Lute contra a cultura do estupro e do machismo. Sempre.

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Uma menina de 16 anos é estuprada por 33 animais absolutamente irracionais. Porque não podem ser chamados de homens. Nem de seres racionais. Simplesmente. Estupro nunca é culpa da mulher. É culpa da ignorância, da pequenez humana. Feminismo nunca matou. Machismo mata todos os dias. E é hora de cada um parar pra pensar quais são suas atitudes diárias que suportam, propagam e reforçam essa cultura do medo, do desrespeito, da crueldade. Se você, homem, precisa diminuir ou agredir uma mulher pra se sentir macho, forte, sinto informar, você é um bosta. Se você mulher julga e condena outras mulheres por suas escolhas, jeito de vestir, de se comportar, de viver, sinto informar, você também é culpada por estarmos expostas a atos violentos como esse.

Como escreveu um amigo meu, esse episódio da menina estuprada por um bando de infelizes prova que não estamos no fundo do poço. Nós somos o próprio fundo do poço. E tem horas que não vejo saída pra essa sociedade doente que se formou, em todos os níveis, em todas as classes sociais, inclusive entre os que se acreditam bem “educados”. Tá difícil não ser pessimista. Mas eu ainda acredito de verdade que a gente pode ser melhor. Que a gente lute todos os dias por punições severas a situações assim. Que a gente não tenha medo de combater essa escrotidão, que chega a esse ponto, inclusive, por meio das pequenas piadinhas e atitudes cotidianas. Que dão poder a uma ideia coletiva de que eles podem. E não podem. Nem de brincadeira. Nem com um ato hediondo.

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A mentira como violência

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Sempre pensamos na violência como algo que machuca fisicamente. De uns anos pra cá, e muito graças a mais debates, informações e ações em relação à violência doméstica e contra a mulher, a sociedade passou a compreender que xingamentos, humilhações, intimidações, agressões verbais são também tão violentas quanto os ataques que deixam marcas roxas, tiram sangue.

É o criticar de um jeito que coloque pra baixo, que envergonhe. É usar palavras de baixo calão para se referir ao outro. É, ao ser minimamente contrariado, se virar contra o interlocutor com estupidez, arrogância, menosprezando, tentando amedrontar, botar medo, impor silêncio, fazer calar.

A violência psicológica, portanto, é um mal a ser combatido e que deve ser tratado com a gravidade que lhe cabe. E não é fácil. Especialmente em relacionamentos amorosos. Porque a pessoa que sofre as agressões costuma acreditar que aquele a quem ama pode mudar, pode melhorar, pode perceber os erros que comete e se arrepender sinceramente. Acredita que amando ensinará esse alguém a amar. Mas existe quem nunca seja capaz de amar, ou porque não conviveu com amor na educação que recebeu, ou por mau-caratismo mesmo, pelo prazer doentio de transformar aquele que lhe dirige bons sentimentos em vítima de sua perversidade e/ou imaturidade.

Mas há uma outra violência tão grave e prejudicial quanto as anteriores: a da mentira. Normalmente, não enxergamos a mentira como uma violência, mas como farsa, enganação, traição. Sim, ela é tudo isso. Mas é também violência. Ficou claro pra mim como a mentira é uma agressão emocional acompanhando uma história bem triste.

Uma amiga querida levou longe demais um relacionamento em que o cara fez o que citei antes: xingou, humilhou, intimidou, mandou ela se calar. Era só ter uma opinião diferente, o sujeito virava bicho. Não bastasse, ainda mentia. Ela notava mudanças de comportamento bruscas, atitudes sacanas, informações que não batiam, desencontradas, reações faciais que escancaravam as inverdades. Achou que era bobagem, “coisa de homem”. Tudo foi se acumulando. As trocas de olhares com outras mulheres, as viagens a trabalho em que desaparecia sem dar sinal de vida, as idas ao banheiro com o celular (que tentava esconder quando de lá saía), a necessidade de, de repente, trabalhar até mais tarde.

