Desafios de um negócio que lida com preconceitos

“Su, chamei uma amiga, mas você não acredita no que ela me disse… Que não viria num curso de investimentos apresentado por uma mulher porque mulher não entende do assunto.” A admiração era de uma das participantes do último MAG Finanças, workshop da plataforma Mulheres Ágeis, na qual sou cofundadora com minha amiga Renata Leal.

Como contei a vocês no artigo anterior, a Rê é investidora e idealizou esse workshop para que cada vez mais mulheres se empoderem economicamente. No caso, a última edição foi criada especialmente para quem está com vida financeira em equilíbrio, mas deseja aprender mais sobre investimentos.

Eu, claro, já assisti a todas as edições que realizamos e garanto: ninguém antes me explicou tão bem sobre investimentos, com clareza, didática e respeito às minhas dificuldades e limitações sobre o tema quanto minha sócia. E a percepção não é só minha, mas de todas as MAGs que já fizeram o workshop.

MAG Finanças nasceu também porque muitas mulheres nos confidenciaram se sentirem mal e julgadas em grupos nas redes sociais que abordam finanças. Ou mesmo em cursos. Sofriam bullying e viam suas dúvidas ridicularizadas por homens dizendo que não era mesmo papo para mulher.

Mas aí a gente tem outra mulher que não bota fé no conhecimento de uma investidora…

Falar de gênero é sempre bater de frente com os preconceitos das pessoas. Mesmo aqueles que elas não admitem. Mesmo aqueles que acreditam nem ter. Mesmo aqueles que fazem com que elas também sofram. Faz parte do nosso trabalho mostrar quando é um preconceito e que tal postura gera um impacto negativo na sociedade. Afeta a todos nós.

Ainda assim, quando o machismo vem de uma mulher, a gente dá uma perdida de chão, sabe? Fica um tempo meio entre o choque e o desânimo. Passa rápido! Mostra, porém, que nosso caminho é longo. Bem longo.

Quando um negócio carrega na sua essência lidar com preconceitos, encontramos obstáculos que outras empresas não encontram. O resultado é que nosso crescimento pode ser, sim, mais lento. Mexer com comportamentos é uma tarefa que transforma você em heroína para uns e inimiga para outros. Não tem meio-termo.

O lado bom é que quem enxerga a necessidade de mudança junto com a gente se torna não só defensora (ou defensor) das nossas ideias, como “espalha a palavra” também. Toma pra si a tarefa de nos ajudar a estar em mais lugares, espaços, eventos, empresas, para um público crescente.

Dias depois dessa última edição de MAG Finanças, fiz a sessão de mentoria com uma jovem promissora de 18 anos que começou este ano a faculdade de relações internacionais. Há pouco mais de seis meses, conversamos uma hora, uma vez por semana, com foco na elaboração e no desenvolvimento de seu pensamento crítico. Como já completávamos um semestre de conversas era hora de um balanço. Mandei a ela algumas perguntas.

Uma das coisas que a mentoria despertou na minha futura diplomata foi a possibilidade de, quem sabe, lá na frente também venha a empreender. Que eu, à frente de dois negócios diferentes, mantinha bom humor e parecia ter tempo para minhas questões pessoais. “Sempre achei que mulher dona de empresa era estressada e sem vida”.

Adorei o elogio por um lado, mas chamei a atenção. “Você pensaria isso de um homem à frente de um negócio? Que ele seria estressado e sem vida?”

Ela levou a mão à boca e pediu desculpas, que não tinha se dado conta de que era um preconceito. Que realmente não pensaria isso de um homem. Rimos juntas. Pedi que não se preocupasse, que tudo bem. Nem de longe ela é uma moça preconceituosa. Pelo contrário. É daquelas jovens que permite acreditar que o mundo não está perdido.

Até aqui, fomos criadas com uma série de crenças limitantes de “isso não é para mulher; isso vai prejudicar a sua feminilidade, ninguém vai te querer”, entre outras bobagens. Acabamos projetando as percepções negativas sobre nossa própria capacidade em outras mulheres. “Se não é coisa de mulher, como é que ela sabe fazer? Como entende do assunto?”

