O quadril de Alicia. Meu sutiã 44

alicia by paulo filho

Conheço poucas músicas da cantora americana Alicia Keys. Mas muita gente dizia que o show dela era bem bacana. Resolvi assistir a apresentação da artista no Rock in Rio pela tevê, na noite de domingo. Acho o tipo de show pra um lugar mais intimista, que perde um pouco no palco de um festival. Impressão pessoal à parte, inegável que Alicia esbanjava talento, simpatia, charme e beleza. Tomei um susto quando abri meu Facebook ontem de manhã e encontrei uns oito comentários de mulheres dizendo que a cantora estava gorda demais, que a roupa não a favorecia em nada. Teve uma que descreveu a moça como “ridícula pra usar legging”.

Achei o fim. E acabei escrevendo o seguinte no meu Face: “Eu estava com o note já desligado enquanto assistia ao show de Alicia Keys no Rock in Rio ontem a noite. Eis que, passeando só um pouco agora pela minha timeline, me assustei com o tanto de mulher despeitada dizendo que a cantora (aliás, voz belíssima) é gorda. Gente, presta atenção, Alicia tem corpo de mulher de verdade! E seria tão mais saudável e inteligente pra humanidade compreender isso… Por mais gente real e linda do jeito que é nesse mundo! Sem padrões falsos e doentios de beleza!”

Cometi um pequeno erro na minha observação acima. Quando escrevi “corpo de mulher de verdade”, pensei em “mulherão”. Porque é óbvio que quem é naturalmente magra também é de verdade. Só acreditei que ao escrever “Por mais gente real e linda do jeito que é nesse mundo! Sem padrões falsos e doentios de beleza!” a ideia estivesse bem clara. De que não importa peso, altura, se o cabelo é liso ou cacheado, e por aí vai. O belo é cheio de variações. Pra bom entendedor…

Mas nenhuma das críticas de Alicia era naturalmente magra. Pelo contrário. É gente que força a barra (e coloca a saúde em risco) em dietas malucas e exercícios extenuantes pra se encaixar num padrão de beleza bem discutível. É gente que precisa de ajuda urgente pra entender que pode ser querida sem ser “perfeita”. Sem perseguir uma imagem no espelho igual a da capa da revista. Vocês ainda não sabem o que é Photoshop?

Desconfio quando alguém se julga no direito de criticar a aparência do outro, seja pelo que for. Sempre parto do princípio de que se você perde tempo medindo o que as pessoas vestem, por exemplo, é um desocupado. Já o sujeito que se acha melhor porque está em forma e aponta o dedo na cara de quem está acima do peso esquece que nem sempre magreza é sinônimo de saúde. Nem curva arredondada é sinal de desleixo ou doença. Claro que a gente deve se cuidar pra viver bem. Mas que seja com equilíbrio. Não obsessão.

Tenho 1,63 metros de altura e 59 quilos. Meu índice de massa corporal (IMC) é normal. Não tô nem perto da margem de sobrepeso. Sou considerada gorda por muita noiada por aí. Nunca fui magérrima. O ponteiro da balança subiu sete quilos desde que parei o balé, há 14 anos. Desde então, só não me exercitei por breves períodos. Passei, porém, dos 30 anos. E é bem mais difícil emagrecer. A história do metabolismo desacelerar é verdade! Ao invés de lamentar um corpo diferente do passado, resolvi tirar proveito e superar trauma de adolescência.

Fui a última da minha turma na escola a ver os seios aparecerem. E quando cresceram nem foi grande coisa – pra meu completo desespero. Essa semana comprei lingerie e estranhei quando o sutiã 42 não fechava. Desce o 44 do estoque da loja. É. Teve que ser um número maior mesmo e… nunca tive um colo tão bonito! Nem nos meus sonhos adolescentes!

Ando feliz com a nova silhueta. Não porque acho que beleza feminina precisa de um sutiã 44. Mas porque pra ser “mulher de verdade” importa muito pouco (ou nada) o que os outros vão achar. Importa se você se acha linda do jeito que é. Se valoriza o que tem de melhor. E todo mundo tem. Sem nunca esquecer que nenhuma beleza se sustenta sem atitude e simpatia – do tipo que Alicia Keys tem de sobra.

Crédito da imagem: Paulo Filho

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Pelo meu direito de optar por relações melhores

relaçõesmelhores

O único som que eu ouço quando levanto de manhã é dos meus próprios passos pelo assoalho de madeira até a cozinha. Preparo meu café da manhã e fico uns dez minutos sentada no meu sofá de 2,10 metros por 1,80, olhando pela janela o dia começar. É nessa hora, por exemplo, que eu penso nos temas que vou escrever aqui pra vocês. Estou sozinha ali. Não solitária. É um dos momentos do meu dia que eu paro e percebo o quanto hoje sou dona de mim. E o quanto isso me traz a sensação de (finalmente!) me sentir bem resolvida.

