seis anos. E pensar que fui monitora do pai dele quando ainda éramos aprendizes de jornalistas… Nosso encontro foi em Santiago, Chile.

Ver os filhos dos amigos nascerem, acompanhar o crescimento (mesmo que virtualmente) e se dar conta de que, daqui a pouco (mas bem pouco mesmo), é no baile de formatura deles que a gente estará brindando mais uma etapa, vem me ajudando a compreender o tempo. Tanto o tempo bem utilizado como o tempo que perdemos, literalmente, com o que menos importa: disputas, mesquinharias, temores, crises de ansiedade, rancores, as tentativas de ter a última palavra, de alcançar o sucesso custe o que custar, entre tantas outras ações que no fim de tudo, no fim do dia, no fim da vida, terão somado praticamente nada. Ou nada realmente.

Fui feliz ao conhecer de perto, abraçar e beijar os pequenos. Mas fiquei um pouco melancólica ao perceber o quanto vamos sempre achando que “amanhã dá tempo”. E não dá. A gente tem essa mania besta de deixar pra depois o estar perto de quem amamos, o enviar aquele e-mail longo contando de um tudo ou dar um telefonema de horas só pra matar a saudade mesmo. Claro, as pessoas seguem seus caminhos. Vão morar em outras cidades, países. Mas com tanta tecnologia à serviço da aproximação entre as pessoas, como é que deixamos pra lá?

Nossa desculpa é sempre o cotidiano estressante. Eu sei como você se sente. Pude ficar horas e até dias na companhia de Arthur, Suellen, Tito e seus pais porque me permiti um sabático – aquele momento de parada pra repensar os rumos até ali (considerado loucura por muitos, mas que garanto ser um dos melhores presentes que você pode se dar). Se tem uma coisa, porém, que aprendi no período do meu sabático é que algumas das atitudes que tive, decisões que tomei, são perfeitamente encaixáveis no dia a dia. Ninguém precisa esperar pra amar mais, sorrir mais, abraçar mais. Pra parar dez minutos diariamente e entrar em contato com os que são queridos. Ou tirar algumas horas da semana pra eles.

Só não temos tempo quando somos desorganizados. É verdade que algumas épocas são mais puxadas do que outras. Mas, na maioria das vezes, estamos apenas perdendo minutos preciosos com desgastes desnecessários e com o que não merece de fato nossa energia. Arthur, Suellen e Tito me fizeram compreender que o tempo corre a passos largos. E pra termos o seu melhor é preciso desapego dos valores superficiais e apego ao realmente fundamental. Como uma vez disse o escritor português José Saramago: “Não tenha pressa. Mas não perca tempo”.

Crédito da imagem: Suzane G. Frutuoso (Paris/França)

Pelo meu direito de postergar a maternidade

maternidadedepois

Já sofri bullying em chá de bebê. Uns seis anos atrás fui numa festa dessas da prima de um ex-namorado. Quem ali não tinha no colo uma criancinha, ou estava grávida ou estava louca pra ficar. Menos eu. Percebendo que me faltava o que dizer na conversa sobre fraldas, amamentação, babás, escolinha, roupinhas – e que eu não demonstrava grande empolgação sobre os temas – uma das convidadas (da turma que planejava pra breve ser mãe), me questionou: “E você, querida? Quando pretende ter os seus?”

Ao ouvir um “não faço ideia e, na verdade, não ando muito preocupada com isso” (juro que eu falei com simpatia e um sorriso de gente legal no rosto), rolou aquele constrangedor silêncio de cinco segundos. Até que outra moça, já com seu bebê fofo nos braços, me perguntou em choque: “Mas você NÃO tem vontade de ter filhos?” Naquele momento, passei a ser o foco de atenção de quase todo mundo. E respondi que, até então, a vontade não tinha aparecido (já tensa apertando os dedos uns contra os outros, como faço ao me ver pressionada).