O resultado dos padrões de incapacidades que aprendemos é não só deixar de avançar em aspectos pessoais e profissionais, como tentar desqualificar quem já avança. E enfraquecermos as outras é jogar a favor de tudo o que nos prejudica: assédios, violências, salários menores, sobrecarga de tarefas domésticas…

Como eu disse, o caminho é longo. Como prova minha mentorada, são padrões absolutamente possíveis de serem deixados para trás. Cada uma a seu tempo, é verdade. Mas, por favor, quanto antes, melhor.

***

Suzane G. Frutuoso é criadora e autora no blog Fale Ao Mundo, cofundadora da plataforma Mulheres Ágeis e da consultoria ComunicaMAG. É jornalista, mestre em sociologia pel PUC-SP, especialista em comunicação corporativa pela FGV e escritora

Artigo originalmente publicado no LinkedIn Brasil

Para comprar meu livro Tem Dia que Dói – mas não precisa doer todo dia e nem o dia todo, acesse a loja virtual: https://temdiaquedoi.lojaintegrada.com.br/

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Onde vocês me encontram ;)

Pessoal, quem acompanha sempre o blog sabe que volta e meia eu acabo escrevendo um pouco menos por aqui, depois volto a escrever com bastante frequência… É como a vida: momentos intensos, outros mais mornos, períodos tranquilos, outros bem locos… rsrs

Mas, atualmente, vocês podem continuar lendo meus escritos em outros canais! ❤

Agora, sou colunista do Juicy Santos, o portal mais descolado da Baixada Santista! Minha última crônica, destes sábado, foi O clássico tempo certo das coisas.

Também no portal de Mulheres Ágeis, plataforma de empoderamento feminino no qual sou uma das cofundadoras, também tem artigos meus sobre questões que impactam diretamente a vida das mulheres, além de perfis que escrevi de mulheres com histórias incríveis que são lideres em suas áreas, estão mudando o mundo pra melhor!

No impresso, dá pra conhecer algumas das minhas ideias no Jornal Gazeta do Litoral. E no LinkedIn também! Me acha lá! 😉

Lembrando que o Dia das Mães está chegando e pra essa data tão especial vocês podem encomendar uma edição do meu livro “Tem Dia Que Dói – mas não precisa doer todo dia e nem o dia todo”. Quem leu se emocionou… Na loja virtual https://temdiaquedoi.lojaintegrada.com.br/ ou me chama no inbox da página de Fale Ao Mundo no Facebook, tá?

De um jeito ou de outro, eu nunca vou deixar de falar com vocês ❤ Obrigada por estarem sempre aqui ❤

Bjs,

Suzane G. Frutuoso

Vai abrir mão de uma profissional talentosa? Azar da sua empresa

Eu nunca me senti muito confortável quando chegava para trabalhar e uma pessoa do time de RH entregava uma flor ou um bombom no 8 de Março. Menos ainda quando muitos caras aproveitavam a ocasião para fazer a famigerada brincadeirinha “hoje é dia da mulher, do homem é o ano todo”. Geralmente, vinha daquele sujeito que assediava, intimidava e era inconveniente com as mulheres com quem convivia no ambiente de trabalho.

Não que eu não goste de flores e bombons. Adoro. Mas que venham de quem eu desejar. E respeito e consideração profissional devem ser estampados no holerite. Nas oportunidades iguais de ascensão profissional. Com os mesmos salários pelas mesmas tarefas e cargos – não os 75% do total do salário dos homens, segundo o IBGE e muitos outros levantamentos mundiais que calculam essa diferença entre 31% e 75%. No ano passado, a ong britânica Oxfam divulgou um relatório mostrando que a igualdade salarial entre gêneros só será alcançada em – tá sentada, miga? – 170 anos.

A mulher prova, a cada dia, que quando uma empresa a valoriza, ela também retribui com excelente trabalho, dedicação, vontade de melhorar o ambiente corporativo e lealdade. A corporação que entende que é imoral demitir após a licença-maternidade, que permite à colaboradora horários flexíveis, meio período, home office, entre outras formas de apoio para que ela equilibre carreira e o cuidado com os filhos, com a família, que paga salários justos e dá chance e incentivo para que lideranças femininas despontem, vai se dar bem. Não só reterá talentos e será desejada por tantas outras profissionais talentosas, como também verá seu lucro aumentar.

