Nenhum extremo é válido

A balança indica: já cumpri uma das metas que estipulei pra mim mesma em 2018. Ano passado ganhei felizes dois quilos no primeiro semestre depois de dar fim a uma situação que eu não desejava mais pra minha vida. Estava mais magra do que gosto de me ver. Aí, embarquei de vez no cotidiano de empreendedora, com dois negócios pra fazer acontecer e ainda tocar uns projetos pessoais/profissionais do coração. Diminui a frequência da academia e continuei comendo a mesma quantidade. No meu caso, quando você lê “quantidade” pode pensar em muita! Eu adoro comer!

Chega o segundo semestre, e os dois quilos a mais já tinham virado seis. Dá-lhe dor no joelho esquerdo por aumento de peso, menos disposição, cansaço batendo mais fácil. Não tive dúvida. Na lista de metas do novo ano perder quatro quilos estava no meu top five. Nada a ver com desejo de alcançar padrões estéticos x y z. Era saúde mesmo. Não queria um joelho doendo, não queria me sentir cansada logo quando havia um mundo de coisas exigindo disciplina, responsa, prazo, serviço bem feito. E, não! Não queria as roupas novas apertadas!

Então, no início de janeiro, comentei com uma conhecida que perder esses quilinhos a mais era um objetivo. Fui olhada com decepção, um pouco de horror. Por que como eu, uma mulher que trabalho com mulheres, em busca de levantar a autoestima delas, tinha coragem de sair falando por aí que estava em busca de me encaixar em um padrão estético determinado pela sociedade? Como eu me rendia, assim, à ditadura da magreza com tantas mulheres sofrendo com distúrbios alimentares? Como eu era incapaz de aceitar o meu corpo?

Oi?

Por alguns segundos, achei que era brincadeira. Mas percebi rápido que ela falava sério. Uma pessoa que se diz evoluída espiritualmente (?) e é incapaz de compreender a informação que eu passava. Precisa evoluir em compreensão de mensagem também, né? Magina como deve ser a compreensão de texto?

Ela ficou brava, realmente brava comigo. Eu era um mau exemplo. Eu perpetuava o sofrimento de quem faz de tudo para emagrecer independentemente das consequências.

Pra mim, a única coisa que ela fez naquele momento foi reproduzir um discurso carregado de preconceito típico de quem não sabe defender ideias com reflexão, poderação. Sem ouvir o outro! Que tem ódio de tudo. Que mesmo que você defenda a mesma bandeira que ela, mas por caminhos diferentes, não serve, não tem valor. Ela era, enfim, contra a ditadura da magreza que, sim, traz tantos danos para mulheres em todo o mundo. Mas determinava, naquele segundo, a ditadura do “só eu tô certa e não preciso ouvir mais nada”. E pra se fazer absolutamente certa, tudo bem distorcer os meus motivos pra mostrar que eu não servia mesmo pra trabalhar com mulheres.

Nenhum extremo é válido, gente. O radicalismo, seja pra que lado e assunto for, é cego, surdo – só não é mudo porque vem acompanhado de muita besteira sendo dita. Mergulhada num universo bonito de pessoas que se dedicam a dar fim a preconceitos variados, a jogar luz sobre ignorâncias, também vejo muita gente transformando lutas importantes para a sociedade em segregação. E aí, meu bem, seu discurso não só perde força e credibilidade como também ajuda outras dores a nascerem e o mundo a piorar um pouco mais.

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Nem sempre o discurso contempla a realidade

atualmente

O dito e o sentido. O que falamos e o que realmente gostaríamos de dizer. O ser humano tem uma mania estranha de dissimular as próprias palavras pra esconder suas fragilidades e seus defeitos. Você deve estar aí pensando: “Lógico, Suzane! Quem, numa sociedade na qual as aparências são tão simbólicas, vai admitir que não é tão forte assim, tão bem-sucedido assim, tão feliz assim?” Minha mãe sempre diz pra gente não se basear nas alegrias e conquistas alheias, não. Mais ainda em tempos de redes sociais. Porque a vida de ninguém é perfeita. Problema todo mundo tem. Alguns só disfarçam melhor e jogam uma tinta cor de rosa em cima das dúvidas pra deixar pra lá – só que uma hora o caldo entorna, é bom avisar.

Ontem eu participei de um seminário internacional sobre migrações, trabalho e cidadania. Em determinado momento das palestras, uma professora disse uma frase curiosa: “Nem sempre o discurso contempla a realidade”. Ela abordava a questão da xenofobia, citando uma pesquisa com a segunda geração de bolivianos que já nasceu aqui no Brasil. São os filhos dos imigrantes que, em sua maioria, vieram para São Paulo trabalhar em confecções, se rendendo a regimes escravos.