Ela tentava conversar, ele levantava a voz. Dizia que ela era ciumenta demais e que a largaria. Vejam. Ela não o acusava. Pedia para conversar. Mas ele se transformava, mudava de assunto, jogava nela a culpa de seu nervosismo. Era só não perguntar nada. Aceitando de cabeça baixa, as coisas correria bem, seriam felizes.

Até que ela pegou de fato uma traição. Juntou os pontos. Posts de redes sociais, horários e idas a lugares diferentes, fotos, mensagens. Bingo: conhecidos em comum. História mais que confirmada. Questionou. Não só ele não respondeu à indagação, como disse que ela era louca, que não o merecia. Virou o jogo. Mas enquanto o fodão achou que estava abafando, tratando a situação como um grande teatro, por dentro ela foi desmoronando diante da perplexidade do que ele se mostrava capaz, da maneira como agia sem escrúpulos. Insistindo que nada daquilo existia. Era o ator principal, narcisista e megalomaníaco.

Esse abuso psicológico tem nome. Gaslighting é uma forma de agressão emocional na qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade. Casos de gaslighting podem variar da simples negação por parte do agressor de que incidentes abusivos anteriores já ocorreram, até a realização de eventos bizarros pelo abusador com a intenção de desorientar a vítima. https://pt.wikipedia.org/wiki/Gaslighting

Ela mostrava as evidências. Ele dizia que ela precisava ser internada. “Ciumenta doentia, burra e louca, é o que você é”. Disse que a perdoava, era só seguir em frente e não apurrinhar mais. Se calar, com sorriso no rosto (e alma dilacerada). Ela deixou pra lá. Deu outras chances. Outras, no plural, porque ele sempre pisava na bola de novo e de novo, na certeza e na imaturidade de que a enganaria sempre.

Então, com tristeza e algum distanciamento, ela compreendeu que não adiantava… Por vezes, parecia que ele tinha uns lampejos de consciência, procurava melhorar mesmo, virava um cara bacana. Nunca durava muito tempo. Voltava a “brincar” de vida de solteiro quando ela não estava por perto. Só que o infeliz era tão amador que facilmente era desmascarado. O preço foi ficando alto demais pra ela.

Chorou muito, desesperada por amar alguém que não merecia. Um fraco, pra dizer o mínimo. Fiquei com o coração partido de ver a cena. Recordei que passei por situações bem semelhantes às que ela descreveu… E como dói… Fiz com que olhasse para o espelho enquanto enxugava as lágrimas e dissesse em voz alta todas as qualidades incríveis que tinha. Aquela mulher linda, inteligente, divertida, querida pelos amigos, amada pela família, perdera o brilho que lhe era tão característico. Insisti para que lembrasse quem ela era. Foi ficando mais calma e confiante. Quando nos despedimos, fiquei feliz por vê-la certa de que o destino preparava uma linda surpresa, um recomeço. De que o melhor ainda estaria por vir.

Se você que lê agora esse texto se identifica, enfrenta uma história parecida, sinta-se abraçada(o). Pra você também, o melhor está por vir. Tenha só a coragem necessária de seguir em frente, cuidar da saúde emocional com a ajuda da família, dos amigos, de uma terapia. Trace novos projetos de vida.

Já se sua identificação é com o o outro lado da história, peça e aceite ajuda psicológica o quanto antes, enfrente seus demônios internos, seus traumas do passado. Não afaste quem te ama produzindo tanta dor. 2016 pode ser o ano do castigo, ou da cura, da redenção. Escolha se quer viver na ilusão de que mentir lhe dá algum poder (e acabar sozinho(a) e detestado(a)) ou construir um caminho bonito de verdade. Com pessoas e sentimentos reais.

P.S.: Minha amiga já está bem feliz, com um cara super bacana e que a trata como a querida linda que ela é, do jeitinho que sempre mereceu.