Empresas com mulheres em cargos de liderança têm 15% a mais de lucro em relação às concorrentes que não levam em conta a questão da igualdade de gênero na escolha dos gestores. O dado é de uma pesquisa do Peterson Institute for International Economics, de 2016, com base em 22 mil organizações em 91 países. Além disso, um levantamento da empresa de recrutamento Catho mostrou que existem características femininas que trazem dinamismo ao ambiente de trabalho:

-> Entregam tarefas no prazo e promovem mudanças estratégicas;
-> Vencem dificuldades e antecipam crises, mantendo as competências e lidando bem com cenários adversos;
-> São mais flexíveis diante de novas ideias;
-> Contribuem mais com sugestões;
-> Promovem a diversidade, que traz diferentes perspectivas e impactam positivamente no desenvolvimento das atividades do grupo.

Enfim, organizações com mulheres na liderança tendem a registrar melhor desempenho.

Mais um dado para não deixar ninguém em dúvida, heim? Pesquisa da multinacional Regus confirma que 57% das companhias acreditam que reter mães trabalhadoras ajuda a melhorar a produtividade. Essas profissionais são valorizadas pela experiência e transparecem maior confiabilidade e organização que outros colaboradores. Uma boa notícia num mundo em que muitas mulheres ainda levam um choque emocional quando voltam da licença-maternidade.

Divulgado em 2017, um estudo feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), com 247 mil mulheres entre 25 e 35 anos, apontou que metade das que tiveram filhos perderam o emprego até dois anos depois da licença-maternidade. No segundo mês após o retorno ao trabalho, a probabilidade de demissão chega a 10%. Imagina passar toda a gravidez insegura sobre o risco de perder o emprego justamente quando o bebê está prestes a chegar?

É conquista, não festa
O Dia 8 de Março, para quem não sabe, não é uma data aleatória para celebrar a mulher – como muitos ainda pensam. Se eu estou aqui hoje, escrevendo e falando o que eu penso sobre as empresas é só porque muito antes de mim, de você, mulheres abriram passagem, pagando muitas vezes com a vida. É conquista a ser reverenciada, com respeito.

Um pouco de história para vocês, amigxs, de todos os gêneros…

Em 25 de março de 1911 cerca de 130 operárias morreram carbonizadas em um incêndio em uma fábrica têxtil em Nova York. Um marco na luta feminista no século 20. Mas desde o final do século 19, organizações femininas nascidas entre as operárias da Europa e dos Estado Unidos já protestavam contra as jornadas de trabalho de 15 horas diárias, salários de fome e trabalho infantil comum nas fábricas.

Foram 1500 americanas que fizeram o primeiro Dia Nacional da Mulher surgir, quando aderiram a uma manifestação em prol da igualdade econômica e política, em maio de 1908. Em 1910, durante a II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas na Dinamarca, uma resolução para a criação de uma data anual pelos direitos da mulher foi aprovada por mais de cem representantes de 17 países. O objetivo era honrar as lutas femininas e obter apoio para o direito ao voto universal em diversas nações.

Mas foi em 8 de março de 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, quando 90 mil operárias se manifestaram contra o Czar Nicolau II, as más condições de trabalho, a miséria e a participação russa na guerra – em um protesto conhecido como “Pão e Paz” – que a data se consagrou. A oficialização do Dia Internacional da Mulher veio em 1921.

Vinte anos se passaram, e em 1945 a Organização das Nações Unidas (ONU) assinou o primeiro acordo internacional que para princípios de igualdade entre homens e mulheres. Nos anos 1960, o movimento feminista cresceu, em 1975 comemorou-se oficialmente o Ano Internacional da Mulher e, em 1977, o “8 de março” foi reconhecido oficialmente pelas Nações Unidas.

No Brasil, a partir dos anos 1970 surgiram organizações que passaram a debater a igualdade entre os gêneros, a sexualidade e a saúde da mulher. Em 1982, é criado o Conselho Estadual da Condição Feminina em São Paulo e, em 1985, a primeira Delegacia Especializada da Mulher.

Vocês podem conhecer mais detalhes sobre a data no livro As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres, de Ana Isabel Álvarez Gonzalez.

Como a gente sempre diz em Mulheres Ágeis, plataforma na qual sou uma das fundadoras (www.mulheresageis.com.br), temos muito para avançar. E se você quer saber como tornar sua empresa um exemplo em equidade de gênero e levar reflexão sobre a importância do empoderamento feminino para seu time, conheça o projeto MAG In Company (https://goo.gl/uZ9nQr). Palestras e workshops sobre o tema para impactar positivamente o ambiente corporativo com ações justas. Não é só cuidar da imagem da marca. É discurso, sim, mas para despertar consciência e virar prática.