As crianças de família boliviana são hoje as principais vítimas de bullying nas escolas que frequentam. Muitas, criadas na língua espanhola, têm dificuldade para aprender o português. Seus costumes e mesmo aparência também são motivo de chacota, assim como a forma que seus pais ganham o sustento. Não se trata de um preconceito de classe. O patamar social dos alunos é semelhante. É pelo que o outro tem de diferente e pela condição de ter que se submeter a um trabalho “indigno” e explorador que é feita a distinção cruel.

Apesar do bullying sofrido pelos estudantes bolivianos, pais e alunos brasileiros que convivem com eles, ao serem entrevistados, não reconhecem em si traços xenófobos. Não se diziam nem um pouco preconceituosos. Apenas não queriam “misturar os filhos com gente que não se sabe direito de onde vem, o que faz, porque estão aqui”, como disse uma mãe entrevistada.

A pesquisa montou o cenário para levantar o debate de como a famosa simpatia do brasileiro pelo estrangeiro é mito. A história do receber de braços abertos é válida quando o imigrante é qualificado. Mas chutamos sem dó nem piedade, humilhamos (mesmo que apenas num olhar) e nos achamos infinitamente melhores do que os imigrantes que chegam para trabalhos menos qualificados. Não importa, inclusive, se a qualificação é similar. Então, nosso discurso de “olha como a gente é legal com gringo” só serve quando é um estrangeiro que confira algum status às nossa relações pessoais e profissionais. Da “escória” queremos distância. Mas claro, não verbalizamos isso. Pelo contrário. Nosso “discurso” nos transforma quase sempre em seres humanitários. Ele só não contempla a realidade.

O estudo com os pequenos bolivianos e nossas reações em relação aos imigrantes pobres serve de exemplo pra mostrar como somos dissimulados. Estamos sempre manipulando a nós mesmos (discursos, hábitos, escolhas) para parecermos demais. Até guardamos em segredo aquilo que achamos o correto (como não humilhar um imigrante) apenas para não sermos excluídos de grupos. Pesa a consciência. Mas não pesa o risco de deixar de pertencer a círculos sociais que julgamos adequados. Tem quem ache que vale a pena…

O discurso também não contempla a realidade nas nossas atuais relações pessoais e profissionais. Empresas dizem que todos os processos que estão sendo implantados são para dinamizar o ambiente de trabalho, oferecer um produto/serviço melhor a seus clientes e bla bla bla. A precarização do trabalho só transforma trabalhadores em pessoas sobrecarregadas e infelizes. O resultado é queda na qualidade do que chega às mãos dos consumidores. No amor, quanto não é comum a gente querer dizer uma coisa, ir lá e falar outra completamente oposta pra não dar o braço a torcer, por exemplo? Ou quantas vezes nos sabotamos, com medo do futuro, só pra mantermos o controle de uma situação? Ou melhor, imaginarmos que estamos mantendo o controle (porque a gente nunca tá).

O dito e o sentido. O que falamos e o que gostaríamos de dizer. Discursos há anos luz do que acontece concretamente – e internamente. Dissimulados. Manipulados. No fundo, na verdade, somos apenas uns coitados…

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

Essa mania que a gente tem de se vitimar

medoxsonhos

“Você não pode achar também que tudo é machismo…” Ouvi a frase de um amigo querido, depois de almoçarmos num restaurante no fim de semana. Fiquei uns segundos quieta. Tentei argumentar. Mas dessa vez eu realmente não tinha os melhores argumentos. Pra mim, o garçom servira os pratos numa hierarquia injusta. Na minha percepção, ele havia servido as pessoas na mesa pela segunda vez dando preferência aos homens, baseado na ideia de que homem come mais ou algo do gênero. Não foi bem assim. Eu peguei a ação dele no meio do caminho – quando atendera outras mulheres antes. E olha, tenho muitos defeitos… Admito que ainda preciso evoluir razoavelmente como ser humano. Mas uma qualidade da qual me orgulho é saber ouvir e parar pra refletir se meu julgamento está errado ou não.

