Nem sempre o discurso contempla a realidade

atualmente

O dito e o sentido. O que falamos e o que realmente gostaríamos de dizer. O ser humano tem uma mania estranha de dissimular as próprias palavras pra esconder suas fragilidades e seus defeitos. Você deve estar aí pensando: “Lógico, Suzane! Quem, numa sociedade na qual as aparências são tão simbólicas, vai admitir que não é tão forte assim, tão bem-sucedido assim, tão feliz assim?” Minha mãe sempre diz pra gente não se basear nas alegrias e conquistas alheias, não. Mais ainda em tempos de redes sociais. Porque a vida de ninguém é perfeita. Problema todo mundo tem. Alguns só disfarçam melhor e jogam uma tinta cor de rosa em cima das dúvidas pra deixar pra lá – só que uma hora o caldo entorna, é bom avisar.

Ontem eu participei de um seminário internacional sobre migrações, trabalho e cidadania. Em determinado momento das palestras, uma professora disse uma frase curiosa: “Nem sempre o discurso contempla a realidade”. Ela abordava a questão da xenofobia, citando uma pesquisa com a segunda geração de bolivianos que já nasceu aqui no Brasil. São os filhos dos imigrantes que, em sua maioria, vieram para São Paulo trabalhar em confecções, se rendendo a regimes escravos.

As crianças de família boliviana são hoje as principais vítimas de bullying nas escolas que frequentam. Muitas, criadas na língua espanhola, têm dificuldade para aprender o português. Seus costumes e mesmo aparência também são motivo de chacota, assim como a forma que seus pais ganham o sustento. Não se trata de um preconceito de classe. O patamar social dos alunos é semelhante. É pelo que o outro tem de diferente e pela condição de ter que se submeter a um trabalho “indigno” e explorador que é feita a distinção cruel.

Apesar do bullying sofrido pelos estudantes bolivianos, pais e alunos brasileiros que convivem com eles, ao serem entrevistados, não reconhecem em si traços xenófobos. Não se diziam nem um pouco preconceituosos. Apenas não queriam “misturar os filhos com gente que não se sabe direito de onde vem, o que faz, porque estão aqui”, como disse uma mãe entrevistada.

A pesquisa montou o cenário para levantar o debate de como a famosa simpatia do brasileiro pelo estrangeiro é mito. A história do receber de braços abertos é válida quando o imigrante é qualificado. Mas chutamos sem dó nem piedade, humilhamos (mesmo que apenas num olhar) e nos achamos infinitamente melhores do que os imigrantes que chegam para trabalhos menos qualificados. Não importa, inclusive, se a qualificação é similar. Então, nosso discurso de “olha como a gente é legal com gringo” só serve quando é um estrangeiro que confira algum status às nossa relações pessoais e profissionais. Da “escória” queremos distância. Mas claro, não verbalizamos isso. Pelo contrário. Nosso “discurso” nos transforma quase sempre em seres humanitários. Ele só não contempla a realidade.

O estudo com os pequenos bolivianos e nossas reações em relação aos imigrantes pobres serve de exemplo pra mostrar como somos dissimulados. Estamos sempre manipulando a nós mesmos (discursos, hábitos, escolhas) para parecermos demais. Até guardamos em segredo aquilo que achamos o correto (como não humilhar um imigrante) apenas para não sermos excluídos de grupos. Pesa a consciência. Mas não pesa o risco de deixar de pertencer a círculos sociais que julgamos adequados. Tem quem ache que vale a pena…

O discurso também não contempla a realidade nas nossas atuais relações pessoais e profissionais. Empresas dizem que todos os processos que estão sendo implantados são para dinamizar o ambiente de trabalho, oferecer um produto/serviço melhor a seus clientes e bla bla bla. A precarização do trabalho só transforma trabalhadores em pessoas sobrecarregadas e infelizes. O resultado é queda na qualidade do que chega às mãos dos consumidores. No amor, quanto não é comum a gente querer dizer uma coisa, ir lá e falar outra completamente oposta pra não dar o braço a torcer, por exemplo? Ou quantas vezes nos sabotamos, com medo do futuro, só pra mantermos o controle de uma situação? Ou melhor, imaginarmos que estamos mantendo o controle (porque a gente nunca tá).

O dito e o sentido. O que falamos e o que gostaríamos de dizer. Discursos há anos luz do que acontece concretamente – e internamente. Dissimulados. Manipulados. No fundo, na verdade, somos apenas uns coitados…

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

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