P.S.2: O algoz foi desmascarado não só na vida pessoal, mas também no trabalho. Perdeu emprego e está lidando com o desprezo daqueles a quem enganou. Aqui se faz…

Não merecemos, não! (e qual a parcela de culpa do recalque feminino)

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Sentei em frente a janela do terraço. Abracei os joelhos. Abaixei a cabeça pra chorar. De raiva. Lá fora, chovia. Cheguei ao limite. Da paciência, da compostura, do manter a educação com quem não se incomodava em me machucar dizendo que eu era a culpada.

Já se passavam uns dois meses desde o fim de um relacionamento que não andava nada bom. Mas não importava quão problemática era a situação, a diferença de gênios, de valores, de comportamentos. Com mais de 30 anos, me diziam, eu é que não soube “levar”. Porque, “nessa idade”, a mulher TEM que saber levar – ou acaba sozinha. Era minha culpa também ter opinião demais. Não ser mais condescendente. Não baixar a cabeça pra certos abusos.

A noite em que chorei tanto foi seguida do dia que falei poucas e boas a pessoas que faziam questão de ressaltar que se não consegui “levar” era porque eu era egoísta demais. Não interessava as conquistas pessoais e profissionais que tive até ali, o meu caráter, nada. Nem os (muitos) erros dele!!

O término de uma história que já beirava o precipício foi jogado no meu colo como uma falha particular minha. Uma falha feminina.

Nenhum homem me disse isso.
Foram todas mulheres. Das mais diversas idade.

Lembrei do momento esses dias depois de ver o resultado da pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) que, assustadoramente, revelou opiniões machistas e violentas por parte dos brasileiros em relação à população feminina. As principais:

– 54,9% dos entrevistados concordaram total ou parcialmente com a afirmação: “tem mulher que é pra casar, tem mulher que é pra cama”
– 64% dos entrevistados concordaram total ou parcialmente com a ideia de que “homens devem ser a cabeça do lar”
– 14% acreditam que a mulher deve se submeter totalmente aos desejos sexuais do marido
– 65% dos brasileiros acham que mulher de roupa curta merece ser atacada

E dos quase 4 mil entrevistados, 66% eram mulheres.

Não quero tirar o foco do quanto o estudo mostrou que o comportamento de muitos caras é agressivo e perigoso. De como parte deles ainda se acha sim no direito de subjugar parceiras e fazer valer sua vontade à força caso, por exemplo, tomem uma negativa. E não tem nada a ver com o tipo de roupa, como tentam “justificar” parte dos pesquisados.

Já cansei de ouvir barbaridades e de me sentir ameaçada na rua usando jeans, camiseta e tênis. Mulheres são estupradas no mundo todo, independentemente de como estão vestidas. Inclusive as que são obrigadas a viver debaixo de burcas. Um levantamento realizado pelo Centro para o Diálogo Nacional do Rei Abdulazi apontou que 86,5% dos homens na Arábia Saudita afirmam que uma das causas do assédio sexual em locais públicos do país é culpa da maquiagem usada pelas sauditas. O rosto é a única parte do corpo que elas revelam, vale destacar. Por vezes, são apenas os olhos.

Mas pensando nos resultados do estudo brasileiro, nos números, na maioria dos participantes, como ignorar que o machismo feminino é forte, parece crescente, e tão (ou mais) danoso quanto o dos homens?

O recalque feminino, diz uma amiga minha, é um dos mais graves problemas da humanidade. Gera confrontos, humilhações, bullying, calúnia, difamação. Reforça estereótipos negativos e dá carta branca para que a violência contra a mulher se perpetue. E nem só contra a mulher.

Quantas vezes você já não ouviu de alguma amiga ou conhecida que se o cara não pegou, não se rendeu às investidas dela, ele só pode ser gay? Nada contra os gays, de maneira alguma. Mas colocar a masculinidade de alguém em dúvida é um indício cruel do quanto uma mulher consegue ser machista. Na mesma proporção de quando chama a outra de vadia por um motivo qualquer.

