Sarajevo, 21h29

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Meu amado amigo Gabo tomou coragem de fazer o que muita gente só sonha: colocou o pé na estrada desde o começo do ano. Na Europa, ele mora alguns meses num país, depois muda pra outro. Agora está em Londres, Inglaterra. Trabalha. É jornalista freelancer. Vai escrevendo reportagens e oferecendo para empresas aqui no Brasil. Enquanto isso, também visita lugares incríveis. E instigando e alegrando os amigos que acompanham seus posts e fotos via redes sociais. Eu incluída.

Não só destemido, Gabo também é inteligente e sensível. Sabe reconhecer boas histórias, ampliar suas percepções além do simples turismo. Além do nosso mundinho. Me emocionou com o texto a seguir. Uma conversa com uma moça de Saravejo, na Bósnia. O país passou por uma devastadora guerra civil logo ali, nos ano 90. A segunda vez que li o texto de Gabo, resolvi ouvir uma música bonita – mas triste. É “Miss Saravejo”, do U2, nessa versão com o tenor Luciano Pavarotti: https://www.youtube.com/watch?v=TNYX9Z74RoA. Vale a letra.

A Bósnia é um lugar que está na minha lista de países a conhecer. Acho importante ver de perto locais onde grandes tristezas aconteceram… Tenho a impressão que nos dá um pouco mais de compreensão até sobre nossas dores. Nos dá a certeza que mais do que parte de nações, somos parte de algo bem maior. Um algo bem maior que precisa ser respeitado, apreciado, entendido. Ajudado. Acredito mais em humanidade do que em patriotismos. Acredito que existem pessoas boas e de caráter em qualquer lugar, independentemente da cultura. O contrário também é verdade, infelizmente.

Os problemas, o sofrimento, ultrapassam fronteiras. Todos temos nossas lutas. Seja onde for. Não estou querendo “esquecer” nossas mazelas sociais, econômicas, políticas. Pelo contrário. Elas nunca saem da minha cabeça, do meu debate. Mas é bom a gente conseguir reconhecer realidades duras diversas. Até pra brigar melhor pelo que precisamos transformar no nosso quintal. Pra nunca deixar correr solto a ponto de se tornar algo, por exemplo, como uma guerra sangrenta.

Gabo, querido que só ele, me fez recordar em seu texto “Saravejo, 21h29” meu maior apreço por humanidade do que nacionalidades.

*****

Saravejo, 21h29

Por José Gabriel Navarro

— É 1 marco pra usar o banheiro.

Eu já ia entrando, procurando uma tomada. Parei.

— É 1 marco ou 5 kunas.

Eu só tinha 35 centavos de marco e uma nota de 50 kunas. Ela não tinha troco.

— Olha, vou ser honesto contigo, falei, pondo a carteira de volta na mochila, Preciso na verdade de uma tomada, recarregar meu celular. Sabe onde encontro uma?

Ela se demorou um pouco pensando e me disse que podia recarregar na cabine dela, mas ía embora dali a meia hora, quando a rodoviária fecha.

— Tá ótimo, eu vou partir às 22h também, só preciso recarregar o quanto der. Muito, muito obrigado!

— Imagina. De onde você é?

— Brasil, mas…

— Ohh, o Brasil…

— … Mas to morando por umas semanas em Zagreb.

— Estudando?

— Não, eu trabalho via internet, então viajo o tempo todo.

Ela soltou um “Ahhh…” e pegou de volta a vassoura.

— Eu nunca viajo. Assim, pela Europa. Só países da antiga Iugoslávia… A situação aqui é muito difícil, ela parou de limpar e pôs o cabo da vassoura sob as mãos, apoiando a cabeça sobre elas, Eu penso que no Brasil as pessoas têm um padrão de vida melhor.

Eu não fazia ideia de quê dizer. Vomitar dados sobre desigualdade, redistribuição de renda, PIBinho, “voo de galinha”, “besouro”, elite industrial pouco inovadora? Ela voltou a limpar e disse, olhando pra baixo:

— A gente teve a guerra e o desemprego é tão grande… Este é meu “outro” emprego. Eu tava num projeto de pesquisa, durou duas semanas, trabalhávamos umas 15 horas por dia, e não nos pagaram o que prometeram.

Eu estava oficialmente triste. Me sentindo um burguesinho de merda, o que talvez eu venha a ser. Quase 10 da noite, ela me perguntando sobre o Brasil, eu tentando explicar um país inexplicável e tentando, a partir do que ela dizia, entender a realidade igualmente indecifrável da Bósnia.

Ela falava rindo. Um riso nervoso. Um riso que dói. Ela tem 36 anos, nasceu e cresceu em Sarajevo, fez três semestres de Direito. “Mas parei, era muito difícil pra mim, hahaha”, ela falou dando outra gargalhada fatal.

— Mas as coisas estão melhorando, não?

Como eu sou ridículo. Falei aquilo só pra me convencer de que estavam. Que imbecil.

Ela já leu um livro sobre um bósnio que viveu em São Paulo e minha nova obsessão vai ser descobrir que obra é essa. Não perguntei o nome da faxineira. Julguei que seria o cúmulo do meu descaramento ali, naquela situação. Tudo que eu falava parecia errado demais ou ingênuo demais. Nos despedimos com um forte aperto de mão. (As pessoas em Sarajevo são muito simpáticas). Enquanto balançávamos os pulsos, a vi sorrir nervosamente pela última vez.

