Tudo o que a rede social me diz sobre você

segredoalma

Uma das acusações mais constantes ao Facebook é de que as pessoas montam seus perfis pra parecerem mais interessantes e de bem com o mundo do que realmente são. E não discordo. Fotos são sempre aquelas com uma melhorada no visual – que vai do “cool” ao “glam”. As imagens são de felicidade 24 horas. Muitas festas (mesmo que tenham sido um fracasso), viagens (mesmo que ainda faltem nove prestações a serem pagas), amigos (mesmo que alguns nem sejam tão próximos assim, mas dá volume na foto, né?), momentos fraternos com família (mesmo que o arranca rabo prevaleça a maior parte do tempo), pratos saborosos de autoria própria ou degustados num restaurante famosinho (do quilo ninguém tira!), comprovações do sucesso profissional (apesar do trabalho estar acabando com sua vida pessoal e ainda te pagar menos do que você merece). As frases edificantes pipocam na timeline. De esperança, de coragem, de amor, de amizade, de alegria, e por aí vai.

A questão é: nem tudo isso é falso. Pelo contrário. Exibicionismos e exageros à parte, acredito de verdade que um perfil numa rede social revela infinitamente mais sobre as pessoas do que elas seriam capazes de dizer e assumir de fato no cotidiano, por exemplo. Dá pra encontrar bondade, sinceridade, vontade de transformar a sociedade em algo melhor. Sarcasmo, bom humor, inteligência, perspicácia também estão lá. Por outro lado, o festival de futilidades, ignorâncias e egos que batem na lua chegam a impressionar. Gosto, especialmente, do povo que chora as pitangas, mostra fragilidade, numa espécie de pedido de colo virtual – prontamente atendido pelos amigos que curtem e fazem comentários de apoio. Acho uma troca fofa.

Em tempos de Brasil efervescente, quantos de nós não ficaram de queixo caído com comentários reacionários, violentos e preconceituosos de gente que a gente nem desconfiava? E que encontrou empatia e afinidade de ideias em pessoas que nem eram tão próximas assim? Uma frase aqui, uma notícia compartilhada ali, e é possível a alguém mais observador montar um quebra-cabeça revelador sobre o outro que mistura educação, gostos, vivências, crenças, comportamentos, preconceitos, caráter. Não tô dizendo que bom é aquele que concorda inteiramente comigo. Respeito profundamente quem tem uma opinião diversa da minha desde que não se trate de insultos, de tentativas de superioridade baseadas no que é diferente, de visões mesquinhas e cruéis focadas no bem-estar e benefício próprios em detrimento do sofrimento de muitos.

Mais do que uma vida perfeita, as pessoas acabam por mostrar quem realmente são, no melhor e no pior, encorajadas pela “segurança” que o estar por trás do computador permite. Dá tempo de se defender, por exemplo, de um comentário que rebate o seu. Dá tempo de pesquisar no Google! Fosse cara a cara, só monta rápido um argumento quem sabe de verdade do que está falando – e não porque vai na onda e se influencia por informação rasa.

No fim, quem deseja causar impacto montando um personagem em rede social, em algum momento, é traído por si mesmo. Não se engane. O Facebook diz muito sobre cada um de nós. Mais até do que a gente percebe. E é bom lembrar que até o silêncio absoluto é capaz de revelar muita coisa.

Anúncios

O defeito que sustenta sua melhor qualidade

qualidade x defeito

Durante muito tempo fui uma menina tímida pra dar opiniões. Era cheia de ideias em mente, mas poucas vezes verbalizava o que eu pensava. Principalmente, tinha dificuldade com enfrentamentos, com debates nos quais precisava organizar minhas teorias pra que tivessem sentido. Os anos se passaram e fui aprendendo que a gente tem sim que dizer o que acha pra se defender, pra se impor, pra ganhar respeito. Não se trata de uma simples imposição de crenças, de fazer valer minha vontade acima de tudo. Mas eu entendi que existia um poder na palavra capaz de mudar o rumo das coisas, de transformar pensamentos, de instigar reflexões. De voltar olhos pra mim – que acabava sendo um voltar de olhos para a tese que eu abraçava. Percebi, ainda, que o muito que eu tinha a dizer ecoava na cabeça e no coração de muito mais gente. Como costumo brincar, descobri que eu tinha turma – e ela não é pequena, não.