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Empoderamento? Feminismo? Ainda vamos falar muito sobre isso – e queremos mais rapazes na conversa

Eu preferiria não falar sobre empoderamento feminino em 2018. De verdade. Preferiria saber que mulheres já ganham os mesmos salários pelas mesmas tarefas que os homens (não cerca de 76% do total), que não são mais vítimas de violência doméstica, física e emocional, que não têm o emprego em risco ao retornarem de licença-maternidade ou que meninas não estão sendo criadas para acreditar que algumas coisas não são para o bico delas (da infância à juventude, a autoestima das meninas cai três vezes em relação a dos meninos). Que não somos mais intimidadas em situações de assédio ou mesmo inferiorizadas caso a gente decida ser dona de casa e criar os filhos. Ou não ser dona de casa e não ter filhos.

Vem terminando o primeiro mês deste novo ano e tudo isso que citei continua acontecendo. Se não comigo, se não com você ou com uma mulher com quem você convive, com milhares de mulheres no Brasil e no mundo, de diferentes realidades e classes sociais. Não consigo viver ajeitando aqui o meu mundinho particular, com a certeza de que tenho voz e atitude para me defender se necessário de situações em que eu seja desrespeitada, e não dar a mínima para padrões nocivos da sociedade que fazem das mulheres reféns de agressões, dor, menos oportunidades.

De comportamentos que, mesmo que uma mulher acredite que não é com ela, um dia será com ela. Na vida pessoal, no trabalho, na rua. Não se trata de vitimismo, de tornar o feminino uma condição de eterna vulnerabilidade. Se trata de um cenário que para muitas de nós é, simplesmente, cruel. Onde há medo. Onde há morte. Ouvi recentemente de uma mulher que ela nunca foi assediada porque sabia se impor. Que bom. Mas esqueceu que 1) as pessoas são diferentes, com personalidades diferentes, com maior ou menor grau de segurança para reagir; 2) ninguém deve ser obrigada a se impor para não ser molestada ou agredida.

Empatia, por favor, gente. Não adianta pedir pela paz mundial e não ser capaz de se colocar no lugar do outro, de compreender os impactos negativos que nosso egocentrismo causa.

Com o fim deste janeiro, no dia 30 de ontem, veio também o aniversário oficial de um ano da plataforma Mulheres Ágeis (www.mulheresageis.com.br), que fundei com minha amiga e sócia, Renata Leal. Mais de 3 mil pessoas foram impactadas pelo nosso trabalho em 2017, entre eventos e redes sociais.

Mulheres Ágeis nasceu para contar histórias de mulheres inspiradoras e líderes em suas áreas, que são exemplos lindos para todas nós; e para criarmos workshops de desenvolvimento pessoal e profissional só para mulheres – sim, grupos de conhecimento e troca nos quais apenas elas entram. Decisão tomada após uma pesquisa on-line que realizamos em agosto de 2016, quando a ideia nascia, e mais de 500 mulheres responderam em menos de uma semana, entre outras questões, que adorariam cursos voltados especificamente ao público feminino.

A experiência mostrou que Renata e eu não estávamos erradas na escolha: num ambiente em que elas se sintam acolhidas e não julgadas, abrem o coração, se reconhecem nas histórias das outras, saem fortalecidas e com mais informações que permitem se não mudar de vez o que não querem mais, ao menos pensar sobre o assunto. Foram encontros ricos, gratificantes e poderosos, com reflexões, exercícios, boas risadas, lágrimas, amizades que se formaram, negócios que foram fechados. Apoio. O “não estou sozinha”. O “eu vou conseguir”.

Que venha o masculino
Além do site e dos workshops, criamos também o seminário O Impacto das Mulheres: onde chegamos e o que falta conquistar. O objetivo é debater o empoderamento feminino, o feminismo e as questões que impactam a vida não só das mulheres, mas também dos homens. Foram cinco edições em 2017, duas em São Paulo, uma em Santos, uma no Rio de Janeiro e a última em Campinas. Sempre gratuito e aberto ao público em geral, para pessoas de todos os gêneros.