Algumas conversas são socos no estômago. Esta foi um nocaute.

Crédito da imagem: José Gabriel Navarro (Saravejo, Bósnia)

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Música pra inspirar e embalar nossa história

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Acho que não conheço ninguém nesse mundo que não goste de música. Eu adoro. É incrível como ela é capaz de mudar meu estado de espírito em questão de segundos. Sou daquelas que, quando conheço uma música nova, a ouço repetidas vezes, uma atrás da outra. É o que tem acontecido desde ontem com “The Ligthning Strike” (algo como “o ataque relâmpago”), da banda irlandesa Snow Patrol. Na verdade, nesse caso, não é apenas uma música. “The Ligthning” se divide em três partes (estou ouvindo agora, inclusive, pra escrever pra vocês).

A primeira parte, “What If This Storm Ends?” (“e se esta tempestade termina?”) não podia ter vindo parar no meu laptop em momento mais significativo (http://www.youtube.com/watch?annotation_id=annotation_597848&feature=iv&src_vid=cHl6dLaUAjk&v=Ml-swexTzEQ). Não sei se é meu inferno astral que se aproxima. Ou porque muita coisa do meu passado veio bater na minha porta no último mês. Se é reflexo de um inevitável balanço do último ano feito esses dias. Ou se é por começar pela primeira vez um ano cheia de dúvidas como nunca: tomei as decisões certas até aqui?

Mas “What If This Storm Ends?” me fez pensar na minha tempestade particular recente. E me perguntar: e se ela não acabar? Na real, a letra da música tem uma pegada romântica. Muitas frases, porém, mesmo que de forma desconexa do restante, estão batendo aqui na minha cabeça. Se minha tempestade particular não acabar logo como eu previa, o que vou fazer?

A parte dois é “The Sun Light Through the Flags” (algo como “a luz do sol através da bandeira”), que serviu quase como um alento a minha angústia com a frase “por que você não descansa seus ossos frágeis?” (“why don’t you rest your fragile bones?”). Talvez eu ainda não tenha muito o que fazer mesmo… E posso descansar enquanto algumas coisas que não dependem só de mim se resolvem (http://www.youtube.com/watch?annotation_id=annotation_267987&feature=iv&src_vid=Ml-swexTzEQ&v=cHl6dLaUAjk).

A última parte (linda, por sinal) é “Daybreak” (que significa “madrugada”). A frase “e em meio ao dilúvio eu senti meu valor” (“and in the middle of the flood I felt my worth”) é o que eu busco sentir agora… Meu valor em meio a minha tempestade particular… (http://www.youtube.com/watch?annotation_id=annotation_945590&feature=iv&src_vid=cHl6dLaUAjk&v=7crkx40sr8k).

Música inspira. Eu sempre ouço música antes de escrever. Dependendo do texto, também durante. Mas aí, geralmente, escolho algo só instrumental porque me distraio muito com a letra. Trilhas sonoras de filmes têm minha preferência. Uma delas é a trilha de “As Horas” (espere os primeiros dois minutos para ‘embarcar’ na música – http://www.youtube.com/watch?v=e-vrNaIWPZQ). Outra é do filme “O Ilusionista” (http://www.youtube.com/watch?v=9TBUbzKAlTY). Ambas são do compositor americano Philip Glass.

E quantas do U2 já embalaram as histórias da minha vida? A primeira vez que a voz de Bono me chamou a atenção foi com o tema do filme “Em Nome do Pai” (com o sempre incrível ator Daniel Day-Lewis e que me marcou muito – um dia explico). “In the name of the father” (http://www.youtube.com/watch?v=LP2-hfe6VnI) é forte, daquelas canções que te fazem criar coragem pra tomar decisões, lutar por algo. Daí em diante, virei uma U2maníaca.

Tem música que se torna difícil de ouvir, trazendo lembranças tristes… Até hoje tenho dificuldade de escutar “Streets of Philadelphia”, de Bruce Springsteen (http://www.youtube.com/watch?v=4z2DtNW79sQ). Era ela que eu ouvia quando me avisaram que meu padrinho tinha falecido, depois de dias no hospital… Só há pouco tempo parei pra acompanhar a canção até o fim. Deve demorar pra eu fazer isso de novo. Ou nem vou fazer.

Por outro lado, tem aquelas músicas que te jogam quase que instantaneamente em horas felizes. Como não lembrar das minhas amigas de faculdade com “Dancing Queen”, do Abba (http://www.youtube.com/watch?v=y62OlGvC-bk)? Era a que a gente sempre escolhia pra cantarmos juntas no karaokê. E qualquer coisa dançante de Madonna e Michael Jackson vai me lembrar festas divertidas, cenas impagáveis e me fazer sair dançando pelo kinder apê toda animada!

Acredito mesmo que música no nosso cotidiano é tão fundamental quanto dormir e comer. Porque, não importa o estilo, música alimenta a alma, emociona, acalenta nossa tristeza, deixa a gente esperançoso com letras que dizem exatamente aquilo que estamos sentido. Ela sempre trará um pouquinho de magia para os nosso dias. E em meio a tantas tempestades, às vezes é justamente essa mágica ritmada que nos salva…

Crédito da imagem: Cultura Inquieta