Com os olhos da alma

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Minhas mãos seguravam o topo do chapéu de aba vermelho. Foi a manhã que mais ventou. E era a última de dias bonitos na bela Maragogi, em Alagoas. 30 de dezembro. Com o biquíni azul, meu preferido e mais velhinho (certeza que será o último verão dele…), caminhei pela praia até chegar no encontro do mar e do rio. As águas brilhavam com o sol batendo ali. Eu admirava aquele instante perfeito em pé no banco de areia que se formou. Não tirei foto. Guardei a imagem com os olhos da alma.

Olhar com a alma é sentir de verdade. É processar nossas verdades. É lembrar o que a gente quer de verdade. Em tempos em que olhamos tanto, tanta coisa ao nosso redor, e enxergamos com o coração tão pouco, que privilégio foi parar por longos minutos nas águas do rio e do mar no meu tornozelo, me dando a chance de pensar, repensar, reconsiderar. De agradecer, até pelos desafios e decepções que ensinam muito e mostram para onde rumar. De evocar desejos, sonhos e conquistas esperadas para o novo que logo iria chegar.

Quando a gente olha com a alma, somos capazes de sermos gratos e felizes com a realidade que só consideramos dura. Entendemos as pequenas alegrias como grandes. As pequenas vitórias como enormes troféus. Paramos de nos preocupar em achar que nunca tá bom. Nem o trabalho que temos, nem o curso que fazemos, nem a pessoa com quem nos casamos, nem a roupa que compramos, nem o destino de viagem escolhido, e assim vai. Sempre pra baixo.

Os olhos da alma ensinam que você é especial, não precisa se comparar com ninguém, não precisa entrar no jogo de ninguém pra se sentir aprovado e/ou querido. Quem é capaz de enxergar além das aparências, do status, das ilusões, das exigências de perfeições é tão mais pleno.

Nesse 2016 espero, sim, que você transforme tudo aquilo que não mais te faz feliz. Que você seja capaz de desapegar do que não serve mais, abra portas, amplie horizontes. Que busque o que te energiza, e não o que desvitaliza. Mas também tenha a sabedoria de conservar com doçura os presentes que a vida já te deu – e que na cegueira cotidiana de quem nunca se vê satisfeito com nada, é incapaz de valorizar.

Enxergue de verdade, com os olhos da alma. E então, seus dias vão se transformar.

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A rotina, seu valor, seus pequenos prazeres

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Dia desses eu escrevi aqui num dos posts que nos últimos três anos minha vida passou por incessantes mudanças – tensas, intensas e variadas. Sempre fui mais a favor da transformação constante do que da rotina, cuja ideia me parecia um tanto antiquada pra quem é curioso e quer ver o que mais o mundo tem pra oferecer. Mas desde o ano passado compreendi melhor como a rotina pode ser de grande valor. Não significa se acomodar. É disciplinar com alguma sabedoria as exigências do cotidiano justamente pra ganhar mais horas de descanso, lazer, diversão, estar entre os queridos.

No geral, eu sempre fui organizada, só que mais preocupada em finalizar as obrigações e aí encaixar no que “sobrava” o lado bom. Não deixava de fazer nada, nem o dever e nem a farra. Mas pra dar conta de tudo tinha que viver como ligada numa tomada. E um dia a saúde, física e emocional, cobra o preço. Aproveitei o empurrão que enfrentei quando o jornal que eu trabalhava fechou as portas pra tirar uns meses só viajando, estudando e passando mais tempo com família e amigos. Aprendi que muitas vezes o suficiente já tá ótimo e perfeição é um dos maiores mitos da humanidade. A gente vai falhar, sabe? E tudo bem.