Machista e recalcada, vamos esclarecer. Ela tende a denegrir a imagem da “rival” pra se sentir superior por uma questão de baixa autoestima, insegurança, auto imagem negativa. Mesmo motivo pra detonar o sujeito que não quis nada com ela, pelas mais diversas razões.

No fim, entrei em choque com os resultados da pesquisa não só porque confirmei a sensação de ameaça que sinto por parte dos homens como algo real. Mas porque tive a triste certeza de que as mulheres são incapazes de perceber quanto contribuem para piorar a própria situação.

Que as pessoas não pensam duas vezes antes de machucar alguém com opiniões limitadas e preconceituosas eu já sabia. Só não acreditava que elas pudessem assinar embaixo de um crime achando que estão garantindo “moral”. Nada mais imoral.

Crédito da imagem: Brasil Post

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O resultado da pesquisa deu origem ao movimento “Eu Não Mereço Ser Estuprada”, criado pela jornalista Nana Queiroz. A página da comunidade no Facebook já conta com quase 18 mil seguidores: https://www.facebook.com/pages/Eu-n%C3%A3o-mere%C3%A7o-ser-estuprada/262686010579662?fref=ts
#EuNãoMereçoSerEstuprada #NinguémMerece

Além de educação, aprender a pensar

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Uma vez uma pessoa me perguntou se, caso eu pudesse definir verbas de governos, para qual área destinaria mais recursos: saúde ou educação? Acredito de verdade que saúde é a coisa mais importante na vida. Com ela, a gente corre atrás do resto. Mas sem educação, uma das muitas consequências é, inclusive, não saber cuidar da saúde.

Na ocasião, então, minha resposta foi educação. E minha convicção só aumenta. Com uma ressalva importante – não me interessa apenas a educação formal para todos que é incapaz de levar o sujeito a refletir. A clássica decoreba pra passar de ano vem perdendo força no ensino e dando lugar à reflexão. É o que forma cidadãos questionadores, conscientes de seus direitos, deveres, limites e liberdades. Mas essa é uma realidade nas escolas particulares de elite. Aparece muito pouco nas redes públicas.

Enfim, há avanços, cujos resultados demorarão algum tempo pra aparecer. E ainda não dá pra saber se de fato essa educação “pensadora” vai se expandir para todas as classes. Mantenhamos o otimismo. Enquanto isso, é de chorar o tanto de opinião destrambelhada que a gente ouve por aí. Eis um dos ganhos que as redes sociais trouxeram: escancarar o quanto somos despreparados e ignorantes.

Não falo aqui de gente que não teve a chance de estudar, não. Tô falando de gente que frequentou bons colégios, gente pós-graduada, viajada. Mas que, apesar dos diplomas, não consegue fazer uma observação “fora da caixa”. Só enxerga o mundo por uma ótica simplista demais, não faz conexões da realidade, de como uma situação puxa a outra. Por exemplo, que violência tá sim ligada aos padrões de uma sociedade consumista, que dá tanto valor e julga pela aparência e por questões materiais. A arma na cara na hora do roubo é impulsionada por desejos e instintos alimentados pela desigualdade.

Em ano de eleição (e não só de Copa!), me impressiona quanto ainda as pessoas não têm a menor ideia de como funciona a divisão das responsabilidades de governos municipais, estaduais e federal. Falam mal da presidente por um problema que é municipal. Xingam o prefeito por uma questão estadual. Detonam o governador que não pode se meter numa determinação federal. E esquecem completamente a poderosa força de deputados e senadores e como eles dão as cartas no jogo.