Sempre tinha um rapaz. Poucos. Bem poucos. Mas tinha. Desde o começo de Mulheres Ágeis, recebemos apoio de muitos amigos e conhecidos. Eles entendiam quando a gente explicava sobre os workshops serem apenas para o público feminino, compreendiam o sentido.

Caras legais (e enquanto escrevo isso consigo lembrar de logo uns dez), que sabem bem quanto dividir igualmente tarefas de casa e educação dos filhos melhora os relacionamentos e que encorajar meninas a serem tudo o que desejarem e meninos a serem mais afetivos os tornará adultos mais felizes. Que promover mulheres torna suas empresas mais eficientes e lucrativas e oferecer alternativas na volta da licença-maternidade (home office, meio período por alguns meses) permite que elas cresçam na carreira mantendo o equilíbrio com a maternidade. Segura grandes talentos.

Caras legais que estão cansados de ouvir coisas como “onde está sua mulher?” quando avisam o chefe sobre sair mais cedo para a reunião de pais da escola ou para levar os filhos ao médico. Que não desejam mais carregar a obrigação de provedor e também querem tempo com os filhos; esperam que licença seja parental (com mesmo período da licença-maternidade e não a cinco dias da atual licença-paternidade).

Caras legais que, agora, dizem: “por favor, ajuda a gente a explicar para os outros caras, mostrar que é importante?”

Muitos homens ainda não conseguem entender completamente os nossos motivos. Mas já se sentem desconfortáveis com as reflexões que vieram à tona. Perceberam que carregaram ou carregam comportamentos que prejudicam as mulheres. Esse desconforto, alguns deles me disseram, os torna abertos a ouvir.

Então, quando em setembro de 2017, Rê e eu definimos o planejamento de Mulheres Ágeis deste ano, resolvemos que sim, era hora de trazer mais rapazes para a conversa, juntar forças. Para que eles conheçam nossas histórias e para que internalizem quanto a ideia ainda prevalente de uma educação em que a masculinidade é agressiva piora seus relacionamentos e suas próprias vidas.

Ainda precisamos desses momentos sozinhas, como nos workshops. Mas não podemos ficar falando sozinhas, sem que a outra parte tão fundamental das nossas relações entenda, aprenda e repasse esse aprendizado. Porque empoderamento feminino é sobre todos nós. É sobre mais do feminino na sociedade, que todos nós temos – sensibilidade, empatia, colaboração, intuição, cuidado. É sobre empoderar, que significa conceder poder de conscientização a si próprio e a outras pessoas, e não apoderar (tomar o poder, dominar alguém ou uma situação).

E vai ter feminismo
Feminismo não tem nada a ver com ser desse ou daquele partido político, odiar os homens, ser mal resolvida ou exigir o fim da liberdade sexual. Na real, é o contrário de tudo isso e muito mais. O feminismo só existe porque tivemos que aprender a nos defender de um preconceito violento, o machismo. E não, não são termos contrários. O feminismo é inclusivo e fala de uma sociedade mais equilibrada para todos nós, na qual as pessoas se realizam de diferentes maneiras e sem padrões limitantes estabelecidos.

Quem quer casar, casa. Quem não quer, não casa. Uns querem ter filhos e outros não. Mulheres podem ser CEOs de empresas, homens podem ser donos de casa. E, sim! Claro! Homens podem continuar CEOs de empresas e mulheres donas de casa! Mulheres podem ser empreendedoras e homens não precisam se ver obrigados a perseguir cargos de liderança para provar masculinidade se assim não desejarem. Entendem? Menos padrão, mais coração. E tudo com respeito, tratando o outro como se espera ser tratado.

O feminismo prova que quando um casal ganha salários semelhantes, eles desfrutam de uma vida mais confortável, segura. Quando dividem as tarefas de casa igualmente, os relacionamentos ganham mais tranquilidade, menos estresse. Há uma valorização do parceiro, do companheirismo.

E se eu ainda não convenci você: o machismo mata. O Brasil está num vergonhoso quinto lugar em taxas de feminicídio no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde e o Mapa da Violência de 2015. As mulheres negras são ainda mais afetadas por esse tipo de homicídio doloso, com aumento de 54% no número de mortes entre elas entre 2003 e 2013.

