Sucesso e status, os enganadores

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Nos últimos seis meses, graças ao trabalho, tenho o privilégio de acompanhar de perto as ideias e valores de um dos maiores empresários do país. Cara direito, filho de um imigrante português, transformou a empresa fundada pelo pai em uma das maiores companhias brasileiras – e ainda daquelas que se preocupa de verdade com a equipe. Entre as frases que costumo ouvir dele quando concede entrevistas há uma que é aprendizado pra colar na parede do quarto, ler todo dia, lembrar a vida inteira: “Quando você começa a acreditar no sucesso é porque começou a fracassar.”

Significa que a chegada do sucesso leva a enganos como a certeza de ter vencido e poder relaxar; a soberba de se achar bom demais e poder esnobar; a tolice de focar na ganância e, de repente, atropelar aspectos essenciais da existência. Passar por cima. Aí, começa a queda livre. Vai ladeira abaixo. Perde-se a confiança de chefes e subordinados, torna-se o arrogante da família, o contador de vantagem na roda de amigos.

Manter complexo de vira-lata? De jeito nenhum! Não ter orgulho de si mesmo? Jamais! Pelo contrário. Autoestima é fundamental. Mas é não acreditar que o topo é eterno. Quanto mais alto, maior o tombo, diz um ditado por aí. Então, não se deve almejar chegar mais longe? Também não é disso que eu tô falando.

Mire alto, sim, suas flechas. Sem esquecer, porém, que a vida é feita de ciclos, de perdas e ganhos, altos e baixos. E que a gente nunca deve esquecer de onde veio, quem nos ajudou, quem acreditou em nós. Que quando tudo parecia difícil, alguém foi lá e nos estendeu a mão. Pra recomeçar. Pra tentar de novo. Com orgulho sim da própria história, mas com humildade, gratidão e empatia para se colocar no lugar de quem nos cerca; ajudar como um dia se foi ajudado.

Diretamente ligado à ideia de sucesso está mais um enganador: o status. Andam juntos, mãos dadas. Acho esse aí até pior. Porque tem quem queira manter as aparências, o status, sem nem ter de fato construído algo que possa ser visto como um sucesso. É vazio. É mesquinho.

Sei de gente que na hora que o marido perdeu o cargo de diretor, caiu fora do casamento. A mesada começou a minguar, sabe. Tem quem abandonou a namorada na hora que ela foi demitida do cargo de editora de revista de lifestyle porque era importante para o fulano ter ao lado uma mulher de “sucesso” como ele, empresário. Dava status, afinal. Ela se reergueu ao mesmo tempo que a empresa dele pediu falência. A moça arrumou um cara realmente legal e que lhe dá valor. E a mãe que pouco se importava com as queixas da filha de que o noivo a traía? “Bobagem, minha filha. Ele é um partidão, te dá uma vida confortável e segura”, dizia a tola senhora, enterrando o destino da própria filha. Tudo pelo status. Alguns exemplos. Infelizmente, corriqueiros demais.

E as selfies, minha gente? Todo mundo já tirou uma, claro. Eu até entendo selfie numa viagem que se faz sozinho, por exemplo. Mas pra dar bom dia em rede social, fazendo bico e caprichando no filtro pra passar a imagem da “perfeição”, essa obviamente inalcançável? Estamos indo longe demais na busca de um status que só enche os olhos dos outros e rapidamente esvazia nossos corações. Não é verdadeiro. Não preenche a alma. Causa inveja, uau! E depois? Depois, nada. Depois, volta-se para as angústias, as eternas insatisfações de quem não constrói trajetórias sólidas com trabalho e estudo, relações consistentes e confiáveis, projetos que fazem a diferença na sociedade.

Depois que os enganadores sucesso e status mostram a grande ilusão que são, o castelo de cartas desmorona. E não adianta levantá-lo de novo. Os alicerces são frágeis demais.