A chamada de atenção me fez pensar se eu, que luto tanto contra preconceito de todo tipo, não acabei sendo preconceituosa. Na verdade, não é incomum pessoas que foram vítimas de preconceito no passado se tornarem carrascas no futuro. É um meio de sobrevivência emocional, muitas vezes inconsciente. Mas o exagero de enxergar uma ofensa em qualquer atitude cria uma espécie de efeito contrário, botando lenha na fogueira pra que novos preconceitos ganhem força e intolerâncias se perpetuem. Há quem opte até por viver apenas entre “iguais” e evitar ao máximo o contato com aqueles que não sejam da sua tribo. Tudo para grupos se fortalecerem e se defenderem. É compreensível e justificável. Não pode, porém, se tornar mais uma arma social, um meio de segregação dentro da sociedade.

Curiosamente, semana passada conheci um novo autor no mestrado, que aborda justamente a hostilidade daqueles que confundem e/ou interpretam comportamentos alheios com eternos olhos de vítima. O sociólogo búlgaro (naturalizado francês) Tzvetan Todorov afirma no livro “O homem desenraizado” que há quem prefira renunciar à autonomia como indivíduo para se “pensar sistematicamente como não-responsável por seu próprio destino”. Ele lembra que todo mundo tem pelo menos um parente que se faz de vítima. Diz que “um membro da família se ocupa do papel de vítima porque, a partir deste fato, ele pode atribuir aos que o cercam um papel bem menos vantajoso, o de culpado. Ter sido vítima lhe dá o direito de se lamentar, de protestar e de reclamar o dia inteiro; se não romperem toda a ligação com a pessoa, os outros são obrigados a atender seus pedidos”.

O que espanta Todorov é que essa atenção que a vítima em família consegue assegurar entre os seus de maneira torta ganha espaço nos dias atuais com o tal papel de vítima sendo “reivindicado em praça pública”. É claro que a pessoa submetida a um preconceito tem o direito a compensações. A autopiedade, contudo, não deve ser colocada clandestinamente no lugar da justiça. Muitos são aqueles que, com medo de humilhações racistas, xenofóbicas, machistas, entre outros preconceitos, se fecham em grupos, adotando perigosos comunitarismos. Porque aí não é impossível a troca do ideal de integração, que é um dos fatores que transformam a sociedade em um meio igualitário, pelo de segregação. Encontrar-se entre os seus, entre aqueles que viveram as mesmas experiências, traz segurança. Não é saudável, no entanto, que a identificação estabeleça apartheids culturais.

O status, por assim dizer, de vítima, a chance de trocar ideias e sentimentos com quem viveu o mesmo que você e de denunciar sofrimentos impostos cruelmente, são aquisições da democracia. E elas devem ser aplaudidas e festejadas. Mas o desejo de se enclausurar no passado para justificar as dores que permanecem não ajuda muito a ir adiante. O cotidiano se torna limitado. E o que era pra ser símbolo de reparação pode desembocar em ainda mais agressão.

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

A sorte de ouvir as opiniões de Felicianos, Malafaias e Bolsonaros

direitoshumanos

Calma, gente! Não se assustem com o título deste post. Eu não enlouqueci. Continuo acreditando que todo tipo de preconceito deve ser banido, reprimido, criticado e peitado. Que sua liberdade de expressão acaba na hora que você se acha no direito de desrespeitar alguém colocando suas verdades mais estapafúrdias como absolutas, daquelas que humilham e denigrem a imagem do outro, que passam por cima de direitos básicos. Mas por mais inacreditáveis e chocantes que possam ser as opiniões de gente tão limitada que existe por aí, elas têm um lado muito bom: mostrar claramente com quem estamos lidando na sociedade.

Me questiono (e você também, caso seja uma pessoa sensata) há dias como um sujeito chamado Marco Feliciano se tornou presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados Federais. Um sujeito que cada vez que abre a boca deixa vir à tona uma das mais significativas representações daquilo que temos de pior em machismo, homofobia, intolerância religiosa, racismo… O retrato do que há de mais atrasado e que mais fere, justamente, os direitos humanos. Politicagens à parte (que é o que o levou ao cargo), até dói saber que um perfil desses não só pode chegar longe no nosso país, como sua mentalidade ecoa entre muitos cidadãos. Que ele é o reflexo, junto com Bolsonaros e Malafaias, do que muitos de nós creem ser o “certo”.

Por mais revoltantes, porém, que sejam as imbecilidades proferidas por esse bando e seus infelizes seguidores, agradeço profundamente por viver num tempo em que eu possa saber exatamente quem são eles. Pra efeito de comparação, milhares de judeus e centenas de gays, ciganos e testemunhas de jeová foram enviados para campos de concentração na Segunda Guerra Mundial por pessoas de seus convívios. Existiam, claro, aqueles que se declaravam a favor e que colaboravam com o nazismo. Mas muitas das vítimas acabaram traídas por vizinhos e colegas de trabalho que não afirmavam abertamente o apoio ao regime insano de Hitler, optando por agir na surdina.