Por isso que quando alguém diz que movimentos como o #MeToo são um completo exagero, epa, epa, epa! Mais respeito com quem teve coragem de escancarar a própria ferida e se mobiliza para que assédios sexuais, estupros, agressões não continuem afetando mulheres ao redor do mundo. Não sejam a regra em muitas indústrias, mercados, escritórios, estúdios de cinema, salas de aula, chãos de fábrica e por aí vai.

Você sabe o que é, por exemplo, se certificar de não ficar sozinha no horário de almoço no mesmo ambiente que um cara que tem as costas quentes na empresa? Porque sabe que, assim que ele tiver a chance, vai te encurralar no corredor, falando bobagens pra você, colocando a mão na sua cintura, descendo no quadril, sem autorização? E depois ter que aguentar uma reunião em que o mesmo sujeito está presente e você nem conseguir se concentrar porque ele te encara, com raiva, pelo fora que levou?

Eu sei o que é isso. É pouco perto de situações que outras mulheres enfrentaram. Mas eu tinha 20 e poucos anos e, sem dúvida, atrapalhava meu trabalho, meu desempenho.

“Ah, mas um monte de mulheres começou a falar que sofreu assédio só porque outras falaram”. Lógico! Quando você não se vê sozinha, reflete sobre uma situação tão constrangedora, desagradável ou mesmo violenta que enfrentou, que entende que aquilo fez mal pra você e até impactou outras áreas da sua vida, relacionamentos, tem mais é que falar! E dar um jeito de não acontecer mais, seja comigo, com você, com senhoras ou meninas da nova geração.

O feminismo não quer o fim do flerte gostoso, devidamente recíproco. Não crucifica o sexo, por amor ou por tesão, com consentimento. Só exige limites, bom senso, sem invasões de privacidade graves, perturbadoras. Tá errado.

Sororidade se aprende
Não queremos os homens na guilhotina. Mas que repensem suas atitudes, se arrependam e não façam mais. Na onda de denúncias é bem possível, sim, que um inocente seja acusado. Falta de caráter não é exclusividade de gênero. Mas a verdade sempre aparece. Ninguém pode dizer que os casos de assédio nos últimos tempos são uma histeria coletiva feminina. É sintoma de uma sociedade em que a mulher é colocada como inferior há décadas, como objeto, propriedade. Não há mais espaço para tal.

Enfim, há um longo caminho, especialmente para os homens. Mas eles vão conseguir. Essa é uma discussão aberta, cheia de sutilezas e influências culturais, mas que está na ordem do dia e, juntos, a gente encontra a fórmula.

As pessoas têm tempos diferentes de compreensão. Não só homens, como também mulheres. Outro dia, uma mulher me disse que feminismo é coisa de quem quer roubar o marido da outra. Gente… É o tipo de fala que me assusta bastante. E é por isso que explicar mais o sentido de sororidade é fundamental.

O termo tem origem no latim. Vem da palavra “sóror” e significa irmãs. A sororidade se tornou um dos principais alicerces do feminismo e do movimento pelo empoderamento feminino. É a união e a aliança entre mulheres, com base na empatia e no companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum.

É o não julgamento entre as próprias mulheres, que também ajudam a fortalecer estereótipos preconceituosos criados por uma sociedade machista. Sororidade é lembrar que há espaço para todas nós, mais ainda quando estendemos a mão a outras mulheres. Criamos redes de apoio, de trocas de experiências, de histórias, de serviços.

De proteção também. Eu não preciso sofrer violência doméstica para lutar pelo fim da violência a que tantas e tantas mulheres são submetidas. Mas eu posso denunciar e mostrar quanto essa é uma situação grave com consequências de tantos outros desrespeitos e riscos para todas nós.

Não espere sentir em si própria para compreender a dor da outra. Não reforce preconceitos, inclusive, porque sua autoestima não está lá grande coisa e você precisa de certezas em voz alta para se convencer de que sua realidade é que é boa, não tem que mexer em nada. Mesmo que não esteja nada boa. Não tem uma angústia aí?

Parem, mulheres, de bater no peito dizendo “sou mãe, logo, sou melhor do que você”, “sou casada, logo sou melhor do que você”, “comando uma empresa, logo sou melhor do que você”, “sou dona de casa e estou em contato com o meu eu feminino, logo, sou melhor do que você”, “sou independente, logo, sou melhor do que você”.

