O parto normal de Kate

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Já não é de hoje que me intriga ver tantas amigas minhas que ganharam seus bebês por meio de cesarianas. Foram nove nos últimos dois anos. Apenas uma delas realmente optou pela cesárea por temer a dor do parto. E eu não julgo de jeito nenhum. Fiz o maior escândalo por causa de uma tatuagem de exatos sete minutos. Mas as outras esperavam, sim, dar à luz num parto normal. Uma delas se dedicou até ao pilates pra facilitar o trabalho de parto. Todas, sem exceção, ouviram de seus médicos que, por diferentes motivos, o parto normal estaria fora de cogitação.

As explicações eram técnicas: bebê grande demais, data além da prevista para ele nascer, uma estrutura óssea da mulher que colocaria em risco mãe e filho, entre outras coisas. Obviamente, nenhuma delas desacataria, diante de informações que seriam cruciais para a saúde de suas crianças, ir contra a decisão do profissional que as acompanhou.

O problema é carregarem até hoje uma dúvida: foi mesmo necessário? Elas nunca saberão se seus filhos vieram ao mundo de cesariana porque era imprescindível ou porque são parte de uma indústria de cirurgias que coloca o Brasil no topo do ranking de um procedimento que deveria ser emergencial – e não a regra. Segundo o Ministério da Saúde, no Sistema Único de Saúde (SUS) os partos normais representam 63,2% do total. Na rede particular, o número despenca para menos de 20%. Muitas gestantes optam pela cesárea por acharem conveniente (e de novo não julgarei escolhas pessoais). Muitas outras, porém, encontram uma enxurrada de empecilhos num jogo sujo dos convênios médicos (e isso precisa ser questionado e impedido).

Não é difícil perceber que algo vai bem errado na decisão de obstetras e dos hospitais brasileiros quando comparamos com dados e exemplos estrangeiros. A duquesa de Cambridge, Kate Middleton, deu à luz ao príncipe George Alexander Louis, seu primeiro filho com o príncipe Willian (futuro rei da Inglaterra), em Londres, há uma semana. Kate enfrentou dez horas de trabalho de parto. Saiu da maternidade esplendorosa, feliz e caminhando tranquila, com seu bebê no colo, no dia seguinte. Por lá, 92% das mulheres fazem parto normal. Na França, são 80%. Na Argentina, 78%. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que as cesáreas não ultrapassem 15% do total de partos em um país. Significa que nosso quadro é alarmante.

No Brasil é pouco difundida a importância do parto normal tanto para a mãe quanto para o bebê. Os riscos de infecções para ambos são menores, assim como a recuperação é melhor e mais rápida. A gestante que desde o pré-natal se dedica a caminhadas, alongamentos e massagens facilita o parto normal, diminuindo inclusive a dor. A produção de hormônios que preparam o corpo para a amamentação é mais uma vantagem.

Mulheres submetidas à cesariana têm 3,5 vezes mais risco de morte e cinco vezes mais probabilidade de infecção genital. Bebês prematuros nascem mais em partos agendados. Até o vínculo pode ser afetado. Pesquisas já indicaram que quando a criança é acolhida rapidamente pela mãe nos braços, o laço afetivo também se forma logo. Após a cirurgia, pegar o bebê no colo é dolorido e ele pode passar um tempo na observação antes de chegar aos braços da mãe. Demora mais para fortalecer o vínculo – justamente um dos gatilhos nos casos de depressão pós-parto.

Conheço mais uma moça que optou pela cesariana recentemente. Mas por um motivo vergonhoso. Ela trabalhou por um tempo no hospital da cidade onde mora, com menos de 100 mil habitantes. Viu de perto como as mulheres eram mal tratadas e hostilizadas na hora do parto normal. Escolheu o outro hospital local, no qual o médico que cuidou dela realizava partos. Mas ele logo avisou que só faria a cesariana. Se não bastasse terem lhe arrancado a chance de escolha do hospital em que sua filha nasceria por medo do tratamento, também foi vetada a ela a forma mais natural possível de parto. Porque o que deveria ser um momento especial, simplesmente, se transformou em negócio.

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