Taí algo que nem de longe aparece na educação do brasileiro: política. Especialmente de uns cinco anos pra cá, surgiu uma enorme preocupação com educação financeira nas escolas. É mesmo essencial. Quem sabe lidar com dinheiro não se endivida, se mantém em segurança, ganha a chance de realizar sonhos e ter uma vida mais tranquila. Mas conhecer política é ter nas mãos a oportunidade de decidir melhor pra onde caminhará nosso país e saber de quem cobrar os erros.

Por fim, era bom que nossa educação nos ensinasse também a avaliar situações com generosidade. Nos últimos dias choveu no Facebook posts sobre todos os motivos pra ser contra o Bolsa Família, dizendo que tem gente que se aproveita do benefício pra levar vida mansa. Numa nação corrupta (lembrando que é corrupta porque nós também somos no cotidiano) é claro que alguém vai se aproveitar. Não significa ser a regra.

Pesquisa indicam, por exemplo, o empoderamento de mulheres que recebem o benefício. Menos dependentes financeiramente, elas puderam colocar pra fora de casa homens que as espancavam e exigiam que os filhos trabalhassem ou mendigassem ao invés de estudarem. Como a gente é preconceituoso demais, também tem o outro triste lado. Um levantamento da Organização Internacional do Trabalho diz que essas mesmas mulheres são vistas no mercado de trabalho como preguiçosas. É, no mínimo, injusto e generalista. É a tal ótica simplista.

Preguiçoso é quem tá com a faca e o queijo na mão desde sempre, teve todas as oportunidades, mas não se dá ao trabalho de estudar, analisar, debater e buscar informações coerentes pra fazer escolhas mais conscientes e uma sociedade menos doente. Ativismo de Facebook tem pouca valia se você não sabe (e nem quer) compreender como fazer a sua parte de verdade.

Crédito da imagem: Creative Commons

“Cidadão de bem” boa coisa não é

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Sempre que vejo o termo “cidadão de bem” em uso fico com um pé atrás – e frio na espinha. Na tentativa de dar àquele que recebe o “elogio” um caráter de pessoa de valor está também uma conotação pejorativa. Não, claro, a quem se encaixaria no tal perfil. Mas a todos os outros que parecem ser o contrário daquilo que a pessoa imagina ser cidadão e de bem. O óbvio, porém, nem sempre é tão óbvio. Uma versão é única pra quem a profere. Nunca é absoluta quando considerado tudo o que vem implícito no comportamento dos envolvidos em uma determinada situação.

Por exemplo, a princípio, é de bem quem paga impostos, é honesto nas suas relações pessoais e profissionais, não desvia dinheiro, não leva vantagem. Mas e se, essa mesma pessoa, que a primeira vista parece tão correta, espanca a mulher em casa? Cidadão de bem? Ou que é ótimo pai/mãe, marido/esposa, filho/filha. Sujeito(a) exemplar no convívio familiar, sempre estendendo a mão aos amigos. Mas sonega impostos, puxa o tapete sem dó nem piedade de colegas de trabalho, passa por cima de pedestre na rua e fura fila. Cidadão de bem?

Só coloco dois exemplos pra tentar clarear a ideia do óbvio não tão óbvio. Pesamos atitudes por aparência ou pelo histórico superficial que se tem acesso. E, em sua maioria, quem se presta a esse tipo de avaliação carrega na ideia de “cidadão de bem” preconceitos. No discurso existe uma separação, uma diferenciação, uma superioridade pretendida.

Lembram da história do “gente diferenciada”? Aquela em que uma moradora do bairro de Higienópolis, em São Paulo, ao saber da possibilidade de uma estação do metrô numa das avenidas da região nobre, disse que a expansão da linha até ali seria negativa porque levaria “gente diferenciada” ao lugar? Na concepção dela, era gente que não estava à altura de circular onde, veja só, há muito “cidadão de bem”. O termo foi usado por outra moradora que conheço ao defender o “gente diferenciada” da vizinha.

Só que o problema ganha uma dimensão arriscada quando a ideia de “cidadão de bem” legitima ações violentas. Me parece a pior das escolhas ter dentro da sociedade civil grupos de vingadores, que fazem justiça com as próprias mãos, aclamados como “cidadãos de bem” que estão cansados do Estado omisso.