Viver numa democracia nos permite o acesso à informação variada, que possa ser amplamente comparada. Numa democracia com redes sociais, internet, expandimos nosso saber e aumentamos o alcance de nossos posicionamentos. E, principalmente, construindo o conhecimento com liberdade e ajuda da tecnologia somos capazes de nos prepararmos para nos defendermos dos absurdos tão corriqueiros da intolerância. Por isso, temos sorte em ouvir e saber quem é o indivíduo que se julga acima do bem e do mal para atacar o outro. Podemos atacar de volta. Podemos nos unir para tirá-lo de onde ele chegou. Podemos vencê-lo.

Pra terminar, vou dividir com vocês alguns pensamentos de autores com os quais pude tomar contato graças a uma disciplina que estou cursando no mestrado. O tema principal é a alteridade, que é a capacidade de compreender que todo ser humano interage e é interdependente do outro. E que nessa interação apreendemos o outro em sua dignidade, direitos e diferenças. O foco dos debates na aulas são preconceitos, racismo e xenofobia.

Infelizmente, compreendi que preconceito é a rejeição total do outro. Para o preconceituoso, não existe nem o interesse pela “conversão” de uma pessoa diferente dele. Na sua mente desequilibrada, o diferente dele é sempre inferior. Para o filósofo, economista e psicanalista grego Cornelius Castoriadis, o que o racista, por exemplo, deseja é a morte do diverso. Mas que tanto ódio do outro pode também ser um ódio de si mesmo inconsciente. Ele ressalta a necessidade de fortalecermos um movimento que indique o quanto “os seres humanos têm valor igual (…) e que a coletividade tem o dever de lhes conceder as mesmas possibilidades efetivas(…)”. Para o sociólogo francês Alain Touraine, as barreiras só são superadas “por seres capazes de se comunicar entre si graças, ao mesmo tempo, à razão e ao respeito pelo caráter universal dos direitos individuais”.

Se pra você é tão difícil entender que o diferente não é pior, se você tem orgulho de um Feliciano respondendo por direitos humanos, só posso lamentar. Mas continue! Continue deixando clara sua fantasia de acreditar ser melhor do que alguém. Assim, sempre saberei onde você está – e ficarei pronta a te desafiar.

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P.S.: Na noite desta segunda (25), a partir das 18 horas, artistas, políticos, religiosos e ativistas de diversos movimentos sociais se reunirão no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no centro do Rio de Janeiro, para realizarem um ato pedindo pela saída do presidente Marco Feliciano (PSC-SP) da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM).

A xenofobia nossa de cada dia

Uma das principais características do Brasil é sua diversidade cultural. Com uma formação fortemente marcada pela imigração, é difícil encontrar um brasileiro que não tenha no sangue de tudo um pouco. Quem se detém por breves minutos observando aqueles que transitam numa calçada de um lugar como a Avenida Paulista, vai se deparar com fisionomias que poderiam ser vistas em qualquer parte do planeta. Somos uma grande e bonita mistura. É essa uma das nossas maiores riquezas.

Me espanta, então, perceber que nós (justo nós!), filhos, netos e bisnetos de imigrantes, estejamos também dando indícios de um dos preconceitos que mais me assustam no mundo: a xenofobia, que é a aversão a estrangeiros, mais especificamente a imigrantes. Ela cresce. E é um retrocesso grave aceitar e defender aquilo que já levou a grandes extermínios no decorrer da história da humanidade.

O fato recente que mais causou comoção mundial foi o atentando na Noruega, ocorrido em 22 de julho de 2011. O atirador Anders Breivik, um nacionalista radical, detonou uma bomba no centro da capital, Oslo, deixando oito mortos. Na sequência, abriu fogo contra jovens num acampamento, matando 69 pessoas. Breivick, que é de extrema direita e recebeu sua sentença de prisão com um sorriso no rosto e fazendo a saudação nazista, com o braço direito erguido, justificou seu ato como “uma maneira de proteger o país de uma invasão muçulmana e da política de imigração favorável ao multiculturalismo”.

Ficamos em choque com o caso. Levamos as mãos à boca pronunciando um “que horror” quando vemos notícias como a do atirador norueguês. E é para ficar realmente aterrorizado com uma atitude movida por uma aversão ao outro. Que aqui chegou ao extremo, claro. Mas quem disse que atitudes menores como um olhar atravessado, a demonstração de um incômodo pela presença de quem vem de fora e até se achar no direito de humilhar não são graves?