Foram anos para chegar a uma autoestima bem construída (a terapia ajudou bastante). Isso não quer dizer que eu não tenha medo, dúvidas, não sinta tristeza, essas coisas da vida – que são normais se você é um ser humano normal. Mas consigo dar aos problemas a exata dimensão que eles têm. E aí estão incluídos os relacionamentos. Já fui daquelas que curtiam meses de fossa pelo fim de um namoro. É claro que se acontece eu ainda fico chateada. Talvez até role uma lágrima. Mas não vai passar de três dias. O lado bom de endurecer com as experiências difíceis é que você compreende o que realmente vale seu choro. Pra mim, só perder uma pessoa querida pra morte vale meu sofrimento. De resto, tudo se resolve e o tempo cura (com a idade, cura ainda mais rápido).

Então, pra vim ficar ao meu lado, tem que somar. Tem que me deixar mais feliz do que eu já sou. Não virar um problema. Não me faltam aqueles conselhos batidos de “quem escolhe demais acaba sozinha”. E daí? O máximo que pode acontecer, se eu não me casar, é ficar namorando pra sempre! Não me parece má ideia! Aliás, já tá mais do que provado que casamentos na frente de juiz, padre/pastor/ou o que for, testemunhas, festão, não são garantia de sucesso, de “felizes para sempre”.

Não estou dizendo que nunca vou querer isso pra mim. Até gosto bastante da ideia da festa porque eu sou festeira. Acho bonito receber uma benção. Tem uma energia legal reunir gente querida para um ritual que sinaliza uma nova fase. A questão é que esse nunca foi meu objetivo maior de vida. Eu consigo enxergar uma existência plena sem passar por essa experiência. E isso incomoda as pessoas, que insistem que seria a única saída pra sermos completos. Não é. Tenho uma família que me ama, amigos especiais, saúde, planos, projetos interessantes. Consigo ver um futuro cheio de possibilidades. Acompanhada ou não.

Quando eu era menina e estudava em colégio de freiras, meu grupo de amigas vivia fazendo uma brincadeira de onde cada uma passaria a lua-de-mel quando casasse. Secretamente, eu me via nos lugares citados no jogo (Itália, França, Egito, Grécia, e por aí vai) indo estudar, trabalhar fora… Mas nunca casada. Eu não falava nada porque ter seus 13 anos e já não enxergar no casamento a razão da sua vida me transformaria num ser bizarro entre os demais. Preferi ficar quieta. Naquela época.

Eu acredito mesmo que na busca pelo casamento as pessoas esquecem do mais importante: escolher alguém pra estar ao seu lado numa mistura única de melhor amigo e de amante. Pra mim, tem que ser assim. Já vi gente casando porque: a) “sei lá, a gente já namora há muito tempo…”; b) “vai ser com ele mesmo porque eu não tô a fim de ficar procurando mais tempo”; c) “não o(a) amo, mas quero ter filhos”; d) “não quero mais trabalhar, casar é a melhor opção”; e) “ué, dá pra casar e continuar uma vida de solteiro, ficando com outras pessoas, basta tomar cuidado”; f) “me vestir de noiva, casar na igreja sempre foi meu sonho, nunca me importou muito com quem, sinceramente”.

Nenhuma das alternativas me parecem razoáveis. Busca-se compromisso, mas muito pouco comprometimento. Há quem deseje fidelidade e não se importe com a lealdade. E nada disso significa aceitar que se brinque com o coração do outro de maneira irresponsável. Leveza e liberdade numa relação nada têm a ver com mentira e enrolação.

Outra coisa que me incomoda é a ideia de que relacionamento bom é relacionamento grude e padrãozinho. Eu realmente não sei qual o problema se alguém quer casar e viver em casas separadas. Não acredito que namoros à distância estejam fadados ao fracasso. Há uma forte tendência de jovens casais que antes moravam sozinhos e, na hora que casam, optam por cada um ter seu quarto. Juro que eu – dona de uma cama de casal na qual durmo toda esparramada – entendo.

Nossa incapacidade de estar aberto ao que o destino oferece e insistir nos padrões conhecidos só limita nossas ações. É claro que a gente tem que correr atrás do que quer. Eu só acho que tem quem ande querendo muito pouco, e muitas vezes pelos motivos errados, só porque aprendeu que deveria ser assim e pronto. Mania de idealização é um veneno que causa angústias e decepções. Mas você consegue se safar dessa. Basta não esquecer que enredo bom é o inédito.

Crédito da imagem: Um milhão de beijos (de Renata Maneschy)