Na hora que se cria um “poder paralelo”, com base em ódio, há também margem para surgirem conceitos os mais esdrúxulos do que é justiça. Na hora que esses grupos já estiverem bem fortes e apoiados por parte da população, quem garante que não passarão a usar a força, inclusive, contra aqueles que apenas o contrariarem em outras esferas? Quem garante que todos os envolvidos são “cidadãos de bem”? Quem garante que não se deslumbrarão com o poder adquirido e passarão a usá-lo em benefício próprio ou dos seus? Não dá pra saber. Não dá pra legitimar.

Eu, você, todos os brasileiros estamos, sim, preocupados e revoltados com a criminalidade. É culpa dos governos (não só dos atuais, mas de todos os anteriores), de muito dinheiro desviado ao longo de décadas, que deveria ter sido usado para educação e construção de uma sociedade mais igualitária. É culpa nossa, que votamos mal, somos bem corruptíveis no dia a dia e não sabemos nos organizar para pressionar e exigir transformações profundas. Precisamos nos interessar e acompanhar mais política e nossos políticos. Fiscalizar como aqueles que receberam nosso voto estão trabalhando. Pressionar. Exigir. Pressionar. Exigir. Não torturar. Não destilar ódio. Não piorar ainda mais o que já está péssimo.

E desconfiar sempre do discurso do “cidadão de bem”. Porque é só um sinal de que a intolerância vai chegando a limites antes inimaginavelmente perigosos.

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

Namoro violento, casamento errado

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Meu coração apertou esse fim de semana quando eu assistia o noticiário. A imagem da câmera de segurança de um supermercado no Paraná mostrava uma adolescente, funcionária do local, sendo arrastada com violência pelo ex-namorado. É possível vê-la correndo, tentando fugir ao ser baleada nas costas. Não satisfeito, o cara deu mais um tiro na cabeça da menina. Letícia, 17 anos, foi morta por dar fim ao namoro de oito meses. Choca muito porque acompanhamos nas cenas o desespero dela. E a valentia dele, como se tivesse direito de tirar uma vida ao levar um “não quero mais”.

O problema é que casos como esse são mais corriqueiros do que se imagina. Há alguns meses, escrevi um post aqui sobre como o machismo é presente em atitudes, masculinas e femininas, no cotidiano. Recebi um comentário de um jovem de 20 e poucos anos (consegui checar o perfil dele no Facebook), que dizia o seguinte: “Mulher tem que saber que respeito é bom, eu gosto e preserva os dentes.” Não liberei a mensagem, que carregava mais algumas barbaridades. Mas é um exemplo claro de que estamos falhando na educação das atuais gerações quando se fala da questão de gêneros, de poder, de igualdade, de preconceitos.

Em geral, a violência entre casais é exemplificada com histórias de relacionamentos longos, de casamentos, tendo a mulher como principal vítima. E é assim porque as estatísticas de violência com raiz no machismo são alarmantes. Ainda é pouco abordada, porém, a violência no namoro. Jovens enfrentam relações tóxicas com discussões que passam muito do limite, empurrões, tapas e terror psicológico. Familiares de Letícia disseram que a relação com o ex que a matou era tumultuada, com brigas constantes. Ele já teria a agredido fisicamente, inclusive.

Segundo um estudo recente da Universidade de São Paulo (USP), coordenado pela psicóloga Tânia Flake, com 362 jovens de ambos os sexos, 75% já sofreram algum tipo de violência durante o relacionamento. Outros 67% foram alvo de agressões psicológicas. São índices muito altos. Nos EUA, 30% dos adolescentes relatam abusos nos relacionamentos, de acordo com o Serviço de Referência da Justiça Criminal. Os rapazes não estão livres de serem eles as vítimas. E também devem sair o quanto antes de relações tão pesadas. Bom lembrar que a justiça reconhece como violência doméstica, passível de pena, as agressões no namoro, mesmo que os envolvidos nunca tenham morado juntos. Tem advogado que diz que não. Juízes, porém, vêm entendendo que cabe a punição, sim.

