Minha fé em “rehab”

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Juro que o post de hoje é apenas coincidência. Não foi a chegada do Papa Francisco ao Brasil que me motivou a escrever sobre fé. Há alguns dias eu já me preparava pra falar sobre esse que é um tema delicado e, pra mim, atualmente confuso. Mas confesso que ver a comoção das pessoas nas ruas, como se o pontífice fosse um astro (ou é e por isso é pop?), me ajudou a pensar em que momento minhas crenças ficaram abaladas. Senti uma pontinha de inveja dos jovens que enxergavam no evento uma renovação de esperanças. Me emocionei com as mães e pais que acreditaram que, após uma benção papal, seus bebês, de agora em diante, seriam mais protegidos do que nunca. Desejei um pouco o brilho nos olhos que o otimismo de estar tão próximo a uma forte e carismática figura institucional provocava em milhares.

Digam o que for, Francisco tem um ar de bondade sincera. E quem de nós não sente algum conforto em saber que ainda existe gente boa no mundo? Claro, importante lembrar sempre que não é religião que torna alguém melhor ou pior. Conheço muito ateu de bom coração e verdadeiramente solidário, que não faz o bem porque, do contrário, vai parar no purgatório (ou inferno, ou umbral, ou afins). É do bem por acreditar ser o correto. Enquanto isso, também não falta gente que ora, que pede, que agradece a todo tipo de entidade, mas não pensa duas vezes antes de ser maledicente, de prejudicar o próximo. Nada de transformar, portanto, religião em sinônimo de caráter.

Mas é inegável que a crença de que há uma força maior, de que não estamos sozinhos quando assim parece, que as dificuldades são ensinamentos que nos preparam para tempos mais felizes, traz alento. E, às vezes, só essa sensação de paz de que nem tudo está sob nosso controle já ajuda muito a seguir em frente com mais determinação. Os azedos vão dizer que é jogar a responsabilidade das nossas escolhas no além. É verdade que ninguém provou cientificamente que Deus tá aí. Mas ninguém também conseguiu provar que Ele não tá.

E quase todo mundo tem uma história pessoal de um acontecimento que a razão não explica: uma doença incurável curada, uma ajuda inesperada (caída do céu?) quando tudo parecia perdido, uma ligação forte com outra pessoa e que “adivinhamos” quando ela precisa de auxílio… Assim vai… Sim, pode ser a intuição atuando. E quem disse que a intuição não é obra de Deus, que usa nossa mente pra nos comunicar o que ainda não compreendemos? Não sou eu quem vou dizer nem que sim e nem que não. Só sei que a minha funciona feito uma antena parabólica. Abençoada? Quem sabe…

Quando a vida pesa, me parece, vamos aos extremos: ou nos agarramos à fé com todas as forças, rezando a anjos e santos, ou a perdemos de vez, acreditando mais no que é racional, concreto, paupável. Por motivos pessoais, precisei acreditar muito na capacidade da ciência recentemente. E era tanta coisa pra entender, tanta coisa pra questionar e achar resposta certeira, que fui deixando minha fé de lado. As atitudes de algumas pessoas também reforçaram meu distanciamento das crenças positivas. Aliás, o comportamento da sociedade em geral não anda ajudando muito a gente a acreditar no melhor.

Mas enquanto eu proclamava aos quatro ventos que, sinceramente, o que me valia era acreditar em mim, amigos muito espiritualizados me ouviam com paciência e sempre diziam “vou rezar por você”, entre outras palavras de apoio. Ficava meio brava. Entendia como um minimizar dos meus problemas, como se com magia eles pudessem ser resolvidos. Agora que tudo vai entrando nos eixos, humildemente perguntei a esses amigos se, nesses meses todos, eles rezaram por mim de fato. “Todos os dias.” “Claro, Su!” “Coloquei seu nome toda semana na caixinha de passes”. Amigos católicos, evangélicos, kardecistas, budistas… Eles se preocuparam em enviar pra mim carinho e bons ventos em forma de oração. Como perder de vez a fé? Será que não é Divino encontrar tanta gente generosa no meu caminho? Gente que tanto me quer bem?

