Aquela boa e velha história de “faça sua parte”

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A sociedade anda uma vergonha, heim?! Um emaranhado de egoísmo, preconceito, ignorância e vaidade. Tudo aí, de bandeja e sem limites. Nas relações pessoais e profissionais. Nas falas de políticos que se aproveitam da insegurança para disseminação da cultura do medo e do ódio ao próximo. Na postura de quem só deseja salvar a própria pele, custe o que custar.

Sim, desde que o mundo é mundo a crueldade e suas vertentes existem. Não é novidade. Mas, uau, que tempos assustadores são esses em que com tanta informação à disposição para conhecer e refletir somos incapazes de nos colocarmos no lugar do outro, de exercer a empatia, de darmos as mãos para evoluirmos juntos?

Tem horas que fica difícil acreditar que ainda existam pessoas dispostas a criar e a impulsionar coisas boas. Mas existe! Ah, você pensou que esse seria um texto amargo, né? Não, não. Porque tem bastante gente em busca de dinâmicas mais saudáveis, generosas e que influenciem nossos dias de uma maneira positiva. Um pessoal empenhado em ajudar o outro a melhorar, a transformar realidades. Aquela boa e velha história de “fazer a sua parte”.

Vou dar dois exemplos recentes que conheci. O primeiro é o Migraflix (www.migraflix.com.br), uma plataforma de workshops culturais. Como diz o site dos caras, trata-se de um time formado por imigrantes, refugiados e brasileiros que “acredita em uma sociedade mais justa e inclusiva”, “que cada cultura é rica à sua maneira e que a troca de experiências é uma importante ferramenta de transformação.”

Basicamente, esse grupo de São Paulo teve a sacada de colocar imigrantes e refugiados para ministrarem cursos de gastronomia, arte e música de seus países. Os preços dos workshops são justos (entre R$ 70 e R$ 90), o público entra em contato com uma nova visão e aprende um assunto de seu interesse. Vai desde tango argentino até culinária síria, passando por caligrafia árabe e ritmos do Togo.

As aulas duram cerca de três horas. O valor é dividido em 80% para o imigrante-professor e 20% para manutenção do programa. É um projeto social sem fins lucrativos.

Outro grupo (do qual agora faço parte!) é o Toastmasters Brasil (www.brasiltoastmasters.com.br). Trata-se de uma organização educacional sem fins lucrativos da rede Toastmasters International, referência global em desenvolvimento de competências de liderança e comunicação, criada em 1924, na Califórnia, Estados Unidos. Atualmente, conta com mais de 332 mil membros no mundo e mais de 15 mil clubes em 135 países. Um poderoso networking.

Nesses quase cem anos, a Toastmasters International ajudou pessoas de várias origens a se tornarem confiantes diante de uma plateia. A missão da organização é empoderar as pessoas para se tornarem líderes e comunicadores mais efetivos.

Nas reuniões, que ocorrem a cada 15 dias, os participantes apresentam regularmente discursos pelos quais recebem feedbacks das lideranças dos clubes. A ideia é que os membros possam atingir seus objetivos em um ambiente que oferece apoio de maneira amigável e descontraída, focado na cooperação e, não, na simples competição.

Assim como o Migraflix, aqui há uma sacada: incentivar as pessoas a enfrentarem o medo de falar em público e de influenciar de maneira positiva o meio em que vivem, sem dizer a elas que precisam arrancar a cabeça de quem atravessar o caminho para vencerem, sobreviverem. Os valores do Toastmasters são: proatividade, comunicação, responsabilidade e alto padrão. Mas toda capacidade é tratada de uma maneira em que exista a colaboração.

Cada Toastmaster começa sua jornada com um discurso inicial. Durante as reuniões, aprende a contar suas histórias. Dá, recebe e aceita feedback. Além de se aprimorar, também faz novos amigos. Por ser uma organização sem fins lucrativos, a educação em liderança e comunicação da Toastmasters Brasil não cobra mensalidades. Apenas uma taxa semestral de valor infinitamente mais acessível (por volta de R$ 300) do que muito MBA que tem objetivo semelhante. Ao final de cada etapa são emitidos certificados.

Em tempos de desemprego em alta, necessidade de reciclagem e aperfeiçoamento profissional, é uma oportunidade interessante. Você pode visitar um dos clubes para conhecer como funcionam os encontros (no site estão os endereços e em breve novos serão abertos). Alguns são bilíngues (ótimo para treinar o inglês). E tem gente de vários países que estão no Brasil pelos mais diversos motivos! Ou seja, de quebra quem participa vive uma experiência de diversidade cultural.

Dois exemplos, cada um a sua maneira, provando que dá pra ser mais e melhor. Basta criatividade – e menos olhar para o próprio umbigo.

Crédito da imagem: site O Segredo

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Medalha de ouro para as vitórias da vida

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A gente não acreditava no que via. A apreensão deu lugar ao encantamento. Sim! A festa de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016 estava deslumbrante, emocionante e carregada de simbolismos. Mostrava, com elegância, alegria e colorido, o nosso melhor. Pedia união, paz e consciência – tão urgentes em dias de ódio gratuito em escala assustadora, preconceitos estúpidos, gente se achando cheia de razão e vindo à tona o pior do ser humano.

Fizemos bonito, então.
Pirei naquela pira olímpica de encher os olhos!