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Curte lá nosso Face! :)

Pessoal, às vezes fico uns bons dias sem postar aqui no blog. Correria!! Mas lá na página do Fale ao Mundo no Facebook sempre tem pensamentos e frases bacanas pra gente refletir e se inspirar. Curte lá, acompanha, manda sugestões e vamos juntos pensando os desafios e as alegrias que a vida nos dá. Bjão, Su ❤ 🙂 ❤

https://www.facebook.com/Fale-ao-Mundo-433265623407753/timeline/

Mais silêncio. Mais leveza.

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“A maior arte é saber ficar em silêncio. Não apenas ficar sem falar com os lábios, mas sem falar com a mente. Quando a mente está tranquila, todo seu ângulo de visão muda. Ao invés de atacar os problemas, ela começa a perceber as oportunidades, as coisas boas da vida. E, nessa discriminação que vem do silêncio, residem todas as outras artes. As artes que tornam a vida um prazer e um desafio; como a forma de falar uns com os outros, de divertir os outros, de aceitar uns aos outros. E também a arte de como ser feliz não apenas juntos, mas sozinho.”

Encontrei essa citação no Facebook de uma amiga. É um dos ensinamentos da Universidade Espiritual Mundial Brahma Kumaris, organização não governamental criada na Índia em 1937 para promover uma cultura de paz, cooperação, solidariedade. Não importa qual a sua religião ou até mesmo se você não tem uma. Porque compreender e replicar todas as possibilidades de valores humanos positivos não tem a ver com dogmas. É questão de caráter.

Juntei esse pensamento com um post do blog de uma grande amiga, a Tatiane, que é evangélica, e usa passagens da Bíblia para falar de comportamentos cotidianos das pessoas (www.encontro-feminino.blogspot.com.br). Naquele post, ela ressaltava a importância da gente saber deixar de ser tagarela de vez em quando. Não pra deixar de dizer aquilo que pensamos, não para nos omitirmos diante de injustiças. Mas pra saber colocar a energia certa, na hora certa – no embate certo.

Uma das coisas que eu e muitas pessoas que conheço precisamos aprender em 2014 é que parte de nós, simplesmente, não quer ouvir nada que seja contrária à sua opinião. Não necessariamente por mal, mas por limitações pessoais mesmo. Por emoções mal trabalhadas, por falta de procurar se informar melhor. Porque leva tudo para o lado pessoal e não consegue enxergar que é apenas um pinguinho em meio a um mundo inteiro em movimento. Que problemas diferentes podem estar interligados, ter começado há décadas, que soluções podem não depender de apenas uma vontade exclusiva. Que histórias não têm dois lados apenas. Mas inúmeras versões que precisam ser analisadas juntas, em um conjunto maior e olhando além daquilo que nos convém.

Então, sugiro que troquemos um pouco as discussões histéricas (incluídas aí as via redes sociais) por mais tempo em silêncio. Pra gente se ouvir. Pra gente descobrir o que de fato faz sentido pra nossa alma, nosso coração. Pra gente se blindar um pouco das influências que focam nas mudanças superficiais. Pra despertar transformações com base em princípios mais elevados e menos egoístas. Pra gente ser generoso com a visão do outro e pensar com carinho nela. Nada mais rico do que ter o desprendimento de saber prestar atenção ao que diz alguém diferente da gente.

Ah, sim… Eu só desconsidero opiniões defendidas com completo destempero e agressividade. Parto da ideia de que se alguém precisa agir de tal modo pra passar uma mensagem e espera calar a qualquer custo seu interlocutor é sinal de limitação severa. Não saber lidar com o diferente (opinião, estilo de vida) de forma respeitosa e aberto à compreensão só indica insegurança.