Encantada pelo poder que havia encontrado em mim, cai num extremo bem chato: fiquei panfletária. Eu defendia o que eu acreditava. E defendia muito. Com unhas e dentes. Sim, eu sempre soube ouvir. Mas em geral era só pra juntar munição e rebater de novo. Muitas vezes eu sabia que a teoria do meu interlocutor fazia mais sentido do que a minha. A última palavra, porém, era eu quem dava. Passa mais um tempo e a maturidade ensina que não basta desejar que a minha verdade seja absoluta. Ser uma observadora do mundo, com capacidade de absorver todos os lados de uma questão pra colocá-los na balança da sensatez e daí expressar uma ideia, era muito mais importante. A frase de Voltaire, lembrada outro dia por um amigo, define bem onde eu consegui chegar: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.”

Eu sou crítica. E por mais que minhas convicções não agradem há umas tantas pessoas por aí, tenho muito orgulho disso. Aliás, o desagradar uns tantos torna tudo mais divertido e interessante. Não busco fazer inimigos – mas não temo fazê-los. Minha crítica, quando excede, pode ser meu maior defeito. Mas eis que é também minha maior qualidade. É o “mal” que sustenta o meu melhor. Porque observar, debater e opinar sobre os mais diversos assuntos construiu uma parte fundamental da minha personalidade. Com o que eu aprendi ao longo da vida, bastante graças à profissão de jornalista e agora com o mestrado em sociologia, compreendi existir uma capacidade de enxergar nas entrelinhas. Às vezes, é algo bem óbvio até. Mas que só com alguma sensibilidade e perspicácia é possível notar.

Ser crítica talvez tenha seu preço, mesmo quando se aprende a equilibrar esse “dom”, digamos assim. Ouvi esses dias que se eu quiser casar e ter filhos não posso ter tanta opinião sobre tudo. Marido nenhum, no fundo, gostaria de parceira cheia de opinião. É assustador uma mulher ouvir algo desse naipe nos dias de hoje. Mas eu prefiro acreditar que raciocínio claro e boa conversa são mais inspiradores para um relacionamento do que a obviedade da relação dominação/submissão. Graças a Deus e a Darwin, recebi apoio dos amigos. Rapazes que dizem fugir de mulher submissa e burra como o diabo foge da cruz. Que preferem ser instigados pelas ideias e observações da mulher com quem escolhem estar. Pediram, por favor, pra eu não abandonar jamais meu lado crítico – e lembraram que esse é justamente um dos meus lados mais fascinantes.

Então, quando alguém apontar o seu pior defeito, não deixe de refletir a respeito com humildade. Desenvolva um pensamento reverso, um contra espelho, e tente entender como o seu pior sustenta o seu melhor. Não pra usar como desculpa e dizer o clássico “quem quiser que goste de mim do jeito que eu sou”. É uma postura pobre a de quem imagina não precisar evoluir nem um pouquinho. A gente sempre pode melhorar. Mas pra sacar em que momento a qualidade se transmuta em defeito é necessário algum desprendimento e um ego menos inflado. A linha é tênue. Não é impossível, no entanto, acertá-la.

Crédito da imagem: Cultura Inquieta

A sorte de ouvir as opiniões de Felicianos, Malafaias e Bolsonaros

direitoshumanos

Calma, gente! Não se assustem com o título deste post. Eu não enlouqueci. Continuo acreditando que todo tipo de preconceito deve ser banido, reprimido, criticado e peitado. Que sua liberdade de expressão acaba na hora que você se acha no direito de desrespeitar alguém colocando suas verdades mais estapafúrdias como absolutas, daquelas que humilham e denigrem a imagem do outro, que passam por cima de direitos básicos. Mas por mais inacreditáveis e chocantes que possam ser as opiniões de gente tão limitada que existe por aí, elas têm um lado muito bom: mostrar claramente com quem estamos lidando na sociedade.