Dali em diante, recebi todo tipo de justificativa pra alguém entrar de cabeça na maternidade. Eu só escutava, apertando ainda mais meus dedos. Me vi numa cilada na qual, se eu dissesse claramente o que eu pensava naquela hora, seria crucificada. Mulheres afastariam seus filhos de mim o mais rápido possível, como se eu fosse o anticristo. Preferi engolir quieta o suco de abacaxi, que quase não descia tamanho o nó na garganta. E a enxurrada de motivos-maravilhosos-para-ser-mãe continuava. Até que uma delas passou do limite.

“Na minha opinião só não se dedica à maternidade quem é egoísta, só pensa em si mesma, é individualista e…” Eu nem conseguia mais ouvir direito o que ela dizia porque o sangue subiu, minha gente. Tenho mil defeitos, mas egoísta e individualista eu não sou. E aí soltei o verbo: “Pra mim é egoísta quem tem filho só pra fingir a historinha da família feliz e larga a criança com uma babá o dia inteiro”. Fuzilada por olhares maternos indignados (ou a quem a carapuça serviu), dei mais uns 15 minutos e caí fora. Chorando. Eu não queria ter dito aquilo. Apesar de ser uma grande verdade pra muita gente, sei que não é isso que toda mulher pretende ao ser mãe.

Desconfio daquela conversa de que você vai ouvir seu instinto materno falar mais alto, que o relógio biológico vai fazer você querer ser mãe a qualquer preço. Se o meu falou, eu estava distraída e não ouvi. Mas acredito que, no meu caso, tem mais a ver com o fato de que sempre tive muitos projetos pessoais nos quais encaixar uma criança no meio não seria justo. Com ela. Não estou criticando as mães que precisam trabalhar. Cada um ajeita a vida como quer ou pode. Minha mãe trabalhou sempre e isso não fez de mim alguém mais ou menos equilibrada.

A questão é que não posso admitir que me julguem alguém melhor ou pior porque ainda não tenho filhos, porque escolhi me realizar individualmente (e não de maneira individualista) antes de embarcar nesse desafio. Porque é desafio sim. Deve ter um milhão de coisas boas que te fazem jamais se arrepender de ter seu bebê. Mas não é a o sonho perfeito que a propaganda de fraldas mostra na tevê.

Tenho uma amiga que é umas das pessoas mais sinceras que conheço. Ela é uma grande mãe e sinto até que se tornou uma pessoa melhor depois da maternidade. Só que ela não escondeu as durezas da gravidez de ninguém. Um dia, me disse claramente que nunca, em nenhum minuto, deixou de amar o filhinho dela. Mas que não era feliz todo dia. “Tem dias que você se sente infeliz”. Imagina a angústia de saber se está fazendo as escolhas certas ou não na hora de cuidar do bebê? Outra amiga disse que poucas coisas na vida da mulher podem ser mais constrangedoras do que estar no meio da rua e começar a vazar leite no seu peito, deixando a blusa toda molhada. “Dá vontade de morrer!”, disse ela.

Kate Middleton tá aí, passando mal a ponto de ficar internada no início da gravidez, mostrando que a maternidade tem suas agruras. É um direito meu postergar minha hora de ser mãe até que eu me sinta realmente preparada e feliz com essa escolha. De esperar encontrar um cara que tenha os mesmos valores que eu pra criar bem um serzinho que vai cair nesse mundo que não anda fácil. Já tive uma amiga que ouviu do médico que era melhor ela engravidar de qualquer um porque o corpo não esperaria a carreira dela deslanchar. Francamente!

Os avanços da medicina provam que dá sim pra viver a maternidade mais tarde com segurança. E se eu resolver ser mãe aos 40, por exemplo, e não quiser usufruir do que há de melhor na ciência, sempre existe a adoção. E isso é muito bem resolvido na minha cabeça. Se eu julgar que os riscos de uma gravidez são consideráveis para o bebê, tenho certeza que serei uma grande mãe de coração. Quantas mães adotivas são tão melhores do que as biológicas…

Criança é uma das maiores alegrias da vida (sei bem porque tenho um sobrinho que amo profundamente). Mas a maternidade não pode virar uma arma nas mãos de mulheres que se acham tão superiores às outras que ainda não são mães. Ou talvez elas façam esse terrorismo todo justamente porque, no fundo, não se sentem tão boas e nem tão realizadas assim.

Crédito da imagem: site Casal Sem Vergonha