O mais triste é que muita gente (especialmente as moças) acreditam no clássico e falível “ele(a) vai mudar”. Acabam casando com seus agressores e passam uma vida entre insultos e o medo de “desagradarem” os parceiros. Conheço alguns casamentos nessa linha (e que nem têm tanto tempo). A pesquisa da USP indicou que a violência iniciada no namoro aumenta ao se tornar relação conjugal. Meninas e meninos, os sinais estão sempre lá. É um ciúmes exagerado, um tom de voz levantado, seu celular e e-mail checados (sem ou com sua autorização), um apertão no braço, um beliscão, a tentativa de fazer você se sentir inferior seja pelo que for.

Uma amiga psicóloga disse que até aquela tentativa de “trazer” você para o mundo do outro excessivamente, desconsiderando o que você gosta de fazer, é perigoso. A princípio, pode parecer o sincero desejo do apaixonado de nos colocar na vida dele. Romântico? Será? Pode ser a tentativa de sufocar a sua personalidade de tal maneira que você nem lembrará mais, depois de alguns anos, quem é de verdade. Onde há controle e intimidações não há amor.

Crédito da imagem: O Machismo Nosso de Cada Dia (a ilustração acima que acompanha o post é voltada para mulheres, mas vale também como entendimento para os rapazes que são as vítimas dos abusos)

O direito de me sentir confusa

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Eu deveria descer a serra hoje rumo à Baixada Santista. Minha família mora lá. Mas meus pais pediram que eu não vá pra região agora. Ontem, o que era pra ser protesto na cidade de São Vicente, se transformou numa noite aterrorizante, a pior desde os ataques do PCC, em 2006. Teve toque de recolher às 16h. Saques, espancamentos, arrastão, ônibus incendiados. O que se sabia era o que aparecia em redes sociais. A programação local ficou boa parte do tempo suspensa enquanto as tevês transmitiam protestos em capitais do país. As pessoas se trancaram em casa, inclusive em municípios próximos. Ninguém sabe bem no que vai dar. Não dá pra ter certeza se é exagero tanto cuidado. Se eu deveria ir ou não. De longe, fico apreensiva, triste e preocupada.

Não mudei de lado. Continuo favorável às manifestações que se espalharam pelo Brasil. Me emocionei com o que vi em São Paulo na noite de segunda-feira, com as ruas tomadas por milhares de pessoas cansadas da maneira como o país foi conduzido até aqui. Gente que paga impostos altos e não vê retorno em benefícios. Que sempre tem que arcar com mais aumento disso e daquilo. E surtiu sim efeito. Em resposta aos protestos “deputados vão discutir projetos que poderiam ser de agrado dos manifestantes e pretendem travar propostas polêmicas por algum tempo, como a PEC 37, que limita o poder de investigação criminal do Ministério Público, e o da ‘cura gay’, como ficou conhecido o projeto que permite a psicólogos ‘tratar’ a homossexualidade”, diz matéria do jornal O Estado de S. Paulo (http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,em-resposta-a-protestos-deputados-avaliam-travar-pec-37-e-cura-gay,1044770,0.htm). Pode ser “manobra” pra arrefecer os ânimos? Pode. Consciência? Nenhuma. Mas duvido que não tenha algum temor. E não acho ruim eles terem medo e sentirem que são pressionados.

Desde o início, sempre disse que sou absolutamente contra o vandalismo. Mas juro que me perguntei quanto a decisão dos nossos parlamentares não foi de fato influenciada só depois do quebra-quebra, infelizmente… Na noite de ontem, enquanto acompanhava a violência que corria solta em alguns dos protestos de várias cidades e as ideias dos amigos no Facebook, me senti uma histérica. Mudei de opinião sobre tudo e todos umas vinte vezes. Tinha hora que eu pensava “quebra mesmo” e, minutos depois, eu implorava “para com essa porra A-GO-RA”.