Com mais tempo pra mim, “reprogramei” minha rotina. Avaliei os hábitos que deveriam permanecer e os que deveriam finalmente partir. Incluí pequenos prazeres diários. Volta e meia a danada da culpa aparecia – porque eu não estava sendo “produtiva” como sempre fui. Ela ainda me assombra eventualmente. Mais na TPM! Hormônios… Mas já não tem a força de antes, não. E por que eu tô aqui brindando o “slow life” ao qual me dei direito? Porque uma hora a agenda cheia de compromissos retorna. Ela voltou desde março. E lá fui eu criar uma nova rotina. Agora, porém, consigo com muita tranquilidade equilibrar trabalho e hedonismo.

Em tempos influenciados pela rapidez da tecnologia e da modernidade, que acabam influenciando também nossos comportamentos, minha decisão é um desafio. Causa algum estranhamento pra parte das pessoas dizer que paro tudo o que tô fazendo no final da tarde pra ver o sol se pôr aqui da janela, por exemplo. Hoje, trabalho de casa – e há quem considere a falta de vínculo com uma empresa específica (e até o estresse) um retrocesso profissional. Eu nunca acreditei que a rotina de bater cartão e ter mesa num lugar faria de mim uma jornalista mais ou menos competente. Liberdade.

“Home office” é uma tendência, especialmente em metrópoles como São Paulo, onde existem sérios problemas de mobilidade, trânsito, transporte público deficiente. E justamente por enfrentar menos vezes na semana os complexos deslocamentos pela cidade, dá pra ser eficiente com o trabalho em menos horas e preencher muitas outras com o que a gente gosta. A tal qualidade de vida. Claro, como a única certeza da nossa existência é a mudança, as coisas podem… mudar. Mas enquanto isso não acontece, vou curtindo minha rotina mais leve e feliz depois de anos mergulhada numa eterna ansiedade. Quando a transformação chegar novamente será recebida por uma Suzane mais em paz com sua história. Espero que você também consiga se sentir um dia assim. Como diz uma frase que li recentemente: “De reviravolta em reviravolta a alma chega a um destino interessante”.

Crédito da imagem: CSV

O poder do dinheiro (para o bem e para o mal)

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Dinheiro é bom. Acho que ninguém em sã consciência consegue negar isso. A história de que dinheiro não traz felicidade é beeem relativa. Porque grana te dá sim tranquilidade, segurança, conforto, ajuda a realizar sonhos. E a gente percebe mais ainda todas as vantagens quando a conta oscila mais do que gangorra em parquinho de criança. É verdade que não é o dinheiro sozinho que te permite experimentar a serenidade, o companheirismo, a amizade sincera, o grande amor, uma conquista pessoal bacana, entre outras coisas incríveis que estão aí no nosso caminho. Quando, no entanto, a vida financeira tá sussa é uma preocupação a menos e tempo a mais pra focar energia naquilo que não tem preço – mas valor. Ou pelo menos deveria ser assim…

O problema do dinheiro na nossa sociedade é ter se transformado numa arma pra triste mania de status e para o preocupante consumo desenfreado. Veja, nada de errado em ser bem recompensado pelo trabalho que se desenvolve e muito menos usufruir do jeito que quiser do dinheiro que você ganha porque merece. O que me deixa meio abismada é a quantidade de pessoas que a cada dia estão mais interessadas em serem reconhecidas por aquilo que elas têm do que por aquilo que elas são. Você pode dizer “ah, Suzane, mas esse discurso é antigo”. Tem razão. E justamente por ser antigo já deveria ter melhorado muito! Já deveria ter entrado na cabeça de todos nós que não é o carro que você dirige, o restaurante que você frequenta, a viagem para o destino exótico, o celular que quase diz que te ama, nem a roupa de grife que faz de alguém um ser humano decente.

Fico sinceramente feliz em perceber quanto nos últimos cinco anos o brasileiro teve a oportunidade de aproveitar uma economia estável (agora nem tanto) pra realizar o sonho da casa própria, de poder viajar, de conhecer mais de gastronomia, frequentar mais o cinema, o teatro, equipar a casa com móveis e eletrodomésticos que facilitem o cotidiano, se dar um presente, estudar… Mas na hora que o consumo vira um “quem pode mais é porque tem” ele perde todo seu lado positivo.