Enfim, continuo batendo boca com Deus. Mas já menos do que antes. Voltei a agradecer ao meu anjo da guarda – porque olha, eu faço ele trabalhar, viu? Minha fé, acho, tá numa espécie de “rehab”. Percebo que a frase que vivem me dizendo “tudo acontece no tempo de Deus” vai ganhando sentido de novo. A ver… De qualquer maneira, sou obrigada a agradecer muito (a Ele, a Darwin, ao universo) as boas pessoas que sempre cruzam meu destino, crentes ou não.

Crédito da imagem: Max Brum

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Torcendo pra pagar a língua. Mas eu acho que não…

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Temos, então, um novo papa. Ele veio como piada pronta para aqueles que torciam por um brasileiro como novo chefe da Igreja Católica Apostólica Romana. O cardeal Dom Jorge Mario Bergoglio é argentino. E comentários engraçados à parte, o que me interessa mesmo é o que o pontífice vai realizar de fato. Ou não. O que ele vai mudar para melhor. Ou não.

O papa Francisco escolheu o nome do santo conhecido pela humildade, São Francisco de Assis, que optou pela pobreza, deixando pra trás uma vida de privilégios numa família abastada. O novo papa já demonstrou atitudes humildes, como abrir mão de adornos dourados nas roupas que deverá usar e um crucifixo de aço (nem de prata é) para carregar junto ao peito.

Faz sentido se ele é um jesuíta. Faz mais sentido ainda se ele é um sujeito minimamente consciente de que vive numa Itália e numa Europa mergulhadas em crise econômica, assim como sua oscilante Argentina natal. E muito mais se ele tiver sempre em mente que em nome de Deus deve-se buscar ajuda e soluções para aqueles que vivem na miséria, em meio a guerras ou todo tipo de sofrimento. Que em nome de Deus é preciso mais mãos estendidas ao próximo, menos discursos preconceituosos, menos politicagem e disputas de poder.

Ah, o poder… E quanto ele pode subir a cabeça, até do mais santo dos homens? Qual ser humano estará livre do prazer mundano de saber que seu desejo é uma ordem? Espero, de coração, que o papa seja forte o bastante pra suportar a tentação e fique longe das más companhias – que também se escondem por trás de batinas, livros sagrados, orações, reflexões. Em qualquer religião. Porque ser religioso não necessariamente nos transforma em alguém melhor de verdade.

Claro, ele não é só o papa. Francisco passa a ser também um chefe de estado, que representa o Vaticano. Logo, terá que lidar com política – e conchavos, acordos, preciosismos… Provavelmente, corrupção. Haverá tempo de ouvir o povo e seus anseios? De estar realmente próximo da comunidade? De tentar compreender que muitos de nós gostaríamos de continuar acolhidos pela Igreja, mas nos sentimos rejeitados, renegados, reprimidos por comportamentos e escolhas que não prejudicam os demais, nem colocam em dúvida nosso caráter, nem impedem que estejamos prontos a praticar o bem?

Por mais boa vontade que o papa Francisco tenha, eu acho que a politicagem da instituição vai prevalecer. Tem muita gente lá dentro disposta a manter as posturas mais preconceituosas da Igreja Católica. Sim, ela tem suas regras e quem quiser ser parte de seu mundo que as obedeça. Mas ela não pode humilhar, diminuir, segregar. E quantos de nós já não vimos isso na missa de domingo? Eu já vi. Você também, pode admitir.

Espero estar errada. Minha torcida é pra que eu pague a língua e papa Francisco traga novos ares e compreensão ao universo do catolicismo e da religião em geral. Mas eu acho que não… Não, de repente, porque ele não queira. Mas porque a ganância e a ignorância é inerente a muitos de nós que cercam aqueles que que desejam mudar. É uma batalha pesada. Boa sorte, Francisco. Você vai precisar.

Crédito da imagem: Divulgação