Rosa (troco aqui o nome dela para preservar sua identidade) é manicure em um salão de um bairro nobre de São Paulo. Ela é boliviana. Tem 20 e poucos anos. Está na capital há dois. Rosa é tímida. Olha pra baixo quase o tempo todo quando anda e conversa. Considera que tem uma situação mais favorável do que amigos e familiares que também imigraram para o Brasil, mas foram parar nas confecções em que se trabalha até 14 horas por dia, em condições precárias. Alguns desses estabelecimentos já foram punidos por trabalho escravo. Alguns regularizaram a situação dos trabalhadores. Muitos outros ainda lucram com base na exploração.

Me interesso pela história de Rosa porque um dos temas que estudo no mestrado de Ciências Sociais é imigração. Mas é complicado arrancar mais informações. Entendo, porém, todos seus motivos em uma das poucas explicações que me deu. “Tenho medo do jeito que muita gente me olha. Também evito falar muito por causa do meu sotaque. Já fui mal tratada várias vezes, mas prefiro não falar disso… Prefiro que não me notem. Só preciso trabalhar em paz para ter dinheiro e dar alguma coisa boa para minha família”.

O medo de Rosa é de nós, cosmopolitas viajados, estudados, informados, que vivemos em São Paulo. É compreensível que Rosa prefira ser invisível a ser olhada com desprezo por alguém que acredita ser superior a ela por uma questão de nacionalidade, aparência. Fiz o teste num domingo em que eu passava pela estação Palmeiras-Barra Funda do metrô, em frente ao Memorial da América Latina. Aos domingos, muitos imigrantes latinos se reúnem lá. Os olhares de desprezo existem SIM. O incômodo com o diferente também era bem fácil de perceber. E a única coisa que os imigrantes faziam eram proporcionar algum mínimo lazer às suas famílias. Não cometiam nenhuma ilegalidade, nenhuma infração. Eles, apenas, existiam ali.

Numa conversa recente com amigos, eu quase caí da cadeira na mesa do bar quando uma conhecida disse que o Brasil não tinha que aceitar pobres de países vizinhos justo na hora que os pobres daqui tinham ascensão social. Que era melhor colocar minas terrestres nas fronteiras do país pra “pegar essa gente”. Um amigo meu rapidamente a lembrou que ela teve uma irmã que morou cinco anos nos Estados Unidos, trabalhando com faxina e em restaurante. “Sua irmã não era a pobre da vez num país desenvolvido? Então?”

A sujeita tentou justificar dizendo que a irmã dela foi trabalhar com o que ninguém queria, subemprego e, além de tudo, era trabalhadora. Foi aí que entrei na história e perguntei: “E por que você parte do princípio de que essas pessoas que chegam ao Brasil em busca de uma vida melhor também não são trabalhadoras? E que emprego será que elas vão roubar? Não será justamente aqueles que os brasileiros também já não querem mais fazer, como faxina? Fico muito feliz em perceber que o brasileiro pode estudar cada vez mais e conseguir funções melhores. É uma grata consequência do desenvolvimento. Mas é uma mesquinharia, pra não dizer coisa pior, que você imagine ser aceitável defender o território com ‘minas terrestres’. Te conheci agora. Prefiro acreditar que foi só um pensamento mal construído da sua parte.” Ela ficou bem sem graça. Não voltou atrás, porém, na absurda ideia das minas porque “tem que botar medo mesmo pra funcionar”.

Vejam bem, não defendo aqui a total falta de controle das nossas fronteiras e nem a ilegalidade. Mas não enxergo problema nenhum em receber pessoas de outros países para ocuparem postos que não estão sendo preenchidos por falta de mão de obra entre os brasileiros. E isso acontece nos dois extremos: onde é necessário gente muito qualificada e onde não é necessário quase estudo para desenvolver a função.

Tenho outros exemplos recentes e assustadores, infelizmente, mas nem dá pra escrever. Se não, o post não vai acabar! Mas que fique claro aqui que as consequências da xenofobia só podem ser negativas: medo, desigualdade, violência. E que a gente também pare pra pensar que tipo de pessoas somos, que desejamos ser, num mundo de tão intensa e interessante troca cultural. Só espero que não se proliferem aqueles de nós que acreditam que matar alguém com um mina terrestre é solução aceitável.

Crédito da imagem: Creative Commons