Então, você me pergunta também: “Mas Suzane, não sempre foi assim? Quem tem dinheiro pode mais, faz o que quer, age como quer?” Sim, você tem de novo razão. Historicamente, o poder financeiro permitiu a muitos acreditarem terem aval pra agirem com superioridade, arrogância e exploração. Mas por que a gente vai reproduzir o pior? Por vingança do dia que nos trataram assim? Não me parece muito esperto, não. É desgastante e angustiante demais a eterna luta pra ver quem é melhor seja lá no que for – porque no fundo essa luta é travada internamente. Não é o outro que tem mais. É algo dentro de você que te leva a acreditar que tem menos (e que te diminui como pessoa). Aí é uma urgente necessidade de autoconhecimento, de buscar ajuda pra compreender porque esse sentimento tá presente.

Conversando com duas amigas do mestrado dia desses descobri dois exemplos quase inacreditáveis do quanto o desespero pelo consumo chega a cegar as pessoas. Uma delas esteve recentemente numa cidade no interior do Pará, lá onde o mapa faz curva, bem longe. Numa cidadezinha que nem tinha rede de internet, todo mundo era dono de smartphone!! Os moradores usam o celular mais avançado pra despertador, por exemplo, e pra mostrar que têm um iPhone. Gente, para.

Outra colega, que estuda justamente o consumo na classe C, já se deparou com pesquisas nas quais os entrevistados se dizem muito satisfeitos com a tevê de tela plana, a bolsa de grife, o (de novo!) smartphone de ultimíssima geração, e tudo que andaram comprando recentemente. Mas convivem com esgoto a céu aberto na porta de casa e sofrem num transporte público precário diariamente. Acreditam serem incluídas na sociedade graças ao que consomem. Não percebem, porém, que aquilo que realmente melhoraria consideravelmente a vida delas está longe de ter solução.

De novo, gente, dinheiro é bom e a gente gosta. Ele permeia todas as nossa relações pessoais, inclusive – familiares, de trabalho, de amizade, a dois. E, por isso, grana tem que ser um detalhe, não o foco. Tem que ser usada com equilíbrio, não pra causar discórdia e disputa. Não pode ser mais importante do que nossos relacionamentos e nem ser aquilo que nos destaca no mundo. Eu desejo profundamente ter mais dinheiro nos próximos meses, sim (e eu vou ter). Mas espero que ele só me deixe mais tranquila diante do cotidiano. Nunca faça de mim alguém mais ou menos interessante pra alguém.

Crédito da imagem: Cultura Inquieta

Vida, uma desequilibrada (ou como os dias melhores sempre voltam)

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Em outubro do ano passado montei pela segunda vez uma exposição de fotos minhas. Não sou fotógrafa profissional, não. Mas gosto de dar minhas clicadas por aí e tem coisa (modéstia a parte) que fica bem legal. O nome da mostra era “Me Conte a História Que Você Vê”. Ao lado de cada imagem deixei um bloquinho com caneta pra quem quisesse escrever quais sensações os retratos despertavam. Eram fotos de lugares em Amsterdã e Paris. Não dos locais turísticos, especificamente. De cenas cotidianas, com pessoas em situações corriqueiras, paisagens vistas de ângulos inusitados. Muitas das mensagens deixadas – curiosamente – desejavam dias melhores, superação de adversidades, força para suportar as horas complicadas… E amor, em suas diferentes formas e acima de tudo, como a resposta pra quando nada mais parecesse dar certo.