Há alguns anos eu medito todos os dias de manhã, mas só cinco minutinhos. Não é fácil, não… Sossegar a mente é um desafio e tanto, principalmente pra quem trabalha com a criatividade e o conhecimento. Mas é um dos meus objetivos para o ano que se aproxima: aumentar pra dez minutos a meditação e me concentrar no silêncio. E quando eu tiver dificuldade de me silenciar e levar essa quietação adiante no dia a dia, vou ler sempre o pensamento que deu início a esse texto. Que a riqueza do mergulho nos momentos de silêncio nos ajude. Nos torne mais tolerantes, leves e melhores.

Crédito da imagem: Brahma Kumaris

Tudo o que a rede social me diz sobre você

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Uma das acusações mais constantes ao Facebook é de que as pessoas montam seus perfis pra parecerem mais interessantes e de bem com o mundo do que realmente são. E não discordo. Fotos são sempre aquelas com uma melhorada no visual – que vai do “cool” ao “glam”. As imagens são de felicidade 24 horas. Muitas festas (mesmo que tenham sido um fracasso), viagens (mesmo que ainda faltem nove prestações a serem pagas), amigos (mesmo que alguns nem sejam tão próximos assim, mas dá volume na foto, né?), momentos fraternos com família (mesmo que o arranca rabo prevaleça a maior parte do tempo), pratos saborosos de autoria própria ou degustados num restaurante famosinho (do quilo ninguém tira!), comprovações do sucesso profissional (apesar do trabalho estar acabando com sua vida pessoal e ainda te pagar menos do que você merece). As frases edificantes pipocam na timeline. De esperança, de coragem, de amor, de amizade, de alegria, e por aí vai.

A questão é: nem tudo isso é falso. Pelo contrário. Exibicionismos e exageros à parte, acredito de verdade que um perfil numa rede social revela infinitamente mais sobre as pessoas do que elas seriam capazes de dizer e assumir de fato no cotidiano, por exemplo. Dá pra encontrar bondade, sinceridade, vontade de transformar a sociedade em algo melhor. Sarcasmo, bom humor, inteligência, perspicácia também estão lá. Por outro lado, o festival de futilidades, ignorâncias e egos que batem na lua chegam a impressionar. Gosto, especialmente, do povo que chora as pitangas, mostra fragilidade, numa espécie de pedido de colo virtual – prontamente atendido pelos amigos que curtem e fazem comentários de apoio. Acho uma troca fofa.

Em tempos de Brasil efervescente, quantos de nós não ficaram de queixo caído com comentários reacionários, violentos e preconceituosos de gente que a gente nem desconfiava? E que encontrou empatia e afinidade de ideias em pessoas que nem eram tão próximas assim? Uma frase aqui, uma notícia compartilhada ali, e é possível a alguém mais observador montar um quebra-cabeça revelador sobre o outro que mistura educação, gostos, vivências, crenças, comportamentos, preconceitos, caráter. Não tô dizendo que bom é aquele que concorda inteiramente comigo. Respeito profundamente quem tem uma opinião diversa da minha desde que não se trate de insultos, de tentativas de superioridade baseadas no que é diferente, de visões mesquinhas e cruéis focadas no bem-estar e benefício próprios em detrimento do sofrimento de muitos.

Mais do que uma vida perfeita, as pessoas acabam por mostrar quem realmente são, no melhor e no pior, encorajadas pela “segurança” que o estar por trás do computador permite. Dá tempo de se defender, por exemplo, de um comentário que rebate o seu. Dá tempo de pesquisar no Google! Fosse cara a cara, só monta rápido um argumento quem sabe de verdade do que está falando – e não porque vai na onda e se influencia por informação rasa.

No fim, quem deseja causar impacto montando um personagem em rede social, em algum momento, é traído por si mesmo. Não se engane. O Facebook diz muito sobre cada um de nós. Mais até do que a gente percebe. E é bom lembrar que até o silêncio absoluto é capaz de revelar muita coisa.

Nem sempre o discurso contempla a realidade

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O dito e o sentido. O que falamos e o que realmente gostaríamos de dizer. O ser humano tem uma mania estranha de dissimular as próprias palavras pra esconder suas fragilidades e seus defeitos. Você deve estar aí pensando: “Lógico, Suzane! Quem, numa sociedade na qual as aparências são tão simbólicas, vai admitir que não é tão forte assim, tão bem-sucedido assim, tão feliz assim?” Minha mãe sempre diz pra gente não se basear nas alegrias e conquistas alheias, não. Mais ainda em tempos de redes sociais. Porque a vida de ninguém é perfeita. Problema todo mundo tem. Alguns só disfarçam melhor e jogam uma tinta cor de rosa em cima das dúvidas pra deixar pra lá – só que uma hora o caldo entorna, é bom avisar.

Ontem eu participei de um seminário internacional sobre migrações, trabalho e cidadania. Em determinado momento das palestras, uma professora disse uma frase curiosa: “Nem sempre o discurso contempla a realidade”. Ela abordava a questão da xenofobia, citando uma pesquisa com a segunda geração de bolivianos que já nasceu aqui no Brasil. São os filhos dos imigrantes que, em sua maioria, vieram para São Paulo trabalhar em confecções, se rendendo a regimes escravos.

As crianças de família boliviana são hoje as principais vítimas de bullying nas escolas que frequentam. Muitas, criadas na língua espanhola, têm dificuldade para aprender o português. Seus costumes e mesmo aparência também são motivo de chacota, assim como a forma que seus pais ganham o sustento. Não se trata de um preconceito de classe. O patamar social dos alunos é semelhante. É pelo que o outro tem de diferente e pela condição de ter que se submeter a um trabalho “indigno” e explorador que é feita a distinção cruel.

Apesar do bullying sofrido pelos estudantes bolivianos, pais e alunos brasileiros que convivem com eles, ao serem entrevistados, não reconhecem em si traços xenófobos. Não se diziam nem um pouco preconceituosos. Apenas não queriam “misturar os filhos com gente que não se sabe direito de onde vem, o que faz, porque estão aqui”, como disse uma mãe entrevistada.

A pesquisa montou o cenário para levantar o debate de como a famosa simpatia do brasileiro pelo estrangeiro é mito. A história do receber de braços abertos é válida quando o imigrante é qualificado. Mas chutamos sem dó nem piedade, humilhamos (mesmo que apenas num olhar) e nos achamos infinitamente melhores do que os imigrantes que chegam para trabalhos menos qualificados. Não importa, inclusive, se a qualificação é similar. Então, nosso discurso de “olha como a gente é legal com gringo” só serve quando é um estrangeiro que confira algum status às nossa relações pessoais e profissionais. Da “escória” queremos distância. Mas claro, não verbalizamos isso. Pelo contrário. Nosso “discurso” nos transforma quase sempre em seres humanitários. Ele só não contempla a realidade.

O estudo com os pequenos bolivianos e nossas reações em relação aos imigrantes pobres serve de exemplo pra mostrar como somos dissimulados. Estamos sempre manipulando a nós mesmos (discursos, hábitos, escolhas) para parecermos demais. Até guardamos em segredo aquilo que achamos o correto (como não humilhar um imigrante) apenas para não sermos excluídos de grupos. Pesa a consciência. Mas não pesa o risco de deixar de pertencer a círculos sociais que julgamos adequados. Tem quem ache que vale a pena…

O discurso também não contempla a realidade nas nossas atuais relações pessoais e profissionais. Empresas dizem que todos os processos que estão sendo implantados são para dinamizar o ambiente de trabalho, oferecer um produto/serviço melhor a seus clientes e bla bla bla. A precarização do trabalho só transforma trabalhadores em pessoas sobrecarregadas e infelizes. O resultado é queda na qualidade do que chega às mãos dos consumidores. No amor, quanto não é comum a gente querer dizer uma coisa, ir lá e falar outra completamente oposta pra não dar o braço a torcer, por exemplo? Ou quantas vezes nos sabotamos, com medo do futuro, só pra mantermos o controle de uma situação? Ou melhor, imaginarmos que estamos mantendo o controle (porque a gente nunca tá).

O dito e o sentido. O que falamos e o que gostaríamos de dizer. Discursos há anos luz do que acontece concretamente – e internamente. Dissimulados. Manipulados. No fundo, na verdade, somos apenas uns coitados…

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

Modernidade e corações partidos

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Eu descia a rua perto da universidade onde faço mestrado um pouco mais lentamente do que o meu normal. Olhei breve para o alto e vi a lua cheia, entre nuvens. Meus olhos se encheram de lágrimas – de novo. Mais freio nos meus passos, freio que vinha da tristeza, de um questionamento interno sobre em que eu poderia ter errado, sobre em que poderiam ter errado comigo… Se eram erros de fato ou apenas ruídos breves que se instalam para a destruição necessária daquilo que será renovado depois, num sentido melhor. Se era o exagero das ilusões ou a intensidade da magia.

Meus devaneios e minha vergonhosa pena de mim mesma foram interrompidos por uma voz doce e surpresa: “Suzane, querida!”. Ao me virar pra trás, encontrei a professora de psicologia que tanto me ajudou em muitas reportagens que escrevi na última década sobre comportamento. Na correria diária, acabava falando com ela mais por telefone. Já não nos encontrávamos pessoalmente há uns quatro anos, por aí. Ela se hospedara num hotel perto da universidade, para uma palestra. Já não mora mais em São Paulo.

Diante da alegria do reencontro e de me questionar se eu estava bem, ao observar meu rosto choroso, a professora perguntou se eu já havia jantado. Disse que procurava um bistrô ali naquela rua. Eu sabia qual era. E entre voltar pra casa e ficar amuada e ter uma conversa interessante com alguém que já me ajudou tanto na vida e parecia querer companhia, fiquei com a segunda opção.

Falamos de tudo. Viagens, gastronomia, estudos, teses… Eu meio que me esquivava de falar de relacionamentos, especialidade dela. Não queria sentir que me aproveitava da situação para uma consulta gratuita! Mas foi inevitável. Com um pouco do que venho estudando em sociologia, relacionamos a ideia de efemeridade da modernidade, na qual as coisas perdem valor rápido demais, e como isso tem impacto e se reflete nas relações pessoais hoje. Lembrei logo da teoria de “sociedade líquida” do meu muso, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (já falei dele pra vocês aqui outras vezes). E nessa teoria ele inclui o “amor líquido”, indicando a fragilidade dos laços humanos. Conexões demais, poucos vínculos, desinteresse em superar as desavenças, basicamente. Como o smartphone de seis meses é facilmente descartado porque há outro no mercado super recente, o mesmo acontece com parcerias. Não há paciência para cultivar nada porque tudo é descartável. Inclusive pessoas.

A observação da minha amiga professora sobre uma história que contei a ela me ajudou a entender porque algumas situações tomam o rumo que tomam. Reproduzo aqui, entre aspas, porque acredito que muitos de vocês também já se viram em situação semelhante. E a fala dela jogou uma luz forte sobre meus pensamentos confusos. Talvez, jogue no de vocês:

“A tecnologia é uma das coisas mais incríveis que o ser humano inventou. Mas como tudo na vida, ele exagera no uso do que é positivo e acaba transformando em algo negativo. E, infelizmente, a tecnologia virou arma para relacionamentos duradouros. Qualquer mensagem do sexo oposto na página do Facebook do parceiro vira fonte de ciúmes, por exemplo. Mas pra mim, nada é pior do que discussões online. Seja por e-mail, mensagem de rede social, sms… Mensagens eletrônicas não demonstram sentimento, entonação de voz. Você não sabe se a pessoa está falando com você de forma doce ou ríspida. Se está brigando ou falando numa boa. Se está só triste ou puta da vida. Pra piorar, muitas vezes a mensagem nem chega por alguma falha no sistema. E vem a certeza no outro de estar sendo ignorado, desrespeitado, traído, deixado de lado. Entenda: não se discute relações por meios eletrônicos. Por maior que seja o desgaste, a decepção, a braveza e se queira urgência em respostas é pessoalmente que desentendimentos devem ser tratados. É necessário o esforço pelo encontro. Porque vem o olho no olho, o carinho na mão, a fala clara com compreensão, o abraço apertado, os pingos nos is com todos os lados, visões e sentimentos de ambos. Relação, seja no começo, no meio ou por décadas, só funciona por esse caminho.”

Depois do choque de realidade, alguns segundos pensativa e de entender que escolhi a pior opção pra tentar resolver uma situação, lá vieram as lágrimas de novo, brilhando contra a luz da velinha no centro da mesa, caindo na minha quiche de queijo brie, praticamente intocada (eu, que gosto tanto de comer, fico sem fome quando me sinto triste). E como quando a gente tá no inferno tem mais é que abraçar o capeta, resolvi perguntar mais uma zilhão de opiniões dela. Mais esclarecimentos, mais segundos pensativa. Antes de ir embora, resolvi perguntar se ela consegue realmente organizar sentimentos tão bem, se sempre foi assim. Mais aspas:

“Tive a sorte de conhecer meu marido quando não existiam redes sociais e internet (risos). Mas nossa história foi muito criticada. Porque eu o conheci, beijei, transei e fui morar junto com ele em duas semanas. Todo mundo dizia que daria errado. Estamos juntos há 22 anos. Temos nosso filho. Brigamos muito no começo, muito mesmo. Mas nunca fomos dormir brigados. Não tinha internet. Então, não discutíamos virtualmente. Só olhando pro outro, fosse com raiva, medo, tesão, paixão, aquela mistura de querer terminar mas sem no fundo querer. Mas tudo isso porque sempre foi um perto do outro. Nada substitui um abraço, mesmo que tenso, em que você consegue sentir a respiração e o coração dele batendo forte junto ao seu.”

De novo, meus segundos muda. Cheia de compreensão agora de tanta coisa. Não chorei mais. Minha pobre quiche já tinha lágrimas suficiente. Ela continuava praticamente intacta. Pedi para embrulhar, pra comer em casa – e engolir literalmente minhas lágrimas. Porque se não der pra decidir, seja o que for, olho no olho no presente, que fique de lição para o futuro.

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

Ao Facebook, com carinho…

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Olho as imagens do perfil de cada um. Estão quase todos lá. Eles, com quem aprendi junto a ler e a escrever. Com quem brinquei no pátio do colégio de freiras. Os meninos, sempre correndo. As meninas, pulando elástico ou cantando e batendo palmas no ritmo da canção. Olho de novo as fotos. Éramos fofos. Agora, estamos todos mais bonitos. Alguns, parecem bem descolados. Eu diria que o tempo nos fez bem.

As profissões são as mais diversas. Há quem tenha realizado sonhos de criança, como virar músico e atleta. Formaram família. São grandes mães e grandes pais. Orgulhosos, postam as fotos dos filhotinhos. É também pelas fotos que vejo as lindas noivas que foram algumas das minhas amigas mais queridas da época. Tem a turma que seguiu achando por bem sair conhecendo o mundo, independente, (acho que é nessa que me encaixo no momento). Infelizmente, há quem já tenha dito adeus aos próprios pais…

É graças ao Facebook que sei como eles estão, por onde andam. Uma amiga criou um grupo fechado na rede social para trocarmos informações e as clássicas imagens clicadas todos os anos, a cada ano, da turminha de cada série, com a professora (a tia!) ao lado. Tentamos marcar um encontro, que não deu certo… Mas tem cada vez mais gente no grupo. Outro encontro marcado. Acho que agora vai! Vinte anos depois… E há uma empolgação feliz e sincera nas mensagens que vamos respondendo uns aos outros para acertar o evento.

Quantas vezes as redes sociais já foram demonizadas? Eu mesma custei a entrar no Facebook, meio traumatizada com a exposição no Orkut, que tinha bem menos ferramentas de segurança para o compartilhamento de informações. Entrei no Face – e viciei. Devo checar/postar umas três, quatro vezes por dia. Não sou escrava da tecnologia. Não deixei de viver a vida real para me dedicar apenas à virtual, como algumas pessoas fazem. Mas acredito mesmo ser uma nova e interessante maneira que temos para nos comunicar. Para pedir ajuda. Para descobrir afinidades de ideias e valores. Pra viajar junto! Pra reivindicar, criticar, xingar se for preciso. Pra ver o quanto somos diferentes uns dos outros. E o quanto isso é rico. Tem muita besteira. Mas também tem muita “poesia”.

O que escrevo hoje pra vocês, aqui no blog, antes eu postava apenas no meu mural do Face. Chamou a atenção de um amigo, de outro, de um conhecido, as pessoas foram se identificando… Mostrando quantas vezes elas sentiam o mesmo que eu. Como, de alguma maneira, independente da distância e do tempo sem se ver, minhas palavras se tornavam suas palavras. Eram também o que elas gostariam de dizer. Quanto apoio eu recebi… “Continue escrevendo! Gostamos de como e o que você escreve!”, cada vez mais gente dizia. Fiquei toda corajosa. Acreditei em mim como escritora porque eles acreditaram – mais do que eu. Sem Facebook, talvez o blog não existisse e outros projetos não estivessem em gestação.

Não só encontrei amigos da época de escola (das duas que estudei). Achei os amigos do balé, da faculdade, do intercâmbio, de empresas por onde passei, de gente que foi importante no meu passado, que foi referência na minha vida. Consigo manter contato com pessoas tão queridas que estão longe do olhos, em outras cidades e países, mas perto do coração – e do teclado do meu Mac Book Air.

Não acho que é a tecnologia que distancia as pessoas. É como elas usam suas ferramentas. A tecnologia em si aproxima. Bom senso para não extrapolar é mais da personalidade de cada um. Ouvi/li críticas que dizem que nas redes sociais as pessoas meio que “inventam” uma vida ideal. Estão sempre demonstrando uma felicidade “fake”. Olha, pensa bem… Já não basta aquela zoada foto 3×4 da carteira de identidade/motorista que a gente é obrigado a carregar pra sempre? Por que a foto do meu perfil não pode ser bacana? E não concordo com a ideia de que é todo mundo feliz no Face, não. Quantas vezes descobri que uma amiga não estava muito legal por ter postado uma música com letra mais triste ou uma frase melancólica. Ou apaixonada… O que é que tem demais? Não quer saber, não lê! Passa batido, ué?

Como redes sociais são um novo formato de comunicação, acho natural que sentimentos, os mais diversos, sejam expressados, comunicados, ali. Se eu, que tenho dificuldade de pedir ajuda (lembram do post da semana passada?), não tivesse abordado no meu Face alguns momentos difíceis pelos quais passei, talvez eu não tivesse sido tão forte para enfrentá-los. Porque muita gente apareceu dizendo “tô aqui”, “vai dar certo”, “confia”. Fora aqueles que passaram a mão no telefone ou deram um jeito de me ver pessoalmente depois de lerem uma das minhas mensagens.

Pelo Facebook eu só posso ter carinho. Ele me ajuda a estar perto de quem quero bem, me diverte, me faz descobrir o que às vezes eu nem queria saber (mas que é melhor saber logo). O mais especial, porém, foi me fazer lembrar, com tantas recordações boas, da menina que eu fui um dia. E que, no fundo, mesmo escondida, eu ainda continuo sendo…

Crédito da imagem: TechTudo