Rolou um alívio geral ao não nos vermos duramente criticados mais uma vez pelo mundo. Não que as razões não existam… São muitas. Mas a gente tava precisando desse afago aos olhos do planeta, vai? Nossa autoestima andava lá no pé, arrastada mesmo, envergonhada pelos nossos problemas socioeconômicos, políticos, as sempre gritantes diferenças sociais. E ainda as guerras de braços pela internet afora – nos lembrando que a ignorância e o desrespeito ao outro pode ir mais longe do que se imagina.

Foi lindo o show. Vão se provando lindos os jogos, marcados por histórias de superação inspiradoras. Muitas dando aquele tapa na cara de quem um dia achou graça em humilhar alguém. Enquanto escrevo esse texto, a judoca brasileira Rafaela Silva, 24 anos, comemora sua medalha de ouro, a primeira do Brasil. Em 2012, a atleta, que enfrentou a pobreza na infância, foi alvo de racismo e críticas após ser eliminada da Olimpíada de Londres.

E tem também quem é capaz de carregar medalha de ouro na categoria melhor ser humano. Na Olimpíada que traz a primeira delegação de refugiados, a história de uma menina de 18 anos aperta o coração. Antes de chegar aos jogos, a jovem nadadora síria Yusra Mardini nadou nas águas geladas do Mediterrâneo para não só salvar a própria vida, mas também a de outras 20 pessoas.

No ano passado, quando fazia a travessia por mar para chegar à ilha grega de Lesbos e fugir da guerra, seu barco começou a afundar em meio ao trajeto. Ela e sua irmã, que também sabia nadar, pularam no oceano e empurraram o barco com os refugiados durante três horas e meia até chegar em terra firme.

Vitórias sobre os obstáculos impostos pela realidade. Mas pode chamar de lugar mais alto no pódio da vida.

Crédito da imagem: Rio 2016

Contra tempos sombrios

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Choque e sensação de impotência. Experimentamos sentimentos perturbadores diante das imagens dos atentados em Paris. Não foi a primeira vez. Já acompanhamos a dor de um 11 de Setembro. Choca porque é a cidade dos sonhos, de quem já viajou muito, de quem ainda quer viajar. O cenário da lua de mel, do amor. E da bandeira Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Nunca se imaginou que a ousadia – e a articulação “competente” – dos terroristas nos traria de volta a um mundo em que as Torres Gêmeas viravam pó. Em que inocentes morrem. Em que governos, no fim, se mostram absolutamente rendidos a uma insanidade perigosa que ainda carrega o mau-caratismo de falar em nome de um deus.

Choca porque agora ficou evidente que o terror está cada vez mais próximo. Que é guerra, sim. A terceira mundial, que só não foi assim nomeada por governantes por falta de coragem em admitir. Contra indivíduos que não se importam nem um pouco em darem a vida pelo que acreditam ser uma causa.

Uma guerra que tem na internet uma das principais e mais poderosas armas. Tanto para mobilizar atentados, quanto para mostrar em escala global o sofrimento que impõem, as gargantas que cortam, as mulheres que escravizam, as crianças que matam.

Mas que ninguém se engane. O terrorismo está entre nós faz tempo, por mais que a gente não dê muita atenção às centenas de milhares de mortes que ocorrem em outros países. Por mais que a gente não queira enxergar. Por exemplo, passam quase despercebidas notícias como os cerca de 2 mil mortos na Nigéria, de janeiro a novembro desse ano, vítimas do grupo radical islâmico Boko Haram.

Na quinta anterior ao atentado em Paris, a capital do Líbano, Beirute, também foi alvo do mesmo Estado Islâmico (EI) que atacou na França. Mais de 40 pessoas morreram. O número de feridos foi além de duas centenas. A mesma organização matou recentemente cem pessoas na Turquia durante uma manifestação pacífica. No Kuwait, dezenas de inocentes foram assassinados por uma explosão no momento em que rezavam numa mesquita.

Alguns exemplos de muitos cuja chamada no site de notícias ou na TV batemos os olhos rapidamente e nunca acreditamos que se torne uma realidade a enfrentar.

E é bom que se diga: os sírios são tão vítimas do terrorismo do EI quanto foram os franceses.

E é essencial que se ressalte: o EI é financiado pelos dólares que vêm do petróleo e também financiam a indústria bélica do Ocidente.

E é fundamental que não se esqueça: refugiados e seguidores do Islã não são terroristas prontos a atacar.

Que não se tire o direito de alguém professar sua fé. Que não se tire o direito de famílias inteiras recomeçarem a vida após expulsas pela violência de suas próprias terras.

O terror nasce da loucura, da ganância e da intolerância de alguns. Não de povos inteiros. Não de uma religião.

São tempos sombrios. Onde há também crimes urbanos que nos cercam; negligências deixam um rastro de destruição como as de Mariana; atiradores atacando dentro de escolas; “gritarias”, ofensas, vaidades vazias e perigosas e uma legião de portadores da síndrome do pequeno poder nas redes sociais.

Vamos mal. Podemos melhorar. A começar por nosso cotidiano, pela maneira como tratamos os demais, como nos colocamos no lugar do outro. Compreensão. Disposição em ouvir. Não atacar. Lembrar que a verdade pode ser elástica no sentido de que as pessoas vivem realidades distintas, foram criadas de maneiras diferentes, enfrentam lutas diárias que até podem ser similares, mas são enfrentadas e digeridas de acordo com o histórico de cada um.

Tolerância. Paz. Amor. Desapego do excesso de certezas. São caminhos para que a gente vá além das meras acusações e sejamos capazes de nos transformar.

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O que é Estado Islâmico:
http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/11/1706936-estado-islamico-nasceu-em-1999-e-cresceu-com-guerras-no-iraque-e-siria.shtml