Uma das mensagens era apenas “stay strong”, algo como “fique firme”, “seja forte”. O público, ao contrário da primeira exposição, não era de gente conhecida minha. Nem sabia o que acontecia na minha vida naquele momento… Intuição coletiva, talvez…

Os três meses anteriores a outubro foram conturbados. Passei por situações bem difíceis. Vi pessoas que eu amo sofrendo. Perdi a compostura pra fazer burocracias funcionarem. Minha saúde precisava de atenção. Acompanhei a tristeza de grandes amigos. E, nisso tudo, eu ainda tinha que lidar com uma busca essencial: a de encontrar o meu lugar no mundo. De questionar o que tinha valido a pena até ali e o que deveria ser deixado pra trás. O que eu perdi e o que ganhei nos últimos tempos. O que eu desejaria pra mim dali em diante. E olha… esse processo pode ser uma piração. Sua autoestima vacila. Seu amor próprio oscila. Suas certezas descem ladeira abaixo.

Me senti sozinha não porque estava sozinha. Mas porque só a solidão me esclareceria uma série de dúvidas. Não tinha como fugir dela. Eu precisava tomar decisões por minha conta e risco – inclusive pelos outros. Era o ápice de uma fase na qual, independentemente do lugar em que eu pisasse ao meu redor, eu poderia afundar e bater no fundo do poço. Parecia que nada teria saída. Ou pelo menos uma saída simples.

Aquele dia de outubro foi marcante, no entanto, não só pela exposição e pelas mensagens que me emocionaram – como se tivessem sido escritas diretamente pra mim. Mas porque reencontrei seis pessoas muito amigas. Sabe aquelas que te adoram do jeito que você é e te admiram? Que você sabe que torcem por você, te desejam o melhor com o sentimento mais sincero? Os problemas não tinham acabado. Estavam no meio, no desenrolar. Mas me sentir querida e acolhida por afeto despretensioso me ajudou a compreender que os dias melhores sempre voltam. É possível se sentir em paz novamente mesmo que ainda exista muito a resolver. Mesmo que a vida pareça em seu mais completo desequilíbrio. O segredo é se cercar de gente que conhece seu valor – e sabe que ele é enorme.

Na real, a vida é uma desequilibrada. A gente que acha que vai conseguir deixar tudo perfeitinho. Vai nada! É assim: quando arruma de um lado, desarruma do outro. Quando uma coisa se resolve, outra se complica. Chega uma felicidade e vem outra rasteira na sequência. E aí, quando a danada parecia ganhar o tal equilíbrio… Rá! Ela desandou. Machucou. Chocou por provar, mais uma vez, que adora te pregar uma peça e te fazer de palhaço – é só pra te deixar esperto e não deixar você esquecer o seu valor (e nem vender ele barato).

Porque sim, os dias melhores sempre voltam de verdade! Ontem foi desses dias. Com gente de boa vibe que me ajudou a esquecer o eterno sobe e desce do cotidiano. Os dias melhores não são garantidos. Eles podem, porém, serem prolongados. Basta aprendermos a enxergar certas experiências com distanciamento. Depende apenas da dimensão que a gente dá para nossas tempestades pessoais. No fundo, boa parte delas, é só um vento mais forte – e que logo volta a ser brisa.

Crédito da imagem: Photography

Uma perda de identidade coletiva

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A primeira disciplina que frequentei no mestrado foi Fundamentos de Sociologia, indispensável para quem não vem da área de ciências sociais (minha formação é em comunicação). Em Fundamentos aprendi mais sobre as teorias dos fundadores da sociologia, os considerados clássicos: o francês Émile Durkheim e os alemães Max Weber, Karl Marx e Friedrich Engels. Apesar de minha maior empatia com os ideais de Weber (que um dia explico aqui pra vocês), é inegável que o contato com as teses marxistas são essenciais e fascinantes pra quem deseja compreender a sociedade. Mesmo que muito do que ele tenha escrito já seja revisto e complementado por novos cenários da contemporaneidade. Marx foi pioneiro ao descrever a situação dos trabalhadores na Inglaterra – e mostrou o quanto o mundo do trabalho poderia ser cruel e injusto com a predominância da exploração de uns em detrimento do enriquecimento de outros.

Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que acredito profundamente que aqueles que se esforçam no trabalho, dão duro, fazem a diferença, são criativos, determinados, inovadores e dispostos a realizar o melhor merecem sim usufruir de seu empenho. Merecem sim ganhar mais que aqueles que trabalham sem vontade, são encostados, só fazem mais do mesmo e têm no bater ponto a preocupação exclusiva. Merecem abrir seus próprios negócios e prosperarem muito. Isso não significa que empresas tenham o direito de tratar seres humanos como apenas mais um número, mais um mero detalhe de um processo macro.

Ninguém é inocente de achar que o desejo principal de um empresário não seria o lucro. E seu desejo é legítimo. Mas será mesmo que ele pode sugar a vida de seus colaboradores para não mexer em seus ganhos? Se aproveitar daqueles que são apaixonados pelo que fazem para os encarcerarem 12, 14 horas por dia, ou além, dando a eles a falsa ideia de que são tão bons e por isso só ganham mais e mais responsabilidades – quando na real o objetivo é fazer o sujeito acumular tarefas para não contratar mais funcionários e, assim, manter de forma equilibrada a divisão das atividades? Quão ordinária não é a inversão de um jogo que justifica para um profissional que a perda de sua qualidade de vida está diretamente ligada ao seu sucesso?

Esse é o drama de quem permanece numa companhia depois de muitas demissões. Ele sobrevive aos cortes. Mas se for minimamente sensível passa a se perguntar: por quê? O profissional que não entra no facão fica confuso sobre seu valor. Arrasado ao ver colegas indo embora. Aliviado por manter seu ganha pão. Acuado com a impossibilidade de não mais poder questionar, debater e exigir melhores condições de trabalho. Sua identidade é esfacelada. Porque a profissão é sempre parte da imagem que projetamos no mundo. Quando, porém, viramos reféns da oscilação (e queda) da área que escolhemos, quem somos nós?

A perda de identidade é coletiva. Atinge os que permanecem na empresa, sem saber o dia de amanhã. Atinge os que foram expulsos dos quadros de empregados, sem saber quando e se uma nova colocação será possível. Em profissões como jornalismo, que enfrenta uma de suas maiores crises, sem saber bem para onde correr diante das novas tecnologias, a perda de identidade coletiva está acontecendo agora, neste exato momento. Somos milhares vendo o mercado minguar, em busca de planos B (e C e D e o que aparecer). Observamos com tristeza que aquela reportagem bem feita, aquele texto bem escrito e o reconhecimento pelo trabalho bem executado já é quase coisa de outsider, de veículo alternativo, que a gente faz por prazer, pra preservar algo da nossa essência. Mas amor sozinho não paga contas…

Vejo amigos jornalistas completamente perdidos. Não são mais o João da Silva da revista tal ou Antônio Santos do jornal x. Sentem como se tivessem ficado sem parte do sobrenome. Percebem que toda a beleza de durante anos se prepararem para refletir e informar sobre os acontecimentos sociais não mais importa. É valor sem espaço pra ser valorizado. O trabalho dignifica o homem?! Sou obrigada a dizer que os atuais rumos do mercado de trabalho, especialmente em jornalismo, não me parecem ser dignos… O que há em formação é uma coleção de homens de alma danificada.

Crédito da imagem: Oleg Dou (Cultura Inquieta)

Então, você alcançou o sucesso. Tem certeza?

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Eu nunca me senti tão perto do fracasso. Pra quem sempre teve metas de curto, médio e longo prazo, e assim conseguiu conquistar muita coisa que a sociedade julga sinal de sucesso, é surpreendente que nos últimos seis meses eu mal soubesse o que seria da minha vida nos próximos dois dias. Basicamente, sabia que deveria frequentar as aulas do mestrado em Ciências Sociais. Mas todo o resto se tornou etéreo. Fora do jornalismo (como parte dos primeiros reflexos do fim do Jornal da Tarde, onde eu trabalhava), decidi que se o destino estava me dando essa chance era chegada a hora de me presentear com um período sabático.

Essa parada essencial na minha rotina permitiu mais tempo aos estudos (que é a preparação para uma nova fase profissional, ainda adiante). Mas também viajar, cuidar da minha saúde (que andava por um fio), ajudar a cuidar da saúde de pessoas queridas, dedicar um tempo precioso aos amigos em cafés, almoços e jantares. Me reaproximar de gente que importa. E pensar com calma sobre quem realmente sou e como, a partir de então, eu me colocaria na vida.

Hoje, me sinto perto do fracasso não porque me sinto uma fracassada. Meu sabático vem sendo uma das decisões mais sensatas que já tomei. Mas me sinto tão perto do fracasso porque as pessoas fazem questão de dar valor às outras por causa de cargos, posições, status, ao que aparentam e ao que elas têm. Dizer pra quem quiser ouvir “parei para rever o que fiz até aqui, o que deve permanecer, o que deve ser resgatado e o que deve mudar” é quase um escândalo. Eu dou valor ao trabalho. Acredito que é uma das maneiras de atingirmos nossa plenitude como seres humanos. Não proponho aqui que saiam todos pedindo demissão e vivam como se no dia 21 de dezembro o mundo acabe mesmo – porque não vai. Até porque é com dinheiro que se sobrevive.

Só que me parece urgente que as pessoas dêem mais atenção a chamados internos, aqueles que muitas vezes apenas nossos pensamentos conhecem. Claro que temos contas a pagar. Mas será que precisamos de TANTAS contas assim? Lógico que construir uma carreira, um negócio, traz realização. Mas será que não é melhor aprender a dividir reconhecimento e responsabilidade com sócios ou delegando tarefas, e ter mais tempo para si mesmo e para a família? Quem não gosta de se ver bem diante do espelho, com um visual legal? Mas pra quê se enrolar em cartões de crédito pra ter um guarda-roupa abarrotado? E comprar a própria casa é pra maioria de nós um sonho especial. Será, no entanto, que ela precisa ser enorme, exigindo mais recursos para ser quitada? Ah, sim… Criar filhos custa caro. Não estaríamos, porém, educando uma geração inteira para acreditar que só se realiza e tem valor quem consome o máximo de coisas materiais?

Ontem, um amigo me contou que foi mandado embora há poucas semanas. E optou também por passar uns meses se dedicando à família. Não viajava há anos. Trabalhou em muitos Natais. No próximo dia 23, embarca num cruzeiro com a mulher e a filhinha de oito anos. Depois, vão pegar o carro e passar janeiro percorrendo o litoral norte de São Paulo. Enquanto a gente conversava, me contou que acabara de sair da cozinha. “Fiz aqueles biscoitos natalinos bem comuns entre os americanos, sabe? Fiz até um em formato de árvore de Natal.” Sabe quando você fala com a pessoa pelo telefone e consegue perceber que ela está sorrindo? “Minha filha disse que sou o sucesso dos biscoitos de Natal”, disse ele. O que pode ser melhor do que ser um sucesso pra quem nos ama e por um motivo simples?

Dia desses bateu um receio de como será a vida nos meses que se aproximam. Em relação a tudo. Trabalho, dinheiro, amor, família, opções, escolhas. O questionamento é parte (por vezes dolorosa) do sabático. Foi quando lembrei de uma coisa que minha avó (já falecida), me disse uma vez, quando eu estava bem triste, com sua inconfundível voz de fado português: “Mantenha a fé, filha… Não te entristeças. Às vezes, a vida nos faz dar um passo atrás para depois darmos dois à frente. Vais conseguir. Tenhas paciência…”

Dei vários passos atrás desde julho. Isso se eu considerar o que a sociedade afirma ser o sucesso. Pra quem gosta de mim de verdade, quem conseguiu compreender ou já passou por um sabático, o que diz a sociedade não é o que vale. Para essas pessoas especiais (a quem eu deixo aqui meu “muito obrigada”), eu simplesmente nunca estive tão à frente da maioria. E é esse o reconhecimento que agora me basta.

Crédito da imagem: Cultura Inquieta