Me questiono (e você também, caso seja uma pessoa sensata) há dias como um sujeito chamado Marco Feliciano se tornou presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados Federais. Um sujeito que cada vez que abre a boca deixa vir à tona uma das mais significativas representações daquilo que temos de pior em machismo, homofobia, intolerância religiosa, racismo… O retrato do que há de mais atrasado e que mais fere, justamente, os direitos humanos. Politicagens à parte (que é o que o levou ao cargo), até dói saber que um perfil desses não só pode chegar longe no nosso país, como sua mentalidade ecoa entre muitos cidadãos. Que ele é o reflexo, junto com Bolsonaros e Malafaias, do que muitos de nós creem ser o “certo”.

Por mais revoltantes, porém, que sejam as imbecilidades proferidas por esse bando e seus infelizes seguidores, agradeço profundamente por viver num tempo em que eu possa saber exatamente quem são eles. Pra efeito de comparação, milhares de judeus e centenas de gays, ciganos e testemunhas de jeová foram enviados para campos de concentração na Segunda Guerra Mundial por pessoas de seus convívios. Existiam, claro, aqueles que se declaravam a favor e que colaboravam com o nazismo. Mas muitas das vítimas acabaram traídas por vizinhos e colegas de trabalho que não afirmavam abertamente o apoio ao regime insano de Hitler, optando por agir na surdina.

Viver numa democracia nos permite o acesso à informação variada, que possa ser amplamente comparada. Numa democracia com redes sociais, internet, expandimos nosso saber e aumentamos o alcance de nossos posicionamentos. E, principalmente, construindo o conhecimento com liberdade e ajuda da tecnologia somos capazes de nos prepararmos para nos defendermos dos absurdos tão corriqueiros da intolerância. Por isso, temos sorte em ouvir e saber quem é o indivíduo que se julga acima do bem e do mal para atacar o outro. Podemos atacar de volta. Podemos nos unir para tirá-lo de onde ele chegou. Podemos vencê-lo.

Pra terminar, vou dividir com vocês alguns pensamentos de autores com os quais pude tomar contato graças a uma disciplina que estou cursando no mestrado. O tema principal é a alteridade, que é a capacidade de compreender que todo ser humano interage e é interdependente do outro. E que nessa interação apreendemos o outro em sua dignidade, direitos e diferenças. O foco dos debates na aulas são preconceitos, racismo e xenofobia.

Infelizmente, compreendi que preconceito é a rejeição total do outro. Para o preconceituoso, não existe nem o interesse pela “conversão” de uma pessoa diferente dele. Na sua mente desequilibrada, o diferente dele é sempre inferior. Para o filósofo, economista e psicanalista grego Cornelius Castoriadis, o que o racista, por exemplo, deseja é a morte do diverso. Mas que tanto ódio do outro pode também ser um ódio de si mesmo inconsciente. Ele ressalta a necessidade de fortalecermos um movimento que indique o quanto “os seres humanos têm valor igual (…) e que a coletividade tem o dever de lhes conceder as mesmas possibilidades efetivas(…)”. Para o sociólogo francês Alain Touraine, as barreiras só são superadas “por seres capazes de se comunicar entre si graças, ao mesmo tempo, à razão e ao respeito pelo caráter universal dos direitos individuais”.

Se pra você é tão difícil entender que o diferente não é pior, se você tem orgulho de um Feliciano respondendo por direitos humanos, só posso lamentar. Mas continue! Continue deixando clara sua fantasia de acreditar ser melhor do que alguém. Assim, sempre saberei onde você está – e ficarei pronta a te desafiar.

****************************
P.S.: Na noite desta segunda (25), a partir das 18 horas, artistas, políticos, religiosos e ativistas de diversos movimentos sociais se reunirão no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no centro do Rio de Janeiro, para realizarem um ato pedindo pela saída do presidente Marco Feliciano (PSC-SP) da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM).