Empoderamento? Feminismo? Ainda vamos falar muito sobre isso – e queremos mais rapazes na conversa

Eu preferiria não falar sobre empoderamento feminino em 2018. De verdade. Preferiria saber que mulheres já ganham os mesmos salários pelas mesmas tarefas que os homens (não cerca de 76% do total), que não são mais vítimas de violência doméstica, física e emocional, que não têm o emprego em risco ao retornarem de licença-maternidade ou que meninas não estão sendo criadas para acreditar que algumas coisas não são para o bico delas (da infância à juventude, a autoestima das meninas cai três vezes em relação a dos meninos). Que não somos mais intimidadas em situações de assédio ou mesmo inferiorizadas caso a gente decida ser dona de casa e criar os filhos. Ou não ser dona de casa e não ter filhos.

Vem terminando o primeiro mês deste novo ano e tudo isso que citei continua acontecendo. Se não comigo, se não com você ou com uma mulher com quem você convive, com milhares de mulheres no Brasil e no mundo, de diferentes realidades e classes sociais. Não consigo viver ajeitando aqui o meu mundinho particular, com a certeza de que tenho voz e atitude para me defender se necessário de situações em que eu seja desrespeitada, e não dar a mínima para padrões nocivos da sociedade que fazem das mulheres reféns de agressões, dor, menos oportunidades.

De comportamentos que, mesmo que uma mulher acredite que não é com ela, um dia será com ela. Na vida pessoal, no trabalho, na rua. Não se trata de vitimismo, de tornar o feminino uma condição de eterna vulnerabilidade. Se trata de um cenário que para muitas de nós é, simplesmente, cruel. Onde há medo. Onde há morte. Ouvi recentemente de uma mulher que ela nunca foi assediada porque sabia se impor. Que bom. Mas esqueceu que 1) as pessoas são diferentes, com personalidades diferentes, com maior ou menor grau de segurança para reagir; 2) ninguém deve ser obrigada a se impor para não ser molestada ou agredida.

Empatia, por favor, gente. Não adianta pedir pela paz mundial e não ser capaz de se colocar no lugar do outro, de compreender os impactos negativos que nosso egocentrismo causa.

Com o fim deste janeiro, no dia 30 de ontem, veio também o aniversário oficial de um ano da plataforma Mulheres Ágeis (www.mulheresageis.com.br), que fundei com minha amiga e sócia, Renata Leal. Mais de 3 mil pessoas foram impactadas pelo nosso trabalho em 2017, entre eventos e redes sociais.

Mulheres Ágeis nasceu para contar histórias de mulheres inspiradoras e líderes em suas áreas, que são exemplos lindos para todas nós; e para criarmos workshops de desenvolvimento pessoal e profissional só para mulheres – sim, grupos de conhecimento e troca nos quais apenas elas entram. Decisão tomada após uma pesquisa on-line que realizamos em agosto de 2016, quando a ideia nascia, e mais de 500 mulheres responderam em menos de uma semana, entre outras questões, que adorariam cursos voltados especificamente ao público feminino.

A experiência mostrou que Renata e eu não estávamos erradas na escolha: num ambiente em que elas se sintam acolhidas e não julgadas, abrem o coração, se reconhecem nas histórias das outras, saem fortalecidas e com mais informações que permitem se não mudar de vez o que não querem mais, ao menos pensar sobre o assunto. Foram encontros ricos, gratificantes e poderosos, com reflexões, exercícios, boas risadas, lágrimas, amizades que se formaram, negócios que foram fechados. Apoio. O “não estou sozinha”. O “eu vou conseguir”.

Que venha o masculino
Além do site e dos workshops, criamos também o seminário O Impacto das Mulheres: onde chegamos e o que falta conquistar. O objetivo é debater o empoderamento feminino, o feminismo e as questões que impactam a vida não só das mulheres, mas também dos homens. Foram cinco edições em 2017, duas em São Paulo, uma em Santos, uma no Rio de Janeiro e a última em Campinas. Sempre gratuito e aberto ao público em geral, para pessoas de todos os gêneros.

Sempre tinha um rapaz. Poucos. Bem poucos. Mas tinha. Desde o começo de Mulheres Ágeis, recebemos apoio de muitos amigos e conhecidos. Eles entendiam quando a gente explicava sobre os workshops serem apenas para o público feminino, compreendiam o sentido.

Caras legais (e enquanto escrevo isso consigo lembrar de logo uns dez), que sabem bem quanto dividir igualmente tarefas de casa e educação dos filhos melhora os relacionamentos e que encorajar meninas a serem tudo o que desejarem e meninos a serem mais afetivos os tornará adultos mais felizes. Que promover mulheres torna suas empresas mais eficientes e lucrativas e oferecer alternativas na volta da licença-maternidade (home office, meio período por alguns meses) permite que elas cresçam na carreira mantendo o equilíbrio com a maternidade. Segura grandes talentos.

Caras legais que estão cansados de ouvir coisas como “onde está sua mulher?” quando avisam o chefe sobre sair mais cedo para a reunião de pais da escola ou para levar os filhos ao médico. Que não desejam mais carregar a obrigação de provedor e também querem tempo com os filhos; esperam que licença seja parental (com mesmo período da licença-maternidade e não a cinco dias da atual licença-paternidade).

Caras legais que, agora, dizem: “por favor, ajuda a gente a explicar para os outros caras, mostrar que é importante?”

Muitos homens ainda não conseguem entender completamente os nossos motivos. Mas já se sentem desconfortáveis com as reflexões que vieram à tona. Perceberam que carregaram ou carregam comportamentos que prejudicam as mulheres. Esse desconforto, alguns deles me disseram, os torna abertos a ouvir.

Então, quando em setembro de 2017, Rê e eu definimos o planejamento de Mulheres Ágeis deste ano, resolvemos que sim, era hora de trazer mais rapazes para a conversa, juntar forças. Para que eles conheçam nossas histórias e para que internalizem quanto a ideia ainda prevalente de uma educação em que a masculinidade é agressiva piora seus relacionamentos e suas próprias vidas.

Ainda precisamos desses momentos sozinhas, como nos workshops. Mas não podemos ficar falando sozinhas, sem que a outra parte tão fundamental das nossas relações entenda, aprenda e repasse esse aprendizado. Porque empoderamento feminino é sobre todos nós. É sobre mais do feminino na sociedade, que todos nós temos – sensibilidade, empatia, colaboração, intuição, cuidado. É sobre empoderar, que significa conceder poder de conscientização a si próprio e a outras pessoas, e não apoderar (tomar o poder, dominar alguém ou uma situação).

E vai ter feminismo
Feminismo não tem nada a ver com ser desse ou daquele partido político, odiar os homens, ser mal resolvida ou exigir o fim da liberdade sexual. Na real, é o contrário de tudo isso e muito mais. O feminismo só existe porque tivemos que aprender a nos defender de um preconceito violento, o machismo. E não, não são termos contrários. O feminismo é inclusivo e fala de uma sociedade mais equilibrada para todos nós, na qual as pessoas se realizam de diferentes maneiras e sem padrões limitantes estabelecidos.

Quem quer casar, casa. Quem não quer, não casa. Uns querem ter filhos e outros não. Mulheres podem ser CEOs de empresas, homens podem ser donos de casa. E, sim! Claro! Homens podem continuar CEOs de empresas e mulheres donas de casa! Mulheres podem ser empreendedoras e homens não precisam se ver obrigados a perseguir cargos de liderança para provar masculinidade se assim não desejarem. Entendem? Menos padrão, mais coração. E tudo com respeito, tratando o outro como se espera ser tratado.

O feminismo prova que quando um casal ganha salários semelhantes, eles desfrutam de uma vida mais confortável, segura. Quando dividem as tarefas de casa igualmente, os relacionamentos ganham mais tranquilidade, menos estresse. Há uma valorização do parceiro, do companheirismo.

E se eu ainda não convenci você: o machismo mata. O Brasil está num vergonhoso quinto lugar em taxas de feminicídio no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde e o Mapa da Violência de 2015. As mulheres negras são ainda mais afetadas por esse tipo de homicídio doloso, com aumento de 54% no número de mortes entre elas entre 2003 e 2013.

Por isso que quando alguém diz que movimentos como o #MeToo são um completo exagero, epa, epa, epa! Mais respeito com quem teve coragem de escancarar a própria ferida e se mobiliza para que assédios sexuais, estupros, agressões não continuem afetando mulheres ao redor do mundo. Não sejam a regra em muitas indústrias, mercados, escritórios, estúdios de cinema, salas de aula, chãos de fábrica e por aí vai.

Você sabe o que é, por exemplo, se certificar de não ficar sozinha no horário de almoço no mesmo ambiente que um cara que tem as costas quentes na empresa? Porque sabe que, assim que ele tiver a chance, vai te encurralar no corredor, falando bobagens pra você, colocando a mão na sua cintura, descendo no quadril, sem autorização? E depois ter que aguentar uma reunião em que o mesmo sujeito está presente e você nem conseguir se concentrar porque ele te encara, com raiva, pelo fora que levou?

Eu sei o que é isso. É pouco perto de situações que outras mulheres enfrentaram. Mas eu tinha 20 e poucos anos e, sem dúvida, atrapalhava meu trabalho, meu desempenho.

“Ah, mas um monte de mulheres começou a falar que sofreu assédio só porque outras falaram”. Lógico! Quando você não se vê sozinha, reflete sobre uma situação tão constrangedora, desagradável ou mesmo violenta que enfrentou, que entende que aquilo fez mal pra você e até impactou outras áreas da sua vida, relacionamentos, tem mais é que falar! E dar um jeito de não acontecer mais, seja comigo, com você, com senhoras ou meninas da nova geração.

O feminismo não quer o fim do flerte gostoso, devidamente recíproco. Não crucifica o sexo, por amor ou por tesão, com consentimento. Só exige limites, bom senso, sem invasões de privacidade graves, perturbadoras. Tá errado.

Sororidade se aprende
Não queremos os homens na guilhotina. Mas que repensem suas atitudes, se arrependam e não façam mais. Na onda de denúncias é bem possível, sim, que um inocente seja acusado. Falta de caráter não é exclusividade de gênero. Mas a verdade sempre aparece. Ninguém pode dizer que os casos de assédio nos últimos tempos são uma histeria coletiva feminina. É sintoma de uma sociedade em que a mulher é colocada como inferior há décadas, como objeto, propriedade. Não há mais espaço para tal.

Enfim, há um longo caminho, especialmente para os homens. Mas eles vão conseguir. Essa é uma discussão aberta, cheia de sutilezas e influências culturais, mas que está na ordem do dia e, juntos, a gente encontra a fórmula.

As pessoas têm tempos diferentes de compreensão. Não só homens, como também mulheres. Outro dia, uma mulher me disse que feminismo é coisa de quem quer roubar o marido da outra. Gente… É o tipo de fala que me assusta bastante. E é por isso que explicar mais o sentido de sororidade é fundamental.

O termo tem origem no latim. Vem da palavra “sóror” e significa irmãs. A sororidade se tornou um dos principais alicerces do feminismo e do movimento pelo empoderamento feminino. É a união e a aliança entre mulheres, com base na empatia e no companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum.

É o não julgamento entre as próprias mulheres, que também ajudam a fortalecer estereótipos preconceituosos criados por uma sociedade machista. Sororidade é lembrar que há espaço para todas nós, mais ainda quando estendemos a mão a outras mulheres. Criamos redes de apoio, de trocas de experiências, de histórias, de serviços.

De proteção também. Eu não preciso sofrer violência doméstica para lutar pelo fim da violência a que tantas e tantas mulheres são submetidas. Mas eu posso denunciar e mostrar quanto essa é uma situação grave com consequências de tantos outros desrespeitos e riscos para todas nós.

Não espere sentir em si própria para compreender a dor da outra. Não reforce preconceitos, inclusive, porque sua autoestima não está lá grande coisa e você precisa de certezas em voz alta para se convencer de que sua realidade é que é boa, não tem que mexer em nada. Mesmo que não esteja nada boa. Não tem uma angústia aí?

Parem, mulheres, de bater no peito dizendo “sou mãe, logo, sou melhor do que você”, “sou casada, logo sou melhor do que você”, “comando uma empresa, logo sou melhor do que você”, “sou dona de casa e estou em contato com o meu eu feminino, logo, sou melhor do que você”, “sou independente, logo, sou melhor do que você”.

Não há melhor ou pior. Existem realidades, construídas por cada uma e que podem mudar a qualquer momento. Há muitas mulheres infelizes na maternidade e no casamento, mas não podem nem pensar em falar a respeito. Há tantas outras emanando aquela aura de poder e liderança, mas que estão de saco cheio da pressão. E há as que são extremamente felizes como líderes e desbravadoras, ou mães e esposas, ou um mix de tudo, ou seja lá qual for o papel que optaram por desempenhar.

Em Mulheres Ágeis acreditamos que hoje a colaboração vence a competição; a rivalidade se desfaz e dá lugar ao vamos juntas para irmos mais longe. Essa é a beleza. Singularidades preservadas e celebradas para aprendermos umas com as outras numa ainda longa estrada.

Para saber mais:
http://www.mulheresageis.com.br
http://www.rme.com.br
http://www.b2mamy.com.br
http://www.feminaria.com.br
http://www.chegadefiufiu.com.br
http://www.facebook.com/empodereduasmulheres/
http://www.onumulheres.org.br
http://www.frmeninas.com.br
http://www.girlsrockcampbrasil.org
http://www.thinkolga.com
http://www.facebook.com/chegadeassedio/
http://www.papodehomem.com.br

Para assistir (trailers):
As Sufragistas (https://goo.gl/krBQEh)
She’s Beautiful When She’s Angry (https://goo.gl/LBvQ9X)
Repense o elogio (https://goo.gl/jkR3uw)
The Mask You Leave In (https://goo.gl/3oxfZH)
Precisamos Falar com os Homens (https://goo.gl/M3QA5T)
Ban bossy (https://goo.gl/HnbtnK)

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Para comprar meu livro Tem Dia que Dói – mas não precisa doer todo dia e nem o dia todo, acesse a loja virtual: https://temdiaquedoi.lojaintegrada.com.br/

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Mulher-Maravilha

O azulejo Wonder Woman, da imagem acima, foi presente que ganhei do meu sobrinho de 12 anos no meu aniversário, em fevereiro. Na verdade, minha cunhada, mãe dele, quem escolheu a lembrança. Mas como é bom saber que existem meninos sendo criados hoje para reconhecerem, sem medo, as potencialidades femininas. Aprendendo a respeitarem as mulheres de suas vidas…

Sim, ainda temos muito para avançar. É o que eu mais penso neste 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Quanta violência, desrespeito, intimidação ainda nos cercam. Quantos homens ainda acreditam terem esses “direitos” baseados em suas ignorâncias. Ai da mulher que se sobressaia. Ai daquela que lhe fizer sombra. Ai da abusada que questionar seus erros. São moleques mimados, somente. Se acham espertos, poderosos. São apenas fracos. Que causam, porém, marcas e traumas nos dias de tantas de nós.

A pesquisa “Visível e Invisível: A Vitimização de Mulheres no Brasil”, realizada pelo Datafolha a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgada hoje, mostra que uma em cada três brasileiras foi vítima de violência no último ano. E quando se fala de violência não é apenas a física. Mas também verbal e emocional, que são graves e em algum momento acabam levando para a física (https://goo.gl/aSOiqX).

Se você foi espancada, xingada, ameaçada, agarrada, perseguida, empurrada, chutada; teve um objeto jogado na sua direção, levou um tapa; se viu em situação de intimidação, constrangimento e amedrontamento; foi tachada de louca ao apontar situações reais que o agressor quis dissimular; sim. Você foi vítima de violência.

Preocupa saber que uma em cada três brasileiras passaram por isso. Preocupa ainda mais saber que muitas não se dão conta que esse tipo de tratamento é agressão.

Por histórias assim, nos últimos meses venho me dedicando junto com minha amiga Renata Leal a uma nova empresa, a Mulheres Ágeis (www.mulheresageis.com.br). Nosso foco? Empoderamento Feminino. Vamos usar histórias de mulheres incríveis, líderes em suas áreas, para inspirar outras mulheres. Já estamos lançando nossos primeiros workshops de desenvolvimento pessoal e profissional para reforçar o quanto, garotas, vocês são lindas, fortes e capazes; para que despertem o melhor em si mesmas e transformem seus dias. Para que sejam capacitadas e encontrem caminhos fora da dependência financeira e emocional.

Não somos frágeis. Somos ágeis. Somos Mulher-Maravilha, sem dúvida!! Não sei se salvamos o mundo. Mas vamos melhorar muito o mundo de muitas outras queridas. Juntas somos mais. Ai de quem disser o contrário.

Delicadeza em papel, caneta e colorido

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A gente às vezes perde muito tempo pensando em como poderia ajudar alguém. Acaba sem de fato ajudar, sem saber o que fazer. Dizer que não tem tempo é de praxe. Não é nem que não é verdade. Nos enrolamos mesmo nesse cotidiano preenchido demais. Sempre existe, porém, um caminho. E a ideia simples, mas desenvolvida com dedicação e carinho, pode ser bem impactante. Ter um efeito tão positivo que permite às pessoas retomarem sonhos, se reerguerem, recomeçarem. Acreditarem em dias melhores.

Hoje eu trago aqui no blog dois exemplos bonitos de projetos criativos que estão ajudando muitas mulheres pelo país. Por meio de cartas com palavras de acolhimento e ilustradas com sensibilidade, as voluntárias dizem “você não está sozinha”. Vocês precisam conhecer! Abaixo, mais detalhes dos projetos “Eu vejo flores em você” e “Flores e Histeria”:

Eu vejo flores em você (www.euvejofloresemvoce.com / www.facebook.com/asfloresemvoce/)

Feito por garotas que se viram em situações difíceis e encontraram na troca de cartas um jeito de apoiar outras mulheres. Diz a página do Facebook do projeto:

“Nós ilustramos cartas de mulheres para outras mulheres e enviamos por correio sem custo algum, mas num envelope lotado de amor! Para ver algumas das cartas já enviadas, acesse euvejofloresemvoce.com.”

As meninas também vendem cadernos do tipo Moleskine (com impressão em couro sintético) por R$ 50. A receita é revertida para pagar os custos de produção; pagar um caderno de presente para cada voluntária que está trabalhando intensamente desde fevereiro no projeto; cobrir alguns custos recorrentes do projeto; e financiar novas ações, inclusive a produção do livro para a gaúcha Gisele Santos, que teve as mãos decepadas por seu companheiro (http://bit.ly/campanhagisele).

Flores e Histeria (www.facebook.com/floresehisteria/)

Como diz a página do Facebook do projeto, “a decisão do tema veio da necessidade de reduzir a distância e a frieza com que, geralmente, a grande mídia trata os casos de transtornos psiquiátricos, que, com frequência, incidem mais sobre o sexo feminino. Não queremos falar de estatísticas, números ou estudos. Nosso objetivo é trazer a delicadeza e sensibilidade que estão em falta. Queremos promover o amor e carinho que existe entre as mulheres nesta condição. Ainda somos um grupo – uma dupla, na verdade – bem pequeno, então vamos explicar aqui como vai funcionar a primeira fase de “teste”:

• Vamos criar um formulário para receber as histórias e dados das interessadas em participar do projeto.
• Vamos fazer um processo de “triagem” (infelizmente, já que a gente queria poder mandar cartas para todas…), e entrar em contato.
• O critério principal da triagem será a diversidade (realidades distintas, diferenças regionais e culturais, etc).
• O contato será feito totalmente de forma virtual e a seleção dos pares (quem entrará em contato com quem) será feita por nós.
• As selecionadas vão encaminhar as cartas para nós (por e-mail) e todo o processo de escrita, ilustração e o envio ficará por nossa conta.
Nossa ideia é que isso ocorra mensalmente, criando assim um grande vínculo e um núcleo de mulheres que possam se ajudar com carinho, atenção e cuidado.”

As meninas, que são voluntárias em ambos os projetos, são uma excelente inspiração para começarmos mais uma semana. São alento em tempos em que tantas vezes nos custa acreditar na humanidade. Mas sempre tem quem se importe. Sempre vai existir quem seja capaz de espalhar doçura e delicadeza por onde passar.

Crédito da ilustração: Letícia Rodrigues

Causas, consequências e responsabilidades da violência contra a mulher

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A Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), um marco no combate à violência contra a mulher no Brasil, completa dez anos em 7 de agosto. Por favor, não pare de ler esse texto já acreditando que você não tem nada a ver com isso. Tem sim. Homens e mulheres. Quem já agrediu, quem já foi agredida, quem nunca agrediu. Quem acha que nunca agrediu ou que nunca foi agredida (agressões verbais e emocionais também são violência, vale lembrar).

Porque a lei foi essencial para punir, salvar e colocar holofotes sobre uma condição considerada natural na sociedade durante anos. O homem tem poder. Logo, a mulher se submete, aceita. Tudo. Desde opressão, humilhação, até tapa na cara e ameaça de morte. A legislação, classificada como uma das três melhores do mundo na questão de gênero, escancarou: isso não é um direito masculino, não é um dever feminino e as consequências são graves, afetando gerações inteiras que enxergam na crueldade e na violência algo do cotidiano, reproduzindo tal banalidade em todas as suas demais relações e ações.

Já é claro quanto a noção deturpada de masculinidade que muitos homens carregam vem da infância. Não estou tirando a culpa de quem a tem, do tipo “coitado, age assim porque presenciou a violência dentro de casa, também foi vítima dela”. Não. Mas é uma realidade inegável. As pessoas reproduzem o que aprenderam. Alguns conseguem compreender que é errado e buscam ajuda psicológica para não entraram no mesmo ciclo vicioso no qual se viram ainda crianças. Não é, porém, um passo fácil no clássico universo de homem que é homem não chora, não é vulnerável, não é sensível.

É preciso reforçar sempre como a educação dos meninos, por décadas, deu a eles a ideia equivocada de que podem mais, são mais fortes, precisam conquistar, jamais fracassar, viver do status de vencedor – incluído aí uma bela mulher, “educada”, mas que não questione e não dê muito “trabalho”. Que não se sobressaia, mas seja um acessório que faça a ele brilhar mais.

A culpa, aqui, não só é dos pais, mas também das mães que reforçam esse imaginário de que eles são donos da verdade e das decisões, e que elas só devem “acompanhar”. Nenhuma relação verdadeiramente saudável e satisfatória se constrói sob tais termos.

Mas esse foi o “tradicional” durante décadas. Ainda o é para muitos casais. E quantas violações de direitos humanos já não foram cometidas ao longo da História em nome das “tradições”?

Temos, então, ainda um caminho razoável a percorrer que exige mudança de mentalidade e transformação de comportamentos. É possível. Quer entender melhor o que é a violência contra a mulher, suas causas, consequências e responsabilidades? Assiste os três vídeos nos links a seguir. São parte da série USP Talks, que levanta debates sobre temas atuais presentes na vida de todos nós.

As palestrantes são a pesquisadora Ana Flávia d’Oliveira, professora da Faculdade de Medicina da USP, e Silvia Chakian, promotora de justiça do Ministério Público de São Paulo. Elas são incríveis, didáticas e trazem dados alarmantes. Os dois primeiros vídeos são as explanações de cada uma, por 15 minutos. O terceiro são as respostas de perguntas da plateia.

Entre as informações que as especialistas expõem estão:

  • uma em cada três mulheres na cidade de São Paulo já sofreu algum tipo de violência, independentemente da classe social;
  • a violência sofrida pela mulher impacta diretamente seu desempenho profissional, tanto a violência enfrentada em casa quanto a emocional que pode estar presente no ambiente de trabalho;
  • o registro de mulheres com casos de depressão, síndrome do pânico e transtornos de ansiedade são maiores e estão muito mais ligados a agressões emocionais e físicas do que se imaginava;
  • elas demoram a pedir ajuda pensando na família, nos filhos; sofrem vários episódios de violência até romperem o silêncio, seja na justiça ou com amigos e familiares;
  • muitas mulheres e homens não entendem que estão sofrendo e praticando violência porque o contexto no qual cresceram e viveram sempre foi o mesmo que hoje reproduzem;
  • não há um perfil determinado do agressor; ele pode ser trabalhador exemplar, bom pai, sem vícios, nível socioeconômico e cultural elevados;
  • culturalmente os homens apresentam maior dificuldade em reconhecer fragilidades, a necessidade de cuidados médicos – imagine cuidados psicológicos; mas muitos têm real condição de compreenderem que suas atitudes são violentas e podem superar essa condição com ajuda de terapias.

Para terminar e deixá-los com as palestras do USP Talks explicando muito melhor do que eu seria capaz: não está a ninguém reservado o direito de julgar mulheres que não desejam ver os companheiros encarcerados ou se separarem deles. Relações de afeto não são desligadas pressionando um botão. Sim, muitas vezes há amor nesses relacionamentos. E o que elas esperam é que acabe a violência. Não o vínculo. É amplo, é complexo. Pare de criticar e ajude.

USP Talks Violência Contra a Mulher: Ana Flávia d’Oliveira
USP Talks Violência Contra a Mulher: Silvia Chakian
USP Talks Violência Contra a Mulher: debate

Crédito da imagem: Mete a Colher Rede de Apoio Entre Mulheres

A mentira como violência

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Sempre pensamos na violência como algo que machuca fisicamente. De uns anos pra cá, e muito graças a mais debates, informações e ações em relação à violência doméstica e contra a mulher, a sociedade passou a compreender que xingamentos, humilhações, intimidações, agressões verbais são também tão violentas quanto os ataques que deixam marcas roxas, tiram sangue.

É o criticar de um jeito que coloque pra baixo, que envergonhe. É usar palavras de baixo calão para se referir ao outro. É, ao ser minimamente contrariado, se virar contra o interlocutor com estupidez, arrogância, menosprezando, tentando amedrontar, botar medo, impor silêncio, fazer calar.

A violência psicológica, portanto, é um mal a ser combatido e que deve ser tratado com a gravidade que lhe cabe. E não é fácil. Especialmente em relacionamentos amorosos. Porque a pessoa que sofre as agressões costuma acreditar que aquele a quem ama pode mudar, pode melhorar, pode perceber os erros que comete e se arrepender sinceramente. Acredita que amando ensinará esse alguém a amar. Mas existe quem nunca seja capaz de amar, ou porque não conviveu com amor na educação que recebeu, ou por mau-caratismo mesmo, pelo prazer doentio de transformar aquele que lhe dirige bons sentimentos em vítima de sua perversidade e/ou imaturidade.

Mas há uma outra violência tão grave e prejudicial quanto as anteriores: a da mentira. Normalmente, não enxergamos a mentira como uma violência, mas como farsa, enganação, traição. Sim, ela é tudo isso. Mas é também violência. Ficou claro pra mim como a mentira é uma agressão emocional acompanhando uma história bem triste.

Uma amiga querida levou longe demais um relacionamento em que o cara fez o que citei antes: xingou, humilhou, intimidou, mandou ela se calar. Era só ter uma opinião diferente, o sujeito virava bicho. Não bastasse, ainda mentia. Ela notava mudanças de comportamento bruscas, atitudes sacanas, informações que não batiam, desencontradas, reações faciais que escancaravam as inverdades. Achou que era bobagem, “coisa de homem”. Tudo foi se acumulando. As trocas de olhares com outras mulheres, as viagens a trabalho em que desaparecia sem dar sinal de vida, as idas ao banheiro com o celular (que tentava esconder quando de lá saía), a necessidade de, de repente, trabalhar até mais tarde.

Ela tentava conversar, ele levantava a voz. Dizia que ela era ciumenta demais e que a largaria. Vejam. Ela não o acusava. Pedia para conversar. Mas ele se transformava, mudava de assunto, jogava nela a culpa de seu nervosismo. Era só não perguntar nada. Aceitando de cabeça baixa, as coisas correria bem, seriam felizes.

Até que ela pegou de fato uma traição. Juntou os pontos. Posts de redes sociais, horários e idas a lugares diferentes, fotos, mensagens. Bingo: conhecidos em comum. História mais que confirmada. Questionou. Não só ele não respondeu à indagação, como disse que ela era louca, que não o merecia. Virou o jogo. Mas enquanto o fodão achou que estava abafando, tratando a situação como um grande teatro, por dentro ela foi desmoronando diante da perplexidade do que ele se mostrava capaz, da maneira como agia sem escrúpulos. Insistindo que nada daquilo existia. Era o ator principal, narcisista e megalomaníaco.

Esse abuso psicológico tem nome. Gaslighting é uma forma de agressão emocional na qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade. Casos de gaslighting podem variar da simples negação por parte do agressor de que incidentes abusivos anteriores já ocorreram, até a realização de eventos bizarros pelo abusador com a intenção de desorientar a vítima. https://pt.wikipedia.org/wiki/Gaslighting

Ela mostrava as evidências. Ele dizia que ela precisava ser internada. “Ciumenta doentia, burra e louca, é o que você é”. Disse que a perdoava, era só seguir em frente e não apurrinhar mais. Se calar, com sorriso no rosto (e alma dilacerada). Ela deixou pra lá. Deu outras chances. Outras, no plural, porque ele sempre pisava na bola de novo e de novo, na certeza e na imaturidade de que a enganaria sempre.

Então, com tristeza e algum distanciamento, ela compreendeu que não adiantava… Por vezes, parecia que ele tinha uns lampejos de consciência, procurava melhorar mesmo, virava um cara bacana. Nunca durava muito tempo. Voltava a “brincar” de vida de solteiro quando ela não estava por perto. Só que o infeliz era tão amador que facilmente era desmascarado. O preço foi ficando alto demais pra ela.

Chorou muito, desesperada por amar alguém que não merecia. Um fraco, pra dizer o mínimo. Fiquei com o coração partido de ver a cena. Recordei que passei por situações bem semelhantes às que ela descreveu… E como dói… Fiz com que olhasse para o espelho enquanto enxugava as lágrimas e dissesse em voz alta todas as qualidades incríveis que tinha. Aquela mulher linda, inteligente, divertida, querida pelos amigos, amada pela família, perdera o brilho que lhe era tão característico. Insisti para que lembrasse quem ela era. Foi ficando mais calma e confiante. Quando nos despedimos, fiquei feliz por vê-la certa de que o destino preparava uma linda surpresa, um recomeço. De que o melhor ainda estaria por vir.

Se você que lê agora esse texto se identifica, enfrenta uma história parecida, sinta-se abraçada(o). Pra você também, o melhor está por vir. Tenha só a coragem necessária de seguir em frente, cuidar da saúde emocional com a ajuda da família, dos amigos, de uma terapia. Trace novos projetos de vida.

Já se sua identificação é com o o outro lado da história, peça e aceite ajuda psicológica o quanto antes, enfrente seus demônios internos, seus traumas do passado. Não afaste quem te ama produzindo tanta dor. 2016 pode ser o ano do castigo, ou da cura, da redenção. Escolha se quer viver na ilusão de que mentir lhe dá algum poder (e acabar sozinho(a) e detestado(a)) ou construir um caminho bonito de verdade. Com pessoas e sentimentos reais.

P.S.: Minha amiga já está bem feliz, com um cara super bacana e que a trata como a querida linda que ela é, do jeitinho que sempre mereceu.

P.S.2: O algoz foi desmascarado não só na vida pessoal, mas também no trabalho. Perdeu emprego e está lidando com o desprezo daqueles a quem enganou. Aqui se faz…

Pela lei do aborto

aborte machismo

Não, eu não sou a favor do aborto. Eu, Suzane, não faria. Mas essa é uma decisão absolutamente pessoal, que não deve servir de exemplo pra ninguém. Porque sou a única pessoa que conhece de fato a minha própria vida. Sei quais são minhas possibilidades e minhas limitações. Sei, acima de tudo e antes de tudo, que sou uma mulher livre pra decidir o que fazer ou não com o meu corpo. E por ter tal direito, acredito que as outras mulheres também devem exercê-lo, independentemente de classe social. Somos brasileiras e é a semelhança que me basta pra exigir que nossos direitos sejam iguais. E o que elas fazem ou não com base na vida que levam, nas dificuldades que enfrentam, e que só elas conhecem, não é da minha conta. Nem da sua. Nem de nenhuma religião. Nem do Estado. Esse último tem apenas que garantir nossa segurança e nosso pleno exercício de cidadania. Permitir o aborto é parte de um pacote maior que mantém a integridade física e mental feminina.

Antes que você resolva parar de ler este texto pra me excomungar e me chamar de anticristo, te convido a acompanhar duas histórias. Respire fundo e o faça de coração aberto. Tente, por poucos minutos, deixar de lado todos os seus “pré-conceitos”, suas opiniões baseadas num cotidiano em que mais valem as aparências do que a essência e a verdade. Coloque-se no lugar do outro. Empatia. Tente se imaginar no lugar das mulheres a seguir, gente de bem que encontrei pelo meu caminho como jornalista. Nenhuma delas era mau caráter, insensível ou irresponsável. Pelo contrário. São mulheres que se viram em encruzilhadas e pensaram naqueles que amavam, mais do que nelas, na hora de abortar. Os depoimentos vão entre aspas. É pra que vocês, antes de se acharem com alguma razão de enfiar o dedo na cara de uma mulher e chamá-la de criminosa num momento de extremo sofrimento, tentem relembrar como pode ser essa dor.

“Eu moro na região metropolitana de São Paulo. Sempre tentei tomar a pílula. Mas a que eu pegava de graça no posto de saúde perto de casa volta e meia não chegava. A moça do posto dizia que ficava em falta. Um mês tomava, outro mês não. Nem funcionava direito desse jeito, né? Já tinha cinco filhos quando fiquei grávida do sexto. Sou diarista e isso era um problema. Cada gravidez atrapalhava o serviço. Meu corpo sofria muito e nem todo patrão entendia. Amo meus cinco filhos. Mas se eu pudesse escolher tinha só dois. Quando soube do sexto na barriga, caí no choro. Não de alegria, não. Mas de desespero. Eu queria tentar criar os outros bem e nem conseguia. O que seria do sexto? Eu não quis engravidar. Sexo nem nunca foi uma coisa boa pra mim. Não sinto nada de bom. Meu marido me machuca. Ele me força a fazer… Não adianta eu dizer pra ele que não. Homem é meio bicho pra essas coisas mesmo… Quer e acabou e eu que faça. Foi assim que fui engravidando. Tentei evitar com a pílula, mas pra comprar não dava. Era cara demais pra quem tem dinheiro contado pra dar de comer pra família. Tinha que ser a do posto. Resolvi abortar o sexto. Falei pra meu marido e ele disse que não se importava. Só não me queria ‘estragada’ depois porque ele queria continuar com o sexo. Foi só com isso que ele se importou. Tomei um remédio e lá se foi meu sexto bebê. Foi terrível, uma dor terrível. Uma vizinha me ajudou. Fui depois no hospital pra acabar com os restos do bebê que ficaram dentro de mim. Demorou seis horas pra eu ser atendida. Perdi minha faxina do dia. Um padre disse uma vez que apesar de tão minúsculo o bebê já tem alminha. Se o meu tinha, que bom. A alminha voltou pro céu pra voltar num corpinho do bebê de uma família que vai poder cuidar dele. É o que eu acredito.”

“Minha mãe morreu de câncer há dois anos. Meu pai sofre de Mal de Parkinson. Estou desempregada e vivemos com a aposentadoria dele. Eu queria ter feito faculdade, mas só consegui o curso técnico de auxiliar administrativo. Não consigo emprego aqui perto de casa que pague um salário pra me ajudar com as contas da casa e a pagar um cuidador para meu pai. Somos só eu e ele agora e temo arrumar um trabalho longe e demorar três horas pra ir e três pra voltar, como acontece com a maioria das pessoas que vivem aqui no extremo da zona leste. Trem, ônibus, é tudo precário, não funciona direito. Não posso deixar meu pai tanto tempo sozinho. Só consigo pagar eventualmente uma vizinha pra dar uma olhada nele algumas horas do fim de semana pra fazer alguma compra. Uma vez pedi pra ela ficar um pouco com ele pra que eu pudesse dar uma chegadinha no aniversário de uma outra vizinha. Lá estava um rapaz que sempre me olhava. Ele chegou pra conversar comigo e se ofereceu pra me acompanhar em casa. Mas na hora que saí do carro, ele me pressionou contra o muro da lateral de casa, uma rua escura. Disse que seria rápido, levantou minha saia. Eu chorava, fiquei paralisada. Ele foi rápido. Não chegou a me machucar. Mas me senti suja. Fiquei pensando o que o levou a imaginar que podia fazer aquilo comigo, qual era a minha culpa. Ele disse que se eu contasse pra alguém ficaria falada no bairro. Pouco mais de um mês e comecei a me sentir mal. Estava grávida. Consegui encontrá-lo pra contar, mas ele disse que não era problema dele e que eu deveria ter me cuidado. Me desesperei. Como eu cuidaria de uma criança e do meu pai? Tínhamos dívidas. Eu quis um dia ser mãe. Mas não solteira. As pessoas julgam. Tinha medo que elas passassem a tratar mal meu pai, não sei. Tirei o bebê numa clínica clandestina com dinheiro de um empréstimo. Não me trataram mal, não. Mas era tudo muito frio, como se eu tivesse lá pra tratar uma gripe. Ainda não sei se me arrependo. Às vezes. Mas eu não seria boa mãe. Sempre tive episódios de depressão. O que seria da criança com meu pai doente e quando eu estivesse deprimida? Sinceramente, não era justo um ser humano ser criado no meio da tristeza que já era a minha vida.”

Antes de ser contra a legalização irrestrita do aborto, lembre:
– Homens ainda acreditam que mulheres podem ser forçadas a manterem relações sexuais com eles. O nome disso é estupro e acontece muito
– Educação sexual de qualidade é algo absolutamente distante da realidade das escolas e um tabu entre famílias
– A distribuição regular de antincocepcionais e preservativos em postos de saúde para retirada gratuita falha até em bairros de cidades grandes como São Paulo. Imagine no interior do país
– Não adianta igreja (seja lá qual for a a religião) distribuir enxoval quando o bebê nasce e uma cesta básica por mês pra família. Criação vai muito além disso. Não tapem o sol com a peneira de maneira tão cruel e egoísta
– Quem tem dinheiro aborta em clínicas limpas, confortáveis, minimizando ao máximo os riscos. Quem não tem coloca a vida em perigo
– Reflita, por favor, sobre a questão do aborto com um olhar real, não idealizado. Com um olhar abrangente, não elitista de quem tem tudo ao alcance quando precisar. Uma parte considerável da população ainda não tem o mínimo para sobreviver
– A história de cada um é única. Não julgue situações que são apenas hipóteses em sua cabeça. Você só imagina como poderia enfrentar um problema. Não tem certeza absoluta. Então, cuidado ao massacrar uma mulher cuja decisão já é suficientemente dolorosa
– O Estatuto do Nascituro é uma das coisas mais medievais e manipuladoras que presenciei na nossa sociedade até os dias de hoje

Crédito da imagem: blog Casal Sem Vergonha

Pra você, mulher machista

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Eu tenho horror a machismo. É um antigo mal da nossa sociedade que perdura em tempos modernos. Já melhorou muito, é verdade. Mas a ideia de que o homem pode mais do que a mulher (inclusive pressionar, controlar e ameaçar) e ela tem mais é que obedecer (nem que seja à força) ainda é fortemente presente graças a um conservadorismo que se diz baseado em “respeito” – e que pra mim é o ponto alto do desrespeito. Lembrando que não é nada incomum se transformar em violência.

Mas nada me tira mais do sério do que machismo partindo de mulher. Ontem eu perdi a paciência ao ler uma reportagem (em tom de deboche, ainda bem) mostrando os ensinamentos de uma “heart hunter” sobre como conseguir um “partidão”. A bizarra cartilha da conquista da psicóloga, que oferece o “treinamento” por R$ 1 mil, basicamente, afirma que feminilidade e submissão andam juntas. Eu sou independente há anos, tenho opinião e personalidade – e isso jamais me fez ser menos feminina. Se algum homem acredita que características assim são empecilhos para relacionamentos, meu caro, você é um inseguro que não merece minha mínima atenção.

Enfim, entre as pérolas da teoria da tal heart hunter (ainda faz marketing cafona!) estão:

– chamar um garçom num restaurante é “desafiar” o cara que tá me acompanhando
– falar do meu trabalho durante o jantar com ele não é recomendado pra que o sujeito não se sinta “inferiorizado”
– andar de rasteirinha não conquista ninguém e mulher feminina usa é salto alto

O curso ensina a mulher a ser “magnética”. Eu acho que magnetismo só vem de gente interessante – e não de quem diz amém pra tudo. Se meu acompanhante se sente ameaçado pelas minhas conquistas ou por um simples gesto, como chamar o garçom, é melhor mesmo ele não me acompanhar nunca mais. Não falo aqui de extremos. Não acho bacana quando uma moça acredita que só consegue se colocar, opinar, com agressividade. Mas isso não é questão de gênero. Homem também não tem que ser agressivo. Ninguém tem esse direito.

O que me deixa irada é que esse tipo de mentalidade “mulher boa é a mulherzinha” e “homem bom é provedor e tem que ser respeitado” ecoa muito mais do que a gente imagina! E isso é repassado para as novas gerações! Eu fico pensando quantas meninas não estão escutando agora, nesse momento, que pra serem “aceitas” devem ser “femininas” no pior sentido. São ensinadas que o certo é serem tão mas tão frágeis que acabam sem saber o que fazer quando um ordinário enfia a mão na cara delas, ameaça…

Garotas, magnetismo vem de inteligência, simpatia, gentileza, bom humor, carinho. Se alguém disser que você deve ameaçar sua integridade, seus valores, para ser aceita, pra conquistar namorado, não acredite! Porque um cara que vale a pena sempre vai desejar muito mais do que uma mulher-enfeite.

Ah! E pra quem se interessar, por R$ 500, eu e umas amigas minhas aí ensinamos você a ser poderosa usando até All Star! Muito mais negócio!! 😉

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O texto abaixo foi publicado em janeiro aqui no blog. Fala de como nosso comportamento cotidiano reforça o machismo e a violência produzida por ele. É meio longo, mas acho um dos posts mais importantes do blog até hoje.

O machismo nosso de cada dia

Pra mim, beira o inacreditável e me revolta. Espero que a vocês também. Segundo dados do Mapa da Violência 2012, produzido pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (CEBELA), e divulgados esta semana, de 1980 a 2010 foram assassinadas no País cerca de 91 mil mulheres, 43 mil só na última década. Com uma taxa de 4,4 homicídios em 100 mil mulheres, o Brasil ocupa um vergonhoso sétimo lugar entre 84 países. Esses assassinatos foram provocados por maridos, namorados, companheiros, pais, irmãos.

Outros dados da Agência Patrícia Galvão, criada em 2009 para divulgar notícias sobre os direitos femininos, mostram que 91% dos homens consideram que bater em mulher é errado em qualquer situação. Mas isso não deve deixar ninguém tranquilo. Significa que 9% dos homens ainda acham que é sim razoável ser violento com uma mulher.

Uma em cada cinco mulheres consideram já ter sofrido alguma vez algum tipo de violência por parte de algum homem. É fundamental lembrar que humilhações, terror psicológico, também é caracterizado como violência. Eu já sofri isso. Muitas (eu disse MUITAS) amigas e conhecidas minhas também. E não é porque somos fracas, ignorantes, desinformadas sobre nossos direitos. Simplesmente, às vezes, a situação toma uma proporção complexa demais, da qual não se sabe mais como sair.

Em geral, quando os primeiros sinais de machismo aparecem, estamos apaixonadas. O ciúmes dele parece só uma prova de amor, de preocupação. Não é. Possessividade, controlar cada passo que você dá, achar que você está sempre mentindo. Nada disso é cuidar, querer bem, também estar apaixonado. Manipular, fazer parecer que é sempre você a culpada pelos problemas da relação, também não.

Quando vem um grito, achamos que, talvez, ele tenha ficado um pouco nervoso só. Ele promete que aquilo não vai se repetir. Mas se repete. Primeiro, espaçadamente. Depois, com frequência. Até que se torna corriqueiro. E você já está fragilizada e com medo das ameaças, que tanto podem ser um “eu vou te matar se você me deixar, vou te arrebentar se contar para alguém”, ou “você não é boa em nada, não é nem bonita, não é competente, você faz tudo errado, vai achando que você vai encontrar alguém que te aguente como eu”, entre outras tantas bizarras justificativas.

Lembrando que não precisa ser um tapa na cara pra caracterizar violência física. Empurrões, apertar o braço até deixar roxo, te puxar a força, entre outras coisas, é tudo violência. E não adianta a gente dizer que basta a mulher sair de casa ou colocá-los pra fora. Para muitas, especialmente mulheres que vivem na pobreza, a questão financeira pesa. Com salários ainda mais baixos do que os dos homens ou sem qualificação e experiência profissional, a saída é mais difícil de ser encontrada.

A pergunta é: o que leva esses caras a imaginarem que têm autoridade, esse direito de fazerem sua vontade e opinião valerem à força? Nós. Somos nós, com nossas pequenas atitudes machistas do dia a dia, que reforçamos uma consciência coletiva de que eles são superiores, podem mais.

Somos nós, que rimos de piadinhas machistas. Que aceitamos ganhar menos por funções iguais. Que fazemos o prato de um marmanjo e lavamos suas cuecas até o dia que ele sai de casa pra casar. Ou aceitamos continuar lavando a roupa que ele leva no fim de semana mesmo depois de ir morar sozinho. Que damos o pedaço de bife maior ou deixamos eles almoçarem primeiro. Que temos orgulho do filho pegador – e ai da filha que for “galinhar”! Que acreditamos ainda piamente que meninos devem usar azul e meninas, rosa. Que meninos não podem dançar balé e que meninas não podem jogar futebol. Que homem que defende uma opinião com firmeza é “assertivo” e mulher que defende opinião com firmeza é “histérica”. Que homem com namorada mais jovem é natural e mulher com namorado mais jovem é uma velha sem noção. Que homem que chega a um doutorado é um gênio e mulher que também carrega esse título não tem vida pessoal e enfia a cara nos livros. Que mulher realizada é aquela que acha marido – e aqui cabe um sonoro “antes só do que mal acompanhada”.

Quantos não são os homens, muitos bem jovens, que ainda acreditam que merecem mais prazer do que uma mulher na cama? Ou que ela nem merece e está ali só pra satisfazer sua vontade? Ah, sim… Mulher que gosta tanto ou mais de sexo do que homem não vale nada. Se ela usa uma saia curta, maquiagem, salto alto, é amiga de rapazes só pode ser uma vagabunda. Mulher que viaja sozinha pelo mundo? Só pode ser vadia.

Homens que agem assim (ou pior) são escrotos, babacas, no fundo um bando de inseguros que não botam fé em si mesmos. Mulheres que agem assim são recalcadas. E, por isso, reforçam o machismo pra que outras não possam viver tudo aquilo que, lá no fundo, nos seus desejos mais secretos, elas também gostariam de viver. Ah, você só sai com cara que tem carro? As primeiras perguntas que você faz pra sua amiga que começa a namorar é “qual o carro dele”, “qual o cargo dele”, “ele paga toda a conta”? São esses os requisitos que te fazem sair com alguém? Ah, você condena a prostituição??? Puxa… Então, tá…

Outro dia uma amiga me contou de uma conhecida que diz para a filha de 15 anos: se sair com um cara que não aceitar pagar toda a conta do restaurante é pra ligar pra ela, a mãe, ir buscá-la. Isso, minha cara. Ensine sua filha a trocar o corpo por um jantar. Não há problema algum em aceitar gentilezas. O problema é fazer isso parecer a regra do bom relacionamento. Fazer parecer que isso é valorizar uma mulher. Aí, você vê um bando de garotas com namorado/marido pagando tudo e sem nenhuma voz de decisão, de escolha, na relação. Aceitando as humilhações que facilmente acontecem a partir daí. Vale acrescentar que nem todos os relacionamentos em que a mulher não trabalha são desiguais. E isso pode acontecer por mil motivos, inclusive a opção do casal de que é o melhor para a criação dos filhos. Mas quem entra numa relação acreditando que o homem banca tudo porque é sua obrigação ou mulher não tem que trabalhar porque ela não foi feita pra isso, pode se dar muito mal (ambas as partes).

Machismo masculino é inaceitável. Machismo feminino é inaceitável e constrangedor. Para eles, existe a Lei Maria da Penha. Para elas, é sempre tempo de tomar vergonha na cara – e ser a mulher que sempre quis ser de verdade.