Fiquei confusa. Isso não significa que eu concorde com vocês, reaças de plantão, que só reclamavam o direito de ir e vir, que afirmavam ser tudo uma grande bobagem, que era baderna, que nada mudaria. O curioso é que, pelo menos na minha timeline do Face, quem mais se mostra contra esse momento histórico é gente que justamente sonega imposto, dirige embriagado, paga propina pra se livrar de polícia após infringir lei, tem cargo público e não pensa duas vezes antes de dar uma maquiada em documento pra tirar três meses de férias, entre outras ações que estão muito longe da cidadania. Então, não me venham com um idiota “eu avisei”.

Fiquei confusa porque, na nossa gana por melhorar, esquecemos que parte considerável da humanidade é estúpida demais e se acha dona da verdade. E que ainda vivemos num país com altos índices de criminalidade (fora aquilo que nem entra em estatística e não é pouca coisa).

Em tempo: ser apartidário não é desejar o fim dos partidos. Lembra do AI-5? Então…

Do Rio, recebi as mensagens no Facebook de duas amigas. Ambas têm razão e são pessoas de paz:

“Acho fundamental para o desenvolvimento de nosso país a união do povo e o desejo de mudança explícito em ações de cobrança como as que estão acontecendo. A história mostra que isso funciona e a maior parte dos países que admiro passou por algo parecido para conseguir avançar. O problema é que, infelizmente, nem todas as pessoas são boas. Destruir patrimônio público, queimar carros, ferir outros, quebrar e saquear lojas, para mim, mostra o quanto a sociedade ainda precisa evoluir. Alguns falam que até isso é culpa do governo, que peca em prover educação de qualidade, mas acho difícil de acreditar, ainda mais depois de descobrir que um dos vândalos que atacaram a prefeitura de SP é estudante de arquitetura e urbanismo de uma boa faculdade. Para mim, esse cidadão é prova de que alguns problemas vão existir para sempre. Só espero que eles passem a ser uma minoria marginalizada, bem distante do poder.”

“Hoje de fato fui às ruas e jurei que estava exercendo meu direito a toda prova! O que vi e vivi nos momentos que sucederam a minha tentativa de voltar pra casa foi de extremo pavor! Pareciam que tinham declarado guerra, o choque surgiu de todas as direções jogando bombas, tanto de efeito moral e gás lacrimogêneo, atirando pra todos os lados. Num primeiro momento pensei em não correr, afinal não sou bandido, sou cidadã de bem e que defende causas justas, mas me vi entre bombas e o Choque encurralando, leia-se: en-cur-ra-lan-do mesmo! E eu me vi em desespero no meio de uma polícia despreparada sem saber o que eles poderiam fazer comigo, diante do conhecimento de toda maldade que eles ja fizeram e são capazes de fazer. O jeito foi correr procurando uma saída no meio daquele labirinto minado. Foi de tamanha covardia o ato deles, não tenho palavras pra descrever (…) vi a nossa impotência diante desses porcos imundos, e meu sentimento de revolta ainda é tão latente que consegui supor o que leva alguém a badernar ou mesmo depredar. Não estou justificando, mas a raiva que senti foi muito grande. Claro quando não daria a eles esse gosto, mas pra mim vandalismo maior é saber que eles que saem às ruas e afrontam o meu respeito e minha dignidade todos os dias (…) O ato que eu participei foi pacífico, a repressão da polícia não”.

Culpo os excessos que surgiram de todos os lados. Sei que minha conclusão não resolve nada. Me sinto como se estivesse numa ressaca depois de tomar o mais barato dos vinhos. Já consigo abrir os olhos, enxergar melhor umas coisas… Mas não consigo pensar direito ainda…