Não há melhor ou pior. Existem realidades, construídas por cada uma e que podem mudar a qualquer momento. Há muitas mulheres infelizes na maternidade e no casamento, mas não podem nem pensar em falar a respeito. Há tantas outras emanando aquela aura de poder e liderança, mas que estão de saco cheio da pressão. E há as que são extremamente felizes como líderes e desbravadoras, ou mães e esposas, ou um mix de tudo, ou seja lá qual for o papel que optaram por desempenhar.

Em Mulheres Ágeis acreditamos que hoje a colaboração vence a competição; a rivalidade se desfaz e dá lugar ao vamos juntas para irmos mais longe. Essa é a beleza. Singularidades preservadas e celebradas para aprendermos umas com as outras numa ainda longa estrada.

Para saber mais:
http://www.mulheresageis.com.br
http://www.rme.com.br
http://www.b2mamy.com.br
http://www.feminaria.com.br
http://www.chegadefiufiu.com.br
http://www.facebook.com/empodereduasmulheres/
http://www.onumulheres.org.br
http://www.frmeninas.com.br
http://www.girlsrockcampbrasil.org
http://www.thinkolga.com
http://www.facebook.com/chegadeassedio/
http://www.papodehomem.com.br

Para assistir (trailers):
As Sufragistas (https://goo.gl/krBQEh)
She’s Beautiful When She’s Angry (https://goo.gl/LBvQ9X)
Repense o elogio (https://goo.gl/jkR3uw)
The Mask You Leave In (https://goo.gl/3oxfZH)
Precisamos Falar com os Homens (https://goo.gl/M3QA5T)
Ban bossy (https://goo.gl/HnbtnK)

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Mulher-Maravilha

O azulejo Wonder Woman, da imagem acima, foi presente que ganhei do meu sobrinho de 12 anos no meu aniversário, em fevereiro. Na verdade, minha cunhada, mãe dele, quem escolheu a lembrança. Mas como é bom saber que existem meninos sendo criados hoje para reconhecerem, sem medo, as potencialidades femininas. Aprendendo a respeitarem as mulheres de suas vidas…

Sim, ainda temos muito para avançar. É o que eu mais penso neste 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Quanta violência, desrespeito, intimidação ainda nos cercam. Quantos homens ainda acreditam terem esses “direitos” baseados em suas ignorâncias. Ai da mulher que se sobressaia. Ai daquela que lhe fizer sombra. Ai da abusada que questionar seus erros. São moleques mimados, somente. Se acham espertos, poderosos. São apenas fracos. Que causam, porém, marcas e traumas nos dias de tantas de nós.

A pesquisa “Visível e Invisível: A Vitimização de Mulheres no Brasil”, realizada pelo Datafolha a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgada hoje, mostra que uma em cada três brasileiras foi vítima de violência no último ano. E quando se fala de violência não é apenas a física. Mas também verbal e emocional, que são graves e em algum momento acabam levando para a física (https://goo.gl/aSOiqX).

Se você foi espancada, xingada, ameaçada, agarrada, perseguida, empurrada, chutada; teve um objeto jogado na sua direção, levou um tapa; se viu em situação de intimidação, constrangimento e amedrontamento; foi tachada de louca ao apontar situações reais que o agressor quis dissimular; sim. Você foi vítima de violência.

Preocupa saber que uma em cada três brasileiras passaram por isso. Preocupa ainda mais saber que muitas não se dão conta que esse tipo de tratamento é agressão.

Por histórias assim, nos últimos meses venho me dedicando junto com minha amiga Renata Leal a uma nova empresa, a Mulheres Ágeis (www.mulheresageis.com.br). Nosso foco? Empoderamento Feminino. Vamos usar histórias de mulheres incríveis, líderes em suas áreas, para inspirar outras mulheres. Já estamos lançando nossos primeiros workshops de desenvolvimento pessoal e profissional para reforçar o quanto, garotas, vocês são lindas, fortes e capazes; para que despertem o melhor em si mesmas e transformem seus dias. Para que sejam capacitadas e encontrem caminhos fora da dependência financeira e emocional.

Não somos frágeis. Somos ágeis. Somos Mulher-Maravilha, sem dúvida!! Não sei se salvamos o mundo. Mas vamos melhorar muito o mundo de muitas outras queridas. Juntas somos mais. Ai de quem disser o contrário.